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Continuação do testemunho de Francisco de Carvalho e Rego (1) (2)
De ali, pela tortuosa rua do Gonçalo, apertada e estreita, era o visitante conduzido até à calçada do Governador, por onde vinha dar à “Praia Grande”. E, chegado ao fim da Calçada, à direita tinha o edifício das Repartições Públicas, e à esquerda o pequeno edifício dos Correios, ao lado do qual se mostrava em suas arcadas, tão próprias da arquitectura das cidades cosmopolitas do oriente, o “Hotel Macau” modesto e simples, onde o velho inglês Farmer (3) e sua família recebiam acolhedoramente os hóspedes.
Aquele que viesse encomendado ao “Hotel Bela Vista”, ao deixar a ponte-cais, dirigia-se pela Calçada do Gamboa à Rua do mesmo nome e, seguindo pela Rua do Seminário, entrava no Largo de S. Lourenço, alcançando a Penha pela Rua do Pe. António  e Rua da Penha, indo dar ao chamado Chôc-Chai-Sat  onde , no referido Hotel, era recebido pelo velho Vernon, (4)  que, de há muito, explorava, na Colónia, a indústria hoteleira.

A residência de Verão do Bispo da Diocese (final da década de 40, século XX)

Mas não eram estes os hotéis recomendados aos funcionários chegados à Colónia, porque os seus preços eram elevados. Para estes funcionários era mantido pelo velho Mami o “Hotel Ocidental” modesto e pouco dispendioso e que, situado também na Praia Grande, oferecia ao visitante a mesma vista agradável, que lhe era apresentada nos outros hotéis.
A Praia Grande tinha os seus encantos: bela vista sobre as águas; passeio à beira-mar; brisa do mar, sombra das árvores e a música aos domingos, à noite, que tocava em frente do palácio do Governo e às quintas-feiras no jardim de S. Francisco.
Os únicos meios de transporte, que havia, eram o rickshaw e, a cadeirinha, espécie de palanquim transportado por dois ou quatro homens.
Era a Praia Grande pavimentada a macadame e o resto da cidade quase todo calçado à portuguesa.
Viam-se na Praia Grande as residências dos Primeiros e Segundos Condes de Sena Fernandes, de Carlos Pais da Assunção, de Luís Aires da Silva, do Major Aurélio Xavier, do General Garcia, José Ribeiro, Simplício de Almeida, Dr. Álvares, Constâncio José da Silva, Alexandrino de Melo, da Família Eça, do Capitão Carneiro Canavarro, etc.
E algumas viviam os chineses Lam-Lim, Chou-Sin Ip, Li-Kiang-Chin, Chan-Fong e outros.
(1) Extraído de REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
(2)Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/10/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/16/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-ii/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/
(3) O Sr. Farmer comprou o “Hotel Hin-Kee” em Maio de 1903, para transformá-lo no “Macao Hotel”, porque não conseguiu, como era seu desejo, arrendar o Hotel sanatório “Boa Vista”, que em 1901 foi expropriado pelo governo e cedido/vendido  à Santa Casa de Misericórdia por 80 mil patacas.
(4) O súbdito francês A. A. Vernon tinha um projecto de contrato de jogos em Macau em 1909 mas não chegou a concretizar por não ter tido a autorização do Director-Geral da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Em 1910 é-lhe concedida licença para a circulação de automóveis em Macau e solicita idêntica autorização de Cantão em 1911 para poder encarregar-se de transportes viários entre Macau e Qiang Shan (Casa Branca para os portugueses)   A. Vernon geria o “Hotel Boa Vista” (arrendado à Santa Casa de Misericórdia) e queria trespassá-lo em Janeiro de 1913 para G. Watkins mas não foi aprovado pelo Governo. Depois de vários outros posteriores arrendamentos (o Liceu de Macau esteve aí instalado até passar ao Tap Seac) o Governo compraria em 1923 o Hotel à Santa Casa de Misericórdia por 82 585 patacas.

Efeméride desta data, referente a Camilo Pessanha que este ano se comemora os 150 anos do seu nascimento, em 7 de Setembro.
19-02-1909 – Fim da licença concedida ao Conservador do Registo Predial (1) desta Comarca, Dr. Camilo d´Almeida Pessanha”. (2)

Rosas de Inverno
 
Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.
 
Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!
 
Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.
Camillo Pessanha (3)

1) Camilo Pessanha foi nomeado Conservador do Registo Predial, por decreto de 16 de Fevereiro de 1899, tenho tomado posse desse cargo em 23 de Junho de 1900, abandonando o professorado (veio para Macau em 1894, para professor da 8.ª cadeira, Filosofia Elementar do Liceu Nacional de Macau – nomeado em 18 de Dezembro 1893 – e do Instituto Comercial anexo). Esteve de licença desde 27 de Abril de 1905 pela junta médica de Macau porque sofria de anemia – muito provavelmente devido a um tumor hemorroidário de que veria a ser operado em Novembro de 1907 no Hospital do Carmo na cidade do Porto – e concede-lhe tratamento por 90 dias (que vão sendo prolongados em Junta médica em Portugal) partindo para Portugal a 2 de Agosto. Só regressaria em 15 de Janeiro de 1909 (data de partida com chegada a Macau a 18 de Fevereiro) reassumindo o seu cargo de conservador do Registo Predial.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.
(3) O poema «Rosas de Inverno» reelaborado por Camilo no ano de 1901, foi publicado mais tarde no jornal de Hong «O Porvir» em 21 de Dezembro de 1901 e foi recitado por uma criança num sarau realizado a 15 de Dezembro de 1901 no Teatro D. Pedro V.
poesia-rosas-de-inverno-camilo-pessanha-ipoesia-rosas-de-inverno-camilo-pessanha-iiEncontra-se na Biblioteca Nacional de Portugal, (4) um manuscrito deste poema com a seguinte nota:
“1.º v.º : «Corollas, que floristes». Letra do punho de Alberto de Serpa. Com a indicação de ter sido publicado na página literária de «O Primeiro de Janeiro», Porto, 15 Ago. 1962, junto ao artigo de Guilherme de Castilho. Reunido em «Clepsidra e outros poemas». “
(4) Biblioteca Nacional de Portugal (http://purl.pt/14589)

1899-com-joao-vasco-pereiraCamilo Pessanha e o colega do Liceu, João Pereira Vasco em 1899
Fotografia de MAN-FOOK, MACAO

Anteriores referências neste blogue a Camilo Pessanha em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/camilo-pessanha/
Para melhor informação ver «Cronologia da Vida e Obra de Camilo Pessanha» em:
http://purl.pt/14369/1/cronologia1894.html
e sobre a Bibliografia do poeta em:
http://cvc.instituto-camoes.pt/sabermaissobre/cpessanha/06.html

Em 24 de Julho de 1901 foi declarada a utilidade pública para expropriação dos prédios existentes nas várzeas de Mong-Há entre a Estrada da Flora (hoje, Avenida Sidónio Pais), Estrada Adolfo Loureiro, Estrada Coelho de Amaral ( o troço desta estrada que vai desde a Avenida de Horta e Costa até à Avenida do Coronel Mesquita teve a designação de Estrada de Mong-Há) e a povoação de Mong Há, no total de cerca de 350 000 m3 para construção de ruas, largos e avenidas do novo bairro que ali vai ser edificado. (1)
VÁRZEA DE MONG-HÁNos anos da minha infância era uma planura recortada de hortas e várzeas de arrozal, com um lago de água límpida e quadros de vida rural chineses, apenas chamuscada por humildes povoações e esparsas casas de campo. Respirava-se ali o céu aberto, a planura varrida, sem oposição, pela nortada siberiana no pino do inverno ou torriscante, praticamente sem sombra , nos meses prolongados da canícula. Na primavera revestia-se de flores silvestres, no outono carpia toda a melancolia dos ocasos.
Em tempo mais remoto caçavam-se nas várzeas a rola, a narceja, os passarinhos ou pardais do arrozal, os rice-birds que a cozinha do Restaurante Fat Sio Lau  tornava saborosíssimos e se comiam assados com oleoso pão torrado em forma triangular e pulverizados por uma pimenta especial. O meu pai falava ainda de almoçaradas de arroz-de-passarinhos amanteigado, um prato hoje inteiramente defunto da gastronomia ou mesa macaenses.
Fora de portas e bucólica, Mong-Há enchia-se de gente de cidade quando se anunciava o circo que nos visitava diversas vezes, instalando-se sempre no mesmo terreno baldio. Então eram dias fora de comum. Embascava-se com os elefantes, os cavalos, os macaquinhos e os papagaios, tolhido de respeito  diante das feras enjauladas, os tigres e leões, toda uma fauna nunca vista. Havia depois a parada dos trapezistas, acrobatas, contorcionistas, moças loiras equilibristas e palhaços que, nos entanto, me metiam medo, com as máscaras deformadas pela pintura, vestimenta burlesca sapatos descomunais. Em destaque, o destemido domador das feras, com o seu chicote flagelante.
Certo terreno baldio, que não consegui localizar, servia de teatro  para outro entretimento. O futebol. Nessa altura, não havia campo desportivo para modalidade ainda incipiente e abaixo em importância do hóquei em campo. Foi, porém, ali naquele terreno improvisado que se desenvolveu o gosto pela prática desse desporto, com os primeiros encontros entre dois grupos rivais, o Argonauta e o Tenebroso, rivalidade feroz e emocionante que s estendeu até  a Guerra do Pacífico. A “cidade cristã” dividiu-se em duas facções, os aficcionados mais exaltados em intermináveis discussões que, amiúde, acabavam em corte de relações e até vias de facto.” (2)
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.
(2) FERNANDES, Henrique de Senna – Mong-Há, 1998.
Anteriores referências a Mong-Há em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/mong-ha/

Recorte do jornal “Ultramar” (1), órgão oficial da I Exposição Colonial (Dir. Henrique Galvão), de 1934
ULTRAMAR 1934 n.º 6 -adamastor IO Cruzador “Adamastor” construído nos Estaleiros Navais de Livorno, lançado à água em 12 de Julho de 1896, comprado pelas receitas provenientes de uma subscrição pública organizada como resposta portuguesa ao ultimato britânico de 1890, entrou pela primeira vez a barra do Tejo em 7 de Agosto de 1897.

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IO “Diario Illustrado” de 7 de Agosto de 1897  dando a notícia da chegada do “Adamastor”, na sua primeira página (2)

DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor II Ferreira do AmaralO seu primeiro comandante foi o Conselheiro, capitão de mar-e-guerra Ferreira do Amaral. (3)
Com um comprimento (entre perpendiculares) de 73.81  metros  81 cm (comprimento de fora a fora) e velocidade máxima de 18 nós (uma propulsão de 4000 cv – 2 máquinas a vapor com 4 caldeiras alimentadas a carvão), o “Adamastor” tinha uma capacidade (inicial) composta de 215 elementos (16 oficiais, 36 sargentos e 163 praças (4). Em matéria de armamento (há várias versões) (5):
2 peças Krupp de 150mm/ 30 Calibres – Mod.1895 (Calibre: 150mm/Alcance: 14Km)
4  peças  Krupp 105mm/4.0GR Mod. 1895 (Calibre: 105mm/Alcance: 9Km)
4 peças Hotchkiss 65/46
2 peças Hotchkiss 37/42
2 metralhadoras Nordenfelt 6,5 mm e 3 tubos lança-torpedos
DIARIO ILLUSTRADO 7-8-1897 Adamastor IIIEm relação à estadia do “Adamastor” em Macau  e Extremo Oriente:
1.ª comissão ao Ultramar em Outubro de 1899 repartida pela Divisão Naval do Índico e pela Estação Naval de Macau. Regressa em Junho de 1901.
2.ª comissão, em Novembro de 1903 parte para o Extremo Oriente. Chega a Macau em Março de 1904. Desde Agosto desse ano até Março de 1905 permanece em Xangai a fim de proteger os interesses da colónia portuguesa residente, missão que se repetiria mais tarde. Em Agosto chega a Lisboa.
3.ª comissão, larga em Junho de 1907. Parte de Luanda em Maio de 1908 com destino a Timor, onde esteve de 6 de Julho a 24 de Agosto de 1908. Regressa a Lisboa em Julho de 1909.
No ano de 1910 foi montado no navio um aparelho T.S.F. e toma parte na implantação da República, marcando o seu início com 3 tiros como sinal. (6)
Em Outubro de 1912 inicia a sua 4.º comissão. Além de Macau escala Xangai e outros portos da China e chega a Lisboa em Outubro de 1913.
Foi durante esta comissão que o cruzador sofreu um acidente, no dia 11 de Maio de 1913, ao sair do porto de Hong Kong, tendo sido assistido pela canhoneira “Pátria” e o contra-torpedeiro inglês “Otter”. (7) Na sequência do acidente, o “Adamastor” deu entrada na doca de Whampoa, em Kowloon, para ser submetido a reparações. Daí seguiu para o Brasil (Rio de Janeiro e Santos) para participar no lançamento nas festividades da primeira pedra para a construção de um monumento em memória do marechal Deodoro da Fonseca, primeiro Presidente da Primeira República Brasileira, terminando esta missão em Dezembro.
Em meados de 1913, o então capitão de fragata, João de Canto e Castro (1862 -1934) (futuro Presidente da República, que sucede a Sidónio Pais) recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. (8)
De Agosto de 1919 a 18 de Julho de 1925 sofre grandes restauros, em Lisboa.
Em 1926 a 1928, nova comissão de serviço em Macau. Destacado para outras missões, em Julho de 1926 chega a Xangai  a fim de defender as concessões internacionais e render ao mesmo tempo o cruzador “República”, (9) tendo desembarcado uma força de 30 praças sob o comando de um 2.º tenente. Larga de Xangai em Março de 1928 e entra no Tejo em Abril.
Em Setembro de 1929 rumo novamente para o Extremo-Oriente, escala Macau e parte no dia 8 de Fevereiro de 1932, com destino a Xangai e dali parte em viagem diplomática para Japão. Volta a Xangai para protecção da comunidade portuguesa em virtude do início da guerra sino-nipónica.
Em 15 de Outubro de 1931, parte para Lisboa, em serviço, levando o  Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira (9)
Em 18 de Junho de 1932 está fundeado em Macau, reclassificado como aviso de 2,.ª classe, em péssimo estado geral nomeadamente do seu aparelho propulsor e da sua guarnição reduzida, pelo que é decidido que seja abatido em Lisboa. Larga de Macau em Março de 1933 chega a Lisboa em Julho (depois de uma atribulada viagem em que é obrigado a diversas paragens por sucessivas avarias).
Após 36 anos de serviço, foi o “Adamastor” abatido ao “Efectivo dos Navios da Armada” em 16 de Novembro de 1933.
Esta notícia do jornal de 15 de Abril de 1934, encerra a “vida” do “Adamastor” – foi arrematado o casco, vendido à Firma F. A. Ramos & Cª., pelo preço de 60.850$00 (10)
Cruzador ADAMASTOR(1) Ultramar n.º 6, 15 de Abril de 1934 , p. 8 .
(2) http://purl.pt/14328/1/j-1244-g_1897-08-07/j-1244-g_1897-08-07_item2/j-1244-g_1897-08-07_PDF/j-1244-g_1897-08-07_PDF_24-C-R0150/j-1244-g_1897-08-07_0000_1-4_t24-C-R0150.pdf
Francisco Joaquim Ferreira do Amaral(3) Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (1844 —1923), mais conhecido por Francisco Ferreira do Amaral ou apenas por Ferreira do Amaral, foi um militar (almirante) português, administrador colonial (Governador de S. Tomé e Príncipe, Governador-Geral de Angola, Governador da Índia Portuguesa)  e político da última fase da monarquia constitucional portuguesa (Presidente do Conselho de Ministros) Era o único filho de Maria Helena de Albuquerque (1.ª baronesa de Oliveira Lima)  e do governador de Macau João Maria Ferreira do Amaral.
Mais informações em
https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Ferreira_do_Amaral
(4) Em Macau tinha uma tripulação de 206  (14 oficiais, 23 sargentos e 169 praças.)
BARROS, Leonel – Memórias Náuticas, 2003, p. 67
(5) http://www.portugalgrandeguerra.defesa.pt/Documents/Cruzador%20Adamastor.pdf
(6) “Para além de Machado dos Santos ( comissário naval), a Marinha teve um papel destacado na revolução, através do “Adamastor” e do “S. Gabriel”, e dos oficiais, sargentos e marinheiros que participaram em acções no Quartel de Alcântara, na abordagem ao D. Carlos….” (VENTURA, António – A Marinha de Guerra Portuguesa e a Maçonaria, 2013, pp. 25.
(7) 11-05-1913 – O cruzador «Adamastor» foi de encontro a uma rocha perto de Hong Kong ( SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
Ver referência a este episódio em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cruzador-adamastor/
(8) “Em meados de 1913, recebe a missão de se deslocar a Macau para aí assumir o comando do cruzador português Adamastor. Esta será uma viagem inesquecível. Além de conhecer outras paragens (passa pela Alemanha, Rússia e China), contacta duas figuras políticas com que se cruzará mais tarde e em circunstâncias bem diversas: Sidónio Pais, que encontra em Berlim quando ruma a Macau, e Bernardino Machado, que recebe, na qualidade de embaixador de Portugal no Rio de Janeiro, a bordo do cruzador na sua passagem pelo Brasil.”
http://www.museu.presidencia.pt/presidentes_bio.php?id=27
(9) 6-03-1927 – Ida do cruzador «República» para Xangai.
15-10-1931- Parte para Lisboa, em serviço, o Governador de Macau, capitão de Fragata Joaquim Anselmo da Matta e Oliveira no Cruzador “Adamastor” que  sai da Ponte Nova do Porto Exterior (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 4)
(10) https://pt.wikipedia.org/wiki/NRP_Adamastor.

O edifício do Hotel Boa Vista (após 1936, Hotel Bela Vista), debruçado sobre o Bom-Parto e a baía de Bom Pastor, terá sido construído em 1870 para residência da família Remédios e foi no ano de 1890, registado como Hotel, passando a ser propriedade do Capitão Inglês William Edward Clarke. (1)
Foi inaugurada como unidade hoteleira europeia a 1 de Julho de 1890 (2) e a gerência do Hotel manteve-se na família Remédios: L. M. Remédios e sua esposa Maria Bernardina dos Remédios, de 1891 a 1894. (1)

Hotel Boa Vista MAN FOOK 1907O HOTEL BOA VISTA (Foto de MAN FOOK), 1907

Embora o Hotel Boa Vista esteja registado no Registo Predial com a data de 1900 (n.º 5 431 (3), já em 18-11-1899, estava inscrito no Livro do Tabelião Serpa, como pertencente ao Capitão da Marinha Mercante Inglesa William Edward Clarke e mulher, Catherine Hannack Clarke. (1)
A 11 de Novembro de 1899, Clarke e sua esposa hipotecaram o hotel por $ 15 000,00 à “Hong Kong , Canton and Macau Steamer C.º” (onde Clarke trabalhava como capitão); essa quantia foi paga a 21 de Novembro de 1901. Quando o Governador da Indochina Francesa quis comprar o hotel, para aí instalar um sanatório militar e naval, (para a convalescença dos funcionários civis e militares que eram atacados de febre paludosa) “levantou-se tamanha celeuma na imprensa e no parlamento inglês que o governo português se viu obrigado a expropriá-lo para aplacar as iras do leão britânico” (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I). O governou expropria o edifício e vende-o à Santa Casa da Misericórdia por 80 mil patacas.
(1) Não é certo que tenha sido proprietário em 1890 pois em Março 1891, Maria Bernardina dos Remédios aparece em assentos documentais como proprietária do Hotel para reclamantes perante o novo Regulamento de Décimas e Impostos, e em 31 de Maio de 1891, no Processo n.º 339/G, regista-se um recurso interposto ao Conselho da província por Maria Bernardina dos Remédios, após pedido de redução verbal apresentado por Maximiano António dos Remédios e não atendido, contra a Junta de Lançamento de Décimas, que desatendeu a sua reclamação em relação ao valor locativo do Hotel Boa Vista. O Conselho de Província atendeu, em 13 de Junho do mesmo ano, baixando das $750.00 para $ 500.00, por ser tratar de uma unidade hoteleira incipiente (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995).
(2) O jornal «Hong Kong Daily Press» do dia 4 de Julho de 1890, «acaba de aparecer uma importante contribuição para as instalações hoteleiras de Macau. O Hotel Boa-Vista, belo e novo edifício com 20 quartos, situado na Baía do Bispo, (4) frente ao Mar do Sul, foi aberto a 1 de corrente… (…). Mrs Maria Bernardina dos Remédios passou a ser apenas gerente” (TEIXEIRA, Pe.M – Toponímia de Macau,  Vol. II)

 Hotel Boa Vista 1910HOTEL BOA VISTA, 1910

(3) Registo Predial N.º 5431 (Ano de 1900): prédio urbano denominado Hotel Boa Vista e dependências sito na freguesia de S. Lourenço, Rua do Tanque do Mainato,(5) tendo a sua entrada principal o n.º1 de polícia …(…) É formado principalmente , pelo Hotel Boa Vista, que abre para esta Rua do Tanque do Mainato e mais cinco terraplenos, ligados por escalas de pedra servindo de jardins, com árvores e duas casetas. Ao fundo do lado do mar tem três tanques pequenos de pedra, dos quais um está arrasado, bem assim a muralha que cercava nesse sítio a propriedade. Tem o valor venal de vinte e cinco mil patacas segundo mostra a escriptura de compra e venda donde se extraiu esta descripção a fls. 47v do Liv. 25 de notas do Tabelião em 18 de Novembro de 1899.(TEIXEIRA, Pe. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I.)
(4)”Havia a praia de Cacilhas, na base do Ramal dos Mouros, hoje totalmente coberta pelo Reservatório, a Praia da Guia onde se erguia a antiga Chácara do Leitão, a Praia do Bom Parto, a Praia do Bispo, onde nadavam os ingleses do Hotel Bela Vista, outro hotel de serviço europeu, e a Praia do Tanque do Mainato, estas duas últimas na baía do Bom Pastor que vai da curva de Bom Pastor à ponta de Santa Sancha” . ” Onde hoje está o Ténis Civil, ficava estão a Baía do Bispo.” “O Tanque do Mainato ficava entre a Baía do Bispo e a Vacaria do Vaz ou Leitaria Macaense, a qual ocupava a área atrás da antiga casa da Obra das Mães.” (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I)
(5) O edifício do Hotel Boa Vista, depois Bela Vista, fica na rua do Comendador Kou Ho Neng antes chamada Rua do Tanque do Mainato ( durante séculos com esse nome por haver ali um tanque onde os mainatos lavavam a roupa. No próprio jardim do Hotel Boa Vista havia outrora três tanques de pedra que depois foram tapados). (TEIXEIRA, Pe. M. – Toponímia de Macau, Volume I).  Hoje, residência oficial do cônsul Geral de Portugal em Macau.

Macau B.O. I- 1954, n.º 12 Imprensa OficialO «moderno» edifício da Imprensa Nacional, em 1954

 No dia 28 de Janeiro de 1954, o Governador da Província, Almirante Joaquim Marques Esparteiro, inaugurou o novo edifício da Imprensa Nacional (1) “um edifício moderno, amplo, com magníficas instalações à altura das necessidades presentes e futuras”. (2)

Macau B.O. I- 1954, n.º 12 Inauguração corte fitaO acto do corte da fita simbólica

Após o corte da fita simbólica, a esposa do Governador descerrou uma lápide comemorativa.
Na sessão inaugural realizada no Gabinete de trabalho do administrador da Imprensa, discursaram o Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil, Intendente José Peile da Costa Pereira, o Administrador da Imprensa Nacional, Jaime Robarts  (3) e o Governador.

 Macau B.O. I- 1954, n.º 12 IDiscurso Governador«… Dentro de vasto campo de realizações registadas em todas as terras portuguesas, Macau marca a sua posição enriquecendo pouco a pouco o seu património» – afirmou o Governador

O Intendente de Distrito, José Peile de Costa Pereira,  no seu discurso, lamentou que estando orçamentada uma verba para a instalação da oficina litográfica, o que permitiria a Imprensa Nacional passar a imprimir os selos de assistência e as etiquetas usadas pelos Serviços Económicos nas mercadorias sujeitas ao imposto de consumo, por circunstâncias várias, essa instalação não foi adquirida o que representaria uma economia para o Território, já que eram feitas em Hong Kong.

Macau B.O. I- 1954, n.º 12 Visita instalaçõesAs entidades oficias observam a nova máquina de fundição tipográfica

Imprensa OficialNOTA: outras informações da Imprensa Nacional e fotos da inauguração do edifício, podem ser observadas em
http://bo.io.gov.mo/galeria/pt/histio/fotoarquivo.asp

(1) Na Rua dos Prazeres, nessa data 28-01-1954, rebaptizada de Rua da Imprensa Nacional, s/n.
A Imprensa Nacional foi criada por Decreto de 19 de Julho de 1901 (2) (outras fontes apontam outra data) (4) (5). Ao longo dos anos até esta inauguração, ocupou em primeiro, um edifício na Calçada do Bom Jesus (até aí as publicações oficiais eram impressas em tipografia particular) (5). Depois esteve sucessivamente em outros seis: Rua do Hospital (hoje, Pedro Nolasco), na Rua do Gamboa, na Rua Central, na Rua da Praia Grande, na Rua de Inácio Baptista e na «Casa Garden» (1930-1953; com a saída da Imprensa Nacional, aproveitamento das instalações para instalação do Museu Etnográfico Luís de Camões). A iniciativa da construção de um edifício próprio foi do anterior Governador, Albano Rodrigues de Oliveira. Custou ao Estado, $ 403.901, 49 patacas.
(2) Fotos e reportagem de ”Macau Boletim Informativo”, 1954
(3) Jaime Robarts foi Administrador da Imprensa Nacional de Macau de 1947 a 1973.
(4) “16 de Novembro de 1900:  É criada a Imprensa Nacional de Macau, autorizada por S. Ex.ª o Ministro da Marinha e Ultramar (Ofício n.º 106, de 27-12-1899, telegrama ministerial de 12-11-1900), e nomeado «provisoriamente director-compositor da Imprensa Nacional o maquinista naval José Maria Lopes, adido à capitania do porto» (Portaria Provincial n.º 151, de 16-11-1900).”
http://bo.io.gov.mo/galeria/pt/histio/fundacao.asp
(5) “16-11-1900José Maria Horta e Costa publica a criação da Imprensa Nacional de Macau que estará pronta a funcionar a partir de 1-01-1901, cessando nesse dia o «contrato celebrado com Jorge Carlos Fernandes para a impressão do Boletim Oficial da Província de Macau
01-01-1901 – Fundação da Imprensa Nacional de Macau.
04-01-1901 – O Boletim do Governo passou a ser impresso na Imprensa Nacional de Macau” .(Luís G. Gomes aponta a data de 05-01-1901)
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4.

“Estava eu, no princípio do ano de 1901, no meu escritório em Vila Nova de Famalicão a fazer um requerimento, quando recebi inesperadamente este telegrama: «Vagou lugar professor liceu Macau responda convém telegraficamente (ass) Santos Viegas» (1) . Li , reli e fui logo procurar um amigo meu médico, que tinha consultório defronte.
– Leia isto.
– Parabéns.
– É que (atalhei) eu não pedi lugar nenhum e não sei se quero ou não.
– Como assim?
– É o que lhe digo. Certo é que, há meses, monsenhor, tendo eu ido visitá-lo a São Tiago d´Antas, disse-me: o meu amigo aqui não está bem; o seu republicanismo só o prejudica; isto aqui, regenerador ou progressista; a república há de vir para Portugal daqui a um século, se vier… Porque não vai o meu amigo para o ultramar?! Podia arranjar lá colocação e dedicava-se a estudos, que para isso é que o meu amigo tem mais feitio.
– E o que lhe respondeu?
– Eu respondi-lhe que para terra de degredados não iria – a não ser, sim para lugar de bom clima, e ganhando bem; que aqui auferia o suficiente para viver e não me convinha ir estrumar terra de pretos. Mas diga-me o meu amigo: Macau, Macau é lá para a China, no inferno, pois não é ?
– Olhe que eu também só sei isso…Mas vamos ver o compêndio de geografia por onde estudei, há trinta anos, sim, mas Macau deve estar ainda no mesmo sítio … Cá está: «Macau, colónia portuguesa no extremo sudoeste do distrito de Heungshan, lattitude,  tal etal, na confluência de um dos ramos do Rio das Pérolas…bom porto, posto que assaz assoriado pelas correntes .. e tal…
– Adiante; não me assoriam a mim, nem eu vou para lá para ser piloto…
– E tal e tal, tendo por autoridade superior um governador com os seguintes poderes; primeiro:
– Deixe lá os poderes: veja o clima, veja se há lá dinheiro…
– E tal e tal, com várzeas e hortas férteis
– Mau, deixe isso: eu não vou para lá cavar nem ser jardineiro; veja o clima, o dinheiro…
Sujeita, uma vez por outra, a tufões e pestes
– Mau, lá isso mau!
Bom clima. Próspero comércio, e tal e tal, população pacífica, embora muito dada a demandas…
– Alto, estou no meu elemento! Mas os tufões e as pestes… hesito…- Parece-me que não motivos em hesitar (atalhou o meu amigo); leva daqui quinino e pronto.
– Muito bem (acrescentei); telegrafo para Lisboa que talvez aceite.
E redigi logo o seguinte telegrama: «Monsenhor Santos Viegas – Câmara deputados nação portuguesa – Agradecido peço reserve falaremos (ass) Silva Mendes ».” (2)

Monografias, artigos e mapas SEVILHA 1929 - Praia GrandePraia Grande

NOTA:  Silva Mendes chega a Macau nesse ano, tomando posse a 27 de Maio de 1901, como professor de Português e de Latim no Liceu de Macau. Foi aí, professor durante vinte e cinco anos.

(1) Monsenhor António Ribeiro   Santos Viegas era político, presidente da Câmara dos Deputados, conselheiro do Rei D. Carlos  e abade de São Tiago d´Antas de 08-12-1895 a 15-08-1906 (freguesia rural do Baixo Minho, «mais rendosa do arcebispado-primaz de Braga», segundo escreve Silva Mendes « para cima de três contos, desse tempo».
http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/729/2/Santiago%20de%20Antas.pdf
(2) MENDES, Manuel da Silva – Macau Impressões e Recordações. Edição Quinzena de Macau, 1979, 132 p.

Mais informações sobre Manuel da Silva Mendes em meus anteriores posts:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/manuel-da-silva-mendes/