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Do livro da Professora Dra. Ana Maria Amaro,Jogos, Brinquedos e outras Diversões Populares de Macau” (1), de 1972, a propósito dos teatros de sombras, nomeadamente os “sombras das mãos – Sau Ieng Chi 手影子” (2) –  retiro este pequeno texto (p. 62)
“Hoje, em Macau as figuras mais frequentes, que as próprias crianças fazem com as mãos, projectando-as na parede, com acessórios simples, são as mais popularmente conhecidas e divulgadas, também no hemisfério ocidental.
Desde o vulgar gato, em que o indicador e o dedo mínimo duma das mãos, dobrados, formam as orelhas, o antebraço, o corpo e, o dedo mínimo da outra mão, a cauda, à pomba e à águia em voo, batendo as asas, até às figuras mitológicas, a que se aliam, aos dedos, hastilhas de bambu, e às vezes, pedaços de papel dobrados ou recortados, são conhecidas numerosíssimas figuras.
Mães e criadas organizavam sessões de sombras, às vezes acompanhadas de citações, adivinhas ou onomatopeias, e as crianças tinham de as interpretar, o que causava a maior excitação e entusiasmo, por comparticipar, assim, na brincadeira. Era um curioso processo educativo que, hoje a televisão veio substituir.
Lembram-se, ainda hoje, filhos da terra e antigos residentes, dos espectáculos de auto do pau. Estes espectáculos já não eram realizados na casa do auto, actual Teatro Cheng Peng, onde se representavam as óperas chinesas, mas nas ruas, em tendas armadas em estilo de pagode, onde alguns mestres faziam actuar figuras de pau e bambu, que possuíam, apenas, cabeças e braços móveis, e, por vezes, roupagens ricamente bordadas. Estes autos de pau, eram sobretudo, representados no terreiro defronte do templo de Kuan Tai (關帝) da chamada Associação das Três Ruas, vizinho do Mercado de S. Domingos. Desapareceram nos princípios deste século.
Os teatros de sombras, há muito que não existem em Macau, tendo-se perdido, na maioria dos macaenses, a sua própria recordação. Só alguns dos residentes mais antigos se lembram de teatrinhos deste género, montados em tendas ambulantes, que se exibiam, principalmente em noites calmosas, ao longo da Praia Grande.
Ao que consta, eram habituais os teatros de sombras na meia laranja, que restava dum antigo fortim existente defronte da actual Firma F. Rodrigues & C.º, diante do que foi, dantes, a casa do 1.º conde de Senna Fernandes, na Praia Grande.”
(1) AMARO, Ana Maria – Jogos, Brinquedos e outras Diversões Populares de Macau. Imprensa Nacional, 1972.
No verso da contracapa, refere 1976:
“Este livro acabou de se imprimir aos seis dias do mês de Agosto de Mil Novecentos e Setenta e Seis nas Oficinas Gráficas da Imprensa Nacional de Macau”
(2) 手影子mandarim pīnyīn: shǒu yǐng zǐ; cantonense jyutping: sau2 jeng2 zi2

Continuação da publicação dos postais constantes da Colecção intitulada “澳門老照片 / Fotografias Antigas de Macau / Old Photographs of Macao”, emitida em Setembro de 2009 pelo Instituto Cultural do Governo da R. A. E. de Macau/Museu de Macau (1)
“Ali (Praia Grande) se erguiam as elegantes mansões dos condes de Senna Fernandes, de Carlos Pais de Assunção, Luís Aires da Silva, major Aurélio Xavier, General António Joaquim Garcia, José Ribeiro, Simplício de Almeida, Dr. João Jaques Floriano Alves, Constâncio José da Silva, Alexandrino Gonzaga de Melo, Maria do Carmo Piter, família Eça, capitão João de Sousa Canavarro, etc. Também algumas de famílias chinesas ricas tinham ali prédios de estilo tipicamente chinês: lam-Lim, Chou Lim Ip, Li Kiang Chin, Chan Fong, etc.
Sangra-nos o coração ao ver que hoje pouco ou nada resta das solarengas casas apalaçadas da Praia Grande…(TEIXEIRA, P. Manuel Teixeira – Toponímia de Macau, Volume I, pp. 73/74.
(1) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/postais/

Continuação do testemunho de Francisco de Carvalho e Rego (1) (2)
De ali, pela tortuosa rua do Gonçalo, apertada e estreita, era o visitante conduzido até à calçada do Governador, por onde vinha dar à “Praia Grande”. E, chegado ao fim da Calçada, à direita tinha o edifício das Repartições Públicas, e à esquerda o pequeno edifício dos Correios, ao lado do qual se mostrava em suas arcadas, tão próprias da arquitectura das cidades cosmopolitas do oriente, o “Hotel Macau” modesto e simples, onde o velho inglês Farmer (3) e sua família recebiam acolhedoramente os hóspedes.
Aquele que viesse encomendado ao “Hotel Bela Vista”, ao deixar a ponte-cais, dirigia-se pela Calçada do Gamboa à Rua do mesmo nome e, seguindo pela Rua do Seminário, entrava no Largo de S. Lourenço, alcançando a Penha pela Rua do Pe. António  e Rua da Penha, indo dar ao chamado Chôc-Chai-Sat  onde , no referido Hotel, era recebido pelo velho Vernon, (4)  que, de há muito, explorava, na Colónia, a indústria hoteleira.

A residência de Verão do Bispo da Diocese (final da década de 40, século XX)

Mas não eram estes os hotéis recomendados aos funcionários chegados à Colónia, porque os seus preços eram elevados. Para estes funcionários era mantido pelo velho Mami o “Hotel Ocidental” modesto e pouco dispendioso e que, situado também na Praia Grande, oferecia ao visitante a mesma vista agradável, que lhe era apresentada nos outros hotéis.
A Praia Grande tinha os seus encantos: bela vista sobre as águas; passeio à beira-mar; brisa do mar, sombra das árvores e a música aos domingos, à noite, que tocava em frente do palácio do Governo e às quintas-feiras no jardim de S. Francisco.
Os únicos meios de transporte, que havia, eram o rickshaw e, a cadeirinha, espécie de palanquim transportado por dois ou quatro homens.
Era a Praia Grande pavimentada a macadame e o resto da cidade quase todo calçado à portuguesa.
Viam-se na Praia Grande as residências dos Primeiros e Segundos Condes de Sena Fernandes, de Carlos Pais da Assunção, de Luís Aires da Silva, do Major Aurélio Xavier, do General Garcia, José Ribeiro, Simplício de Almeida, Dr. Álvares, Constâncio José da Silva, Alexandrino de Melo, da Família Eça, do Capitão Carneiro Canavarro, etc.
E algumas viviam os chineses Lam-Lim, Chou-Sin Ip, Li-Kiang-Chin, Chan-Fong e outros.
(1) Extraído de REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
(2)Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/10/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/16/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-ii/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/
(3) O Sr. Farmer comprou o “Hotel Hin-Kee” em Maio de 1903, para transformá-lo no “Macao Hotel”, porque não conseguiu, como era seu desejo, arrendar o Hotel sanatório “Boa Vista”, que em 1901 foi expropriado pelo governo e cedido/vendido  à Santa Casa de Misericórdia por 80 mil patacas.
(4) O súbdito francês A. A. Vernon tinha um projecto de contrato de jogos em Macau em 1909 mas não chegou a concretizar por não ter tido a autorização do Director-Geral da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Em 1910 é-lhe concedida licença para a circulação de automóveis em Macau e solicita idêntica autorização de Cantão em 1911 para poder encarregar-se de transportes viários entre Macau e Qiang Shan (Casa Branca para os portugueses)   A. Vernon geria o “Hotel Boa Vista” (arrendado à Santa Casa de Misericórdia) e queria trespassá-lo em Janeiro de 1913 para G. Watkins mas não foi aprovado pelo Governo. Depois de vários outros posteriores arrendamentos (o Liceu de Macau esteve aí instalado até passar ao Tap Seac) o Governo compraria em 1923 o Hotel à Santa Casa de Misericórdia por 82 585 patacas.

Postais da Colecção “MACAU ANTIGO” (1), emitidos pelo Instituto Cultural de Macau na década de 90 (século XX), a preto e branco (fotografias antigas de Macau – finais do século IX e princípios do século XX). (2)
Hoje trago mais dois postais, referentes ao Mercado Vermelho e à Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida.

MACAU ANTIGO -Mercado Vermelho

O Edifício do Mercado Vermelho ou Mercado do Almirante Lacerda, mais conhecido por Mercado Vermelho (紅街市大樓) foi construído em 1936 tendo sido projectado pelo 3.º Conde de Senna Fernandes (3). Fica no cruzamento da Avenida Almirante Lacerda e  Avenida Horta e Costa. Foi traçada em 1930 e tem três pisos. Revestido de tijolos vermelhos daí o seu nome. Faz parte da lista do Património Cultural de Macau, como edifício de interesse arquitectónico (Decreto Lei n.º 83/92/M de 31 de Dezembro) (4)

MACAU ANTIGO -Av Conselheiro FerreiraPavimentação da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida

A Avenida terá sido iniciada cerca de 1895 juntamente com as obras de  saneamento da área de S. Lázaro e a construção das casas da Rua de Volong, afim de conter a epidemia – peste bubónica em Macau, Hong Kong e Cantão iniciada em 10-04-1895 (5) e que durou até 1896 com casos esporádicos em 1897 e 1898. Esta foto no entanto será já do princípio da década de XX .
Recorda-se que foi em 1919 que a Santa Casa da Misericórdia teve autorização para construção de dois prédios na Avenida e de outros dois na Rua de Tap Seac (hoje património classificado),  bem como proceder ás obras do prédio n. 89 no antigo Asilo dos Órfãos (iniciado em 1900), depois transformado em Liceu Central de Macau ( 1924) (hoje Instituto Cultural do Governo da  RAEM) (5)

(1) Adquiridos na Plaza Cultural Macau Lda. (Av. Conselheiro Ferreira de Almeida, n.º 32 G). A colecção tem 20 postais.
(2) Muitas destas fotografias encontram-se publicadas em muitas publicações (livros, revistas, jornais, etc) e na web.
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9). Há outras fontes que indicam o arquitecto macaense Júlio Alberto Basto
(4) Uma descrição do Mercado poderá ler-se  em “Às compras no Mercado Vermelho” em:
http://oriente-adicta.blogspot.pt/2010/07/as-compras-no-mercado-vermelho.html
e uma descrição mais pormenorizada do edifício, no “site” “H.P.I.P. – Património de Influência Portuguesa – Equipamentos e Infraestruturas
http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=923
(5) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)