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Tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões” (Wenceslau de Moraes)

A Gruta de Camões em 1950

Peregrinos das sombras divididas
A desenhar os sonhos sobre as pedras
Doridas da memória, que feridas
Em bálsamo envolvemos, escondemos
Da luz amanhecida? Repartimos
O perfume dos ramos já pendentes
Em cabelos de cinza no caminho
Mais secreto, por dentro do regresso.

José Augusto Seabra , 1990

SEABRA, José Augusto – Poemas do Nome de Deus. Instituto Cultural de Macau, 1990
Anteriores referências deste poeta em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-augusto-seabra/

Extraído de «BGC» XXVI – 307, Janeiro de 1951
Anteriores referências a este  Comandante Militar de Macau, de 15 de Novembro de 1950 a Junho de 1952, coronel de infantaria (seria depois promovido a brigadeiro a 15 de Março de 1951) Paulo Bénard Guedes (1892 – 1960) em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/paulo-benard-guedes/

Foi depois promovido a General e governador-geral da Índia entre 1952 e 1958 (já em 1945 e 1946 ocupara o cargo de Governador –Geral interino)

Conta o Padre Teixeira, um episódio passado com o este Comandante:
Paulo Benard Guedes, comandante militar lembrou-se de acrescentar mais um andar ao edifício do Grémio Militar (Clube Militar). Pediu autorização ao Ministério, mas foi-lhe negada. Quando posteriormente ele soube que o Grémio (que serviu de alojamento aos refugiados de Hong Kong na II Guerra e ocupado irregularmente pelo Governo em 1945, instalando aí a repartição de Fazenda do Conselho)   era propriedade particular, disse: «-Ainda bem que me negaram a licença.». (TEIXEIRA, P. Manuel – Os Militares em Macau, 1975. p. 498
No entanto deve-se a este comandante militar o auxílio e as facilidades concedidas para a restauro do Grémio que passou a denominar-se Clube Militar em 1952, (re)inaugurado pelo Ministro do Ultramar aquando da sua visita ao Território.

Informações da Imprensa estrangeira «France Presse» e «Reuter» acerca dos acontecimentos na China (guerra civil) e seu reflexo em Macau que o «Boletim Geral das Colónias» publicou em duas notícias semelhantes em Dezembro de 1949 (1) e em Janeiro de 1950 (2)

Foi a 9 de Novembro de 1949 que o general Wang Zhu, máximo responsável militar na área, declarou taxativamente que «a posição da vizinha Macau será absolutamente respeitada» Garantias nesse sentido foram secretamente transmitidas às autoridades portuguesas dois dias depois. (PEREIRA, Bernardo Futscher – Crepúsculo do Colonialismo. A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961), 2017)

NOTA: A República Popular da China, na sequência da vitória de Mao Zedong (Mao Tse Tung – 1893 – 1976- 毛澤東) sobre o Kuomitang de Chiang Kai-Shek (Jiang Jieshi – 蔣介石1887-1975) que se retira para a Ilha Formosa (Taiwan) foi fundada a 1 de Outubro de 1949. Zhou Enlai (Chu En Lai – 周恩来 – 1898-1976), Primeiro Ministro entre 1949 e 1976, também Ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1949 e 1958, publicou um comunicado expressando a intenção de abrir relações diplomáticas entre o seu Governo e os Governos de todas as nações, com base na igualdade e no mútuo respeito (excepto com Taipei).

Zhou Enlai – 周恩来 em 1946
https://pt.wikipedia.org/wiki/Zhou_Enlai

Zhou Enlai  enviou um ofício ao ministro de Portugal na China a exprimir a vontade do novo regime chinês. Mas António Salazar rejeitou tal opção.
Sobre Macau, Zhou Enlai reconheceu ser inútil tomar Macau pela força, como exigiam na altura alguns radicais maoístas e os soviéticos, pois seria pernicioso para os interesses da China. Em 1952 aquando do conflito militar às Portas do Cerco, José Estaline (Josef Stalin – líder da União Soviética) ao querer inteirar-se sobre Macau, Zhou Enlai respondeu-lhe “Macau continua, como anteriormente, nas mãos de Portugal”.
Apesar de oficialmente não haver relações diplomáticas entre Portugal e a RPC,  em Macau, a diplomacia paralela ia funcionando com os intermediários:  O Lon (director clínico do Hospital Kiang Wu; 1.º secretário da cédula do Partido Comunista em Macau transferido para Cantão em 1951 , o seu irmão O Cheng Peng (Ke Zhengping) que em Agosto de 1949 funda a Sociedade Comercial Nam Kwong (no fundo o governo sombra da RPC em Macau até 1999); e Ho Yin, o líder da comunidade chinesa até à sua morte em 1983.  (dados recolhidos de SILVA, Beatriz Basto da Silva – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997 e FERNANDES, Moisés Silva – Macau nas Relações Sino-Portuguesas, 1949-1979. Administração XII-46, 1999.
(1) «BGC» XXV  – 294, Dezembro de 1949.
(2)  «BGC» XXVI – 295 , Janeiro de 1950.

Extraído do «BGC» XXVI n.º 307,  1951
NOTA: Esta mesma festividade noticiada por outra fonte –revista “Mosaico” de Macau- foi publicada em postagem anterior de 13/11/2014:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/11/13/noticia-de-13-de-novembro-de-1950-gruta-de-nossa-senhora-de-fatima-no-aquartelamento-de-mong-ha/

O conhecido pintor chinês, Pao Sio Lao, promoveu no Hotel Riviera , de 28 a 31 de Outubro de 1950, uma exposição dos seus quadros, cuja inauguração foi feita pelo governador, Comandante Albano de Oliveira.
O renome deste artista, fundador e director do Colégio das Belas Artes de Hong Kong, foi atractivo bastante para a exposição, que esteve largamente concorrida, sobretudo por nela se encontrarem trabalhos de arte chinesa e europeia. – H. A.” (1)
(1) Extraído do artigo de Hernâni Anjos e fotos de Chun Kwong publicados em «MOSAICO», I-3, 1950.

Realizou-se neste dia de 22 de Outubro de 1950, no Teatro D. Pedro V, um concerto de canto e piano, cuja receita se destinava a constituir fundos para a construção do Colégio D. Bosco.
Além do fim caritativo de espectáculo, atraiu o público o facto de se verem reunidos dois artistas bastante apreciados nesta cidade e em Hong Kong, a cantora Lígia Pinto Ribeiro e o Professor Harry Ore (1)
O programa compunha-se de 3 partes, sendo a primeira preenchida com canções em italiano, música de Mozart, Scarlati e Vivaldi, a segunda de “lieder” de Schubert e a terceira de canções portuguesas de Aires Ribeiro, Cláudio Carneiro, Armando José Fernandes e Artur Santos.
Cada parte era precedida de 2 solos pelo pianista, que interpretou Beethoven, Mozart (a transcrição para piano das “Variações em Ré Menor”, de Mozart constituiu uma bela peça de concerto),  dois arranjos Paganini-Schumann e Paganini-Liszt, Viana da Mota e Grainger.
Da parte de canto das peças cantadas em italiano, destacaram-se  um trecho das “Bodas de Fígaro”, entre os “lieder” de Schubert, a interpretação em “Erlkonig”e entre as canções portuguesas, as interpretações de “Canário lindo” de Cláudio Carneiro, “Senhora do Almurtão” de Artur Santos e as canções de Aires Pinto Ribeiro “Altos montes, verdes campos”, “Cantiga do amor sozinho” e “Cantiga de embalar”.
(1) Ver anteriores referências dste distinto pianista em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/harry-ore/
(2) Cláudio Carneyro foi um compositor português (1895 – 1963). Aluno de Paul Dukas, escreveu algumas das melhores obras do reportório vocal português do século XX. Foi também diretor do Conservatório de Música do Porto.
Biografia em:
http://www.mic.pt/dispatcher?where=0&what=2&show=0&pessoa_id=141&lang=PT&site=ic
(3) Armando José Fernandes 1906 — 1983) foi um compositor português, dos mais representativos da música do século XX português, no movimento modernista. Pianista e autor de música de câmara a partir de 1943 (data de uma sonata para violoncelo e piano, com dedicatória a Madalena de Sá e Costa), de um  concerto para violino e orquestra e de numerosas obras para piano. A sua obra, de carácter intimista, é pontuada esporadicamente por passagens que exigem grande virtuosismo.
Biografia em:
http://web.tecnico.ulisboa.pt/mcasquilho/acad/Portugal/AJFernandes_ClassicalComposersDatabase.pdf 
4) O compositor Artur Santos, (1914-1987)que foi também professor no Conservatório Nacional, em  Lisboa, desenvolveu várias pesquisas no âmbito da música tradicional portuguesa, tendo pautado toda a sua vida por uma absoluta discrição, que se adensou após a morte da mulher, em 1969, que era “o grande auxiliar dele” no trabalho.
Biografia em
http://www.mic.pt/dispatcher?where=0&what=2&site=ic&show=0&pessoa_id=383&lang=PT
Extraído do artigo de M. Pimentel Bastos e fotos de Chan Kuong de «MOSAICO», VOL I, n.º 3 de Novembro de 1950.

Na noite de 11 de Outubro de 1950, no Teatro D. Pedro V, incluído no Ciclo de Concertos da cantora macaense Maria Margarida Gomes, (1) o Círculo Cultural de Macau (C. C. M.) organizou o segundo recital, (2) este dedicado a Schubert. (3) Colaborou neste concerto a pianista Maria Amália de Carvalho e Rego (4) que, pela primeira vez tomou parte de um programa do Círculo Cultural de Macau.
O programa foi dividido em 4 grupos de 3 “lieder”, sendo estes escolhidos com a intenção de mostrar a evolução sentimental do Autor, desde a época das ingénuas composições de sabor lírico até ao tempo das obras dramáticas, revelando as suas desilusões e o seu sentido da proximidade do fim.
No intervalo de cada um dos grupos de “lieder”, Luís Gonzaga Gomes, chefe da secção musical do C. C. M. proferiu alguns comentários técnicos e biográficos sobre Schubert e a sua obra, que revelaram profundos conhecimentos de musicista e uma facilidade de expressão digna de relevo.” (5)
Este acontecimento cultural foi também noticiado no «Boletim Geral das Colónias» (6) acompanhado com duas fotos.
(1) Maria Margarida de Alacqoque Gomes, irmã de Luis Gonzaga Gomes, estudou canto e piano no «Trinity College» de Londres e é autora do livro «A Cozinha Macaense» (7)
(2) O primeiro recital foi realizado no dia 16 de Setembro de 1950 aquando da primeira apresentação pública do Circulo Cultural de Macau (após a tomada de posse no dia 1 de Setembro dos Corpos Gerentes dos fundadores do Círculo Cultural). Nesta apresentação também realizada no Teatro D. Pedro V, constava de uma conferência de Hernâni Anjos sob o tema: “Afinidades Transitórias: do simbolismo português – Camilo Pessanha – ao Romantismo alemão – Henrique Heine (estudo retrospectivo” e de um recital dedicado a “Schumann” cantada por Maria Gomes.
(3) Franz Schubert por Wilhelm August Rieder,
Óleo pintura, após aguarela em 1875.
Franz Peter Schuber (1797-1828) , compositor austríaco do fim da era clássica, escreveu cerca de seiscentas canções (o “lied” alemão) bem como óperas, sinfonias, e sonatas.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Schubert
(4)Maria Amália de Carvalho e Rego, “pianista sobejamente conhecida e apreciada pelo público de Macau e Hong Kong, onde tem actuado várias vezes, sempre com geral agrado “ (segundo a mesma revista) (5), é filha de Francisco Ernesto Palmeira de Carvalho e Rego, já citado em anteriores postagens (8)
(5) Extraído de «Mosaico», I-3, 1950.
(6) Extraído de «BGC» XXVI–306, 1950.
(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-margarida-gomes/
(8) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/