Archives for posts with tag: Mateus Ricci

Continuação das postagens: “MACAU RETROSPECTIVA I” e “II” (1), nomeadamente na apresentação do segundo postal dos quatro emitidos com o mesma tema,
As referências iconográficas são da autoria de Luís Sá da Cunha e foram extraídas do documento dos CTT explicativo da emissão (pagela)

QUADRO II – POSTAL – SELO DE 1.50 patacas

A ALMA E O ESPÍRITO
Desde o início, a estratégia da entrada no âmago do Império Chinês dava valor igual ao Outro. Assim foi definida a política de “acomodação cultural”, cerne de uma vasta operação inter-civilizacional com sede no Colégio da Madre de Deus em Macau. Foi o mais largo e exemplar fenómeno de encontro de culturas assinalado na História.
De 1582 a 1773, foram apresentados à classe letrada do Império chinês todos os ramos do Saber ocidental, movimento nucleado ao famoso Tribunal das Matemáticas da Corte de Pequim, presidido quase desde o início a até à extinção por jesuítas portugueses. Foram publicadas nesse período 187 obras, esforço ingente de tradução para língua chinesa dos livros mais marcantes na cultura e na ciência ocidentais.
No ano 48 do reinado de Wanli (1620) Nicolas Trigault chegou a Macau com “mais de sete mil livros bem decorados”; na maioria forma formar a biblioteca de Pequim.
Sobressaíram os contributos prestados à cultura chinesa nos campos da Matemática, da Medicina, da Astronomia (o rigor na predição dos eclipses era politicamente importante para demonstrar que o Imperador ainda gozava do “mandato do Céu”), da Mecânica, da Música e do Calendário (reforma do calendário chinês segundo o gregoriano).
Em sentido inverso, a divulgação da cultura tradicional chinesa começou a fluir para a Europa com os primeiros relatos descritivos da nação e do Império (sobretudo de autores portugueses) e com a publicação do Quadrivolume de Confúcio (Sishu)  por Ricci em 1593, em Itália (Tetrabiblion Sinense de Moribus).

Verso do postal – BP . MACAU – 85

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/12/19/noticia-de-19-de-dezembro-de-1999-filatelia-macau-retrospectiva-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2019/01/09/postal-i-filatelia-macau-retrospectiva-ii/

Continuação da postagem: “MACAU RETROSPECTIVA I (1), emissão autorizada pela Portaria n.º 387/99/M de 25 de Outubro.
Nessa data, 19 de Dezembro de 1999, os Correios de Macau / Correios e Telecomunicações de Macau, além da emissão extraordinária filatélica, emitiram quatro postais (15 cm x 10,5 cm) (cada um: MOP 2.00) com o mesmo tema:

“MACAU RETROSPECTIVA”

Do documento dos CTT explicativo da emissão (pagela), retiro as referências iconográficas da autoria de Luís Sá da Cunha,
MACAU, NA UNIDADE DO MUNDO
Pretende-se ilustrar, na série das quatro estampas desta colecção, o que de mais alto pode assinalar-se no saldo histórico da presença portuguesa em Macau, durante quatro séculos e meio.
A empresa lusíada dos Descobrimentos teve como superior moção redimir doma leda divisão. Orientou-se pela regeneração e pela unidade. Iniciou a nova era histórica da unidade do Mundo.
A partir de Macau operou-se um desenvolvimento da primeira fase da aventura marítima, do ciclo heróico dos Descobrimentos – depois do reconhecimento geográfico global, abriu-se o capítulo do conhecimento do outro.
Macau surge, assim, como o mais perfeito símbolo de realização da vocação pátrida lusa – o universalismo. Anfiteatro do encontro e apresentação de dois hemisférios, Macau, o pequeno porto comercial e burgo renascentista de cultura, representou na História um dos mais assinaláveis factores históricos da globalização, da era que se abre à entrada no vo milénio.
Em quatro quadros resumem-se, do passado para o futuro, os passos mais marcantes desse trânsito, em que ressalta o pioneirismo de Macau no k0vimento da unidade do Mundo.

QUADRO I – POSTAL – SELO DE 1.00 pataca –

O CONHECIMENTO FÍSICO
Quando o jesuíta Mateus Ricci entrou na China pela porta de Macau soube que tinha que dar-se a primeira resposta a duas questões. A da Europa “Qual é o aspecto da China?”, e a dos chineses: “De onde vem? Como descreve o mundo”.
Assim foi executado o “mappamundo (1584) de Ricci, onde se apresentou a geografia do mundo conhecido na Europa à nação e classe letrada chinesas.
Giulo Aliene (1582-1649) executaria em 1623 um atlas das várias partes do mundo, que foi uma das maiores fontes geográficas para chineses, japoneses e coreanos.
A partir do Século XVII, os jesuítas passaram a aperfeiçoar e a produzir mapas mais exactas e descritivos da Ásia para a Europa.
A execução da primeira representação da Terra e, forma de globo, pelo Português Manuel Dias e o italiano Lomgobardi, além do simbolismo, concorria com a prova teórica da esfericidade da Terra introduzida na China.

Verso do postal – BP-MACAU-84

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/12/19/noticia-de-19-de-dezembro-de-1999-filatelia-macau-retrospectiva-i/ 

No dia 17 de Outubro de 1591, faleceu, em Siu-Tchân, (1) na província de Kuóng-Tông, o padre António de Almeida S. J. (2), primeiro sacerdote português que morreu no continente chinês. Foi grande auxiliar dos padres Ruggieri (3) e Ricci  (4) na obra de evangelização. Os seus restos mortais foram transladados para Macau e enterrados na Igreja de S. Paulo. (GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954).

MAPA de Guangdong séc XVIMapa de Guangdong do século XVI, assinalando o lugar da primeira igreja cristã construída em Zhaoqing (5)

(1) Cháozhōu (潮州), também conhecida por Chiuchow, Chaochow, ou Teochew, cidade a este da província de Guangdong.
(2) António d’Almeida (麥安東, zi 立修, 1556–1591). Com Ruggieri, fundou as missões em Zhejiang (1585), em Guangxi e em Huguang (1587).
Em 1585 Wang Pan 王泮, prefeito de Zhaoqing (província de Zhejian) convidou Michele Ruggieri a acompanhá-lo na sua deslocação à corte de Beijing. António de Almeida acompanhou MIchele Ruggieri nessa jornada ao interior da China. Partiram de Guangzhou  (Cantão) a 20 de Novembro de 1585. Atingiram Meiling a 7 de Dezembro e dali para Província de Kiangsi. Em 22 de Dezembro alcançam Hangzhou. No entanto Ruggieri (desconhece-se a razão) não seguiu para Beijing e deslocou-se a Guilin 桂林 na província de  Guangxi e esteve durante 4 meses em Baishui 白水 (Huguang) retornando a Guilin. Voltou depois a Guangdong.
Numa carta escrita em 10 de Fevereiro de 1586, Padre Almeida descreve essa viagem com o Padre Michelle Ruggieri, com muito pormenor a viagem de três meses em barcos, através de rios e canais (conta o que vai vendo nas margens, o que se passa na embarcação, os instrumentos e técnicas utilizadas para a pesca) e às vezes a cavalo em direcção a Nanjing Foram à capital Jiangxi, Nanchang, passaram por Jingdezhen (a maior manufactura no centro da China) e chegaram a Zhejiang cidade de Shaoixing onde foram recebidos amigavelmente. Mas foram expulsos poucas semanas depois Ruggieri voltou a Zhaoqing e Almeida a Macau.
(3) Michele Ruggieri, Luo Mingjian (羅明堅, zi 復初, 1543-1607). Nasceu em Spinazzola (Nápoles) em 1543. Doutorado em Roma em Direito entrou para a Sociedade de Jesus e em 1577 foi para a Índia, onde esteve alguns anos. Em 1581 foi enviado para a China. Em Macau aprendeu chinês (a aprendizagem foi tão rápida que ficou logo intérprete da delegação portuguesa que anualmente negociava o comércio em  Guangdong) e teve aí contacto com o Visitador jesuíta Alessandro Valignano, superior da missão jesuíta no Oriente. Realizou a primeira missa em solo chinês, escreveu o primeiro catecismo em chinês e foi o primeiro europeu a traduzir os livros Clássicos Chineses.  Na China missionou até 1588, data em que voltou à Europa. Morreu em Salerno no ano de 1607.
http://stochastikon.no-ip.org:8080/encyclopedia/en/ruggieriMichele.pdf
(4) Matteo Ricci, Lì Mǎdòu (利瑪竇). (1552 —1610) foi um sacerdote missionário jesuíta, cientista, matemático, astrónomo, geógrafo e cartógrafo renascentista italiano. Ingressou em 1571 na Sociedade de Jesus e em 1578 mandado para Macau  para iniciar a sua actividade missionária na China em 1580. Em 1601, foi convidado pelo imperador chinês , para a sua corte em Pequim (Beijing) onde se manteve até à sua morte. Aquando da sua morte, terá já deixado 2 500 chineses convertidos ao catolicismo.
(5) http://macaomagazine.net/sites/default/files/MM14.pdf

CORNELIU HAZART 1667 Ruggieri e RicciMichele Ruggieri e Mateus Ricci num livro de 1667 por Cornelius Hazart (5)

Sobre a acção missionária dos jesuítas na China, disponível na net, aconselho a leitura de:
SEABRA, Leonor Diaz de – Macau e os jesuítas na China (séculos XVI e XVII). História Unisinos 15(3):417-424, Setembro/Dezembro 2011.
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/viewFile/htu.2011.153.09/609
A Ásia Extrema do Padre António Gouveia, relato seiscentista da envangelização da China nos séculos XVI e XVII
http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP200/index.htm

O poeta WANG ZHAO YONG que visitou Macau em 1900, escrevendo as 15 poesias da sua obra POEMAS DISPERSOS DE MACAU, refere-se à tradição (de que a Arqueologia não encontrou vestígios) de Mateus Ricci (1)  ter deixado no topo do Jardim de Camões, um observatório astronómico de pedra. O poeta tenta «encontrar a casa de pedra para observar estrelas» e evoca as palavras do outro poeta anterior DI HANG SENG (pseudónimo de Zhong Feng-Shi) sobre o mesmo assunto. (2)

A Gruta de Camões em 1898 (3)

É de 1900 a descrição da Gruta pelo G. Weulersse (4):
” … Des haies de jeunes bambous; un taillis clairsemé de grands banians a caoutchouc dont les racines comme des serpents se glissent dans les fissures des roches, et comme des tentacules de poulpe les enserrent; des dessins de rocaille, mais recouverts de mousse , des allées élégantes, mais envahies par les herbes: tout respire un air de demi-abandon, de nature douce et libre… (…)
 … Le monument du moins est digne do poète. Entre deux énormes blocs de granit qui, en s´appuyant l´un contre l´autre, forment une arche naturelle, le buste de bronze est placé sur un socle de granit, et sur l´héroique mélancolie de ce visage où l´oeil droit est éteint, descendent comme des lauriers toujours nouveaux des branches de feuillage vert. Macau est bien restée la «Cité Saint» qu´elle était au temps de Camoens. “

Uma das primeiras gravuras da Gruta de Camões, em 1797 (5)

(1) Matteo Ricci (1552-1610), jesuíta italiano, chegou a Macau em 1582 tendo partido para a China no ano seguinte.
(2) SILVA, Beatriz Basto de – Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1997, 454 p. ISBN-972-8091-11-7.
Em Julho de 1787, fundearam, no ancoradouro da Taipa, os vasos de guerra franceses Astrolabe e Boussole, e os seus oficiais, sob a direcção de La Pérouse, estiverm instalados no recinto da Gruta de Camões, afim de efectuarem várias observações astronómicas.
(3) Fotogravura de P. Marinho, segundo uma fotografia tirada e oferecida por Joaquim António, de Bangkok (Sião), referida na revista MOSAICO. Nº 11, 1951
(4) Do livro “Chine Ancienne et Nouvelle“, citado por Padre Teixeira, embora erradamente como A. Weulersse em:
TEIXEIRA , Padre Manuel – A Gruta de Camões em Macau. Fundação Macau/Instituto Internacional de Macau, 1999, 226 p. , ISBN 972-97865-2-6
O livro referido
WEULERSSE, Georges – Chine Ancienne et Nouvelle: impressions et réflections, Librairie Armand Colin, Paris, 1902, 402 p. (Macao pp. 63 -79)
poderá ser consultado em:
               http://archive.org/stream/chineancienneet00weulgoog#page/n15/mode/2up
(5) Gravura do livro
STAUNTON, George – An Account of an Embassady from the King  of Great  Britain to the Emperor of China, Bart, Londres, 1797
Sir George Thomas Stauton, 2.º barão (1781-1859) foi um viajante inglês e orientalista. Acompanhou o pai, desde os 12 anos de idade , o 1.º barão, diplomata e secretário de Lord Macartney na sua missão à China (1792-1794). Em 1798, nomeado chefe
numa das fábricas da  “British East India Company” em Cantão (Guangzhou).