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No dia 5 de Setembro de 1887, o Vice-Rei de Cantão, mandarim Hong visitou oficialmente as ilhas de Taipa e Coloane. Era governador Firmino José da Costa (7-08-1886-1889). Segundo se constou, a visita tinha como objectivo colher informações pedidas por Pequim com vista ao Tratado (1)
O Administrador José Correia de Lemos, (2) relatou esta visita em ofício de 6 de Setembro de 1887, à Secretaria do Governo:
“… Às 2 e meia horas desembarcou na Taipa o mandarim com o seu estado maior mas sem um único homem armado; percorreu algumas ruas, descansou n´uma loja do pannos onde fez algumas perguntas sobre negocio, população e tributos, indagou também sobre o tempo que a Taipa s sujeitou ao domínio português.
Foram prestadas as honras pela força do destacamento pois que não havia chegado ainda a lancha “Macau”.
Em seguida dirigiu-se o mandarim para Coloane sendo precedido pela lancha que rebocava a força chegada n´aquele momento de Macau.
Recebi no cais o mandarim, que mostrou desejos de desembarcar no quartel da praia, aonde se demorou por 15 minutos.
Percorreu depois as ruas dos Negociantes do Caetano, e entrou n´uma loja de pannos aonde fez também perguntas como na Taipa.
A guarda de honra posta no caes fez a continência devida, tanto no desembarque como na partida.
Tanto na Taipa como em Colovan o mandarim fez entregar aos respectivos Tipus does editais, que eu dei ao enterprete Almeida para traduzir mas que ainda não recebi
Às 14 horas seguio para Macau o mandarim sendo por mim acompanhado até a fortaleza; retirando também a força que viera fazer-lhe as honras do stylo.
Devo informar a V. Exa. que o mandarim Hong me parece bastante satisfeito pela recepção que lhe fora feito.(3)
(1) Tomás de Sousa Rosa, ex-governador de Macau, foi nomeado ministro plenipotenciário responsável pelas negociações diplomáticas iniciadas em 1986 que culminaram na assinatura em Lisboa de um protocolo preliminar em Março de 1887 e que propunha o seguinte:
Artigo 1.º – Um tratado de comércio e de amizade com a cláusula da nação mais favorecida será concluído e assinado em Pequim.
Artigo 2.º – A China confirma a perpétua ocupação e governo de Macau e suas dependências por Portugal como qualquer outra possessão portuguesa.
Artigo 3.º – Portugal obriga-se a nunca alienar Macau e suas dependências sem acordo com a China.
Artigo 4.º – Portugal obriga-se a cooperar com a China na cobrança do rendimento do ópio em Macau do mesmo modo que a Inglaterra em Hong Kong.
Em 1-12-1887 foi assinado em Pequim o Tratado de 1887, e a ratificação foi no ano seguinte. A China reconhecia pela 1.ª vez a soberania portuguesa sobre Macau.
OLIVEIRA, Celina Veiga de – China e Portugal. Como se construiu o entendimento Luso-Chinês a partir de Macau in «Administração» n.º 96, vol. XXV, 2012-2.º, 531-544, disponível para leitura em
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:ezyGggKm-JIJ:https://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_016532+&cd=14&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt
(2) Alferes (depois Capitão) José Coreia de Lemos foi nomeado adjunto do comandante militar e administrador substituto do Concelho das Ilhas a 5-5-1879. Passou a efectivo a 25-08-1879 até 1890. Seria substituído em 14 de Janeiro de 1890 pelo Capitão José Maria Esteves.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-correia-de-lemos/
(3) Extraído de TEIXEIRA, Padre Manuel – Taipa e Coloane, 1981, pp 133-134

“22-08-1895 – Neste dia apareceu o benzedeiro Lai Chan Pac Choy a bordo da lancha de Ho Seng Ly que se achava doente. Depois do ajuste, deu princípio à cura, começando por bater cabeça aos ídolos de bordo e deu ao doente um pó para tomar, o que ele fez. Mas piorou e morreu pouco depois! O benzedeiro foi preso.
A 26-08-95, o Administrador Capitão Canavarro (1)  oficiava ao Delegado de Procurador da Coroa e fazenda:
1.º – O falecido andava doente à mais de 10 dias e era fumista d´opio.
2.º – Os simptomas que apresentava era ter muito calor no corpo.
3.º – Quando tomou os remedios a que se atribue a morte, foi depois de dez dias de doença, tendo antes tomado outros remedios cazeiros.
4.º – Depois de tomar o remedio, duas horas pouco mais ou menos, o falecido sentiu-se muito afflicto, fez esforços para vomitar, não teve dierrea e dizia que sentia muito calor no peito.
5.º – Não houve muitas convulsões.
6.º – O tempo decorrido depois de tomar os remedios e morte foi, como disse, duas horas pouco mais ou menos.
7.º – Não pode saber ao certo o nome do medicamento, aquelle a que se atribue a morte, segundo diz o marinheiro de bordo por nome Hung a Cao, foi levado pelo benzedeiro e por elle administrado ao doente.” (2)
Já em 1880, o tenente José Correia de Lemos, (3) Administrador do Concelho das Ilhas que bem conhecia os costumes e superstições do seu Concelho, define assim “os benzedeiros”, num relatório datado de 20 de Julho de 1880:
Os benzedeiros são com effeito uns embusteiros que se dizem com poder de descobrir remedios para enfermidades cridas incuráveis, segredos que se julgavam impenetráveis etc, chamando em seu auxílio os espíritos maus e as almas dos defundos, no que tudo creem os pobres pescadores. Mas tal crença está já tão enraizada no animo d´esta gente que absurdo seria fazer desaparecer da sociedade semelhantes especuladores.
Os benzedeiros habitam no mar e todos eles são pescadores.
A gente da terra, menos ignorante e mais sensata, não se deixa levar dos embustes dos benzedeiros, e não me consta que eles sejam chamados, mesmo para as doenças graves.
Os benzedeiros, somo disse, são pescadores, e dez lorchas sei eu que pagam aos mandarins, pelo exercício público da sua profissão, a quantia de vinte taeis de prata, cada um por anno.
O encarregado de receber este tributo é o cabeça de pescadores.
As autoridades chinesas, tão atiladas que são neste ponto chamadas para exemplo, prohibem pois em terra oque no mar permitem mediante um tributo elevado, do que lhes resulta um avultado interesse.” (2)
Comentário do Padre Teixeira: “ Os pobres pescadores metiam-se cegamente nas mãos destes curandeiros que, sem estudos nem conhecimentos médicos, diveriam antes ser chamados coveiros.
(1)  José de Sousa Carneiro Canavarro- administrador das Ilhas de 15/02/1890 a 1/11/1902.
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel- Taipa e Coloane, 1981, pp. 157-160
(3) José Correia de Lemos– administrado das Ilhas de 5/5/1879 a 13/01/1890.

Ofício de 16 de Agosto de 1882, enviado pelo Administrador e Comandante Militar das Ilhas, José Correia de Lemos, ao Governador de Macau informando-o da inauguração da escola para as crianças do sexo masculino da Taipa no dia 21 de Agosto de 1882. (1)
… Importa o ordenado do mestre que foi escolhido em $75 patacas annuaes… (…)
As casas em que funcionam as duas escolas d´este concelho, são arrendadas por conta dos professores. Com esta escola da Taipa, tem o cofre municipal de gastar umas dez patacas para compra dos utensílios precisos, como bancos, mesas, etc., por não ter podido eu alcançar dos habitantes d´esta povoação a contribuição voluntária com que esperava eles subscrevessem, como aconteceu em Colovan”
O Administrador do Concelho das Ilhas, tenente José Correia de Lemos que foi o fundador das três escolas chinesas (nas Ilhas não havia crianças portuguesas) , escrevia no seu relatório de 08-04-1884:
Em 20 de Julho de 1882, propuz na qualidade de presidente da comissão municipal d´este concelho a criação de duas escolas para instrucção das crianças chinesas de famílias pobres, sendo ellas subsidiadas pelo cofre municipal.
Esta minha proposta foi approvada, (2) e desde logo começaram a funcionar, uma na Taipa e outra em Colovan.
Na ilha de D. João foi criada também uma escola publica a qual começou a funcionar em 12 de Fevereiro do corrente ano.
No anno de 1882, frequentaram a escola da Taipa, 25 estudantes pobres e a de Colovan 28.
No presente ano matricularam-se na escola da Taipa 23 estudantes , na de Colovan 26 e na de D. João 18.” (3)
(1) A inauguração da escola de Coloane foi a 4-08-1882.
(2) Aprovada por Joaquim José da Graça. Governador de Macau (1879-1883).
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – Taipa e Coloane, pp.102-103

«As 5.35 horas da manhã de 13 de Agosto de 1931, (1) explodiu o Paiol da Flora, (2) devido aos grandes calores estivais. A explosão causou a morte das seguintes pessoas: 1.º sargento António Sousa Vidal, Henrique Ciríaco da Silva, funcionários das obras públicas, João Córdova, Natércia Duarte, criança de 11 anos, um filhinho do chefe da Polícia Carlos A. da Silva, um soldado africano e 15 pessoas chineses, sendo os feridos cerca de 50.(3)
O Palacete da Flora ficou reduzido a um montão de escombros; as casas fronteiriças, escalavradas; muitas casas arruinadas e muitíssimas com as janelas, portas e vidros partidos.
Nas três casas Canossianas houve muitos vidros partidos e algumas portas quebradas, mas não houve ferimentos, pois, sendo Verão, tanto as educandas como as órfãs chinesas estavam fora a passar as férias.
Uma bomba incendiária fez uma visita à Casa Canossiana de Mong Há: entrou por uma janela, forçando-a, pois, estava fechada, girou em volta da luz eléctrica, e saiu por outra janela do dormitório ds educandas, sem causar dano algum, além dum grande susto a uma rapariga, que naquela noite havia dormido ali. Atribui-se à protecção de Maria, de quem a pequena era muito devota, o não ter sido vítima do acidente. (4)
Outros estragos materiais mais significativos referenciados, para além das casas próximas do jardim que ficaram danificadas: a casa que Sun Fo tinha construído para a sua mãe, a casa memorial “Sun Yat Sen” na Av. Sidónio Pais: o coreto do jardim de Lou Lim Ioc que se encontrava em lugar diferente do actual, tinha a porta virada Av. Conselheiro Ferreira de Almeida.

A propósito dessa explosão, conta o Padre Teixeira (4) o seguinte episódio:
Nessa manhã, alguém telefonou da Taipa para Macau.
– Ouviu-se aqui um grande «estâmpido». Que aconteceu?
– O paiol da Flora foi pelos ares.
– Houve vítimas?
–  22 mortos e 50 feridos.
– Safa. Que «estâmpido» tremendo!
O caso do «estâmpido» passou de boca em boca e, durante vários dias, era «estâmpido» sem parar.
Nós tínhamos leitura no Seminário, durante as refeições. Sucedeu que o leitor foi o José Dias Bretão. Apareceu essa palavra no livro e ele, com ouvir tantas vezes pronunciar «estâmpido»., já estava um pouco confuso e leu assim mesmo.
Gargalhada geral!
O prefeito mandou que repetisse. E ele «estâmpido».
Por fim, mandou-o sair da estante, ameaçando-o com um castigo, pois julgava que estava a brincar. Só lhe levantou o castigo ao verificar que o rapaz tinha lido a sério.
Resultado: ficou sempre com a alcunha de «estâmpido».
(1) O Conselho do Governo destinou uma verba de 300 mil patacas destinado a ocorrer ao pagamento das despesas resultantes da destruição do Paiol Militar da Flora e à construção de um novo paiol nas Ilhas.
Boletim Oficial da Colónia de Macau de 14 de Agosto de 1931 – Suplemento ao n.º 32
Nomeação de uma comissão para propor as medidas a adoptar para se socorrer as vítimas da explosão do Paiol da Flora.
Boletim Oficial da Colónia de Macau de 14 de Agosto de 1931 – Suplemento ao n.º 32.
 (2) “Década de 20 – Posteriormente, no início de 20, procedeu-se à construção de um complexo sistema de túneis de características militares, que atravessam o subsolo da Colina da Guia, tendo sido instalado, na propriedade, um paiol que em 13 de Agosto de 1931, explodiu provocando a destruição do palacete da Flora “(ESTÁCIO, A. J. E e SARAIVA, A. M. P. – Jardins e Parques de Macau, p.30”
Em 28 de Junho de 1919, o governador aprovou o projecto da Repartição dos Serviços de Obras Públicas para a construção do novo paiol militar junto da Colina da Guia.

O Paiol da Flora estava situado num terreno por detrás do “Ténis da Flora” sensivelmente por detrás do actual Jardim Infantil D. José da Costa Nunes).

(3) O número de mortos e feridos variam conforme as fontes:
“Em 13 de Agosto de 1931, explodiu o paiol militar situado na Fonte de Inveja, causando 41 mortos, nos quais 7 foram crianças, e danificando um grande número de casas nos locais próximos. A explosão causou uma perda económica no valor de 400,000.00 dólares de Hong Kong para os proprietários e habitantes dos locais adjacentes”
http://www.archives.gov.mo/pt/featured/detail.aspx?id=106
11-08-1931 – Uma explosão no Paiol Novo da Flora provocou 24 mortos e 50 feridos e destruiu completamente o palacete da Flora. Várias casas ficaram em ruínas ou danificadas num raio de 3500 metros.”  (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997)
Boletim Oficial da Colónia de Macau, n.º 33 de 15 de Agosto de 1931
(4) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, pp. 221-222

O jardim do Palacete da Flora. Construção antiga melhorada em 1914-1915
1915, Fotógrafo: M. Russel, Copyright: Arquivo Histórico Ultramarino,
https://actd.iict.pt/view/actd:AHUD7626

NOTA: Recorda-se que o Palacete da Flora foi a perda material mais significativa da explosão do Paiol. Foram trinta toneladas de pólvora que destruíram tudo, num raio de 300 metros incluindo o palacete que era a residência de verão dos Governadores; na altura, estava lá instalado o Museu Luís de Camões e servia também como pavilhão de exposições de arte.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/02/06/leitura-uma-exposicao-de-arte-no-palacete-da-flora-1929/
Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/paiol-da-flora/
Pode-se ver fotografias dos estragos causados pela explosão em:
http://www.archives.gov.mo/pt/featured/detail.aspx?id=106
Outras leituras e video disponíveis:
https://cronicasmacaenses.com/2012/11/08/macau-1931-explodiu-o-paiol-da-flora/
https://www.youtube.com/watch?v=ytRaoL50QEU
http://macauantigo.blogspot.com/2012/07/explosao-do-paiol-da-flora-agosto-1931.html
O «Diário de Notícias” (Portugal) datado de 12 de Setembro de 1931 falava-se da segunda edição da Volta a Portugal em bicicleta, com vitória de José Maria Nicolau na etapa Beja-Évora e conquista da camisola amarela, a campanha contra o analfabetismo, considerado “um grande problema nacional”, e também de “A Catástrofe de Macau”, sobre a terrível explosão do paiol da Flora, acompanhado da seguinte foto:
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-set-2018/interior/contra-o-analfabetismo-9832957.html

Cortejo do funeral – Lu Lim Ioc (31-7-1927), ao longo da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida
Sem referência do editor

Lou Lim Ieoc/Ioc 盧廉若 (1877-1927), filho mais velho de Lou Kau/Cau (1837 – 1906), abastado comerciante (com vários  interesses comerciais entre este, acionista da «Nam Iong Tobacco Company», um dos proprietários do Banco Pou Hang, presidente da Companhia «Clube Internacional de Recreio e Corridas de Macau, Limitada»)e grande filantropo de Macau
Foi um dos fundadores da Associação Comercial de Macau. Presidente da Câmara de Comércio da China em Macau e do Hospital Kiang Wu (contribuiu para a reconstrução do Hospital), Presidente da Sociedade da Educação Chinesa (chegou a manter, à sua custa várias escolas), membro do Conselho Legislativo de Macau.
Tem o Título de honra da China durante a dinastia Qing, medalhado pela República Chinesa e em 1925 condecorado pelo Goverto Português com a Comenda da Ordem de Cristo (governava interinamente Macau Joaquim Augusto dos Santos, na ausência do Governador Rodrigo José Rodrigues)
Morreu a 15 de Julho d3 1927.


Cortejo do funeral – Lu Lim Ioc (31-7-1927), ao longo da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida
Sem referência do editor

Infelizmente Lou Lim Ioc morreu cedo, segundo consta, vítima e apoplexia, tendo sido faustosos os seus funerais, e luzido o préstito que percorreu Macau em 31 de Julho de 1927. A urna com os seus restos mortais, seguiu para Cantão, onde veio a ser sepultado na encosta da colina conhecida por Pak San.
Lou Lim Ieoc teve 17 filhos das suas sete esposas, das quais só a primeira – aquela que usufruía, na China todas as prerrogativas de mulher legítima – habitava na sua luxuosa residência (herdado do pai Lou Kau que adquiriu um vasto terreno sito nas várzeas  próximas da velha aldeia de Mong Há, construindo uma confortável residência, rodeada por um idílico jardim em estilo palaciano conhecido por U Wó Un . Jardim de Recreio (hoje conhecido como jardim de Lou Lim Ieoc)
A despesa diária da sua casa orçava entre 5 a 7 contos, quantia muito elevada naquele tempo. Contudo, os seus rendimentos permitiam-lhe viver como um grande senhor.“ (TEIXEIRA, P- Manuel – Toponímia de Macau, Vol.I, 1979)

Cortejo do funeral – Lu Lim Ioc (31-7-1927), ao longo da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida
Sem referência do editor

Anteriores referências a este filantropo e do seu pai bem como ao jardim da residência, em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/lou-lim-ioc/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/lou-cheok-chin-lu-cao/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jardim-lou-lim-ioc/

26-07-1771 – Tomou posse, pela segunda vez, do cargo de Governador e Capitão-Geral Diogo Fernandes de Salema e Saldanha. (1) (2)
«Salema e Saldanha retoma o governo, vago pela morte de D. Rodrigo de Castro (3) mas este, em 1771, o navio em que vinha, saindo de Malaca, naufragou ao Sul de Cochim, sendo vários náufragos feridos pelos moiros, que mataram Manuel Caetano, escrivão do sindicante João Diogo Guerreiro e Alvim. O Governador salvou-se do naufrágio, mas faleceu na viagem para Macau» (4)
(1) GOMES, L.G. – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) O Fidalgo Cavaleiro Diogo Fernandes Salema e Saldanha tomou posse em 19 de Agosto de 1767. Terá sido governador de 1967 a 1770 e depois de 1771-1776. Por via de sucessão, tomou interinamente posse do cargo de Governador e Capitão Geral o Bispo da Diocese (desde 13-07-1772) D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães no dia 25-06-1777 até Agosto de 1778. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 2,1997)
(3) O Moço Fidalgo D. Rodrigo de Castro, natural de Goa, tomou posse do Governo de Macau a 29-07-1752. Sendo substituído em 14-07-1755 por Francisco António Pereira Coutinho, voltou a governar esta cidade, em 29-07-1770 e, foi ainda nomeado pela terceira vez, em 1774, porém morreu na viagem para Macau.
(as fontes não coincidem sobre as nomeações dos governadores de Macau entre 1970- 1773) (1) (2) PEREIRA, A. Marques – Ephemerides Commemorativas … )
(4) TEIXEIRA, Manuel – Macau no Século XVIII, p. 551

A 22 de Julho de 1828, o procurador do Senado, Joaquim José Ferreira da Veiga publicou um edital, proibindo a abertura de uma casa de despejo para o negócio, no chalé de Matapau, (1) pertencente a António Pereira, (2) por ser chamariz de vadios com prejuízo para todos os vizinhos.
A 5 de Novembro de 1834, arderam todas essas barracas, segundo consta do ofício do procurador de Macau, António Pereira, do dia seguinte, aos mandarins do distrito: «Verificou-se no incêndio de ontem à noite, tudo o que eu e meus antecessores disseram ao Snr. Mandarim, de que as barracas da Praia Pequena e outras deram ocasião ao incêndio, pelo qual perigavam a existência do estabelecimento, as vidas e os bens; e com efeito os haos (lojas) chinas de muitas e valiosas fazendas, os matapaus e todas as propriedades chinas da beira-mar incendiaram-se; a e a minha própria casa principiou a incendiar-se, sendo de tudo a causa as barracas do mar».
Pedia que não se construíssem ali mais.
A 17 de Mesmo mês, o procurador insistia com o mandarim Tsó-tang que os matapaus, que estavam dentro da cidade, se mudassem para Patane.
A 19 de Janeiro de 1835, novamente  o procurador João de Deus Castro chamava a atenção do mandarim para o perigo de incêndio dessas barracas; e a 8 de Janeiro de 1936, o Procurador Francisco José da Paiva insistia no mesmo assunto, dizendo que os chinas estavam construindo barracas junto à propriedade de António Pereira no Matapau. (3)
(1) Matapau é uma planta da família das gutíferas – tangerinas como indica o nome chinês da Rua do Matapau (1)- Kat Chai Kai ( 桔仔街 ), isto é, Rua da Tangerina. Aos vendedores de tangerinas dava-se o nome de Matapáus, os quais estabeleceram nesse local as suas lojas ou barracas.
A Rua do Matapau fica situada entre a Avenida de Almeida Ribeiro e a Rua da Barca da Lenha, começando um pouco antes da Travessa de Hó Ló Quai, junto do tardoz do prédio n.º 63 da Avenida Almeida Ribeiro  e terminando entre o prédio n.º 106-B da Rua dos Mercadores e o prédio n.º 2 da Travessa do Aterro Novo.
(2) António Vicente Pereira, filho do Conselheiro Manuel Pereira e de Ana Pereira Viana (3) ou Rosa Pires Viana (4) era casado com Aurélia Susana Viana Mendes, filha de Mateus Mendes e de Maria Mendes (3) ou Mónica Viana (4), de quem teve onze filhos. O Conselheiro Manuel Pereira (1757 – 1826) chegou a Macau entre 1772 e 1780, grande negociante da praça de Macau, fundador, tesoureiro e vice-presidente da «Casa de Seguros de Macau», provedor da Santa Casa da Misericórdia (1798-1806) juiz ordinário da Câmara de Macau (1798) , procurador do conselho 81801, 1804 e 1808) e vereador durante muitos anos. Fidalgo cavaleiro da Casa Real, conselheiro de Sua Magestade entre outros títulos da nobreza, comprou a propriedade onde se encontrava a Gruta de Camões e comprou e colocou aí o primeiro busto do poeta.(4)
(3) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997.
(4) FORJAZ Jorge, Famílias Macaenses, Volume II, 1996.
NOTA: Embora os caracteres chineses da Rua do Matapau sejam: 桔仔街mandarim pīnyīn: xié zǐ jié; cantonense jyutping: gat1 zai2  gaai1, os caracteres de “tangerina” são 橘子mandarim pīnyīn: jú zǐ,; cantonense jyutping:qwat1 zi2