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Em 24 de Fevereiro de 1868, o aterro do rio, para o lado da Barra, achava-se já unido ao aterro do Pagode chinês, de modo que as povoações da Barra e Patane ficaram em comunicação pela estrada marginal (1)

Manuel de Castro Sampaio, no seu livro “Os Chins de Macau” (1867) informa (2): “Uma das primeiras povoações fica próxima da fortaleza da Barra e é por isso chamada Povoação da Barra. A outra acha-se na encosta outeiro da Penha, onde está a fortaleza do Bom Parto, e onde se encontram as mais lindas chácaras de Macau. Esta é conhecida pelo nome de Tanque-Mainato, nome derivado de um tanque de lavadeiros ou mainatos, como lhes chamam no paiz. As outras três povoações são denominadas de Patane, de Mong-ha e de S. Lázaro. Patane é de todas as cinco a mais importante, pela sua industria fabril e pelo seu comercio, principalmente, em madeiras de construção. Esta fica no litoral do porto interior, tendo Mong-ha do lado oposto, onde existe a maior parte dos agricultores e onde há alguma industria e comercio, como em todas as outras povoações, excepto a do Tanque-Mainato, onde pouca industria e nenhuma comercio há, por ser um povoado insignificante. A Povoação de S. Lázaro, que está em continuação  da cidade cristã, é onde principalmente habitam os chins que não tem abraçado o christianismo. Nesta povoação há além da Igreja de S. Lázaro que é o mais antigo templo de Macau, uma pequena capella a cargo de um sacerdote catholico, que se dedica a catechese”. (3)

Miguel Aires da Silva (4) concessionário das obras do cais e aterro, foi o homem que se abalançou à terragem da marginal do Porto Interior, ficando as obras concluídas em 4 de Março de 1881. (3)

Em 17 de Janeiro de 1873, o Governador Januário de Almeida, Visconde de S. Januário, ordenou a execução da primeira fase do alargamento do aterro marginal do Porto Interior e simultânea regularização do regime da corrente do rio, numa extensão de 160 metros, desde a Fortaleza da Barra até à Doca de Uóng-Tch´oi. (5)

NOTA: José Maria de Ponte e Horta governou Macau de 26-10-1866 a 16-05-1868. O Vice almirante Sérgio de Sousa chegou a Macau a 1-8-1868, tomou posse do governo a 3 de Agosto de 1868 e governou até 23 de Março de 1872, sucedendo o Visconde de S. Januário Correia de Almeida que governou de 23 de Março de 1872 a 7 de Dezembro de 1874. Na toponímia de Macau a Rua do Almirante Sérgio começa na Rua das Lorchas, a par da rua do  Dr Lourenço Pereira Marques e ao lado da Praça de Ponte e Horta e termina no Largo do Pagode da Barra

(1)

«Boletim da Província de Macau e Timor» , XIV-8 de 24-02-1868, p.45

(2) Sobre Manuel de Castro Sampaio, ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/manuel-de-castro-sampaio/

(3) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997,p 403

(4) Sobre Miguel Aires da Silva, ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/miguel-aires-da-silva/

(5) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954

Avenida da República 1910Trecho da avenida marginal em 1910 – futura Avenida da República

Construída em 1910, aberto ao público a 10 de Dezembro desse ano sendo as obras dirigidas pelo Engenheiro Miranda Guedes.

Avenida da República 1910 construçãoA avenida marginal em construção. Ao fundo a colina e a ermida da Penha

Como a República havia sido implantada em Portugal, os republicanos de Macau, que já haviam dado o nome de Rua de Cinco de Outubro à Rua Nova de El-Rei, baptizaram a nova avenida marginal com o nome de Avenida da República (1)

Avenida da República 1910 Chácara Santa SanchaNova avenida marginal do porto exterior – Avenida da República.
Ao fundo a Chácara de Santa Sancha

A 1 de Setembro de 1924, o tarefeiro Au-Koc, comprometeu-se a executar a mão de obra dos trabalhos da «Pavimentação da Avenida da Praia Grande, desde a Rua do Campo até à Calçada do Tanque do Mainato», sendo parte dos trabalhos por conta do orçamento de 43 000 patacas.
TEIXEIRA, Pe. M. – Toponímia de Macau Volume I.

Notícia curiosa neste dia 12 de Junho de 1915:

“Ligação dos mictórios públicos com a canalização geral de água salgada.” (1)

Há notícias da arrematação da construção de um reservatório de água salgada na Colina da Guia a 13 de Janeiro de 1912 e do fim do prazo de entrega, em 30 de Julho de 1912, das propostas para fornecimento e instalação de máquinas elevatórias de água e canalizadas desde a praia da Vila Leitão aos reservatórios da Guia . A água era salgada servia para rega das estradas (2) e combate a incêndios. (3) Foi a primeira rede de águas de Macau.

Recorda-se que o grande reservatório de água potável (ainda existente) abastecido a partir da China, construída na antiga praia de Cacilhas, foi somente em 1939.

Sobre a história da água potável em Macau aconselho a leitura de
AFONSO, José da Conceição – Macau, contributos para a história do abastecimento de água potável, Administração n.º 75, vol. XX, 2007-1º, 281-299, consultável em:
http://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_004505 

(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p (ISBN 972-8091-11-7)
(2) “25-01-1918 – Aquisição de carros-cisterna para o serviço de regas da cidade” (1)
(3) Mas um nota do Comando do Corpo de Bombeiros de 26-04-1921 revelava que a quantidade de água salgada fornecida pelas máquinas elevatórias da Guia não era suficiente para a necessidade de serviço (1)

Macau – a Mónaco do Oriente – lhe chamam os estrangeiros, sem o jogo do fantan (1) seria tão mesquinha como o principiado dos trágicos suicídios sem a roleta devastadora. As noites de Macau, luminosas e lindas, teem a brutalidade estranha para os espíritos occidentaes de mysterios entrevistos em livros perturbantes escriptos, pelo que fumaram as canulas do opio e dormiram attribulados nos braços abaçanados das orientaes.

Portugal no Extremo Oriente II

É o Monte Carlo, onde se terem vagares e cautellas de conspiradores para fazer sumir os vultos nos humbraes das casas de jogo, onde se chocalha a sphapecka (2) ou nos limiares dos predios suspeitos onde a chineza os espera perfumada e amante. Caminha-se trazido de medo, um medo que existe no ar dentro da qual se olvida a civilização regrada; a vontade de adorar Brahma, a suprema incarnação, e uma garota pintada de tintas finas, pequena como a creança, com o seu traço leve a nankin (3) nas sobrancelhas ausentes, a suprema loucura do desconhecido e de, deitados em brancas esteiras, falar do azul – o Lame (4) – e esquecer de bom agrado o ouro – o Tcha-ne-cam, (5) ouvi-las falar do seu arroz, leve como um mimo, do seu Fane (6) querido e pômo-nos a amal-as como só se ama a novidade.

Portugal no Extremo Oriente IIIA Santa Casa da Misericórdia

Depois, essa Macau tem em si a legenda de piratas que veem de longinquas aguas, soberbos e embuçados como príncipes revolucionários, tomar o chá consolador ou o opio da embriaguez, nas casas do fantan ou nas locandas (7) de goso, tem em si toda a attracção d´uma terra onde passam rapidos os ringchows (8) na luz polychroma dos balões e em que as lojas teem sobre as portas nomes celestiaes – o Paraizo Eterno, a Felicidade Sonhada, que se julga viver n´um paiz onde as nuvens tornem ligeiro o caminho dos nossos pés mortificados pelos passeios banaes do occidente…” (9)

Portugal no Extremo Oriente IVA Villa (ou Chácara)  Leitão

(1) “jogo do fantan” – 番攤 ( pinyin: fāntān; cantonense jyutping: faan1 taan1) é o nome de um jogo que poderá ser definido como uma roleta sem a roleta – melhor descrição em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/jogos-de-fortuna-e-azar/
(2) Sapeca – Moeda de cobre de baixo valor, com orifício no centro, usada no Extremo Oriente.
(3) “leve a nankin nas sobrancelhas” – pintar as sobrancelhas de cor acamurçada (segundo Dicionário de Cândido de Figueiredo)
(4) “o Lame” – azul (– mandarim pinyin: lán; cantonense jyutping: laam4)
(5) “Tcha-ne-cam” – ouro de ??? (金 – mandarim pinyin: jin; cantonense jyutping: gam1)
(6) “Fane” – arroz cozido, alimento ( – mandarim pinyin: fàn; cantonense jyutping: faan6).
(7) “locandas” – tasca, taberna, tenda segundo Dicionário de Cândido de Figueiredo
(8) Riquexó, “rickshaw” ou jerinchá ( 人力車 (em mandarim: rén li che; em cantonense jyutping: jan4 lik6 ce1). Sobre riquexós ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/
(9) artigo não assinado e fotos retirados da “Ilustração Portugueza”, 1908.

Mais postais fotográficos inseridos no livro publicado em 1922 (1) com o título de “MACAU ARTÍSTICO”.

Macau e o seu porto - Jardim Lou Lin Iok

Jardim chinês – O Palácio do Govêrno

O jardim chinês é o de Lou Lim Ieoc, 盧廉若公園, na Estrada Adolfo Loureiro,construída pelo mercador Lou Kau e adquirido pelo Governo de Macau em 1974.

Macau e o seu porto - Panorama lado sul Panorama do lado Sul

Não tenho a certeza mas parece-me a praia de Cacilhas, em primeiro plano; a subida de S. Francisco e a pequena colina onde estava o Hospital Militar de Sam Januário, no segundo plano

MACAU e o seu porto - Chácara LeitãoPorto Interior e Chácara Leitão

A Chácara Leitão (esta foto de muita má qualidade) era propriedade de Francisco Filipe Leitão e ficava na Estrada de Cacilhas

 Foto com melhor impressão e muito semelhante a esta,  foi publicada na revista Ilustração Portuguesa (14 de Dezembro de 1908), intitulada “A Vila Leitão

 Chácara LeitãoFoi nesta chácara (no ano de 1921) que se tirou a célebre foto de Camilo Pessanha, mal vestido (camiseta branca abotoada, uma calça preta e sandálias rústicas), acompanhado de seus cães.

Em finais de 70, ainda se via a entrada (na Estrada de Cacilhas após a curva da maternidade e antes de chegar ao Miradouro de Nossa Senhora do Mar, existia  à direita um muro com uma entrada – portão de ferro enferrujado)  e o resto do chão em pedra da chácara que “aproveitaram” para aí “levantar” umas “barracas” para habitação.
No lado esquerdo da foto, observa-se a entrada do Cemitério dos Parses.

Cemitério ParsesEntrada do Cemitério (Parsee Cemetery – 1829) – hoje desnivelada face á rua com o alcatroamento do circuito da Guia

 (1) LACERDA, Hugo (coord) – Macau e o seu futuro porto. Macau: Tip. Mercantil – N. T. Fernandes e Filhos, 1922, 84 p.:il; 25 cm + |2| mapas desdobr.