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Continuação do testemunho de Francisco de Carvalho e Rego (1) (2)
De ali, pela tortuosa rua do Gonçalo, apertada e estreita, era o visitante conduzido até à calçada do Governador, por onde vinha dar à “Praia Grande”. E, chegado ao fim da Calçada, à direita tinha o edifício das Repartições Públicas, e à esquerda o pequeno edifício dos Correios, ao lado do qual se mostrava em suas arcadas, tão próprias da arquitectura das cidades cosmopolitas do oriente, o “Hotel Macau” modesto e simples, onde o velho inglês Farmer (3) e sua família recebiam acolhedoramente os hóspedes.
Aquele que viesse encomendado ao “Hotel Bela Vista”, ao deixar a ponte-cais, dirigia-se pela Calçada do Gamboa à Rua do mesmo nome e, seguindo pela Rua do Seminário, entrava no Largo de S. Lourenço, alcançando a Penha pela Rua do Pe. António  e Rua da Penha, indo dar ao chamado Chôc-Chai-Sat  onde , no referido Hotel, era recebido pelo velho Vernon, (4)  que, de há muito, explorava, na Colónia, a indústria hoteleira.

A residência de Verão do Bispo da Diocese (final da década de 40, século XX)

Mas não eram estes os hotéis recomendados aos funcionários chegados à Colónia, porque os seus preços eram elevados. Para estes funcionários era mantido pelo velho Mami o “Hotel Ocidental” modesto e pouco dispendioso e que, situado também na Praia Grande, oferecia ao visitante a mesma vista agradável, que lhe era apresentada nos outros hotéis.
A Praia Grande tinha os seus encantos: bela vista sobre as águas; passeio à beira-mar; brisa do mar, sombra das árvores e a música aos domingos, à noite, que tocava em frente do palácio do Governo e às quintas-feiras no jardim de S. Francisco.
Os únicos meios de transporte, que havia, eram o rickshaw e, a cadeirinha, espécie de palanquim transportado por dois ou quatro homens.
Era a Praia Grande pavimentada a macadame e o resto da cidade quase todo calçado à portuguesa.
Viam-se na Praia Grande as residências dos Primeiros e Segundos Condes de Sena Fernandes, de Carlos Pais da Assunção, de Luís Aires da Silva, do Major Aurélio Xavier, do General Garcia, José Ribeiro, Simplício de Almeida, Dr. Álvares, Constâncio José da Silva, Alexandrino de Melo, da Família Eça, do Capitão Carneiro Canavarro, etc.
E algumas viviam os chineses Lam-Lim, Chou-Sin Ip, Li-Kiang-Chin, Chan-Fong e outros.
(1) Extraído de REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
(2)Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/10/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/08/16/leitura-macau-ha-cem-anos-a-chegada-ii/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/
(3) O Sr. Farmer comprou o “Hotel Hin-Kee” em Maio de 1903, para transformá-lo no “Macao Hotel”, porque não conseguiu, como era seu desejo, arrendar o Hotel sanatório “Boa Vista”, que em 1901 foi expropriado pelo governo e cedido/vendido  à Santa Casa de Misericórdia por 80 mil patacas.
(4) O súbdito francês A. A. Vernon tinha um projecto de contrato de jogos em Macau em 1909 mas não chegou a concretizar por não ter tido a autorização do Director-Geral da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Em 1910 é-lhe concedida licença para a circulação de automóveis em Macau e solicita idêntica autorização de Cantão em 1911 para poder encarregar-se de transportes viários entre Macau e Qiang Shan (Casa Branca para os portugueses)   A. Vernon geria o “Hotel Boa Vista” (arrendado à Santa Casa de Misericórdia) e queria trespassá-lo em Janeiro de 1913 para G. Watkins mas não foi aprovado pelo Governo. Depois de vários outros posteriores arrendamentos (o Liceu de Macau esteve aí instalado até passar ao Tap Seac) o Governo compraria em 1923 o Hotel à Santa Casa de Misericórdia por 82 585 patacas.

Continuação da leitura de Francisco de Carvalho e Rego, publicado em anterior post (1):

As três curvas da Baía da Praia Grande (final da década de 40, século XX)

“… Então, o cunho português desaparecia, surgindo o aspecto de um a pequena cidade chinesa, que a avenida marginal do Porto Interior revelava aos olhos cobiçosos do observador.
O peixe estendido pela via pública, exposto ao Sol, na salga que o chinês faz a capricho, espalhava pelo ar um aroma desagradabilíssimo que, de mistura com o cheiro de hortaliças salgadas, do balichão e outros produtos da indústria explorada, confundia e perturbava quem a ele não estivesse acostumado.
Altos rickshaws, pintados a vermelho, com aros de ferro nas rodas, cruzavam a rua em correria, sem que os peões se afastassem, apesar dos altos gritos dos cúlis.
O casario baixo e sujo igual em toda a Avenida marginal, sendo os baixos utilizados para comércio e o primeiro e único andar para moradia.
Junto ao cais de desembarque viam-se muitos rickshaws, e cúlis segurando longos e grossos bambus, prontos para a descarga.
Serviço da polícia marítima, rudimentaríssimo, era feito nos cais por um ou outro indiano, auxiliado pelos chamados loucanes, que vestiam uniforme curiosíssimo, com meias brancas por fora das calças e pequenos chapéus feitos de filamento de bambu.
O policiamento das ruas pertencia aos soldados de infantaria que, de grandes chapéus de aba larga, se lobrigavam de quando em vez, aqui, ali, ou acolá.
Desse cais do porto interior caminhava-se para o coração do bairro chinês e, por ruas tortuosas, vinha dar-se ao Largo do Senado, onde o edifício da Câmara mais e melhor nos fazia lembrar que tínhamos deixado a China e regressado a Portugal.
Só faltava o pelourinho!”…”

continua

Balichão – tempero para guisados ou acepipes; molho composto de camarões pequenos, esmagados com sal, pimenta, malagueta, aguardente e aromatização com folha de louro (2)
Cúlis do inglês coolie – Cule- trabalhador chinês: carregador (carregava aos ombros  os palanquins, liteiras)  estivador, puxador de carroças e riquexó, condutor de triciclo, etc (2) Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cules/
Loucanes – assim denominados os “marujos chineses”.
Riquexó, “rickshaw” ou jerinchá – é o meio de transporte humano em que uma pessoa puxa por uma carroça de duas rodas. Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/
(1) REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
(2) (BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1988 e Suplemento ao Glossário do dialecto Macaense, 1988.

Aquele que, deixando Hong Kong viesse a Macau pela primeira vez, gozava as delícias de uma curta viagem de quatro horas, rodeado do maior conforto e desfrutando uma paisagem admirável por entre ilhas e ilhotas cobertas de vegetação e semeadas a capricho, como se tal disposição obedecesse à finalidade de proporcionar o imprevisto.
Para trás ficava a imponente colónia inglesa, cheia de grandeza e majestade, lançada pela íngreme vertente, que parecia dirigir-se ao Céu… (…).
E quanto mais o pequeno e confortável navio se aproximasse de Macau, tanto mais mudava a feição de tudo, desde a brisa, que se tornava suave e branda, à cor das águas, que reflectiam na superfície o amarelado dos fundos que as correntes cobriam de lodo.

A Baía e a Praia Grande (final da década de 40, século XX)

Passadas as Nove Ilhas, semelhantes a nove irmãs imorredouras, que a lenda não deixa esquecer, avistava-se à distância a “Porta do Cerco”, a praia da “Areia Preta”, a “Chácara do Leitão”, mostrando-se no cimo da “Montanha da Guia” o célebre farol, o mais antigo da Costa da China.
Na outra elevação próxima, distinguia-se o “Hospital Conde de São Januário” , que dominava o grande casarão que outrora fora Convento de S. Francisco e que servia de Quartel de Infantaria.
É, então, à recortada costa de pequenas enseadas, seguia-se a “Baía da Praia Grande”, em curva caprichosamente feita, deixando antever as delícias de uma pequena cidade de paz e sossego…(…)
O casario caiado a cores garridas, as Igrejas, as Capelas, os Fortes, Fortins e Bastiões, as casas solarengas e a quietude dolente e embaladora, não deixavam dúvidas de que a China deveria estar longe desta terra, que tudo indicava ser portuguesa.
Ao dobrar a “Fortaleza do Bom Parto”, talhada no regaço do imponente “Hotel Bela Vista”, surgia o sinuoso caminho, que levava ao ”Tanque do Mainato”, com a colina despida de casario, à excepção da velha e abandonada vivenda de “Santa Sancha”.
Em cima, a velha Ermida da Penha, cheia de unção religiosa e graça na sua simplicidade.
Na última curva da ordenada beira-mar, via-se a “Fortaleza da Barra” e, mais adiante, em plano superior, a “Capitania dos Portos”, em estilo mourisco…
continua.
REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
Deste autor, anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/ 

Cartas da China I

Cartas da China IILivro de Francisco de Carvalho e Rêgo, publicado em Macau, no ano de 1949 e impresso na Imprensa Nacional. (1)

Cartas da China IIITraz na 1.ª página, um ex-libris : Francisco Penajoia.
Francisco Penajóia é o pseudónimo que o autor utilizou em alguns artigos na imprensa, como por exemplo, sobre “Camilo Pessanha”  (2)

Ao estilo de correspondência, são 18 cartas escritas por Francisco de Carvalho e Rêgo  e endereçadas À Exma. Senhora Dona Isabel Gorjão de Almeida, a quem o autor dedica o livro.

Cartas da China IV

São cartas onde o autor pretende ir contando  o muito que tenho de dizer-lhe, muito que será recolhido do que tenho lido, do que me têm contado e do que tenho observado”  (p. 13), nessa cidade (Macau), onde estava há cerca de quarenta anos.
Na 1.ª carta, anota interessantes opiniões sobre Camilo Pessanha e Manuel Mendes:
Quem há em Portugal, por exemplo, como ilustre sinólogo, como profundo conhecedor dos mais recônditos meandros da China?
Ora Camilo Pessanha conhecia mal a língua chinesa, quer escrita quer falada, sendo rudimentaríssimos os seus conhecimentos de tudo quanto é chinês.
Que deixou Camilo Pessanha escrito a China?
Nada, ou quase nada.
Com o auxílio de um intérprete-sinólogo que, por sua vez, trabalhava auxiliado por um chinês, mestre na língua de Confúncio, ouviu a narração de algumas elegias e deixou as traduções temperadas por uns restos da sua veia poética, já gasta e descolorida.
Mas, é assim, de resto, que trabalha a grande maioria dos sinólogos, que não consegue jamais visível independência num idioma, que parece  impenetrável… (…)”
“…Eu conheci em Macau, muito de perto, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, dois estudiosos, que se interessaram por coisas da China.
O primeiro foi um sonhador, um fantasista, que paradoxalmente viveu a China em todo o seu materialismo, valor que se perdeu em conversas, aliás interessantíssimas, nada, ou quase nada, deixando à posteridade.
O segundo, mais profundo em conhecimentos que o primeiro, escondia uma alma de artista num corpo estruturalmente plebeu, temperando a sua prosa, sempre correcta, com humerismo, que chega a tocar as raias da irreverência.
Trabalhei com ambos e a ambos dei a minha modesta colaboração, sendo ainda hoje admirador de segundo qa quem presto aqui sentida homenagem à sua memória, lembrando com saudade e reconhecimento, as salutares lições que dele recebi.
Deixou uma obra pequena, obra que poderia ter sido maior, se falsos amigos, vencidos pela inveja, não tivessem faltado às suas promessas.
Para estes vai o meu maior desprezo… (…)

NOTA: Francisco Ernesto Palmeira de Carvalho e Rêgo, era o 5.º filho do Dr. José Maria Ernesto de Carvalho e Rêgo (1860-1917- bacharel em Direito em 1882, veio para Macau em 1908, como magistrado. Depois, delegado do Procurador da Coroa e Fazenda, Procurador Administrativo dos Negócios Sínicos, e após aposentação, advogado) e de Joana Alexandrina Palmeira de Carvalho e Rêgo (1860-1934).
Francisco veio para Macau com 10 anos de idade, em 1908, com os pais e irmãos (o irmão mais velho: José de Conceição Ernesto Palmeira de Carvalho e Rêgo, autor do livro “Figuras d´Outros Tempos”) (3).

(1) RÊGO, Francisco de Carvalho e – Cartas da China. Macau, 1949.
(2) PENAJÓIA, Francisco – Camilo Pessanha in Homenagem a Camilo Pessanha / org., pref. e notas de Daniel Pires. Lisboa, Instituto Português do Oriente; Macau, Instituto Cultural, 1990. – p. 40-44.
(3) RÊGO, José de Carvalho e – Figuras d´Outros Tempos. Instituto Cultural de Macau, 1994, 408 p., ISBN-972-35-0144-9.

Obras de Francisco de Carvalho e Rêgo:
O caso do tesouro do templo de A-Ma. Macau, Imprensa Nacional, 1949, 87 p. (Novela)
Da virtude da mulher. Macau, Imprensa Nacional, 1949, 219 p. (Ensaio)
Momentos musicais. Macau, Imprensa Nacional de Macau, 1949, 121 p. (Artes/Música). Sobre este livro, consultar o artigo de António Alexandre Bispo em:
http://www.revista.akademie-brasil-europa.org/CM03-02.htm
Macau. Macau, Imprensa Nacional, 1950, 13 p. c/ fotos  (História)
Lendas e contos da velha China. Macau, Imprensa Nacional, 1950, 120 p. (Uso e Costumes /China)
Mui Fá: versos chineses. Macau Imprensa Nacional, 1951, 175 p. (Poesia)

Certo chinês abastado construiu numa avenida da cidade um prédio para sua residência, obedecendo, a construção, ao determinado pelos espíritos do bom agouro.
Receosos de que alguém pudesse construir nos terrenos que enfrentassem a sua moradia, de modo a impedir que os ventos propícios soprassem em sua casa, colocou na fachada do edifício, uma curiosa águia de pedra em atitude de levantar voo, pronta a atacar os espíritos maus, que pudessem vir de qualquer construção que ficasse no ângulo, que não deveria ser ocupado.
Um outro chinês, tempos depois, lembrou-se de construir um prédio, para sua habitação, precisamente no sítio para onde estava virada a águia defensora.
Como, porém, a atitude da águia pudesse pôr em risco a felicidade do seu lar, que fez o prudente chinês?
Mandou colocar, na fachada do prédio que construiu, um caçador em pedra, com a  espingarda apontada à águia, defendendo assim a sua casa dos ataques possíveis da águia agresssora.

(1) RÊGO, Francisco de Carvalho e – Cartas da China. Macau, 1949.

“Na Avenida Almeida Ribeiro, artéria principal desta cidade, no quarteirão que começa ao fim da Rua Central, construiu, um chinês rico, uma vivenda de rés-do-chão e três andares, onde vivia com toda a sua família, isto é, mulheres, filhos, genros, noras, etc.
Resolveu o governo da Colónia construir, do outro lado da Avenida e mesmo em frente da vivenda do chinês, o edifício dos Correios e Telégrafos, de rés-do-chão e dois andares, o que fez com que deixassem de soprar, como até aí sopravam, os ventos propícios, que tinham sido considerados aquando da construção da casa do chinês.
Além disso, o referido edifício dos Correios e Telégrafos passou a ensombrar, de modo não recomendável, a vivenda, que tinha sido construída, segundo todos os preceitos de bom augúrio.
Demolir a vivenda não era prática aconselhável, assim como demolir o edifício dos Correios e Telégrafos não seria de modo algum impraticável.
Que fez então o chinês?
Consultou o adivinho e o problema foi resolvido do seguinte modo:
Na fachada da vivenda foi colocado um espelho côncavo, que reflecte todo o edifício dos Correios e Telégrafos invertido e em proporções minúsculas.
Deste modo, o edifício dos Correios e Telégrafos foi reduzido a proporções mínimas, insignificantes e deixou de dar má sombra e de impedir que soprassem, como convém, os ventos propícios.” (1)

(1) RÊGO, Francisco de Carvalho e – Cartas da China. Macau, 1949.