Archives for posts with tag: Porto Interior

“01-12-1779 – O Capitão James Cook, que em 1770 se assenhoreou da Austrália, tem certa relação com Macau, onde vieram aportar dois dos seus navios. Havia em Macau cópias de quadros dum membro da última expedição de Cook, o artista suíco John Webber (1750-1793). (1) Hoje ninguém em Macau sabe onde eles se encontram ou o que é feito deles. Os dois navios da expedição «Resolution» e «Discovery» ancoraram no porto de Macau em 1 de Dezembro de 1779, no seu regresso a Inglaterra, depois do Capitão Cook ter sido morto em Hawai. Weber, cujo interesse era desenhar panoramas célebres pintou, pelo menos dois quadros de Macau.

O quadro “View in Macao, including the residence of Camoens, when he wrote his Lusiad está incluído no Vol. 3, do capítulo XI do livro publicado pelo artista John Webber c. 1779-1788.

Um deles, foi num local, mesmo a noroeste da Fortaleza do Monte, mostrando o Porto Interior e as serras distantes da China, com a Igreja de S. Paulo e uma casa da família Pereira.

Inner Harbor of Macao and Ma Kok Temple, 1788. John Webber (1752-1793), Macao, China, Peabody Essex Museum 2006 Photo Sexton-Dykes https://visualizingcultures.mit.edu/rise_fall_canton_04/gallery_places/pages/cwM_1788_M10471_MaKok.html

No outro, figurava uma vista do pagode de A-Ma, na Barra, um cenário costeiro do Porto Interior, com rochas, sampanas e rampas de desembarque, com serra ao fundo. Referências a estes dois quadros encontram-se no livro de James Orange, intitulado ´The Charter Collection“. (2) (3)

(1) Ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/john-webber/.

(2) ORANGE, James – The Chater Collection. Pictures relating to China, Hong Kong, Macao, 1655-1860; with Historical and Descriptive Letterpress. London. Butterworth. 1924. O negociante e coleccionador Sir Catchick Paul Chater, de origem arménia, faleceu em Hong Kong (1926) deixando a sua colecção (porcelana, pinturas, estampas, e livros) bem como sua residência (hoje,  «Admiralty House» ) à sua esposa e após esta falecer, em 1935 passou para administração do governo de Hong Kong. Infelizmente a sua colecção composta por 430 artigos (entre eles, o livro de James Orange) foi danificada e perdida enquanto da ocupação pelos japoneses, restando hoje somente 94 que estão no Museu de Arte de Hong Kong. https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Chater

(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 1, 2015, p.304.

Extraído de «BGC», XXVI – 295, Janeiro de 1950, pp. 183-1888

O governador, o prelado de Macau e o comandante militar da colónia à chegada ao campo
Aspecto da missa campal
Os novos barcos alinhados, antes da bênção
O prelado de Macau no acto da bênção dos novos barcos do Centro Náutico da Mocidade Portuguesa
A menina Norma Ruth de Oliveira «baptiza» duas embarcações

NOTA – Ver anterior referência ao clube náutico em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/12/01/noticia-de-1-de-dezembro-de-1949-inaugura-cao-do-centro-nautico/

Extraído de «O Occidente» XXXIV-1186, de 10 de Dezembro de 1911, p.271
NOTA: a foto com canto inferior direito não é do biografado

Adolfo Ferreira Loureiro (1836-1911), militar, engenheiro, escritor, poeta e político, bacharel em Matemática em 1856 na Universidade de Coimbra e em Engenharia Civil em 1859. Entrou na escola do Exército, em 1858, onde seguiu carreira militar. Em 1883, foi em Comissão à Índia Britânica, a Ceilão, Singapura, China e Macau.

Veio para Macau, em 1883, como Capitão de Engenharia e Major do Estado Maior, no cumprimento da missão de assorear o porto de Macau, tendo elaborado o grande projecto dos aterros do porto interior (posteriormente o projecto foi alterado por diversas vezes). O trabalho desenvolvido em Macau foi elogiado, recebendo do Leal Senado (1884) a honra de ter o seu nome num arruamento executado entre 1882 e 1883 (1) (2)

Em Macau, desenvolveu interessantes apontamentos acerca da cultura e sociedade chinesa. Acresce que contactou e privou com várias personalidades da época, nomeadamente com Demétrio Cinatti, Capitão do Porto de Macau e, com Eduardo Marques, reputado sinólogo e intérprete da Procuratura dos Negócios Sínicos de Macau. Apoiado pelo Partido Progressista, foi eleito Deputado para Legislatura de 1890, pelo 1.° Círculo Eleitoral de Macau, de que prestou juramento a 15 de Janeiro de 1890, e, na Legislatura de 1890-1892, representou o referido Círculo Eleitoral como Deputado da Legislatura anterior, até ao dia 27 de Maio de 1890.

Foi autor de mais de duas dezenas de publicações de carácter literário e profissional, mas destacou-se com o seu diário de viagem, «No Oriente – De Nápoles à China (diário de viagem). Lisboa, 1896-1897: Imprensa Nacional, 1896. – 2 v.

Com referência a Macau, publicou: 1 – Porto de Macau. Ante-projecto para o seu melhoramento. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1884. – 286 p. 2 – Estudos sobre alguns portos commerciaes da Europa, Ásia, Africa e Oceania. Coimbra, 1885, 2 vol. 3 – Macau e o seu porto. Conferência na Sociedade de Geographia de Lisboa. Lisboa, 1896.

PLANTA da bacia geral dos rios Si-Kiang, Peh-Kiang e Han-Kiang ou rios do Oeste, Norte e de Este, desde a sua origem até desembocarem no mar da China pelos estuários de Cantão e do Broadway [Material cartográfico]: Nº 1 / Extrahida da planta da Província de Cantão, levantada por I. G. Lörcher e completada pelas cartas da China de I. Perthes e de Williams; Assumpção lith.  [Coimbra: Imprensa da Universidade, 1884]  – 1 mapa LOUREIRO, Adolfo Ferreira de, 1836-1911; ASSUNÇÃO, António José Saldanha, 1850-1900, litog. http://rnod.bnportugal.gov.pt/rnod/winlibsrch.aspx?

Loureiro demonstrou ainda envergar uma postura crítica relativamente à posição política de Portugal em Macau por altura do incidente subjacente à notícia da revolta de Cantão em Setembro de 1883, sem contudo deixar de mencionar que o seu próprio país, por falta de tratado com a China, não tinha ali cônsul para proteger o macaísta envolvido. Manifestou-se face ao sistema do mandarinato revelando e reforçando a ideia da própria singularidade de Macau. A abordagem à corrupção e ao suborno é inevitável e também o sistema judicial e penal mereceu acutilantes apontamentos críticos. A questão da pirataria mereceu-lhe uma especial atenção já que a estes marginais se referiu com frequência, fazendo referência ao episódio do White Cloud, embarcação que garantia a viagem Macau – Hong Kong – Macau.” (3)

Planta da PENÍNSULA E PORTO DE MACAU com as sondagens levantadas em 1884 e com o projecto do caes interior, molhe da Taipa, docas da ilha Verde e Praia Grande, dique da Taipa e revestimento marginal entre a Ilha Verde e Pac-Siac [Material cartográfico] / [Adolfo Ferreira de Loureiro]; gr. Samora. – [Coimbra: Imprensa da Universidade, 1884]. – 1 Planta, 5 folhas com informação hidrográfica, 1 folha com perfis e alçados. LOUREIRO, Adolfo Ferreira de, 1836-1911; SAMORA, Júlio César Júdice, 1845-post. 1913, litog. http://purl.pt/17239/service/media/pdf

(1) ”Macau deu o nome de Adolfo Loureiro a uma via pública. O projecto de Loureiro ficou apenas no papel, apesar das instâncias de Macau junto do Governo Central . Assim em 1891 subiu ao Terreiro do Paço um requerimento de 951 habitantes de Macau para se executarem as Obras; mas só 6 anos mais tarde é que de lá se pensou nisso; em 08-08-1903, o Capitão de Cavalaria Carlos Alexandre Botelho de Vasconcelos foi incumbido de sondagens no porto. Então o Governo dispôs-se a executar o plano de Loureiro, mas nada feito.” TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997, p. 408

(2) 羅利老馬路 – Estrada de Adolfo Loureiro: começa na Avenida Sidónio Pais e termina no cruzamento da Estrada de Coelho do Amaral com a Rua da Restauração. Executada em 1882/1883. CAÇÃO, Armando Azenha – Sankiu in http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30035/2019

(3) https://orientalistasdelinguaportuguesa.wordpress.com/adolfo-loureiro/

Ver Anteriores referências neste blogue de Adolfo Loureiro em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/adolfo-loureiro/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/estrada-adolfo-loureiro/

NOTA: Uma nota biográfica muito completa, em http://www.pianc.pt/pdfs/F2.pdf

Macau – Antigo Club Chinês, hoje uma residência particular

Parece-me tratar-se do actual jardim de Lou Lin Ioc, embora nos  meus apontamentos, a concessão do aforamento de um terreno situado no antigo  Campo de Long – Tin- Chun, fosse concedido a Lou Lin Ioc em 1924. (B.O.M. n.º 26  de 28 de Junho de 1924, p. 482.) Ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jardim-lou-lim-ioc/

Macau – Vista da Baía da Areia Preta

Quando a baía foi aterrada posteriormente, em 1923, os terrenos da Avenida do Hipódromo e da Areia Preta, ainda não estavam concluídas. Antes do aterro, a Estrada da Areia Preta era a marginal e a zona envolvente era chamada de Praia do Bairro da Areia Preta. (c. 1920)

Macau – Vista do porto interior

Referências anteriores ao Porto Interior em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/porto-interior/

Macau – Avenida «Vasco da Gama»

Avenida «Vasco da Gama» inaugurada em 1898 (na altura chamada «Nova Avenida de Vasco da Gama») estendia-se desde o actual Jardim de Vasco da Gama até ao Jardim da Vitória

 “No mesmo jardim, entre o monumento (da Victória) e a rua que o tornea, com o centro na continuação do eixo da Avenida, acha-se implantado um vistoso lago d granito, tendo ao centro uma peça monumental de ferro formada de diferentes bacias d´onde se desprende a agua que n´ellas é lançada por meio d´um tubo central. Quatro peixes, que ficam n´um plano inferior, lançam pela bocca outros tantos jactos de agua.  Sobre a bacia superior, 3 garças simulam gozar aquella agradável frescura rematando assim este gracioso conjucto…” («Jornal Único», de 20 de Maio de 1898)

Referências anteriores em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/avenida-vasco-da-gama/

Há 22 anos, em 1998, neste dia de 13 de Outubro, foi lançado em Macau, um novo livro do escritor e advogado Henrique de Senna Fernandes, intitulado “MONG-HÁ” (1)

Edição do Instituto Cultural de Macau, 14.º livro da sua colecção “Rua Central”, com a direcção gráfica e capa de Victor Hugo Marreiros e imprimido na Tipografia Hung Heng.

Na contra capa: “Mong Há, hoje descaracterizada pelo avanço implacável de cidade, a caminho do norte do Território, é uma vasta área que, grosso-modo, se estende da zona de Flora e de Montanha Russa até o Porto Interior, confinada à esquerda para quem desce, pela Avenida Horta e Costa, o Patane e o bairro do San Kio, cercando, doutro lado, a Colina dos Diabos Pretos, até a Areia Preta e a zona das Portas do Cerco e Ilha Verde. (…)” (2)

O leitor poderá estranhar o título da obra, pois aparentemente não parece relacionado com qualquer das estórias que se seguem, senão uma ténua referência. No entanto, a sua gestação nasceu precisamente na Pousada de Mong-Há, encravada na colina do mesmo nome e conhecia pelos chineses por Hak-Kai-Sán, a Colina dos Diabos Pretos, por a guarnição da fortaleza ser constituída por soldados landins de Moçambique. Aconteceu numa tarde quando, em roda de amigos, se festejava a vinda dum visitante que há muito jáo não se via, com uma mesa repleta do presunto, enchidos de porco – salpicão, chouriço de sangue, morcela e alheiras – queijos e vinho tinto a rodos. Isto,à distância de dois lustros, pelo menos. Tarde memorável aquela, em que, de conversa em conversa, se falou de tudo. Política, bocados de má-língua, alguma literatura e cinema, mulheres, anedotas de padre e de alentejano, recordações e experiências de Macau. Como que uma tertúlia palreira e alegre, emque cada um contribui com a sua verve e o seu comentário. Quando saímos, íamos confortados, mas nostálgicos. Alguém tocou-me no braço e sugeriu:  – Porque não escreve aquilo que nos contou? Publique, ajuntando o que se acha espalhado nos jornais e revistas e os manuscritos que envelhecem no escuro da gaveta”. . (…)

Que título, porém ia dar ao acervo de estórias que escrevera ou juntara? Rabisquei vários e não gostei. De súbito, lembrei-me magicamente do local em que brotara o primeiro impulso da sua feitura. Mong-Há! E MONG-HÁ ficou. ” (1)

“… um conjunto de recordações, experiências pessoais entremeadas de ficção onde a temática Macau está sempre. São histórias onde aparece sempre o Henrique Senna Fernandes, vivências e observações de aspectos da realidade de Macau onde a ficção surge para dar um maior interesse àquilo que eu conto” (3)

(1) FERNANDES, Henrique de Senna – Mong Há. Instituto Cultural de Macau, 1998, 275 p., ISBN-972-35-0269-0

(2) A continuação da descrição feita por Henrique de Senna Fernandes no “Frontispício” deste livro, escrito em “Macau, Abril de 1998, na Páscoa “, poder-se-á ler em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/07/24/noticia-de-24-de-julho-de-1901-varzeas-de-hong-ha/

(3) Afirmações de Henrique de Senna Fernandes ao jornal ”Tribuna de Macau” em 12 de Outubro de 2018.

Anteriores referências a este escritor em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/henrique-de-senna-fernandes/

Artigo do jornal “ Notícias de Macau” de 9 de Outubro de 1968, reproduzido no «Boletim Geral do Ultramar» (1)

(1) «BGU» ANO XLIV, 521/522, NOV/DEZ de 1968, pp. 222-224

O livro “CHRONICA PLANETARIA (Viagem à Volta do Mundo) ” de José Augusto Correa, (1) publicado em 1904 (2) é um relato de viagem à volta do mundo que o autor começou em Lisboa, no dia 15 de Março de 1902 na estação do Rossio:

Partida da estação central do Rocio, Lisboa, às 11 horas e 6 minutos da manhã de sábado, 15 de Março de 1902. Dia esplendido e sol. Em seguida aos abraços de despedida e á grata operação de fotografar o grupo de amigos que compareceram, dissemos, o Soares e eu, um último adeus á cidade amada de Herculano. (…)

e terminou na mesma cidade, a 19 de Setembro de 1902: A 7 de setembro e ao som de hymnos festivaes que saudavam a aurora anniversaria da independencia do Brazil, (…) deixei o solo paraense para bordo do «Jerome», que em doze dias me transportou à formosa cidade de Ulysses, termo, como fôra princípio, da minha viagem circular planetária.

Exemplar encadernado, com lombada em pele, bem encadernada., mas com desgaste (contornos das capas)
Exemplar com uma dedicatória do autor numa folha incorporada antes da folha de rosto,  “offerece José Augusto Correa, Lisboa, 24 de Fevereiro de 1905

Da estadia em Macau de 20 de Junho a 22 de Junho, o autor descreve-o nas páginas 352 a 362 (III Parte- De Alexandria a Hong Kong pp. 251 a 1370)

Infelizmente das 240 fotogravuras que o livro apresenta, somente uma foto (a Praia Grande) é de Macau.

20 de Junho – Entre as três próximas cidades: Vistoria (Hong Kong), Macau e Cantão, há uma regular carreira de vapores de roda, som serviço de restaurante. Em três horas de bôa marcha, vence-se as quatro milhas que separam Hong Kong, isto é, a China inglesa, de Macau, a China portugueza.

Foi por uma tarde límpida e formosa que avistei o pharol da Guia, e a linda capellinha contigua, a alvejar por entre a ramaria. Apparece depois o bello quartel mourisco, hoje, hospital de colericos, (3) a monumental fachada de S. Paulo, os campanarios de S. Lourenço, toda a magnifica edificação da Praia Grande, d´entre a qual sobresahe o palácio do governador, e no extremo oposto o hotel-sanatorio da Boavista, elevado no meio de um caracol maravilhosamente pittoresco. Todo este conjunto impressiona encantadoramente o forasteiro que pela primeira vez aporta à cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

O porto, d´este lado da minúscula peninsula, é inacessível a embarcações de alto bordo. É preciso dobrar a ponta da Boavista e ir fundear no porto interior, que defronta o bairro chinez. Este é extenso mas sujo, com exterior apparencia de remota antiguidade. (…)   …………………. continua.

(1) José Augusto Corrêa nasceu em Vigia (Vigia, também chamada de Vigia de Nazaré, é um município brasileiro do estado do Pará) mas passou a maior parte do tempo na Europa sobretudo em Lisboa e Paris. Era da Academia de Ciências de Portugal e editou várias obras de caráter teológico, filosófico e literário entre 1894 e 1926. Na sua obra “Crônica Planetária”, de 1902, Augusto Corrêa escreveu sobre sua passagem pela terra natal em agosto do referido ano: “22 de Agosto de 1902,- eram nove horas e meia da manhã quando pisei o sólo da pátria idolatrada, (Belém – capital de Pára) depois de uma ausência de vinte e sete anoshttps://www.culturavigilenga.com/copia-biografias

(2) CORREA, José Augusto – Cronica Planetaria (Viagem à volta do mundo), 2.ª edição. Editora: Empreza da História de Portugal, Lisboa, 2.ª edição, 1904, 514 p. Illustrada com 240 photogravuras; 15,5 cm x 21 cm

(3) O “hospital de colericos” (sic)  – Hospital (militar) de Sam Januário foi construído em 1872, destinado a militares, nunca foi quartel mourisco, nem foi para doentes com cólera. De 1896 a 1901 houve uma epidemia de peste bubónica em Macau (e arredores) e em 1902 surgiu uma epidemia de cólera em Cantão : “15-03-1902 – O B. O. acautela para a necessidade de tomar medidas preventivas face à epidemia de cólera que grassa na província de Cantão. O B. O. n.º 30 considera-a já extinta” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia de História de Macau, Volume 4, 1977)

Extraído de «BGC» XXVI-300, JUNHO de 1950, p. 270

Foi posto em circulação pelos Serviços de Correios e Telecomunicações de Macau, a partir do dia 29 de Abril de 1997, uma emissão extraordinária de quatro selos designada «媽閣廟 – Templo de A Má», (1) no valor de $ 3.50 patacas cada um e de um bloco com o selo no valor de $8,00 (2)

“COMPLETE SET” 4 selos diferentes (provavelmente retirados de uma folha miniatura de 16 selos (4×4)
“Inner Harbor of Macao and Ma Kok Temple, 1788.
John Webber (1752-1793), Macao, China,
Peabody Essex Museum 2006 Photo Sexton-Dykes “(3)

Este quadro embora datado de 1788, foi feito em desenho, em finais do século XVIII, por John Webber (1751 – 1793) que participou na 3.ª expedição à volta do Pacífico comandada por James Cook (morto pelos nativos, em 1789, no Havai). John Webber regressou a Inglaterra em 1780. Durante a expedição produziu imenso material quer escrito/rascunhos quer em esboços/desenhos (em pastel, lápis de cor e aguarelas) que após o seu regresso, serviram de base para os seus quadros (completados/gravados/ coloridos) publicados após 1784 (4)

(1) Das várias versões sobre a edificação do Templo Chinês da Barra, que parece ter sido construído nos princípios da dinastia Ming (actual estrutura base datada do reinado de Wan Li – 萬曆 (1573-1621), transcrevo a versão mais popular, descrita pelo Padre Teixeira (1) 

“Um dia, uma donzela de Fukien (Fujian 福建)quis embarcar num dos juncos que estavam de abalada para o sul. Mas todos lhe recusaram a passagem, visto ela não ter dinheiro. Todos? Não. O mais pobre junco compadeceu da donzela e ofereceu-se a transportá-la gratuitamente para Cantão. No caminho, rebentou uma tempestade e todos os barcos se afundaram, excepto um. É que a donzela tomou o leme e guiou esse barco a um porto de refúgio. Ao desembarcar, ela subiu a um rochedo e não mais foi vista. Os barqueiros ficaram convencidos de que era a deusa Neang Má, que os havia salvo da tormenta e os conduzira a esse porto. Erigiram ali um templo em honra de Neang Má, o qual se chamou Ma-Kok-Miu (Templo do Promontório de Má), ou Má-Chu-Kok, sendo Má abreviatura de Neang-Má. TEIXEIRA, Pe. Manuel – Templo Chinês da Barra Ma-Kuok-Miu. Edição do Centro de Informação e Turismo, 1979 p. 10 

(2) Portaria n.º91/97/M – B. O. n.º 17 de 28 de Abril de 1997

(3) https://visualizingcultures.mit.edu/rise_fall_canton_04/gallery_places/pages/cwM_1788_M10471_MaKok.htm

(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/john-webber/

Hoje, 17-04-2020, o «Jornal Tribuna de Macau» noticia(1) que “O Corpo de Polícia de Segurança Pública encontrou uma réplica de canhão numa obra de canalização, no Porto Interior. A obra já foi suspensa. Funcionários dos Serviços de Alfândega, Instituto para os Assuntos Municipais e Instituto Cultural já estiveram no local para avaliar a situação.”

De Macau, informam-me que o “achado” foi localizado na Zona do Patane. O canhão estará relacionado com o Forte do Patane (também conhecido como Palanchica) ? E/ou às docas de embarcações que existiram nessa zona? (2)

Pormenor de Mapa de Macau Vista da Lapa de «Ou-Mun Ke- Leok, 1979» p.97

O forte estaria situado perto da Calçada da Palanchica, (3) na pequena elevação do Patane, junto à capela dedicada a Sto. António? (Igreja de N.S. do Amparo?)  e tinha como “missão” proteger a cidade de uma invasão do Continente. Segundo Jorge Graça (4), o forte tinha “3 plataformas, cada qual provida de uma peça de artilharia. O acesso à esplanada superior era efectuado por meio de uma escada que a ligava com a de baixo. Estava ligado à fortaleza de S. Paulo (5) por uma secção da muralha Nordeste da cidade, na encosta ocidental da colina de S. Paulo e ao Porto Interior por outra secção desta muralha. Não é conhecida a data certa da sua construção, mas parece ser a mais antiga das fortificações do Macau primitivo. Estava provido com peças de artilharia retiradas dos barcos de comércio do Japão. Foi demolida juntamente com a muralha da cidade que ligava a fortaleza de S. Paulo ao Porto Interior em 1640 por exigência chinesa.

Segundo Padre Teixeira, o chamado Forte da Palanchica sobre o montículo de Patane não tem História, “ porque os únicos documentos que encontrou sobre Patane: ambos afirmam que se construiu um muro que ia desde S. Paulo a Patane e se tentou construir um forte neste lugar, mas gorou-se esta tentativa devido à oposição chinesa.”(6) Esta também foi a opinião do historiador Ljungstedt: (7) «Parece que em 1925 se tentou construir um forte num lugar chamado Patane a fim de ligá-lo por meio duma cortina com o Monte. Mas os chinas fizeram um tal resistência que se abandonou a obra, e a cortina mudou-se em muro do Jardim, que se estende até um braço do Porto Interior»

Era nessa zona designada por Patane ou Chão do Campo dos Patanes ou Campos de Patane que “corria um importante veio de água potável (Ribeira do Patane), suficiente não só para dessedentar a povoação mas ainda para o fornecimento da aguada aos juncos e mais barcos de cabotagem que já concorriam ao porto. Era por isso a zona que servia não só para abrigo e aguada, mas também servia de doca para reparação das naus da carreira do Japão, ou naus da prata, enquanto aguardavam a monção para prosseguir viagem. A Ribeira do Patane veio com o andar do tempo, após o inquinamento completo das suas águas pelas várzeas que o foram marginando, a converter-se num colector de esgoto que ainda não há muitos anos se via a descoberto e que era conhecido pelo canal de San Kiu” (6)

Planta de Macau, anónimo, Pedro Barreto de Resende no Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidade e Povoações do Estado da Índia Oriental de António Bocarro, c 1635

(1) https://jtm.com.mo/local/breves-1220/

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ribeira-de-patane/

(3) As obras efectuadas na zona do Patane e Tarrafeiro em 1868 acabaram com o labirinto de becos e travessinhas da Palanchica. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/travessa-da-palanchica/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/palanchica/

(4) GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau, Concepção e História. ICM, 1985, p.99

(5) “D. Francisco Mascarenhas, governador de Macau (1623-1626) mandou construir uma muralha de 500 barças, que se estendia desde a Fortaleza de S. Paulo ao Patane. Os Chineses objectavam que, estando esta muralha voltada para a China, era contra eles que se dirigia e não contra os inimigos de fora, e, por isso, exigiram a sua demolição. Mascarenhas opôs-se, mas o Senado cedeu às exigências chinesas e revoltou-se contra o governador em Outubro de 1624 e demoliu essas 500 barças de muro em Março de 1625. D. Francisco Mascarenhas, para evitar efusão de sangue, engoliu em seco esta amarga pílula” (6)

(6) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997, pp. 36-37

(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/andrew-ljungstedt/