Archives for category: Saúde e Assistência Social

Realizou-se entre 5 e 7 de Janeiro de 1998, no auditório do Centro Hospitalar Conde S. Januário, em Macau, o “II Congresso de Medicina Geral e Familiar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa” organizado pela Associação “Saúde em Português” (Coimbra) com a colaboração de uma comissão organizadora de médicos locais.
Retiro do PROGRAMA:

NOTA: A conferência final “A PAZ” foi dada pelo Dr. José Ramos Horta, Nobel da Paz em 1996, no exílio durante a ocupação indonésia entre 1975 e 1999. Foi depois presidente de Timor entre 2007 e 2012,

O Chefe dos Serviços de Saúde, Dr. José Gomes da Silva, no seu Relatório de 1886, informava que “a raposa, vulpes hoole sin, (1) muito semelhante à que que se encontra em Portugal, tem sido caçada na própria península de Macau”
Na China (como na Europa) a raposa (2) é conhecida pela sua esperteza e por isso, conseguir viver por muitos anos. Além disso, transforma-se numa mulher quando atingisse a idade de 50 anos, numa rapariga jovem e bonita quando atingisse cem anos e depois aos mil anos, tornar-se-ia numa raposa celestial, mas muitas poucas raposas conseguem atingir este estadio.
(1) O «Vulpes vulpes hoole” é uma subespécie de mamíferos carnívoros da família “canidae, subespécie que se encontra no sul da China.
https://es.wikipedia.org/wiki/Vulpes_vulpes_hoole
(2) 狐狸 – mandarim pīnyīn: hú lí; cantonense jyutping: wu4 lei4
WILLIAMS Charles Alfred Speed – Chinese Symbolism and Art Motifs – A Comprehensive Handbook on Symbolism in Chinese Art Through the Ages. Fourth Revised Edition:
https://books.google.pt/books?id=xwnRAgAAQBAJ&pg=PT244&lpg=PT244&dq=vulpes+hoole+sin

Realizou-se no dia 6 de Dezembro de 1976, no Hospital Central Conde de S. Januário, uma exposição de trabalhos executados pelos internados naquele estabelecimento hospitalar e ainda pelos doentes crónicos do Pavilhão da Taipa (1)
Apresento alguns aspectos da exposição, que estava instalada em algumas dependências do Hospital.
Compreendendo uma variada gama de artigos, avultavam-se sobretudo os que se relacionavam com os usos domésticos.
(1) “MACAU B. I. T., XI, 9-10,1976.

“Macau, era, quando lá estive, entre 1949 e 1961, uma cidade cheia de encanto – pelo menos para mim que lá vivi 12 anos, numa idade em que se é excecionalmente receptivo à novidade e ao exotismo. (…)
Vivi 12 anos em Macau. Fui como médico militar, na sequência de uma conversa, na Bijou, com um meu amigo que, sabendo da necessidade que eu tinha de começar a ganhar a minha vida e cortar o cordão umbilical familiar, em falou, sem grandes pormenores, do exotismo daquelas paragens. Num dos repentes que às vezes me dão, fui aos Restauradores e ofereci-me como voluntário. (…)
Foi um desilusão geral:  (aquando da visita a Macau em 1972, integrado na romagem da saudade, organizado pela Casa de Macau de Lisboa) cheia de arranha-céus de arquitectura pelintra , com tráfico intenso, suja e desordenada – Macau pagava o preço do progresso, como me disse a presidente do leal Senado de então. Esta questão do chamado «progresso» é, nos nossos dias, um grave problema que degrada o meio ambiente e constantemente nos agride em todas as latitudes. (1)

Ao centro (de óculos) o Director dos Serviços de Saúde, Dr. Paiva Martins (3) por inerência, Director do Hospital Central Conde de S. Januário (o autor no livro regista-o erradamente como Dr. Costa Martins).
À direita em primeiro plano o Delegado da Saúde de Macau e Ilhas, médico de 1.ª classe do quadro médico comum do Ultramar, Dr. João Albino Ribeiro Cabral.
Muito possivelmente a fotografia é de 1957, ano em que o Dr. José Marcos Batalha, (à direita, em segundo plano) foi nomeado médico oftalmologista do Hospital (embora já trabalhasse desde 1949, no Hospital S. Rafael).
No fundo à direita, o então jovem enfermeiro António Fernandes (um grande abraço para este amigo e parente).
(1) MORAES, Álvaro de – Macau Memórias Década de 50. Livros do Oriente , 1994, 187 p. ISBN 972.9418-26-8, 19cm x 12,5 cm.
(2) Álvaro Ferrão Antunes de Moraes, médico cirurgião, veio para Macau, em 1949, como médico voluntário da guarnição militar de Macau. Foi nomeado em 1951 cirurgião militar. Em 1955, concorreu ao lugar cirurgião dos Serviços de Saúde de Macau. Durante os 12 anos que viveu em Macau (1949-1961), além da sua clínica privada (consultório de clínica geral na Travessa do Paralelo, n.º1 – 1.ª; n.º telefone: 3513), foi também cirurgião do Hospital de S. Rafael (1956-57) e trabalhou na clinica Anticancerosa Lara Reis, que mais tarde dirigiu. Foi também director do Serviço de Radiologia e Agentes Físicos (1956-1957).
(3) – José de Paiva Martins  – médico chefe do quadro médico comum do Ultramar e  Director dos Serviços de Saúde de  15-10-1955 até 26-06-1963 (data da portaria ministerial da sua nomeação de inspetor provincial dos Serviços de Saúde de Moçambique.

No dia 1 de Novembro de 1955 deveria ter dado início às Comemorações do “IV Centenário de Macau 1555 -1955”, programadas para serem realizadas durante o mês de Novembro de 1955. As razões do seu cancelamento bem como outros preparativos (programa das comemorações do IV Centenário de Macau 1555-1955; selos postais comemorativos da fundação de Macau de 1955) foram já postados anteriormente em (1) e (2)
Mas ainda a propósito desse acontecimento, publico duas fotos do espólio do Dr. José Anselmo Ranito (3)  (cedidas pela família) com notações do próprio no verso de cada fotografia, do monumento que estava a ser construído na colina de D. Maria II para ser inaugurado (conforme estava programado) no dia 29 de Novembro de 1955, pelas 12.00 horas,  e dedicado a “Quatro Séculos da Amizade Luso-Chinesa”. Com o cancelamento das cerimónias, o monumento  foi demolido nesse mesmo ano.

No verso desta fotografia, escrito à mão (lápis):
“1955 – Antes
Monumento para comemorar o IV Centenário da amizade “Luso-Chinesa” no Morro de D. Maria no tempo do governador Marques Esparteiro.
Não houve comemoração e foi mandado demolir 1955”
No verso desta fotografia, escrito à mão (lápis):
“Depois
1955
Monumento para comemorar o IV Centenário d amizade Luso-Chinesa no morro de D. Maria”

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/11/01/noticia-de-1-de-novembro-de-1955-programa-das-comemora-coes-do-iv-centenario-de-macau-1555-1955/
(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/11/02/selos-postais-comemorativos-da-fundacao-de-macau-1955/
(3) José Anselmo Ranito – (1909- ?) médico estomatologia  colocado em S. Tomé e Príncipe (1950-1951), foi contratado para o cargo de médico estomatologia do quadro complementar de cirurgiões e especialistas de Macau em 1951, tenho tomado posse no Ministério do Ultramar em 28 de Fevereiro de 1952. Esteve em Macau com a família até 19 de Fevereiro de 1957 quando partiu para Moçambique onde foi colocado (Portaria Ministerial de 24 de Agosto de 1955).

Certificado de vacinação dos Serviços de Saúde de Macau, com o número 320802, duma menina de 13 anos, vacinada em 3/6/54 (vacinação anticolérica com validade até 3/9/54)
Este certificado devia ser apresentado sempre que era exigido o que obrigava a que todos que estivessem vacinados não esquecessem de os trazer consigo, para comprovarem aquando das “rugas” na via pública (com a colaboração da polícia que “fechavam” uma rua, nas décadas de 50 e 60 do século passado) em que as equipas técnicas de vacinação “apanhavam” os que não estavam vacinados.

Memorial (Relatório) do cirurgião-mor Domingos José Gomes, (1) de 6 de Outubro de 1822, enviado ao Senado «Sobre as enfermidades que mais cometem a tropa de Sua Majestade»
Tabes ou convulsões dorsais – vulgo tísicas – , obstruções e cirroses, tanto do fígado, como do mesentério, vício sifilítico ou gálico, hidropisias, ascites, algumas disenterias e finalmente febres que,  relativamente às moléstias acima ditas, são poucas.
Do continuado alimento de peixe, ora salgado, ora fresco, mariscos, continuamente adubados de grande quantidade de açafrão, pimentos e muitas espécies aromáticas e calefacientes, que só por si depravam as túnicas do estômago e conseguintemente, alteram os sucos digestivos tão essenciais à digestão … O excessivo uso de um vinho que os chinas extraem do arroz e que o vulgo, em razão dos seus estragos, chama «fogo», tão acre e tão corrosivo que arruína e dá cabo em poucos meses do indivíduo mais valente que a ele se aplique. Principia por obstruir-lhe as entranhas do baixo ventre, reduzindo-o absolutamente e tornando-o até incapaz do serviço mais leve, quando não termina, como mutas vezes observei, por uma rápida e violenta hemoptise, que em breve conduz o paciente à morte …
A incontinência, que se pode considerar como um efeito ou corolário das premissas acima declaradas, é, também, outra não menos fatal à tropa, pelo continuado estímulo da comida tão condimentada e a bebida excitante, impelindo à satisfação das suas paixões carnais, contrai com a maior facilidade o vício gálico e às vezes duma natureza tal que, resistindo ao mais bem ideado tratamento, conduz muitos dos doentes à sepultura …” (2)
(1) Domingos José Gomes exerceu o “serviço de cirurgião-mor das tropas que guarnecem a cidade” conforme o requerimento que apresentou em 1803 para a concessão da respectiva carta-patente.
O Major Comandante da unidade – Manuel da Costa Ferreira declarava: «ter ele cumprido com toda a satisfação, por espaço de 6 meses … em que mostrou todo o zelo e actividade no Real Serviço, curando não só de cirurgia, mas também de medicina … por isso merecendo toda a confiança e contemplação de que se faz digno … »
“Em consequência do fracasso na revolução liberal de 1822, em que figurava no número dos pronunciados, logo a seguir ao chefe do movimento – o tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa – após essa data, nada mais aparece referente aquele assíduo funcionário, (Domingos José Gomes) que por lá trabalhou, activamente, pelo menos 19 anos.
Só o Ouvidor Miguel de Arriaga, em ofício de 8 de Março de 1823, para informar sobre alguns indivíduos, escrevia:
Domingos José Gomes, português, europeu, cirurgião que era do Partido da Cidade e que para obter foi necessário demitir o que então servia. Homem solteiro, a quem  se permitiu deixar o Partido para melhor fazer o seu comércio no tráfico do anfião, onde foi admitido como qualquer dos outros Moradores aqui estabelecidos.  Foi tão abonado na Real Presença pelo abaixo-assinado que, em 20 de Julho de 1814, mereceu ser condecorado como Hábito da Ordem de Cristo. O seu génio desconfiado, pouco quieto ou grato, não é a um só conhecido … (2)
Domingos José Gomes, refugiou-se em Cantão, em 23 de Novembro de 1823, após a queda do Governo Constitucional (a Constituição foi jurada no Leal Senado em 1822) juntamente com os liberais Fr. António de S. Gonçalo Amarante, o editor de “A Abelha da China” (órgão do partido constitucional) e João Nepomuceno Maher.
(2) SOARES, José Caetano – Macau e A Assistência, 1950, pp. 109.