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Pequena notícia publicada no Anuário de Macau de 1922, em português, francês e inglês,  retirada do «Bulletin Commercial d´Extrême-Orient»,  acerca do comércio do ópio. Informava que sete oitavas partes do ópio importado na China traziam etiquetas provando que o ponto de partida e da produção é Osaka e não Macau, como tinha sido injustamente atacado, nomeadamente a nível da «Association International contre l´Opium»
Recorda-se que Portugal esteve presente, em Dezembro de 1920, na constituição da chamada a «Comissão do Ópio» abreviatura da internacional «Comissão Consultora do Tráfico do Ópio e Outras Drogas perigosas». Dali resultaram duas conferências em 1924  onde não se chegaram a uma conclusão sobre a maneira de suprimir a produção ilegal do ópio. Só em 1927 foi concluída o “Regulamento do tráfego do ópio e seus derivados”). A situação económica de Macau estava muita boa no período de 1918 a 1921 devido sobretudo ao rendimento do exclusivo do ópio e a aplicação do regime sobre o regulamento de 1927 foi aplicado em Macau em Julho desse ano. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4)

No dia 13 de Dezembro de 1784, o Senado protestou para Goa (1) contra a ordem para o governador presidir a todos os actos do Senado com ingerência em todas os assuntos da fazenda real (2) até agora administrados pelo Senado (3) (4) e pediu para Goa instruções sobre a forma como deveria proceder, no caso de qualquer agitação chinesa, em consequência das alterações introduzidas, como seja a criação da nova alfandega e o envio de mais tropas de Goa para Macau (5) (6)
(1) “13-12-1784 – O Senado não podendo suportar a sua subordinação ao governador escreve ao Governo da Índia:
«Recebemos carta em que V. Exa. Nos ordena que o governador desta Cidade presida neste Senado e nele tenha intendência em tudo quanto respeita a Fazenda real que ate agora administramos, sem embargo do Alvara Regio que V. Exa. Há por declarar que dispõe e determina o contrario.
Há 226 anos que os moradores desta Cidade estabeleceram e conservaram esta terra d Sua Magestade e sem dependência dos governadores dela este Senado a tem governado ainda em ocasiões das maiores controvérsias que se ofereceram entre os chinas e holandeses. Os mesmos moradores a resgataram e remiram por varias vezes das dividas que a necessidade contraiu em diferentes tempos com os Reis de Sião, Camboja e Batavia.
Eles a sua custa fizeram ir embaixadores a presença do Imperador da China, em que gastaram grossas quantias para efeito da conservação deste Estabelecimento.
Eles a defenderam no ano de 1622 contra o poder dos holandeses que nesta cidade desembarcaram com tropas regulares.
Eles socorreram em artilharia de bronze e dinheiro o Rei D. João IV, de feliz memoria, no ano de 1641.
Eles tem sofrido os maiores trabalhos e perseguições de China pela conservação da Cristandade neste Imperio.
Enfim, eles tem com o seu zelo aumentado os cabedais que hoje se conservam nesta terra pertencentes a Sua Magestade; e tudo sem dependência dos governadores dela, nem protecção alguma, mais do que o seu negócio, apesar das Nações Estrangeiras que opor muitas vezes tem intentado contrastar-lhe. (…)
Roga este Senado a V. Exa. Lhe declare a jurisdição que presentemente pertence a este Senado, porque o Governador actual em tudo se tem intrometido e não sabemos o que nos é concedido enquanto Sua Magestade não nos deferir a nossa representação que lhe fazemos para conservação dos nossos privilégios» (6)
(2) Acerca da Fazenda Real – extraído de (7)
(3) “28-07-1784 – São aplicados em Macau as célebres Providências em que o Ministro das Colónias, Martinho de Melo e Castro, por instigação do ex-Governador das Índias, Salema e Saldanha, reformou o poder dos governadores. Entre outros poderes, o Capitão-Geral, ou melhor o Governador, tinha o direito de intervir em todos os negócios concernentes ao bem estar da Colónia, e o de impor o veto sobre qualquer moção senatorial, só com o seu voto. A Guarda Municipal foi então substituída por uma guarnição de cipaios composta de 100 mosqueteiros e 50 artilheiros.
Foi Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o primeiro Governador com estes novos poderes.
O Bispo D. Alexandre de Gouveia, que chegou a Macau nesta data, vinha incumbido duma dupla missão, segundo as «Providências» que D. Maria I enviara a Macau em 4-04-1783, a saber:

  1. Pôr termo às dissenções ocasionadas pela sagração em 1780 do italiano João Damasceno Salusti como Bispo de Pequim e sustentar os direitos do Padroado.
  2. Pôr termo às extorsões e vexações dos mandarins contra Macau e às medidas por eles adoptadas contra a soberania portuguesa e contra a Religião Católica, expressos num arrazoado de 12 articulados, gravados numa pedra do Senado e noutra em Mong Há.

Naturalmente o Senado «que a tudo era superior», (4) ressentiu-se ao ver-se apeado da peanha onde se instalara dois séculos antes e ao receber o epíteto de ignorante. Toda esta bilis extravasava num «memorial da Câmara Municipal» de 5-02-1847, que dizia:
«Em 1784, por efeito de falsas informações, apareceram as funestas Providencias da Corte, datadas de 1783, que introduziram o governador no Senado com voto de tal peso, que empatava o de todo o Senado». (8)
(4) Acerca do poder da Câmara de Macau: Extraído de (7)
(5) Chegou a Macau a 28-07-1784, um batalhão de 150 cipaios que veio da Índia para substituir a guarnição e a polícia de Macau. Passaram a efectuar patrulhamentos e tarefas de protecção da cidade, tomando sobre si a defesa da mesma.
Os cipaios ou sipaios também designados lascarins eram os naturais da Índia recrutados para as forças regulares do exército português,
Sipai, cipai – Soldado indígena disciplinado e fardado quási à europeia, na Índia e África Portuguesa; fâmulo fardado, que acompanha ou faz recados. Do persa sipahi (soldado). O termo aparece registrado a partir de 1728, equivalendo aos mais antigos lascarim e peão. DALGADO, Sebastião Rodolfo. Glossário luso-asiático. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1919-1921.
(6) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau 1954.
(7) “Revista litteraria: periódico de litteratura, philosophia, viagens, sciencias, e bellas-artes” Volume 4, 1839.
(8) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 2. 1997.

Morre em Roma a 29 de Novembro de 1976, depois de receber a visita e bênção de Paulo VI. D. José da Costa Nunes. (1) As Exéquias foram na Basílica de S. Pedro e o seu túmulo está na Igreja de Santo António dos Portugueses em Roma. (2)
Recordo-o, neste dia, apresentando um postal de 1964.

Creio tratar-se de uma foto da missa campal repleta de fiéis celebrada pelo Cardeal D. José da Costa Nunes e co-celebrada pelo Bispo de Macau, D. Paulo José Tavares (bispo de Macau: 1961-1973) em frente às Ruínas de São Paulo, no ano de 1964.
Em 10 de Novembro de 1964, o Cardeal D. José da Costa Nunes foi nomeado pelo Papa Paulo VI, legado papal para as comemorações do IV Centenário das Missões da Companhia de Jesus em Macau e IV centenário da chegada dos primeiros missionários católicos a Macau. (3)
Nesse mesmo mês e durante a sua estadia, no dia 23 de Novembro de 1964, o Leal Senado, em sessão ordinária desta data, proclamou o Cardeal D. José da Costa Nunes (Bispo de Macau de 1920 a 1940) como Cidadão Benemérito de Macau.
(1) Antes de completar o curso teológico, acompanhou para Macau, como secretário particular de Bispo D. João Paulino, tendo chegado a Macau em 1903 e ficou a estudar no Seminário de S. José. Foi ordenado sacerdote e, em 1920, foi nomeado Bispo de Macau, Restaurou o Colégio de Sta. Rosa de Lima, confiando em 1932 a direcção do estabelecimento às Franciscanas Missionárias de Maria; inaugurou a nova igreja de Santa Clara; fundou as escolas chinesas “Pui Cheng”, “Mong Tak”, “Kung Chon” e o Colégio de S José; melhorou a Escola Portuguesa, ambas anexas à Casa de Beneficência; inaugurou em 13 de Outubro de 1935 a nova Igreja de Nossa Senhora da Penha; restaurou o Paço Episcopal; confiou o Seminário de S. José aos jesuítas; foi professor do Liceu de Macau.
(SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 5, 1998).
NOTA 1: Há muita informação sobre a vida e a obra do Cardeal D. José da Costa Nunes acessível através da net:
Sugiro entre outros:
http://www.eccn.edu.pt/index.phpoption=com_content&view=article&id=3&Itemid=268
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_da_Costa_Nunes
COSTA, Susana Goulart – D. José da Costa Nunes (1880-1976); Um Cardeal no Oriente
http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/4523/1/LS_S2_19-20_SusanaGCosta.pdf
Nos «Arquivos da RTP: Chegada do Cardeal José da Costa Nunes, Vice-camarlengo da Santa Sé. a Lisboa, em 1964.»
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/chegada-do-cardeal-jose-da-costa-nunes/#sthash.TfvpHSEE.dpbs
(2) No dia 27 de Junho de 1997, os seus restos mortais foram solenemente trasladados para a Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Candeias, freguesia da Candelária, concelho da Madalena.
(3) A Companhia de Jesus desempenhou papel preponderante na fundação e de Macau. Embora as notícias dos primeiros Jesuítas em Macau datam de 1555, (chegada do padre Belchior Nunes Barreto, o Irmão Fernão Mendes Pinto e o padre Gaspar Vilela (conforme carta escrita pelo padre Belchior Nunes Barreto) os Jesuítas só se estabeleceram definitivamente em Macau em 1563, com a vinda dos padres Francisco Peres e Manuel Teixeira e do Irmão André Pinto:
O padre Francisco Peres, em 1565, fundou em Macau, junto à ermida de Santo António, a primeira residência da Companhia de Jesus.
SEABRA, Leonor Dias de – Macau e os jesuítas (séculos XVI e XVII) . História Unisinos 15(3):417-424, Setembro/Dezembro 2011.
Acessível em
http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/article/viewFile/htu.2011.153.09/609
NOTA 2: Circula na net outro postal (mesma imagem) deste evento com a seguinte legenda:

Sam Ba Sing Tzik St. Paul’s Cathedral Macau 1964

No dia 19 de Novembro de 1864, foi entusiasticamente recebido e com grandes festejos o Corpo do Voluntários Artilheiros de Hong Kong, (1) armados e com artilharia, (fizeram exercício no campo de S. Francisco) sob o Comando do Coronel Lindesay Brine. (2) Durante os três dias de permanência (chegou a 19 e partiu a 21) fizeram-se em Macau grandes festas, reinando a melhor camaradagem e cordialidade entre portugueses e ingleses. (3) (4)

“Visit of the Hong-Kong Volunteer Corps to Macao, the Parade in Front of the Pavilion” (4)

Após esta visita, o Corpo de Voluntários de Hong Kong, no dia 24 de Junho de 1866, ofereceu em Macau uma espada ao Governador José Rodrigues Coelho do Amaral como sinal de reconhecimento, pela cordial recepção que teve nesta cidade nessa visita. (5) (6)
Esta mesma visita mereceu também uma referência na “Carta da Tia Pancha a Nhim Miquela” escrita em «3 de janero de 1865» (7):
Outro dia Voluntario inglez d´Hong Kong já vem Macáo! Qui lai di bonito! eu já vai olá também. Macáo parece França, tudo gente fallá. Tem tifin (8), revista di tropa, salva de vinte un há tiro, balsa (9) à note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancia três mil fóra pataca. Algum gente qui nunca gostá assilai cuza, (10) já vai olá cova de Sam Francisco Xavier (11) eu tamêm muito querê pra santo, mas nunca vai“
(1) O Regimento de Hong Kong, também conhecido como “Os Voluntários”(“The Royal Hong Kong Regiment (The Volunteers) –  皇家香港軍團(義勇軍”), foi formado em Maio de 1854 aquando da redução militar da guarnição inglesa em Hong Kong devido à Guerra da Crimeia. Devido aos frequentes ataques dos piratas na costa da China, para manutenção da ordem, foram chamados voluntários para incorporação num regimento. No total de 99 europeus foram recrutados, a maioria de nacionalidade britânica, mas também portugueses, escandinavos e alemães. O regimento foi desmobilizado e reactivado conforme as necessidades até que em 1878 definitivamente se institui uma força militar denominada “Hong Kong Artillery and Rifle Volunteer Corps” e depois em 1917 como “Hong Kong Defence Corps”- a única força militar existente em Hong Kong durante a I Grande Guerra.
https://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Hong_Kong_Regiment
http://www.rhkr.org/history/
(2) Almirante Lindesay Brine (1834-1906) oficial da Armada Real Britânica. Tenente em 1854, “Commander” em 1862, “Captain” em 1868, Vice Almirante em 189. Retirado em 1894. Foi depois nomeado Almirante em 1897. Nomeado comandante da canhoneira “Opossum” que estava em serviço nas águas da Índias Orientais e China, em 1 de Maio de 1860 e depois colocado em Hong Kong, no Corpo de Voluntários. Em 27 de Maio de 1865 nomeado comandante do  “HMS Racer” estacionado no Mediterrâneo.
É autor do livro “The Taeping Rebellion In China; A Narrative Of Its Rise And Progress, Based Upon Original Documents And Information Obtained In China
(3) GOMES, Luís G – Efemérides da História de Macau, 1954)
(4) Ver anterior postagem sobre esta mesma visita “Notícia da visita a Macau do dia 19 a 21 de Novembro de 1864 do Corpo de Voluntários de Hong Kong”, publicada no suplemento do dia 21 de Janeiro de 1865 do jornal «The Illustrated London News»”, em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/01/19/noticias-de-19-a-21-de-janeiro-de-1865-visita-do-corpo-de-voluntarios-de-hong-kong-a-macau/
(5) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(6) Ver anterior postagem em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/06/24/noticia-de-24-de-junho-de-1866-oferta-duma-espada-ao-governador-coelho-do-amaral/
(7) Ta-Ssi-Yang –Kuo  Tomo I. p. 324.
(8) Tifin – o mesmo que “lunch”
(9) Balsa – fogo de artifício chinês, muito comum em Macau até à década de 20 (séc. XX) depois caiu em desuso. Este fogo de artifício era chamado porque os foguetes eram colocados em balsas ou baldes Construía-se uma armação em bambu, espécie de torre de dois ou três andares, e em cada andar punha-se uma balsa de foguetes. Acendia-se a primeira, esta ao explodir pegava fogo à segunda e assim sucessivamente. (BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do DIalecto Macaense. Coimbra, 1977).
(10) Assilai cuza – duma tal coisa.
(11) Cova de Sam Francisco Xavier – refere-se à antiga sepultura do Santo na Ilha de Sanchoão e à peregrinação que os macaenses fizeram a essa ilha em Novembro de 1864.
Ver anterior postagem em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/12/03/noticia-de-3-de-dezembro-de-1866-a-cruz-dos-macaenses-na-ilha-de-sanchoao

Tomou posse, no dia 3 de Outubro de 1843, do governo d´esta cidade o chefe de divisão da armada José Gregorio Pegado- 彼亞度 (1)
Foi no governo de José Gregório Pegado, (2) que se iniciou a ocupação da ilha da Taipa, depois de uma memorável visita de cortesia ao vice-rei Ki-Yin (3), alto comissário de Cantão que prometeu «fechar os olhos» ao nosso estabelecimento na mencionada ilha. Na Taipa Pequena mandou depois Ferreira do Amaral fazer um pequeno forte (terminado em Setembro de 1847. Em 20 de Agosto de 1851 o Governador Francisco António Gonçalves Cardoso procedeu à ocupação da Taipa Grande. Só mais tarde as duas Taipas (outrora três) se uniram geograficamente. Pegado faleceu em Adem no seu regresso a Portugal de 1846, tendo embarcado em Macau, em 28 de Maio desse ano. (4)
José Gregório Pegado, pela sua distinção e mestria no manejo dos fai-chis, (5) durante um jantar que lhe ofereceu, em Cantão, o delegado e alto-comissário imperial, Ki-Ying, ouviu da boca deste os seguintes elogio e garantia: –V. Exa é um homem tão polido nas maneiras e simpatizo tanto consigo, que nada lhe posso recusar. Recomendarei confidencialmente ao vice-rei dos dois Kuóns que feche os olhos ao estabelecimento dos portugueses na (ilha da) Taipa“.
Depois de ocupar militarmente toda a península de Macau, desde as muralhas à Porta do Cerco, o heroico governador João Maria Ferreira do Amaral executou essa promessa verbal, incumbindo o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, em Abril de 1847, de construir a Casa Forte da Taipa. Depois de difíceis negociações com os mandarins limítrofes e com o vice-rei de Cantão, a bandeira portuguesa arvorou-se pela primeira vez nessa ilha ao 9 de Setembro de 1847. Em 1879 foi também ocupada a Taipa Quebrada ou Ilha de Maria Nunes e aí levantado um quartel, no antigo edifício do hospital, hoje Centro de Recuperação Social.
A 23 de Dezembro de 1864, os habitantes de Coloane pediram que uma força militar portuguesa os fosse proteger contra os piratas. Um destacamento de 10 polícias dirigiu-se imediatamente para aquela ilha. A administração dos três novos territórios (note-se que então a Taipa eram duas ilhas) organizou-se em 1878. (6)

MAPA DE 1884 – PLANTA DA PENÍNSULA E PORTO DE MACAU
de A. Ferreira Loureiro
Em baixo, à esquerda, a Ilha da Taipa Quebrada e Ilha da Taipa Grande ou Kaikong

(1) PEREIRA, A. Marques –  Ephemerides Commemorativas da história de Macau e
(2) José Gregório Pegado governador de 3-10-1843 até 13-02-1846, data do embarque para Macau do Conselheiro Capitão de Mar e Guerra João Maria Ferreira do Amaral que tomou posse como Governador a 21 de Abril de 1846.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-gregorio-pegado/
(3) O ex-governador Adrião Acácio da Silveira Pinto (governador de 22-02-1837 até 3-10-1843) foi nomeado em 10-10-1843, pelo Governador José Gregório Pegado (em sessão do Senado de 10 de Outubro), Embaixador de Portugal para tratar com os Plenipotenciários chineses sobre as condições da existência política de Macau. O e governador seguiu no dia 27 de Outubro para Vampu, no brigue de guerra Tejo, do comando do Capitão-Tenente Domingos Fortunato de Vale. Acompanharam-no o Procurador da Cidade, João Damasceno Coelho dos Santos e o intérprete interino, José Marinho Marques. (7) No dia 4 de Novembro a missão diplomática seguiu de Vampu para Cantão, em escaleres, residindo, depois de realizada a conferência, na casa de campo do Mandarim graduado Pau-Teng-Kua e no Consulado da França, onde se realizou as reuniões, durante dez dias, com o segundo delegado chinês. A missão não conseguiu que fosse relevado o foro pago pela colónia nem dispensada a demarcação do limite para fora dos muros do Campo de Stº António,
Ver anterior referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/11/04/noticia-de-4-de-novembro-de-1843-conferencia-luso-chinesa-em-cantao/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/adriao-a-silveira-pinto/
(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995.
(5) Faichis – “Pauzinhos” para levar a comida à boca.. Termo macaense usado pelos chineses desta região e também pelo portugueses de Macau e Hong Kong (BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977
Ver em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/05/10/os-antigos-cozinheiros-ambulantes-de-macau-1953-i/
(6) PIRES, Benjamim  Videira – Os Governadores e a vida de Macau no Século XIX.
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30007/1510
(7) Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-martinho-marques/

Do diário de A. J. Pinto Basto, na sua viagem de circumnavegação a bordo do Cruzador S. Gabriel (1)
Com muito bem tempo largámos de Hong Kong (2) para Macau pelas 8 h da manhã do dia 2 de setembro. Ao passar pelos navios de guerra estrangeiros, tocaram as suas bandas o hymno portuguez, e foi-nos feito o signal de boa viagem. Seguimos para Macau coma velocidade de 13 milhas por hora, fundeando na rada pelas 10h 45m. O governador organizou em nossa honra um passeio a Colovane, no qual tomaram parte as principaes auctoridades e famílias de Macau, talvez mais de duzentas pessoas, que para ali seguiram na lancha Macau e em três outras lanchas a vapor. A nossa visita a Colovane foi interessante, por se verem ali ainda em ruinas muitas casas contra as quaes a lancha Macau teve de fazer fogo no seu ataque aos piratas. Por essa ocasião prestou aquella lancha relevantes serviços. Démos um passeio pelas ruas da povoação e realisaram.se u lunch e uma regata de embarcações chinas.
Tivemos noticias de dois tufões que das Filipinas se dirigiam ara costa da China, o que nos obrigou a demorar a nossa partida para ali. No mez de setembro os tufões são muito frequentes e pouco dias se passa sem que os observatórios anunciem aquelles temporaes. Já foi difícil o regresso a bordo e o dia 26 amanheceu com chuva, vento, e mau aspecto, motivo pelo qual resolvemos deixar a rada para procurar melhor fundeadouro, logo que possível fosse. Vieram para bordo n´uma lancha quatorze presos, entre eles os piratas de Colovane, (3) que a requisição do governador da província devíamos conduzir a Timor e Moçambique. O transbordo da lorcha para o navio fez-se com dificuldade n´uma das nossas embarcações e foi impossível receber-se os volumes pesados. Ás 3h  30m suspendemos e  fomos procurar o abrigo na bahia de Castle Peak, ao norte da ilha de Lantao, o melhor fundeadouro próximo, onde ancorámos pelas 6h da tarde em 5 braças de fundo com 45 m de amarra. Na tarde do dia 27 seguimos para Hong Kong, onde amarrámos às 5 horas a uma boia das docas de Kowloon, depois de ter salvado ao almirante americano. Fui agradecer os cumprimentos ao Tamar, navio chefe inglez, e ao New York, americano, a bordo do qual fui convidado a tomar parte n´um tea oferecido pelo comandante Lee Jayne a varias senhoras da colonia americana de Hong Kong.
(1) Ver anteriores referências a este diário em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cruzador-s-gabriel/
(2) O cruzador «S. Gabriel» de 1 838 toneladas passou por Macau na viagem de circum-navegaçao que estava efectuando sob o comando do Capitão António Aluízio Jervis de Atouguia Ferreira Pinto Basto. Chegou a esta cidade a 7 de Agosto de 1910. Esteve depois estacionado em Hong Kong para proceder às reparações indispensáveis depois de um alonga viagem. Segundo O Capitão Pinto Basto, Hong Kong que estava a meio caminho da sua viagem, oferecia as melhores facilidades para as reparações (“ docas e oficinas e o pequeno custo da mão d´obra”)
(3) 01-08-1910 – A bordo do Cruzador «S. Gabriel», seguem vários indivíduos condenados a degredo, e o antigo farol de rotação da Fortaleza da Guia, que foi destinado ao Museu da Marinha.” (SILVA, Beatriz Basto da BBS Cronologia Vol. 4, 1997)
Os piratas sequestradores de Coloane, foram julgados em Novembro de 1910 e condenados a 20 anos de prisão em degredo.
A. J. Pinto Basto não refere no seu diário o transporte do antigo farol da Fortaleza mas assinala o seguinte:
Nos primeiros dias de setembro estive em Macau, a convite do governador, com quem visitei as novas e bem instaladas baterias de 15 cm Krupp, perto do farol da Guia , e o novo aparelho lenticular do mesmo farol illuminado actualmente por um candieiro de quatro torcidas. O farol antigo, o primeiro da costa da China, era também de rotação e movido por um machinismo de madeira muito curioso.”

09-09-1607Tentativa holandesa para atacar e tomar Macau: oito navios holandeses, o “Orange” (capitânea), o “Maurício”, o “Erasmo”, o “Eunhice”, o “Delft”, o “Pequeno Sol”, o “Pombinha” e um iate, com uma tripulação de 551 homens e comandados pelo almirante Cornelis Matelieff, foram escorraçados das águas de Macau, por seis navios portugueses, tendo o inimigo perdido uma das naus e o iate” (1). “Assim se gorou a tentativa de impedir a largada da Nau do Trato para Nagasaqui” (2) (3) (4)

“Mauritius”, desenho de Hendrick Cornelisz em 1600
https://en.wikipedia.org/wiki/Cornelis_Matelief_de_Jonge

Na verdade nesse dia não houve batalha naval e explica-se pelo seguinte:
O almirante Cornelis Matelieff de Jonge (5) e a sua armada chegaram ao rio das Pérolas no dia 28 de Agosto de 1607, fundeando ao largo onde pudesse avistar a cidade de Macau, O capitão aguardou pela resposta a uma carta que enviou ao Mandarim de Cantão solicitando-lhe autorização para se dirigir para lá com os seus navios. Mas este (muito possivelmente subornados pelos portugueses) não lhe respondeu. No dia 9 de Setembro os seis navios de alto bordo portugueses acompanhados por três fustas (6) navegaram em direcção à armada holandesa e aguardando ventos mais favoráveis para atacar. Ao amanhecer do dia 10 de Setembro, o “Eendracht” encalhou e o “Erasmus” acorreu em seu auxílio para não ser assaltado pelos fustas portugueses. Como não foi possível desencalhar o “Eendracht”, Matelieff deu ordem para que fossem retiradas dele a artilharia e a guarnição e provavelmente para que fosse queimado. Nessa noite devido à inferioridade numérica da armada holandesa e o facto de os navios holandeses já terem a bordo carga valiosa, o capitão decidiu não dar combate aos portugueses, tenho partido no dia seguinte. Ainda foram perseguidos pela armada portuguesa que desistiu da perseguição nos dia 12, já que os galeões portugueses tinham menor velocidade e menor capacidade para bolinar. (7)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) PIRES, Benjamin. V.- Taprobana mais além… presenças de Portugal na Ásia, 1995. p. 234,  in SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 2015, p. 67.
(3) Saturnino Monteiro tem outra opinião: “Naquela cidade (Macau) estava, nessa altura, preparando-se para seguir para o Japão, a nau de André Pessoa, que ali tinha chegado acompanhada por cinco dos galeões que haviam combatido com os holandeses em Pulo Butum. É de supor que, por intermédio de navios vindos de Chinchéu, os portugueses tenham sido informados da presença da armada holandesa no estreito da Formosa, o que os levou de imediato a sustar a saída da nau, que, por este facto, acabou por deixar a monção, ficando sem efeito a viagem ao Japão.“
MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa Volume V (1604-1625), 1994.
(4) Foi a 3.ª tentativa dos holandeses invadirem Macau após os primeiros navios holandeses terem aparecidos na costa de Macau em 1599: a 1.ª tentativa foi em 27 de Setembro de 1601; a 2.ª em 30 de Julho de 1603 e a 3:º em Setembro de 1607. Em 1609, os holandeses tomam parte de Ceilão e estabelecem a primeira feitoria no Japão e em, 1610, devida à intriga holandesa, dá-se o fim do comércio de Macau com o Japão, embora o corte não fosse definitivo. Há uma nota datada de 1620:
28-07-1620 – Foi atacado por holandeses o patacho S. Bartolomeu, capitaneado por Jorge da Silva, quando seguia na sua viagem para o Japão. Os negociantes que iam nela prometeram construir uma ermida a Nossa Senhora da Penha de França, no caso de saírem salvos do ataque, promessa que cumpriram, entregando a sua oferta ao prior do Convento dos Agostinhos, Simão de Santo António e ao Procurador do mesmo Convento, Fr. Aurélio Coreto”. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 1, 1997).

Retrato de Cornelis Matelief de Jonge, pintura de Pieter van der Werff, c. 1700
Propriedade de Rijksmuseum

(5) Cornelis Matelieff de Jonge,(1569-1632) almirante holandês ao serviço da “Companhia Holandesa das Índias Orientais” (formada em 1602, dois anos depois da formação da “Companhia Inglesa das Índias Orientais” com o objectivo de conquistar supremacia face a ouros países europeus da rota comercial com o Oriente.), recebeu instruções de conquistar Malaca aos portugueses, mas a armada de Matelieff foi afugentada do estreito de Malaca pela esquadra do vice-rei D. Martim Afonso entre 17 a 24 de Agosto de 1606 (Batalha do Cabo Rachado). Mas por um erro estratégico do vice-rei (divisão da armada em duas esquadras) entre 27 a 28 de Outubro de 1606, deu-se a Batalha da Ilha das Naus, uma das mais importantes da História marítima portuguesa (marca a decadência de Portugal como a grande potência naval no Oriente) em que a armada holandesa impôs uma severa derrota aos portugueses.. Posteriormente, de 8 a 13 de Dezembro de 1606, deu-se a Batalha de Pulo Butum em que a esquadra de D. Álvaro de Meneses derrotou Matelieff, repondo o equilíbrio naval existente na altura.
MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa Volume V (1604-1625), 1994.

A armada de Matelieff, desembarcando tropas em Malaca, em 1606
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cornelis_Matelieff_de_Jonge

(6) Embarcação comprida, de fundo chato, de vela e remos, de um ou dois mastros.
(7) “Setembro de 1607. — O Almirante Cornélio Metelieff tinha partido para ir soccorrer Ternate em 3 de Maio de 1607 com uma frota de oito navios; o Orange (capitanea), o Mauricio, o Erasmo, o Enchuise, o Delft, o Pequeno Sol, o Pombinho, e um hiate — com uma tripulação de 5 5 1 homens, sendo 4S1 brancos e 50 negros. Depois de ter estado,sem conseguir grande cousa, em Tidore e em Ternate, e construído com grande difficuldade um forte n’este ultimo logar, seguiu MateliefF para os mares da China em 29 de Junho do mesmo anno de 1607.
Não é meu propósito dar conta do que aconteceu n’esta viagem, porque brevemente a transcreverei n’estes Annaes, devidamente traduzida. E, por isso, basta indicar, por agora, que Metelieff chegou a 28 de Agosto ao rio de Cantão, e que, depois de longas negociações com os mandarins, que o cançaram com os costumados subterfúgios e lentidões desesperadoras da diplomacia chineza, teve em 9 de Setembro seguinte de fazer frente a 6 navios portuguezes sahidos de Macau.
Estavam os hollandezes fundeados junto á ilha de Lenteng-Van ou Lin-Tin. Fez o almirante falia aos marinheiros e preparou-se para o combate. Mas isso não impediu que a frota holandeza fugisse vergonhosamente de vir ás mãos com os portuguezes até que, no dia 12, se afastaram das aguas de Macau, depois de terem perdido um navio, o vacht que acompanhava a esquadra, e que foi mettido no fundo pelos próprios hollandezes, segundo diz a narrativa por elles feita. Com mais alguma determinação da parte dos portuguezes, os tres grandes navios ficariam prisioneiros e poderiam os nossos entrar em Macau com mais esse tropheu de victoria alcançada contra esses corsários que nunca conseguiram apoderar-se da cidade do Santo Nome de Deus em todas as repetidas tentativas que para isso fizeram.
Hollandezes contra Macau”Ta Ssi Yang Kuo Archivos E Annaes Do Extremo Oriente Portuguez 1899-1900 Série I – Vols. I e II, edição 1984, pp. 255-256.