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Continuação da leitura do livro “CHRONICA PLANETARIA (Viagem à Volta do Mundo) ” de José Augusto Correa, publicado em 1904 (1), referido em anterior postagem (2)

“Á noite animam-n´o as casas de tan tan, onde a jogatina é desenfreada. Esta parte da cidade abunda em pateos, que no Porto têm o nome de ilhas, e no Rio de Janeiro o de cortiços; becos sem sahida, onde se aglomera e amontôa uma população miserável e infecta. Foi aqui que a cólera-morbus estabeleceu o seu quartel – general, estendendo as suas devastações ao bairro europeu, onde já tem ceifado muitas vidas, especialmente no elemento estrangeiro. No dia seguinte ao da minha chegada morreram de cólera dois soldados brancos da guarnição. A cidade, aparte o bairro chinez, é edificada sobre cinco pequenas colinas; Guia (a maior), Penha de França, Mong-há, D. Maria, S. Francisco e Gruta de Camões, cobertas de abundante arvoredo. Os valles que as separam são formosas avenidas bordadas de luxuriante vegetação. O clima é relativamente ameno, especialmente comparado com o das cidades vizinhas. Os hotéis teem fogões nos quartos, signal de que os invernos são rigorosos.

Os macaenses, typo moreno e sympathico, orgulhosamente de ser os mais patriotas dos portuguezes, porque nunca se entregaram a Hespanha, durante os setenta anos do seu domínio sobre Portugal. Por isso a sua Camara Municipal chama-se Leal Senado. Este profundo patriotismo parece, todavia, modificado nos últimos tempos, não por culpados filhos da terra, mas sim dos governos portuguezes contemporaneos , que esqueceram por completo, as gloriosas tradições que fizeram o lusitanos de outr´ora, o primeiro povo colonizador do mundo. Fallei com muitos filhos de Macau, n´esta e nas cidades de Cantão e Victoria, a bordo dos vapores, queixando-se todos amarga e violentamente do abandono, da negligência e especialmente dos vexames das auctoridades portuguezas.Frequentemente são para alli mandados funcionários que não estão á altura dos seus cargos, por vários motivos, do que resulta o aumento da repulsão que os naturaes começam a sentir pela metropole. Ainda nos últimos tempos o caso do major Bragança, que esbofeteou um macauense, traz indignados os leaes portuguezes. (…) 

O bairro chinez é interessantíssimo pela originalidade de todo e pela sua grande, extraordinaria animação, especialmente à noite, com as casas de jogo muito bem illiminadas interior e exteriormente. O mercado de fructa, á luz de candieiros de petróleo e de copinhos de papel de seda colorido, é tudo quanto no género há de mais curiosos. O principal rendimento de Macau é fornecido pelas casas de jogo. Na cidade há muitas fortunas particulares, principalmente de chinezes que enriquecem no seu paiz e veem viver para Macau, felizes e tranquilos na suavidade das leis portuguezas, comparadas com as leis e costumes chinezes. O Leal Senado deve olhar um pouco mais para o bairro china, que é imundo e fétido. Não lhe faltam recursos para melhoramentos locaes, porque além de provêr às suas e às necessidades de Timor, ainda lhe sobra dinheiro. (…) ………continua

(1) CORREA, José Augusto – Cronica Planetaria (Viagem à volta do mundo), 2.ª edição. Editora: Empreza da História de Portugal, Lisboa, 2.ª edição, 1904, 514 p. Illustrada com 240 photogravuras; 15,5 cm x 21 cm.

 (2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2020/07/04/leitura-chronica-planetaria-de-jose-augusto-correa-i/

O livro “CHRONICA PLANETARIA (Viagem à Volta do Mundo) ” de José Augusto Correa, (1) publicado em 1904 (2) é um relato de viagem à volta do mundo que o autor começou em Lisboa, no dia 15 de Março de 1902 na estação do Rossio:

Partida da estação central do Rocio, Lisboa, às 11 horas e 6 minutos da manhã de sábado, 15 de Março de 1902. Dia esplendido e sol. Em seguida aos abraços de despedida e á grata operação de fotografar o grupo de amigos que compareceram, dissemos, o Soares e eu, um último adeus á cidade amada de Herculano. (…)

e terminou na mesma cidade, a 19 de Setembro de 1902: A 7 de setembro e ao som de hymnos festivaes que saudavam a aurora anniversaria da independencia do Brazil, (…) deixei o solo paraense para bordo do «Jerome», que em doze dias me transportou à formosa cidade de Ulysses, termo, como fôra princípio, da minha viagem circular planetária.

Exemplar encadernado, com lombada em pele, bem encadernada., mas com desgaste (contornos das capas)
Exemplar com uma dedicatória do autor numa folha incorporada antes da folha de rosto,  “offerece José Augusto Correa, Lisboa, 24 de Fevereiro de 1905

Da estadia em Macau de 20 de Junho a 22 de Junho, o autor descreve-o nas páginas 352 a 362 (III Parte- De Alexandria a Hong Kong pp. 251 a 1370)

Infelizmente das 240 fotogravuras que o livro apresenta, somente uma foto (a Praia Grande) é de Macau.

20 de Junho – Entre as três próximas cidades: Vistoria (Hong Kong), Macau e Cantão, há uma regular carreira de vapores de roda, som serviço de restaurante. Em três horas de bôa marcha, vence-se as quatro milhas que separam Hong Kong, isto é, a China inglesa, de Macau, a China portugueza.

Foi por uma tarde límpida e formosa que avistei o pharol da Guia, e a linda capellinha contigua, a alvejar por entre a ramaria. Apparece depois o bello quartel mourisco, hoje, hospital de colericos, (3) a monumental fachada de S. Paulo, os campanarios de S. Lourenço, toda a magnifica edificação da Praia Grande, d´entre a qual sobresahe o palácio do governador, e no extremo oposto o hotel-sanatorio da Boavista, elevado no meio de um caracol maravilhosamente pittoresco. Todo este conjunto impressiona encantadoramente o forasteiro que pela primeira vez aporta à cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

O porto, d´este lado da minúscula peninsula, é inacessível a embarcações de alto bordo. É preciso dobrar a ponta da Boavista e ir fundear no porto interior, que defronta o bairro chinez. Este é extenso mas sujo, com exterior apparencia de remota antiguidade. (…)   …………………. continua.

(1) José Augusto Corrêa nasceu em Vigia (Vigia, também chamada de Vigia de Nazaré, é um município brasileiro do estado do Pará) mas passou a maior parte do tempo na Europa sobretudo em Lisboa e Paris. Era da Academia de Ciências de Portugal e editou várias obras de caráter teológico, filosófico e literário entre 1894 e 1926. Na sua obra “Crônica Planetária”, de 1902, Augusto Corrêa escreveu sobre sua passagem pela terra natal em agosto do referido ano: “22 de Agosto de 1902,- eram nove horas e meia da manhã quando pisei o sólo da pátria idolatrada, (Belém – capital de Pára) depois de uma ausência de vinte e sete anoshttps://www.culturavigilenga.com/copia-biografias

(2) CORREA, José Augusto – Cronica Planetaria (Viagem à volta do mundo), 2.ª edição. Editora: Empreza da História de Portugal, Lisboa, 2.ª edição, 1904, 514 p. Illustrada com 240 photogravuras; 15,5 cm x 21 cm

(3) O “hospital de colericos” (sic)  – Hospital (militar) de Sam Januário foi construído em 1872, destinado a militares, nunca foi quartel mourisco, nem foi para doentes com cólera. De 1896 a 1901 houve uma epidemia de peste bubónica em Macau (e arredores) e em 1902 surgiu uma epidemia de cólera em Cantão : “15-03-1902 – O B. O. acautela para a necessidade de tomar medidas preventivas face à epidemia de cólera que grassa na província de Cantão. O B. O. n.º 30 considera-a já extinta” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia de História de Macau, Volume 4, 1977)

A «Gazeta de Macau e Timor, (1) noticiava a partida no dia 30 de Abril de 1873, da cidade de Goa para Macau, do brigue «Concordia», levando a bordo 41 praças mouras para a polícia de Macau, requisitadas pelo governador Visconde de S. Januário, sob o comando do tenente José dos Santos Vaquinhas (2) e de um sargento europeu.

«Gazeta de Macau e Timor», I- 37 de 3 de Junho de 1873

O mesmo jornal de 17 de Junho, (3) dava a notícia da chegada breve a Macau do brigue, por notícias de Penang (4) onde fez escala (faria ainda outra escala em Singapura no dia 2 de Junho). Noticiava ainda que os mouros seriam alojados no novo quartel em S. Lázaro. (5) O brigue «Concordia» chegou a Macau no dia 17 de Junho de 1873

«Gazeta de Macau e Timor», I- 39 de 17 de Junho de 1873,

(1) «Gazeta de Macau e Timor», I- 37 de 3 de Junho de 1873, p. 3

(2) José dos Santos Vaquinhas, tenente em 1873, da Guarnição de Macau e Timor, ocupa interinamente o cargo de Comandante do Posto Militar da Taipa e Coloane, que se encontrava vago em Março de 1874. Nomeado comandante militar da Taipa e Coloane de 04-06-1874 a 30-06-1874 e depois já Major, segundo comandante da guarda policial de Macau, em 1883. Em 1888, como inspector dos incêndios, foi nomeado responsável pelas operações sanitárias devido ao surto de “cólera morbus” declarado a bordo do transporte de guerra “Índia”, e ficou contagiado, falecendo em 1888, na sequência de complicações de ordem cerebral (6)

José dos Santos Vaquinhas tem vários artigos sobre Timor (história da colonização, usos e superstições, etc) que foram publicados entre 1881 a 1887 no «Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa», de que era correspondente. Ver anteriores referências de José do Santos Vaquinhas https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-dos-santos-vaquinhas/

(3) «Gazeta de Macau e Timor», I- 39 de 17 de Junho de 1873, p. 2

(4) Penang é um estado da Malásia, geograficamente dividido em duas partes: ilha de Penang (Pulau Penang) e Seberang Perai (estreita faixa no continente malaio)

(5) Terá sido um alojamento (casa) provisório até ser construído um novo quartel, o chamado «Quartel dos Mouros”, que foi inaugurado em 15-08-1874, na Barra. (7) O novo edifício especificamente destinado a aquartelar a companhia de mouros do Corpo da Polícia de Macau, foi construído segundo o projecto do arquitecto italiano Cassusso. Em 1905 foi transformado para nele se instalarem a Capitania dos Portos e a Polícia Marítima. (87)

(6) “16-08-1888 – Vindo de Hong Kong com tropas portuguesas em trânsito, chegou à Baía de Cacilhas o transporte de guerra Índia, tendo-se declarado a bordo «cólera morbus”, contraída na colónia britânica. De 20 de Agosto a 9 de Setembro fez-se um cordão sanitário com centro de operações na Guia, para isolar aquela zona. O responsável Major José dos Santos Vaquinhas, inspector de incêndios, acabou por ser contagiado e morreu, na sequência de complicações de ordem cerebral e apesar do seu caso ser inicialmente de cólera benigna.” https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/08/16/noticia-de-16-de-agosto-de-1888-pandemia-de-colera-morbus/

(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/quartel-dos-mouros/

(8) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

Certificado de vacinação dos Serviços de Saúde de Macau, com o n.º 320802

Vacinação Anticolérica no dia 03/06/1954. Nessa época a vacinação anticolérica era obrigatória nos anos em que a cólera era frequente, principalmente nos meses de maior calor e a vacina era válida para três meses. Ainda me lembro já na década de 60 (século XX) a vacinação na via pública – a polícia “fechava” uma vida pública e todos aqueles que não estavam vacinados ou não apresentavam o Certificado de Vacinação válido, eram logo aí vacinados por uma equipa de enfermeiros dos serviços de saúde.
Muito obrigado à minha amiga Leonor que me cedeu uma digitalização deste certificado.

Em Fevereiro de 1918, registaram-se, em Macau, alguns casos da epidemia de meningite cerebro-espinal, vinda de Hong Kong por contágio de forças australianas em trânsito para o teatro da guerra em França” (1)
A doença “Meningite Cerebro-Espinal” afectou as tropas australianas estacionadas nos campos rurais na cidade de Victória em 1915 e espalhou-se para todos os estados da Austrália em 1916 e 1917, determinando medidas de isolamento e quarentena em toda a Austrália.
meningite-cerebroespinal-1918-iEm 1934, na revista científica médica, (2) William W. Cadbury publicou um artigo “Epidemic Cerebrospinal Meningitis in China” em que apresentava um quadro com a incidência da meningite cérebroespinal (números de casos e de mortes) em cinco cidades da China, de 1918 a 1932. Em 1918, Macau teve quatro casos de meningite (dados recolhido do relatório de Dr. Peregrino da Costa de 1932). (3)
meningite-cerebroespinal-1918-iiUm das primeiras epidemias meningiocócica na China foi em 1918. (4)
O primeiro caso foi declarado em 9 de Fevereiro de 1918 em Hong Kong mas provavelmente teria havido casos em Janeiro. A máxima incidência ocorreu em Março depois um decréscimo rápido durante o mês de April. Reportaram-se 1 232 casos com uma mortalidade de 76 %. (968 mortes) Durante este período nenhum caso foi declarado oficialmente  em Cantão mas durante o ano de 1918, 1 caso fatal num Hospital em Cantão. (5)
Nos anos seguintes, os casos diminuíram em Hong Kong (nenhum caso em Macau) verificando-se novo aumento progressivo a partir de 1926.  Nova epidemia,  em 1932, que se iniciou no distrito vizinho de Chung San atingiu Macau e  a causa foi atribuída aos milhares de refugiados que foram para Macau, Hong Kong e Cantão devido ao ataque de Shanghai pelos japoneses.
Em Macau esta epidemia assumiu proporções (cerca de 600 casos  com uma mortalidade de 58%)  que vieram a ser detalhadamente descritos pelo Dr. Pedro J. Peregrino da Costa. (3)
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997.
(2) CADBURY, William W –  Epidemic Cerebrospinal Meningitis in China. American Journal of Public Helth and meningite-cerebroespinal-1918-iiiThe Nation´s Health Vol 24, September, 1934, Number 9
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1558731/pdf/amjphnation00920-0009.pdf
(3) COSTA, P. J. P. da – Relatório da Epidemia de Meningite Cerebro-Espinal em Macau.  Macau, 1932.
Relatório que mereceu o seguinte despacho do Encarregado do Governo, João de Magalhães de 15-06-1932 : «Aprecio muito este relatório do Sr. Dr. Peregrino da Costa, a quem louvo pelos seus relevantes serviços.» O relatório foi publicado no Boletim Oficial e foi traduzido em inglês, de que se tirou separata.
TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Volumes III-IV, 1998p.344
Dr. Pedro Joaquim Peregrino Francisco da Costa (1890) tenente-médico em 29-07-1916, embarcou para Macau a 9 de Outubro de 1916 tendo chegado a este território em 12 de Dezembro. Regressou a Portugal em 1919 e de novo foi colocado em Macau em 1920, chegou somente a 12 de Março de 1921. Entre outros cargos em Macau, foi director do Laboratório Bacteriológico e director dos Serviços de Saúde e Higiene da colónia. É também autor dos Relatórios da epidemia de cólera de 1937 e 1938. Reformado no posto de tenente-coronel em 1937, esteve em Macau 14 anos e 14 dias.
(4) Quarentena em Hong Kong
Public Health Reports (1896-1970),Vol. 33, No. 35 (Aug. 30, 1918), pp. 1470-1476
https://www.jstor.org/stable/4574878?seq=1#page_scan_tab_contents
(5) Em Macau, uma das medidas foi a construção em 13 de Março de 1918, de um pavilhão destinado ao isolamento e tratamento de doenças epidémicas, na Colina de D. Maria. Em 6 de Abril de 1918 foi publicada em Boletim Oficial, as medidas profilácticas contra a doença. (1)

No dia 5 de Maio de 1865, um grande incêndio na povoação da Horta da Mitra, em que 200 barracas de chineses foram devoradas pelas chamas. Provavelmente acidente provocado por panchões do Ano Novo Chinês (1) (2)
O bairro da Horta da Mitra ou do Bispo estava mais ou menos limitado pela Rua do Noronha e por parte das Ruas de Henrique Macedo, de Tomás da Rosa, de Horta e Costa, da Colina e Nova à Guia.
Ficavam situadas dentro deste bairro as Ruas da Cal, da Mitra, (3) da Surpresa, de Dezoito de Dezembro, parte das Ruas de Tomás da Rosa e de Henrique Macedo, as Travessas do Mercado Municipal e de S. João, bem como o largo do Mercado Municipal e o Mercado da Horta da Mitra. (2)
O bairro de Horta da Mitra (4) contígua ao bairro de Volong eram os locais mais salubres do território e devido aos problemas de higiene pública sofreram posteriormente alterações com o saneamento. No Bairro de Volong onde teve início o foco de infecção nas epidemias da peste e da cólera, foi expropriada por utilidade pública em 1894 e saneada. Tinha uma área de 200 hectares, limitado ao norte pela Estrada do Cemitério, ao sul pela Ferreira do Amaral, a leste pela Estrada da Flora e a oeste pela Rua de S. Lázaro. Em 1897 a área foi entregue ao Leal Senado e depois à Repartição de Obras Públicas para se proceder a obras de abertura das ruas, construção de canalização de esgoto e alicerces das casas particulares. O bairro de S. Lázaro também contíguo e um dos focos da epidemia da peste de 1896, seria saneado em 1900 (2)
(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, p. 468.
(3) Rua da Mitra: começa na R. da Colina, em frente da R. da Vitória e termina na R. do Noronha , entre a Travessa do Mercado Municipal e a Rua da Cal (2)
(4) Sobre Horta da Mitra, ver anteriores referências:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/11/11/postal-de-1940-mercado-municipal-da-horta-da-mitra/+
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/horta-da-mitra/n

Vindo de Hong Kong com tropas portuguesas em trânsito, chegou à Baía de Cacilhas no dia 16 de Agosto de 1888, o transporte de guerra “Índia”, tendo-se declarado a bordo «cólera morbus”(1), contraída na colónia britânica.
De 20 de Agosto a 9 de Setembro fez-se um cordão sanitário com centro de operações na Guia, para isolar aquela zona.
O responsável Major José dos Santos Vaquinhas, inspector de incêndios, acabou por ser contagiado e morreu, na sequência de complicações de ordem cerebral e apesar do seu caso ser inicialmente de cólera benigna.
Montaram-se lazaretos improvisados junto à Fonte dA Solidão, na Ilha Verde, na Taipa, e naturalmente em Cacilhas.(2)
Os lazaretos em Cacilhas, junto à Fonte de Solidão eram para os doentes mais graves, tendo ali morrido 32 empestados, curando-se 74; na Ilha Verde, a Casa de Campo do Seminário foi transformada em lazareto, a cargo do Dr. Augusto Tovar de Lemos;  a Igreja de N. Srª do Carmo da Taipa foi cedida para o mesmo fim. As vítimas foram sepultadas na Horta dos Mouros, junto ao Ramal dos Mouros.(3)
Por este motivo a zona da Horta dos Mouros e Mesquita dos Mouros, adjacente veio a estar interdita ao culto por 5 anos, durante os quais a comunidade muçulmana utilizou um terreno perto da Capitania dos Portos onde edificou, com um subsídio de 400 patacas concedido pelo Governo, uma Mesquita provisória.(2)
O combate à epidemia foi dirigida pelo Coronel, Dr. José Gomes da Silva, Chefe dos Serviços de Saúde. Quando declarou a doença «localizada e dominada», fez um relatório pormenorizado da epidemia, com o nome dos falecidos, publicado em Boletim Oficial – 1988, pp. 327-338.
Distinguiram-se, pela sua abnegada entrega as madres canossianas Teresina (Maria Teresa Lucian) (4) e Joana Biancardi. Ambas foram condecoradas pelo Governo Português, a 30 de Julho de 1897. (2)

(1) A cólera morbus (ou cólera asiática) é uma doença causada pelo vibrião colérico (Vibrio cholerae), que se multiplica rapidamente no intestino humano (o reservatório do vibrião é exclusivamente humano) produzindo uma potente toxina que provoca diarreia intensa. A sua transmissão é diretamente dos dejectos fecais de doentes por ingestão oral, principalmente em água contaminada. Embora existisse de forma endémica desde a antiguidade, na parte oriental da Índia e Bangladesh (delta do Rio Ganges), as grandes epidemias (as primeiras para África e Ásia e depois para todo o mundo) foram no século XIX, após 1820.
Em Macau já em 1862 teve uma epidemia, após ter passado por vários portos da China, tendo sido atacados indivíduos, entre chineses e portugueses, com 106 mortos.(2)
O cirurgião-mór da cidade, Dr. Lúcio Augusto da Silva, fez nesse ano, uma descrição desta doença no “Relatório Sobre a Epidemia de Cólera-Morbus em Macau
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9).
(3) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume II Rua com Nomes de Pessoas. Instituto Cultural de Macau, 1997, 667 p. ISBN 972-35-0244-5
(4) Foi dado o seu nome a uma rua de Macau: Rua da Madre Terezina: começa na Av. Do Coronel Mesquita e termina na Estrada de Fernão Mendes Pinto. A Madre Maria Teresa Lucian (1845 -1909), italiana, veio para Macau em 1869 e nomeada em 1878 superiora da nova Casa de Beneficência, no Largo de Camões (demolida em 1981). Em 1896, foi eleita superiora da Comunidade Canossiana de Macau (quando esta se separou da de Hong Kong)
Segundo Padre Teixeira (3) ao receber a medalha de prata em 1907, a Madre Lucian teria comentado «Se em vez duma medalha, me dessem um hábito novo, ser-me-ia mais útil». Baptizou por suas mãos mais de 15 000 crianças.

NOTA FINAL: Destacou-se também nessa epidemia de cólera em Macau, o médico João Jacques Floriano Álvares (Goa, 1819 – Macau, São Lourenço, 1885) e por isso foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, pelos serviços prestados durante a epidemia.
Médico pela Escola Médico-Cirúrgica de Goa (Carta de 11 de Junho de 1849), Físico da Guarda Policial de Macau e Cirurgião-Ajudante e depois Cirurgião-Mor do Batalhão Nacional de Macau (1872).
Casou em Macau, na Sé, a 7 de Junho de 1853 com Ana Maria Brandão Gomes (1833 – Macau, São Lourenço, 1912)  , uma macaense, com linhagem goesa, de quem teve doze filhos e filhas.
FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Vols I e II. Fundação Oriente, 1.ª Edição, 1996.

Medo não é temor dos piratas no Rio de Oeste
nem dos tufões no mar.

Não é receio dos tiros, pela noite,
No rio povoado de lorchas e traições;
nem o susto dos enforcados,
Ao luar branco,
No mangal da Areia Preta.

Medo não é terror da guerra,
nem da fome, nem do cólera,
Nem das chagas dos leprosos
na Ilha de D. João:
Não é suspeita
De que a morte espreita,
Continuadamente,
E nos levará.

Medo não é contágio da tristeza
Quando a tarde tomba
E o ocaso ensaguenta
O mar de água barrenta,
As terras e o céu,
Até as ilhas serem tragadas pelo negrume
E as montanhas pelo escuro,
E nada restar senão a treva
E os gritos que atravessam a noite,
Vindos não sei donde,
Para não sei onde.

Medo não é temor das ciladas
Nem dos punhais,
Nem dos beijos vermelhos que enganam
e sorvem lentamente as vidas …

Medo é este pavor de que tu partas
E me deixes só

Joaquim Paço d´Arcos
(Do livro “Poemas Imperfeitos”) (1)

Na continuação do post anterior dedicado a Joaquim Paço d´Arcos ( POESIA – FOI NUMA TERRA DISTANTE NA COSTA DA CHINA), este veio para Macau com os pais e irmãos (de S. Francisco a Hong Kong em 1919 no navio “Persia Maru” e de Hong Kong para Macau na canhoneira «Pátria», a 22 de Agosto de 1919, num dia de tufão.
Refere o mesmo:
“Demandei Macau em noite negra de tufão, na companhia do padre Jerónimo, ao qual fiquei talvez devendo a vida, pelas promessas que fez aos bom Deus se nos salvasse. O bom Deus ouviu a sua voz, cristã  e humilde, porque a minha, de pobre pecador, nenhum valor teria…” (2) (pp. 283-284)
NOTA: O Padre Manuel Pereira Jerónimo (1858-1940) que foi  missionário em Timor (1896-1918)  ficou imortalizado no livro de Joaquim Paço d´Arcos, sendo uma das personagens do seu romance “Amores e Viagens de Pedro Manuel” (1935). Figura grotesca, “com uma bizarria da sua personalidade onde havia tudo á mistura: ignorância, anseio de saber, génio, sonho, loucura“, conforme afirma Joaquim Paço d´Arcos, trabalhava nos campos da aldeia onde nasceu (lugar de Balouca, freguesia de Monte Redondo, Leiria), sem ter frequentado a escola, é trazido aos 28 anos de idade (1886) para Macau, pelo Bispo de Macau, D. António Joaquim de Medeiros, como criado particular. Em Macau, aperfeiçoou os seus conhecimentos frequentando as aulas no Seminário de Macau. No entanto tinha dificuldade em memorizar as declinações e conjugações da gramática latina mas com a proteção do Prelado da Diocese foi ordenado padre a 16 de Novembro de 1894. No entanto a sua fealdade e injusta fama de bronco, não permitiu que fosse padre em Macau tendo sido enviado para Timor (3) onde exerceu a sua vocação sacerdotal com uma doação total às missões de Timor. O fim deste grande missionário foi trágico; terá falecido a 4 de Maio de 1940, louco,  perto de Leiria.
Outro conto de Joaquim Paço d´Arcos “Do Niagara a Victoria Falls” tem também como personagem o Padre Jerónimo (4)
(1) PAÇO D´ARCOS, Joaquim. Poemas imperfeitos. Lisboa, Edições Sit, [19–].,144 p. ; 20 cm
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Liceu Nacional Infante D. Henrique, Jubileu de Diamante (1894-1969). Macau Imprensa Nacional, 1969, 291 p. + |VI|, 20,4 x 15,1 cm
(3) http://forum-haksesuk.blogspot.pt/2009/11/padre-manuel-pereira-jeronimo-1858-1940.html.
(4) http://www.novacidadania.pt/content/view/503/67/lang,pt_PT/