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Faleceu a 14 de Julho de 1870, dum ataque repentino que o privou dos sentidos, o padre Jorge António Lopes da Silva, nascido em Macau, em 8 de Maio de 1817. Foi muito estimado por toda a população, tendo recebido, em Manila, aos 24 anos de idade a sagrada ordem de presbítero. Na volta a Macau, regeu a cadeira de Português, no Colégio de S. José e abriu, em sua casa, uma escola, donde saíram alguns padres e muitos guarda-livros. Foi depois convidado, pela Câmara Municipal para exercer a cadeira de professor de liceu, que fora então aberto, em Macau (1)
Não foi professor de liceu pois não havia ainda liceu em Macau. O Senado de Macau convidou a 14 de Abril de 1847 o Padre Jorge António Lopes da Silva para ser um dos primeiros mestres da futura Escola Principal de Instrução Primária. (2) O Padre respondeu a 27 do mesmo mês que aceitava ser um dos mestres das primeiras letras com o ordenado de 350 patacas anuais, pondo no entanto as seguintes condições: 1) levar consigo os meninos que estudavam em sua casa; 2) os requerimentos para admissão deveriam ser dirigidos não a ele, mas ao Senado; 3) que se alterasse o horário de inverno, pois o tempo do meio-dia às 2 horas lhe parecia curto para descanso de professores e alunos”, O Senado concordou e o Padre Jorge foi nomeado director e mestre da Escola Principal de Instrução Primária que foi inaugurada a 16 de Junho de 1847. A Escola ficou instalada em metade das casas do Recolhimento de S. Rosa de Lima. (3) (4)
A 14 de Junho de 1847, dois pretendentes oficiaram ao Senado: José Vicente Pereira oferecendo-se para mestre de inglês e francês dessa escola e John Hamilton pedindo-lhe um lugar de professor; a 22 de Novembro de 1847, o Senado comunicou ao Padre Jorge a nomeação de José Pereira e perguntando-lhe se carecia de mais outro professor. A Escola compreendia 3 cadeiras: uma de ensino primário, a cargo de Joaquim Gil Pereira, outra de português a cargo do Padre Jorge Lopes da Silva e outra de inglês e francês a cargo de José Vicente Pereira (3)
Apesar do seu limitado pessoal chegou a ter mais de 300 alunos.
Em fim de 1853, o Padre Jorge António Lopes da Silva pediu a demissão de director e mestre da escola. (5) Para a direcção da Escola foi nomeado o Padre Vitorino José de Sousa Almeida (6) que ficou só um ano pois o Senado teve de o despedir, ou por ter achado nele inaptidão ou por sua severidade pois que no cabo de um ano, estava deserta a aula das línguas portuguesas e latina.

Planta da Colónia Portuguesa de Macau
1870
Desenhada  por M. Azevedo Coutinho (7)

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) A 27 de Janeiro de 1847, o Senado de Macau oficiou a José Vicente Jorge, Francisco António Pereira da Silveira, Francisco João Marques e Padre António José Victor, comunicando-lhes que haviam sido nomeados para fazer parte duma comissão a fim de elaborar um plano de educação para a mocidade deste estabelecimento. A Escola Principal de Instrução Primária foi fundada pelo Senado de Macau por meio de uma subscrição pública. O  Senado comunicou a João Maria Ferreira do Amaral, governador de Macau entre 1846 e 1849, a 17 de Fevereiro de 1847 que
deliberou com os eleitos das freguesias  solicitar dentre os moradores abastados desta Cidade
Huma subscrição, cujo produto incorporado ao Capital agora existente de $ 5 000 (doado pelo inglês james Matheson feita a Adrião Acácio da Silveira Pinto, governador de Macau de 1837 a 1843), constitua hum fundo capaz de produzir hum rendimento, que junto  ao que este Senado agora despende com a sua escola de primeiras letras seja sufficiente para cubrir as despezas de huma Escola Principal de Instrução Primária: e na qual … se ensine também as línguas Ingleza e Franceza, cujo conhecimento he hoje reconhecidamente de suma utilidade, senão indispensável neste pais”. (3)
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982
(4) Em Abril de 1849, a escola foi transferida para o Convento de S. Francisco; mas a 28 do mesmo ano, o Conselho de Governo comunicou ao Senado que, tendo de aquartelar nesse convento a força auxiliar vinda de Goa, a escola devia ser mudada para outro lugar; regressou então ao Recolhimento. (3)
(5) Segundo artigo publicado no «Echo do Povo» n.º 68 de 15-07-1960, o Padre Jorge Lopes da Silva rdeixou a direcção que ocupava porque obrigaram-no a aceitar o vicariato de S. Lourenço. Foi portanto, nomeado pároco de S. Lourenço e a 5 de Fevereiro de 1866, foi nomeado Governador do Bispado. O Padre Jorge Lopes da Silva foi nomeado em 1867 presidente duma comissão encarregada de estudar as necessidades da Santa Casa de Misericórdia, nomeadamente do recolhimento das raparigas abandonas à porta da Santa Casa, que levou posteriormente ao decreto do Governador José Maria da Ponte e Horta à abolição da Roda dos Expostos da Santa Casa, a 2 de Fevereiro de 1867.
(6) Padre Vitorino José de Sousa Almeida chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 no Novo Paquete. Foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852. (3)
(7) Ver referência a este Capitão em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/08/22/noticia-de-agosto-de-1952-clube-militar/

Um artigo publicado em 1866 no “The Illustrated London News” (1) intitulado

EXTERIOR AND INTERIOR OF THE THEATRE AT MACAO”

Baseado em duas pinturas de Eduard Hildebrandt (de 1842), (2) o redactor do artigo tece considerações sobre o funcionamento dum teatro chinês (será mais um “AUTOCHINA”) (3) com palco armado ao que parece na Barra à frente do templo de Á Má.

“THE THEATRE AT MACAO” por  E. HILDEBRANDT (4)

“INSIDE OF THE THEATRE AT MACAO” por E. HILDEBRANDT

(1) «The Illustrated London News», 1866, 17 MARCH 1866, p.264
(2) Ver anteriores referências a este pintor alemão Eduard Hildebrandt  (1818-1869):
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/02/04/noticia-de-4-de-fevereiro-de-1865-baile-e-ceia-no-teatro-d-pedro-v/

“A-Ma Temple, Macao” gravação duma pintura de Eduard Hildebrandt (1818-1869)

(3) “Chama-se em Macau auto china ao tradicional teatro chinês em que se representam cenas da história antiga e da mitologia do país. Consta de canto e palavras rítmicas, com acompanhamento de instrumentos e tantãs típicos “(BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977)
(4) A mesma pintura em diversas publicações está referenciada como

“Macao, Theater Sing Song”

Após 134 números, cessou no dia 26 de Abril de 1866, a publicação do hebdomadário «Ta Ssi Yang Kuo «, importante repositório de numerosos artigos de grande interesse para a História de Macau (1) (2)
António Felicinao Marques PereiraO semanário «TA-SSI-YANG-KUO», principiou a publicar-se  no dia 8 de Outubro de 1863 sendo seu fundador José Gabriel Fernandes, natural de Goa, e director, António Feliciano Marques Pereira. (3)  Deste periódico eram redactores entre outros, António Marques Pereira, José Gabriel Fernandes, Pereira Rodrigues, Castro Sampaio, Osório Cabral de Albuquerque e José da Silva e Meireles de Távora.(2)
O filho de António Feliciano Marques Pereira, João Feliciano Marques Pereira, inspirado no mesmo título, publicaria (com dedicatória à memória do seu pai) a revista “TA-SSi-YANG KUO” em 1899-1900. João Feliciano Marques Pereira explicaria no primeiro número (4)  a razão do título.
TA-SSI-YANG-KUO explicação 4 caracteresNOTA: A data de 26 de Abril de 1866 está referenciada em Luís G. Gomes e Beatriz Basto da Silva (edição de 1995) mas os mesmos autores na entrada da data “8-10-1863” referem que o semanário terminou a 22-04-1866.
08-10-1863 -Principiou a publicar-se o semanário TA SSI YANG KUO que terminou em 22 de Abril de 1866, sendo seu fundador José Gabriel Fernandes, natural de Goa e director, António Feliciano Marques Pereira.”(1)(2)
(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(3) António Feliciano Marques Pereira  nasceu a 1 de Junho de 1839 em Lisboa. Jornalista profissional, publicou vários romances em folhetins, além de traduções. Em 1859 partiu para Macau, onde se fixou, casando com  Belarmina Inocência Miranda. Em 1862, foi nomeado secretário da missão diplomática portuguesa às cortes de Pequim. Exerceu o cargo de Superintendente da emigração chinesa  e Procurador dos Negócios Sínicos da Cidade de Macau (1860-1869) (5). Foi membro honorário da Real Sociedade Asiática (inglesa) e cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição. Deixou publicadas as seguintes obras: «Ephemerides Commemorativas da História de Macau e das Relações da China com os povos christãos, 1868»; «Relatório da Emigração Chinesa do Porto de Macau, 1861» «Relatório acerca da atribuições da Procuratura dos Negócios Sínicos da Cidade de Macau …, 1867»; «As alfândegas chinezas de Macau, 1870»; « O Padroado portuguez na China, 1873».
Cônsul de Portugal em Sião de 1875, veio a falecer em 11 de Setembro de 1881, em Bombaim, como Cônsul-Geral de Portugal na Índia Britânica.(1)(2)
(4) PEREIRA, J. F. Marques – Ta-Ssi-Yang-Kuo, Série I (Vols. I e II), 1899-1900.
(5) Em 1869, demitiu-se do cargo de Procurador dos Negócios Sínicos que vinha exercendo desde Maio de 1860  com o fim de processar o redactor do «Eco do Povo» acusando-o de irregularidades. António Jorge da Silva e Sousa que foi redactor do «Eco do Povo» foi condenado, pagando uma multa de cinco mil patacas e custos do processo que ainda foi maior. (BARROS, Leonel – Homens Ilustres e Benfeitores de Macau, 2007)
Referências anteriores ao Ta-Ssi-Yang-Kuo em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ta-ssi-yang-kuo/

Em 11 de Setembro de 1851, foi regulamentada a prostituição em Macau,  limitando-se as residências das prostitutas às seguintes ruas:
A) Rua do Bazarinho, (1) Rua do Desfiladeiro, Travessa da Maria Lucinda, (2) Rua da Aleluia (3) e Rua de Mata-Tigre, todas no Bazarinho;
B) O sítio chamado Prainha ou Feitoria; (4)
C) O sítio do Chunambeiro; (5) e
D) Os sítios denominados Beco do Estaleiro, Travessa do Beco do Estaleiro, Beco da Praia pequena (6) e Beco do Armazém Velho.  (7)
GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

(1) Rua do Bazarinho que os chineses chamam de Soi-Sau-Sai-Kai (水手西街) isto é, Rua dos Marinheiros, a oeste, para distinguir doutra Rua dos Marinheiros, que ficava a sul. Chamava-se Bazarinho para o distinguir do Bazar Grande em S. Domingos. Começa na Travessa do Mata-Tigre, ao lado do Pátio da Ilusão, e termina na Calçada de Eugénio Gonçalves , quase em frente a Rua das Alabardas (hoje Rua da Alabarda)
(2) Viela de Maria Lucinda – “No princípio desta viela estava escrito «Desfiladeiro». – E, umas três portas depois, estava escrito – «Travessa de Maria Lucinda.». Era preciso suprimir um dos nomes, e por isso fundi-os ambos em Viela de Maria Lucinda porque em verdade é mais uma viela do que uma travessa este caminho Relatório elaborado por Manuel de Castro Sampaio, chefe da Repartição de Estatística , sobre as ruas de Macau em 1866-67 e prédios nelas existentes.  NOTA do Padre Manuel Teixeira: “Ignoramos quem tenha sido esta ilustre desconhecida
(3) “Desde a Rua do chale de Simão até outra vezinha d´escada de pedra chama-se -Rua d´Alleluia – Cadastro das ruas elaborado pelo Leal Senado em 1847.
Pateo do Sal – entre a travessa da Alleluia e a rua do Manduco, na Calçada dos Remédios” –  notícia no jornal “A Voz do Crente” de 6-04-1889.
(4) Rua da Prainha – começa na Calçada de Francisco António, do lado da numeração ímpar e no Pátio de Francisco António, do lado da numeração par, e termina na Calçada da Feitoria, junto da Travessa do Cais. A Calçada da Feitoria começa na Rua de S. José junto da Rua do Barão, e termina na Travessa do Cais, junto do Pátio de Chan Loc, de um lado e junto da Rua da Prainha, do outro.
(5) Rua de Chunambeiro começa na Praça de Lobo de Ávila e termina na Calçada do Bom Parto. Em chinês chama-se Siu Fui Lou Kai (燒灰爐街) que significa Rua do Forno de Cal. Chunambo  era a cal obtida pela calcinação de concha de mariscos.
(6) A Praia Pequena ficava no Pátio da Mina da Freguesia de S. António.
(7) Travessa do Armazém Velho começa na Rua da Tercena, entre os prédios n.ºs 32 e 36, e termina na Rua das Estalagens, em frente da Travessa do Pagode. Em Chinês tem o nome de Lán Kuai Lau Hong (爛鬼樓巷)  também conhecida por Lán Kuai Lau  (ruínas da casa de estilo estrangeiro, segundo Luís G. Gomes).
TEIXEIRA; P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997

No dia 10 de Março de 1865, o Comendador Lourenço Marques, em nome dos cidadãos portugueses residentes em Xangai (Shanghai), ofereceu ao Governador José Rodrigues Coelho do Amaral (1) um bastão feito na Inglaterra, para comemorar a sua passagem por esta cidade em Junho de 1864. (2)

Foi um governador com grande iniciativa e de extraordinário dinamismo.
“ … Foi Isidoro Francisco Guimarães que pela sua grande obra que em Macau realizou (agraciado com o título de visconde de Praia Grande) vertebrando a economia de Macau com sólidas e oportunas medidas, que proporcionou ao seu sucessor, o conselheiro José Rodrigues Coelho do Amaral os meios necessários para as notáveis obras de fomento que este realizou em Macau, pelo que o seu nome se encontra perpetuado na estrada que mandou abrir, distinguindo-o a edilidade com o título de Cidadão Benemérito.
…. Aproveitando bem o numerário que o seu antecessor lhe havia deixado nos cofres públicos, e os rendimentos já superiores que então recebia a fazenda, fez desapparecer as portas da cidade; ligou por bons caminhos o bairro christão com o china e os diferentes bairros entre si; alargou os limites da cidade; alterou todo o systema de viação; construiu pontes; abriu novas ruas; e, começando a rua «Marginal», que deixou adiantada, estabeleceu uma das principais artérias de circulação da cidade.” (3)

Em 24 de Junho de 1866, seria o corpo de Voluntários de Hong Kong a oferecer em Macau uma espada ao mesmo governador Coelho do Amaral como sinal de reconhecimento, pela cordial recepção que teve nesta cidade, na sua visita, em 19 de Novembro de 1864. (4)
Em vésperas de regresso à Metrópole, foi alvo duma imponente manifestação de despedida, oferecendo-lhe a província de Macau um brilhante baile nas salas do Teatro D. Pedro V, em 15 de Outubro de 1866, ao qual assistiu o enérgico e insigne Governador de Hong Kong, sir Richard Graves Macdonell (e esposa) que no seu extenso e eloquente brinde, se referiu à «amizade de bom irmão» vindo assistir (4)
Tem uma Estrada, uma Rua e uma Travessa com o seu nome: Coelho do Amaral.
A Estrada de Coelho do Amaral começa na Estrada do Repouso, em frente da Rua Coelho do Amaral, e termina na Av. do Coronel Mesquita, entre os prédios n.ºs 73 e 75.O troço desta estrada que vai desde a Avenida de Horta e Costa até à Avenida do Coronel Mesquita teve, primitivamente a designação de Estrada de Mong Há.

José Coelho do AmaralO Governador José Rodrigues Coelho do Amaral com o bastão
(Galeria dos Retratos do Leal Senado)

(1) José Rodrigues Coelho do Amaral (1808-1878) assentou praça na Armada com 17 anos de idade e passou depois para o exército (Corpo de Engenharia) em 1834. Foi um dos primeiros professores da Escola do Exército em 1837. Governador de Macau, nomeado a 7 de Abril de 1863, tomou posse a 22 de Junho; era simultaneamente ministro plenipotenciário de Portugal nos reinos de China, Japão e Sião. Governou Macau até 26 de Outubro de 1866). Em 17 de Julho de 1865, o coronel de engenharia José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador de Macau foi promovido ao posto de general de brigada. (4)
Foi posteriormente, ministro da Marinha (1868), Governador de Angola, Moçambique (1870) onde faleceu em 1878 estando sepultado na ilha de Moçambique.
(2) Revista «Mosaico». n.º 7,  indica a data de 09-03-1865,  mas o próprio Luís G. Gomes na sua “ Efemérides da História de Macau” corrige e refere 10 de Março de 1865.
(3) GOMES, Luís G. – Notícias de Macau, em 19-09-1965.
(4)(GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau).

No dia 2 de Dezembro de 1866, organizou-se uma peregrinação a Sanchoão (1) em que se incorporaram 750 peregrinos. Devido a uma tempestade nesse dia, só puderam desembarcar 30 homens. Mesmo assim, foi celebrada missa e a chamada Cruz dos Macaenses, transportada para terra no dia anterior, foi erguida, ao fundo da escadaria, em comemoração dessa romaria.
A Cruz dos Macaenses tinha a seguinte inscrição: (2)
Em cima, verticalmente, dois caracteres chineses (?) ilegíveis, com a ideia talvez de “dedicaram”. Frontalmente: “S. P. Francisco Xaverio” e, na vertical mais longua, de alto para baixo: “macaenses die 3 dedanno 1869”. (3)

Xavier em Sanchoão Crus dos Macaenses ICruz dos Macaenses levantada em Sanchoão em 3 de Dezembro de 1866.

Em frente, vê-se o Padre Robert Y. Cairns, missionário da ilha, e o Comandante do vapor Hai-Ning, na peregrinação de Dezembro de 1933. (2)

 O P. Rondina, S.J., (4) segundo o próprio afirma, tomou também parte nessa peregrinação e foi um dos que levantou a Cruz. Segundo Padre Videira Pires, terá sido ele quem disse a missa nesse dia.
O missionário jesuíta de Sanchoão, John Garaix (5), em 1906, relatava:
Quando Mons. Guillemin (6) chegou ao lugar em Janeiro de 1869, o que circundava o túmulo era o seguinte: em baixo, perto da praia e num pequeno espaço de terreno nivelado, uma enorme Cruz de pedra, aquela que tinha sido erigida pelos peregrinos em 1866; a seguir, um pouco mais acima, cinco degraus que davam para outro espaço e terreno nivelado: ali estava o túmulo; por último, uns sete degraus mais acima, estavam as ruínas da antiga capela (de 1700). “ 

Xavier em Sanchoão Crus dos Macaenses IIA Cruz dos Macaenses a contra-luz (2)

 A Cruz dos Macaenses desapareceu do lugar após 1942.

SUGESTÃO: Nesta semana de encontro dos macaenses em Macau, era uma boa ideia e sugeria às associações de macaenses pelo mundo fora, a iniciativa de organizar uma comissão encarregada de fazer uma nova Cruz dos Macaenses (talvez por subscrição pública) e tratar por  via diplomática com as autoridades chinesas da sua colocação na Ilha, de preferência no mesmo local da anterior (quem sabe se no próximo encontro de macaenses em Macau, no dia 3 de Dezembro)

(1) Sobre a Ilha de Sanchoão e S. Francisco Xavier ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ilha-de-sanchoao/
(2) PIRES, Benjamim Videira – Xavier em Sanchoão. A ilha de Sanchoão ontem e hoje. Macau, 1994, 39 p. + |VIII|
(3) Segundo Padre Videira Pires o ano está errado: deveria ser 1864.
(4) O Padre Francisco Xavier Rôndina já tinha participado em anterior peregrinação àquela ilha no ano de 1864. O Padre Rondina (1827-1897), missionário no Padroado português do Oriente, foi professor, pregador e escritor. Dirigiu o Colégio/Seminário de S. José. Foi redactor da revista mensal «Civiltà Cattolica» a partir de 1882.
(5) GARAIX, S. J., John – Sanchoan, the Holy Land of Far East, 1906, 29 p. in Padre Videira Pires (2)
(6) Mons. Zeferino Guillemin, Prefeito Apostolico da Perfeitura de Kuông tông e Kuón-sai, em 24 de Agosto de 1867, procedeu ao lançamento da primeira pedra para uma nova capela sobre o túmulo de S. Francisco de Xavier, na Ilha de Sanchoão (pertencente à província de Guangdong/Cantão)

Às 19.00 horas do dia 20 de Novembro de 1873, o 1.º Tenente da Armada, Vicente Silveira Maciel (1), comandante da escuna Príncipe Carlos, acompanhado do guarda-marinha Caminha e do Capitão de Infantaria Caetano Gomes da Silva, que jantara a bordo com os oficiais, quando seguiam numa baleeira (remadas por cinco robustos marujos) para terra, um fai-hái, (2) abalroou, premeditadamente, contra a baleeira.
Apesar das manobras do 1.º Tenente Maciel, que guinou, imediatamente para bombordo, a embarcação chinesa bordejou acto contínuo, para estibordo, continuando a dirigir-se de encontro à baleira. O fái-hái vinha com tal velocidade que não foi possível esquivar-se ao brusco choque. A baleeira apanhada de chofre, ao pé da voga, meteu, imediatamente toda a borda de bombordo debaixo da água e ficando atravessada na proa do barco chinês.
Lançaram-se, então, os marujos da baleeira bem como o guarda marinha ao mar e agarrando-se com desespero aos remos do fái-hái, que continuava a deslizar à voga arrancada com rumo para a Ilha da Lapa, conseguiram não sem grande dificuldade, saltar dentro dela.
Tendo conseguido trepar até ao fai-oi, os oficiais e dois ou três marinheiros que iam na baleeira travaram rijo combate com os chineses, caindo o Tenente Maciel no mar, onde foi salvo por um marinheiro, agarrando-se ambos a um bambu. Salvaram-se também o guarda- marinha Caminha e um marinheiro. O Capitão Silva e outros marinheiros foram considerados como desaparecidos. (3)
NOTA: No ano de 1873, governava Macau o Capitão Januário Correia de Almeida, Conde de S. Januário e a Estação Naval de Macau era comandada pelo 1.º Tenente Fernando Augusto da Costa Cabral
(1) A escuna Príncipe Carlos, comandada pelo 1.º tenente Vicente Silveira Maciel, já em Novembro de 1871, tinha dirigido uma expedição de nulo resultado, contra os piratas da Ilha da Montanha.
(2) 快 蟹 mandarim pinyin: kuài xiè; cantonense jyutping: faai3 haai5)
Fái-hái (caranguejo veloz), tipo de embarcação rasa, utilizada, principalmente, no contrabando do ópio importado pelos ingleses e que fazia a ligação da Ilha Lintin para Cantão.
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Páginas da História de Macau. Instituto Internacional de Macau, 2010, 357 p., ISBN: 978-99937-45-38-9

ACTUALIZAÇÃO em 16 de Outubro de 2016:
O guarda marinha Caminha que com o 1.º Tenente da Armada, Vicente Silveira Maciel e o marinheiro se salvaram neste episódio, viria a ser capitão de mar-e-guerra, governador de Benguela (1883-1886) e mais tarde Vice-Almirante. Caetano Rodrigues Caminha (4) prestou serviço em Macau na escuna “Príncipe D. Carlos” que se afundou devido a um forte tufão em 1874 (5) e fez parte da tripulação da corveta “Duque de Palmela” (6)
(4) Caetano Rodrigues Caminha (1850-1930) Correspondente nacional, 1893 Capitão-de-fragata, comandante da Escola da Marinha. Sócio do Instituto de Coimbra (1852-1978)
https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/21258/3/Lista%20de%20s%C3%B3cios_2015.pdf

caetano-rodrigues-caminha-1893Capitão de fragata 1893 (7)
caetano-rodrigues-caminha-1901Capitão de mar e guerra (1901 ?) (7)
caetano-rodrigues-caminha-1911Vice-Almirante (1911) (7)
caetano-rodrigues-caminha-dr-8jan1911Diário da República n.º 8-11 de Janeiro de 1911 p. 114 (8)

(5) “Príncipe D. Carlos” (1866-1874) — Escuna de vapor construída em Inglaterra e que foi adquirida pelo governo de Macau em 1866. Armou com quatro bocas de fogo.
Em 1874, em Macau, perdeu-se por encalhe, devido a um tufão.
(6) A corveta “Duque de Palmela”, que em 1873 partiu de Hong-Kong para ir a Saigão receber o governador de Macau, Visconde de Januário, e a sua comitiva, para serem conduzidos a Banguecoque na corveta portuguesa. No trajecto, o comandante do navio ficou tão perturbado com os perigos da navegação na baía de Banguecoque que, ao passar uma zona bastante perigosa de bancos de areia, e ao ver a embarcação soçobrar, pediu para ser substituído pelo Caetano de Rodrigues Caminha e atirou-se ao mar! Este episódio é descrito por um jornal brasileiro da época, da província do Maranhão.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Caetano_Rodrigues_Caminha
(7) http://www.flickriver.com/photos/cgoulao/21904590309/
(8) file:///C:/Users/ASUS/Downloads/portaria_de_diario_da_republica_8_11_serie_i_de_quarta_feira_11_de_janeiro_de_1911.pdf