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Extraído de «O Independente», Vol. I n.º 20 de 15 de Janeiro de 1869.

Onde ficava esta “ Rua do Hospital dos Gatos”?
Existia em Macau, na segunda metade do século XIX, um hospital francês, segundo Padre Manuel Teixeira:
Esse hospital francês ficava na freguesia de S. Lourenço, sendo estabelecido em 1858, e estava ao cuidado das Irmãs de Caridade de S. Vicente de Paulo, vindas da França. De 1850 a 1858, os franceses eram tratados na Enfermaria Militar do Hospital S. Rafael; em 1858, passaram a ser tratados, no seu hospital da freguesia de S. Lourenço.
De 1850 a 1862, faleceram em Macau 295 franceses:
1951 – 1; 1952 – 1; 1853 – 5; 1856 – 3; 1857 – 2; 1858 – 49; 1859 – 163; 1860 – 70
Os altos e baixos explicam-se pelas guerras da França com a China.
Permita-se-nos uma hipótese. Existe na freguesia de S. Lourenço, a Travessa do Hospital dos Gatos, que começa na Rua de S. Lourenço, entre a Rua de Inácio Baptista e o Pátio da Casa Forte, e termina na Rua do Bazarinho, entre os prédios n.º 24 e 18.
Não ficaria ali o hospital francês que, depois de abandonado, teria sido um ninho de gatos?” (1)
A Travessa do Hospital dos Gatos é chamada actualmente Rua de George Chinnery, desde 1974, bicentenário do seu nascimento. Pos tanto a Rua de George Chinnery começa na Rua de S. Lourenço entre a Rua de Inácio Baptista e o Pátio da Casa Forte, e termina na Rua do Bazarinho, entre os prédios n.º 24 e 28.
Quando chegou a Macau a 29 de Setembro de 1825, viveu alguns meses na Rua do Hospital, numa casa de Christopher August Fearon, empregado da East India C.º, mas logo no ano seguinte arrendou o prédio n.º 8 da Rua de Inácio Baptista e ali viveu até à morte, ocorrida a 30 de Maio de 1852″. (2)
NOTA: Do semanário “O Independente” V-168, de 25 de Dezembro de 1882, encontrei esta referência à Travessa do Hospital dos Gatos

(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, ICM, 1997.
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau Volume II, ICM, 1997.

Extraído de «A Voz do Crente», Anno I n.º 1 de 1 de Janeiro de 1887
Igreja de S. Lázaro, década de 30 (séc XX)

“D. Melchior Carneiro, chegado a Macau, em 1568, fundou logo no ano seguinte a Santa Casa da Misericórdia, de que foi o primeiro provedor, e os hospitais de S. Rafael e de S. Lázaro. Não se conhece a data certa da erecção da Ermida de Nossa Senhora da Esperança que devido à leprosaria anexa, ficou vulgarmente conhecida pelo nome de Igreja de S. Lázaro. Também não sabemos qual existiu primeiro: se a Ermida ou o hospital de leprosos. Parece no entanto, pelo que dissemos atrás que, juntamente com Santo António e S. Lourenço, a Ermida de N. Senhora da Esperança deve ter sido coeva do estabelecimento dos portugueses em Macau… (…)
Em volta da Ermida, no decorrer dos tempos, foram-se estabelecendo os chineses, havendo já ali em 1818 nada menos que 98 casas de cristãos chineses; para atender aos seus interesses espirituais levantou-se uma capela aproximadamente no local da actual escola de Kong Kan, ficando a Ermida reservada aos leprosos. Tendo o bairro chinês aumentado mais e mais e sendo já insuficiente a pequena capela para os cristãos chineses foi-lhes cedida em 1878, de acordo com a autoridade eclesiástica, a mesma Ermida ou Igreja de N. S. da Esperança com a sacristia e a casa anexa do sacristão, passando o padre china que vigariava aquele bairro a celebrar os actos do culto na dita igreja. Arruinada com o decorrer do tempo, foi esta igreja, por Portaria Provincial n.º 65 de 8 de Agosto de 1885, reconstruída em 1886, de modo a poder estabelecer-se a nova Paróquia de S. Lázaro, sendo nesta ocasião demolida a capela. A nova igreja servia para cristãos e leprosos, assistindo estes aos ofícios divinos num compartimento reservado, gradeado de ferro.
Em 1895 espalhou-se em Macau uma terrível epidemia, provindo um grande número de casos das miseráveis choupanas do bairro chinês; alguns anos depois, foram elas expropriadas, de comum acordo entre o Governador Horta e Costa e o Bispo Carvalho e então o hábil arquitecto Abreu Nunes delineou e executou o plano de ruas do actual bairro de S. Lázaro. Por esta ocasião, foram removidos os leprosos para a Ilha de S. João e as leprosas para Ká Hó, ficando desde então até hoje a cargo do Governo, depois de terem estado a cargo da Santa Casa durante perto de três séculos e meio.”
TEIXEIRA, P. Manuel – Macau e a sua Diocese I, 1940, p.169-171

As Missões Ultramarinas”, livro da autoria do Padre Albano Mendes Pedro, consultor missionário da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas, publicado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, durante a Semana do Ultramar, em 1970.
O autor traça a acção missionária dos portugueses ao longo da história e descreve as dioceses existentes (em 1969) no então ultramar português.
Nas páginas 62-63, descreve a “Diocese de Macau”:
O primeiro chefe espiritual católico de Macau, D. Belchior Carneiro, chegou ali em 1568. Não era bispo da Diocese porque esta ainda não existia. Fundou a Santa Casa da Misericórdia e os Hospitais de S. Lázaro e de S. Rafael.
A Diocese de Macau, primeiro bispado do Extremo Oriente, foi fundada a 23 de Janeiro de 1576. Abrangia a princípio Macau, terras e ilhas adjacentes, China, Japão e Tonquim. No decurso dos tempos ficou reduzida à província portuguesa de Macau, parte do território da China, com comunidades de Singapura e Malaca.
Tem 250 000 habitantes em território português. Os católicos são 23 000.
Está dividida em dois vicariatos gerais, o de Macau e o de Shiu-Hing. Tem 9 paróquias fora da China. O pessoal missionário é composto por 147 sacerdotes, 9 irmãos e 199 religiosas.
A distribuição por organizações é a seguinte: Clero secular 57; Salesianos, 23 sacerdotes e 14 irmãos; Jesuítas, 13 sacerdotes e 2 irmãos; Franciscanos, 2 sacerdotes. Há vários outros missionários sem situação transitória.
As religiosas estão assim distribuídas: Canossianas, 41; Franciscanas Missionárias de Maria, 96; Preciosíssimo Sangue 10; Carmelitas,11; Filhas de Nossa Senhora dos Anjos, 10; Filhas de Maria Auxiliadora, 11; Dominicanas do SS.mo Rosário,11; Filhas de S. Paulo, 4; Perpétuo Socorro irmãzinhas de Jesus e Anunciadoras do Senhor, 3 e 2.
O ensino diocesano é ministrado em 1 Seminário, 17 Colégios de Ensino secundário, 1 Escola de Magistério, 2 escolas profissionais, 29 escolas primárias e 28 escolas infantis, com 20 456 alunos, ao todo.
A assistência sanitária e social é prestada em 7 orfanatos, 3 asilos, 8 creches, 2 hospitais, 1 leprosaria e 7 dispensários. Os tratamentos foram 234 613. – A imprensa católica tem O Clarim, o Boletim eclesiástico e as revistas Oásis, Rosette, etc.
Em Macau há protestantismo e comunismo.
PEDRO, Albano Mendes – As Missões Ultramarinas. Sociedade de Geografia de Lisboa, Semana do Ultramar,1970. Impresso na Escola Tipográfica das Missões Cucujães,  79 p.

Extraído de «Boletim Oficial do Governo da Província de Macau» I – n.º13 , de 30 de Março de 1901.

“Macau, era, quando lá estive, entre 1949 e 1961, uma cidade cheia de encanto – pelo menos para mim que lá vivi 12 anos, numa idade em que se é excecionalmente receptivo à novidade e ao exotismo. (…)
Vivi 12 anos em Macau. Fui como médico militar, na sequência de uma conversa, na Bijou, com um meu amigo que, sabendo da necessidade que eu tinha de começar a ganhar a minha vida e cortar o cordão umbilical familiar, em falou, sem grandes pormenores, do exotismo daquelas paragens. Num dos repentes que às vezes me dão, fui aos Restauradores e ofereci-me como voluntário. (…)
Foi um desilusão geral:  (aquando da visita a Macau em 1972, integrado na romagem da saudade, organizado pela Casa de Macau de Lisboa) cheia de arranha-céus de arquitectura pelintra , com tráfico intenso, suja e desordenada – Macau pagava o preço do progresso, como me disse a presidente do leal Senado de então. Esta questão do chamado «progresso» é, nos nossos dias, um grave problema que degrada o meio ambiente e constantemente nos agride em todas as latitudes. (1)

Ao centro (de óculos) o Director dos Serviços de Saúde, Dr. Paiva Martins (3) por inerência, Director do Hospital Central Conde de S. Januário (o autor no livro regista-o erradamente como Dr. Costa Martins).
À direita em primeiro plano o Delegado da Saúde de Macau e Ilhas, médico de 1.ª classe do quadro médico comum do Ultramar, Dr. João Albino Ribeiro Cabral.
Muito possivelmente a fotografia é de 1957, ano em que o Dr. José Marcos Batalha, (à direita, em segundo plano) foi nomeado médico oftalmologista do Hospital (embora já trabalhasse desde 1949, no Hospital S. Rafael).
No fundo à direita, o então jovem enfermeiro António Fernandes (um grande abraço para este amigo e parente).
(1) MORAES, Álvaro de – Macau Memórias Década de 50. Livros do Oriente , 1994, 187 p. ISBN 972.9418-26-8, 19cm x 12,5 cm.
(2) Álvaro Ferrão Antunes de Moraes, médico cirurgião, veio para Macau, em 1949, como médico voluntário da guarnição militar de Macau. Foi nomeado em 1951 cirurgião militar. Em 1955, concorreu ao lugar cirurgião dos Serviços de Saúde de Macau. Durante os 12 anos que viveu em Macau (1949-1961), além da sua clínica privada (consultório de clínica geral na Travessa do Paralelo, n.º1 – 1.ª; n.º telefone: 3513), foi também cirurgião do Hospital de S. Rafael (1956-57) e trabalhou na clinica Anticancerosa Lara Reis, que mais tarde dirigiu. Foi também director do Serviço de Radiologia e Agentes Físicos (1956-1957).
(3) – José de Paiva Martins  – médico chefe do quadro médico comum do Ultramar e  Director dos Serviços de Saúde de  15-10-1955 até 26-06-1963 (data da portaria ministerial da sua nomeação de inspetor provincial dos Serviços de Saúde de Moçambique.

Luis de Pina (1) neste seu trabalho científico, (2) apresentado nas Sessões Científicas de Medicina do Porto no dia 21 de Janeiro de 1943, descreve por ordem alfabética, as localidades ultramarinas onde existiram hospitais portugueses nos séculos XVI e XVII.
Em relação a Macau e a Liampó, (p. 46)diz o seguinte:
Hospitais de Liampó (3)
Sôbre estes estabelecimentos, vid. Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (ed. De 1930, VII, pág. 123). Eram dois hospitais e uma casa da Misericórdia, que dispendia, por ano, mais de trinta mil cruzados.
Hospitais de Macau
Havia Santa Casa da Misericórdia e hospitais de S. Lázaro e S. Rafael, fundados em 1569 por D. Belchior, S. J., o 1.º Bispo da China e do Japão (Domingos Tang, «Macau, ponto de irradiação do lusismo no Extrêmo- Oriente», em Actas do «Primeiro Congresso da História da Expansão Portuguesa no Mundo, 2.ª Secção, vol. II, Lisboa, 1938, págs. 297).(4)
A Misericórdia recebia o seu Compromisso, em 1627 (Arlindo Camilo Monteiro, ob. Cit., transcreve o diploma, que encontrou na Biblioteca da Ajuda – Colecção «Jesuítas na Ásia»)”
(1) Luís José de Pina Guimarães ou Luís de Pina (1901 – 1972) foi um médico, professor universitário e político português.
Concluiu na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra os estudos preparatórios médicos vindo a licenciar-se (1927) e depois a doutorar-se (1930) na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Nesta faculdade ocupou o lugar de assistente de Anatomia (1927), professor auxiliar de Medicina Legal, História da Medicina e Deontologia Criminal (1931) e de professor catedrático de História da Medicina e Deontologia Profissional (1944).
Para além da docência foi Procurador-vogal do Centro de Estudos Demográficos do Instituto Nacional de Estatística, vogal da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais, vogal da Comissão Nacional de História das Ciências, Vice-presidente do Conselho Regional da Ordem dos Médicos (1942-1944), Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto (1953-1955), diretor do Instituto de Criminologia do Porto e foi também o primeiro diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1961-1966).
Restante biografia em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_de_Pina
http://app.parlamento.pt/PublicacoesOnLine/OsProcuradoresdaCamaraCorporativa%5Chtml/pdf/g/guimaraes_luis_jose_de_pina.pdf”>http://app.parlamento.pt/PublicacoesOnLine/OsProcuradoresdaCamaraCorporativa%5Chtml/pdf/g/guimaraes_luis_jose_de_pina.pdf
https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1006676″>https://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1006676
(2) PINA, Luiz de – Expansão Hospitalar Portuguesa Ultramarina Séculos XVI e XVII. Separata da Revista Brotéria, Vol. XXXVII, Fasc. 5, Novembro de 1943.
Lisboa, 1943, 60 p. + 8 p. estampas. , 22,5 cm x 16 cm.
(3) Na anotação do autor, no pé da página refere “Ou Ningpó, perto de Xangai (Cfr. Jaime do Inso, China, Lisboa, 1936, pág. 368),
Liampó ou Ningbo (寧波) é um porto com status administrativo. A cidade tem uma população de 2.201.000 e está localizado no nordeste da província de Zhejiang, na China. Situada a sul da Baía de Hangzhou, e de frente para o Mar da China Oriental, a leste, fronteiras Ningbo Shaoxing a oeste e ao sul Taizhou, e é separado Zhoushan por um corpo de água estreito.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ningbo
(4) Ver anteriores referências a este Bispo, D. Domingos Tang Yi Ming
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/d-domingos-tang-yi-ming/

Em Janeiro de 1954 realizou-se no Teatro Cheng Peng um espectáculo de variedades, a favor do Hospital de S. Rafael, patrocinado pela Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau tendo participado o  mágico indiano Gogia Pasha (1) e o conjunto musical INK SPOTS. (2)
Também nesse mês realizou-se um grandioso festival artístico-desportivo no recinto da Piscina Municipal, em que tomaram parte artistas e atletas de Hong Kong e Macau. O produto das entradas foi assim dividido: 40% para os sinistrados do grande incêndio havido em Hong Kong; (3) 40% para o Hospital Kiang Wu; 20% para a Associação de Beneficência «Tong Sing Tong» (4)
(1) Gogia Pasha, famoso mágico indiano (décadas de 30 a 50 – século XX; faleceu em 1976) que se autointitulava egípcio (com vestimentos compridos e brilhantes, turbante, bigode e barbicha e olhar perverso) apresentava  os seus espectáculos de magia com uma mistura de comédia – partes humorísticas nos seus truques mágicos – intercalados com danças pelas suas assistentes femininos.

Cartaz dum espectáculo incorporado num calendário de 1953
Crédito: John Zubrzycki

Para mais informações deste mágico, aconselho leitura (em inglês) de:
ZUBRZYCKI, John – Unravelling the Mysterious Gogia Pasha, the Original Gilly Gilly Man, 2017
https://thewire.in/153325/mysterious-gogia-pasha-original-gilly-gilly-man/
(2) “The Ink Spots” grupo vocal americano de renome internacional do género musical “rhythm and blues” de 1934 a 1954. O grupo original terminou em 1954, pelo que a actuação em Macau terá sido a última digressão da sua carreira.
Mais informações (em inglês) e discografia em
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Ink_Spots
http://inkspots.ca/
Alguns vídeos disponíveis:
https://www.youtube.com/watch?v=6l6vqPUM_FE
https://www.youtube.com/watch?v=wp2Hwi9qM48
https://www.youtube.com/watch?v=xcne73hJPZc

(3) Violento incêndio no dia 25 de Dezembro de 1953 destruiu a área de Shek Kip Mei – 石硤尾, (Hong Kong) onde viviam emigrantes da China continental, deixando 53 000 pessoas sem habitação.
https://en.wikipedia.org/wiki/Shek_Kip_Mei
Vídeos referentes a este acontecimento:
https://www.youtube.com/watch?v=Dt8USmzvKbo
https://www.youtube.com/watch?v=evIwMJRVoHQ
(4) Informações de «MACAU, B. I.»  I -12, 1954.

O Hospício para Lázaros, em Ka Hó, depois de muita resistência e de alterações várias (1) quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto no dia 20 de Janeiro de 1885, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficaria completo em Maio desse ano. (2)
mapa-de-ka-hoPor portaria Provincial n.º 327 de 13 de Setembro de 1929 foi nomeada uma comissão, a qual cumpriu o seu mandato, fazendo construir no Hospício Ka Hó, cinco pavilhões e uma capela, com dependências anexas para constituírem a residência das Religiosas que venham ali a instalar. Em Ká Hó, com a preparação do terreno, construções dos cinco pavilhões, capela, poço, tanque e valsa de protecção, canalização de água potável e de esgoto e conservação de todas as obras despendeu-se a bela soma de $ 21.478, 19. A capela foi inaugurada e benzida por D. José da Costa Nunes no dia 21 de Outubro de 1934.

pe-teixeira-macau-e-a-sua-diocesse-i-pavilhoes-das-lazaras-de-ka-hoPAVILHÕES DOS LÁZAROS EM KA-HÓ, 1940

A Leprosaria fica na Baía de Ka Hó, construída num promontório na ponta leste de Coloane, perto da chamada aldeia ou povoação de Ká Hó (é um pequeno vale entre montanhas e era o mais cultivado antigamente). Tem uma bela igreja contemporânea dedicada a N.ª Sr.ª das Dores, ostentando um grande crucifixo de bronze sobre a porta norte.
coloane-igreja-de-nossa-senhora-das-dores-ka-ho(1) Os leprosos que durante três séculos estiveram no Hospital S. Rafael, em 1878 são transferidos para a Ilha de D. João na altura sob a administração portuguesa, em Pac Sá Lan. Em 25-11-1896 é extinto o Hospício de S. Lázaro junto à Igreja de S. Lázaro.
“1878 – Os leprosos, recebidos na primeira instituição congénere no Extremo-Oriente – O Hospital de S. Rafael – durante três séculos, são transferidos neste ano para a Ilha de D. João (para homens) sob a administração portuguesa”. (2)
17-03-1894 – O Administrador das Ilhas, Capitão João de Sousa Canavarro, oficia à Secretaria do Governo fazendo uma breve mas expressiva panorâmica da situação dos leprosos. É estudada a construção de novas barracas para o alojamento dos Lázaros em Pac-Sá-Lan e Ká-Hó.” (2)
Mas os constantes assaltos dos piratas (maus tratos e roubos) ao longo da década de 10 a 30 (século XX), (3) (4) à gafaria de Pac Sa Lan instalada na Ilha de D. João, foram transferidos aos poucos para a Gafaria de Ká Hó que com o tempo foi-se ampliando. Em 1933, o director da leprosaria Fernando Dias Costa (5) informava estarem construídos oito pavilhões para o tratamento da lepra. As instalações da leprosaria de Pac Sá Lan foram destruídas pelos militares comunistas em 1953. (6)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(3) 19-06-1912 – Pedido dos leprosos instalados no Hospício de D. João para serem dali retirados a fim de não estarem sujeitos aos constantes assaltos de piratas.(GOMES, Luís G. – Catálogo do M.M., n.º 254)
(4) “24-01-1927 – Queixa apresentada pelos asilados da gafaria de Pac-Sa-Lan, na Ilha de D. João, contra os maus tratos e roubos de que eram vítimas às mãos dos piratas. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997).

(5) Fernando Castanha Dias Costa, foi Director dos Serviços da Fazenda e Contabilidade de Macau de 1932 a 1936, ano em que  há um processo de inquérito aos actos praticados pelo Director dos Serviços de Fazenda e Contabilidade de Macau. Por inerência do cargo era também Director das Leprosarias existentes na altura na colónia de Macau (Ilha de Coloane e Ilha de D. João). («Portugal Colonial», Ano I, n.º 24 – Fevereiro de 1933 p. 18.)

(6) “1953 – Destruídas pelos comunistas a leprosaria de Pak-Sa-Lan. Aventou-se a hipótese dos doentes terem sido transferidos para outra ilha, perto de Hong Kong. Mas não se conseguiu confirmar tal notícia, sendo provável que os últimos leprosos tivessem perecido, porque já em 1949 tinham sido ameaçados de morte por Ng Seng, comandante da guarnição chinesa de Man Lei Wai, se não pagassem $500 em notas portuguesas. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 5, 1998).

Numerosos fiéis assistiram, no dia 22 de Setembro de 1953, ao solene «Te-Deum», cantado na Sé Catedral, em acção de graças por Deus ter poupado Macau a maiores estragos, a quando do tremendo tufão que assolou a cidade, em 22 de Setembro de 1874.
«A nossa cidade, que por suas recordações históricas e tradições religiosas era uma das mais famosas e notáveis do oriente, tão bela ainda há poucos dias, perdeu, em poucas horas, grande parte do seu esplendor e formosura, sofrendo a mais horrível e lastimosa transformação!»
«Tal é o destino de todas as coisas humanas! Só Deus é grande, só Ele é imutável!»
Tais as palavras que se lêem na Circular dirigida pelo Governador do Bispado de Macau, em 27 de Setembro de 1874, ao clero e fiéis desta Diocese, convidados a orar pelas necessidades desta cidade.
E os fiéis oraram, então, durante três dias consecutivos, nas igrejas paroquiais, no seminário diocesano e no convento de Santa Clara; e aqueles que não puderam ir ao templo, oraram com boas disposições no interior de suas casas.
E, desde então, todos os anos, se vem cantando um «Te-Deum» em cumprimento do voto feito por essa ocasião.
A 25 de Setembro de 1874, o Governador da província, Visconde de São Januário, publicou no Boletim da Província de Macau e Timor, o seguinte apelo à população de Macau:
«Habitantes de Macau!
Uma grande calamidade acaba de pesar sobre esta cidade!
Os terríveis efeitos do tremendo tufão, importando em graves perdas, levaram a desolação e a desgraça, aonde ainda há pouco reinava o bem estar e a alegria!.
Respeitemos os decretos da Previdência, mas não se abata por isso o nosso ânimo, e juntemos os nossos esforços para remediar os males que não nos era dado evitar .
Macenses! Trabalhai corajosamente para reconquistar o perdido, e confiai na autoridade que há-de velar pela vossa segurança; há-de acudir aos aflitos e há-de prover de pronto à s mais instantes necessidades públicas!
macaenses! Colaborai nobremente nesta grande empresa e tende fé que vereis ainda elevar-se esta antiga possessão portuguesa ao estado florescente em que há pouco se achava»
Os estragos e as perdas causadas foram enormes. Muitos pobres, tanto portugueses como chineses, achavam-se reduzidos às extremidades da fome. Os bairros de S. Lázaro e Santo António encontravam-se em ruínas , sob os montões jaziam muitos cadáveres.
O Hospital S. Rafael ficou destruído e o Hospital Militar de S. Januário seriamente abalado. Por oferta do Governador do Bispado, foi aproveitado o Paço Episcopal para hospital.
Por avaliação feita pelo Procurador dos Negócios Sínicos sabe-se que os estragos causados nos prédios dos chineses deram um prejuízo superior a cem mil patacas. Mais de 700 lorchas grandes de comércio e pesca se perderam completamente. Calculou-se em mais de mil o número das lorchas pequenas que foram destruídas. Todas as embarcações perdidas foram avaliada em quase um milhão de patacas. A perda de mercadorias foi avaliada em cerca de 432 mil patacas. Calculou-se em quatro mil o número de chineses mortos e Macau  e mil os mortos na ilha da Taipa.
Os cadáveres forma queimados uns e sepultados outros.
Os portugueses que sucumbiram e forma sepultados no Cemitério de S. Miguel foram 20, sendo 14 homens , 4 mulheres e 2 crianças.
Foram calculados em 300 mil patacas os prejuízos havidos nas propriedades dos portugueses, estando neste número incluídos os prejuízos sofridos pela administração dos bens das Missões Portuguesas e por algumas instituições de beneficência.
Anteriores referências a este tufão
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/09/23/noticia-de-23-de-setembro-de-1874-o-maior-tufao-da-historia-de-macau-ii-incendio-no-bairro-de-santo-antonio/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/09/22/noticia-de-22-de-setembro-de-1874-o-maior-tufao-da-historia-de-macau-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/09/23/noticia-de-23-de-setembro-de-1874-o-tufao-e-o-farol-da-guia/
E sobre tufões:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/tufoes/

“No dia 5 de Outubro de 1939, foi inaugurado o edifício do Hospital de S. Rafael que já existia desde 1569 (1) e fora reconstruído em 1640, 1747 (2) e 1766 (3), depois de devidamente restaurado e com grandes beneficiações”. (4)

Havia uma lápide à entrada:

5 de Outubro de 1939
Este hospital foi mandado reconstruir no ano de 1938 pelo Governador da Colónia
o Exmo. Sr. Artur Tamagnini  de Sousa Barbosa
Que conseguiu para a Santa Casa da Misericórdia
Os fundos necessários.
As obras iniciadas em Agosto de 1938
Sendo Provedor Manuel Beja Corte Real e Mesários
Paulino António da Silva
Mário de Barros Pereira
Pedro Nolasco da Silva
Januário Agostinho d´Almeida
e concluídas em Setembro de 1939
Sendo Provedor Alexandre dos Santos Majer e Mesários
Paulino António da Silva
Mário de Barros Pereira
Pedro Nolasco da Silva e João Tavares de Sousa.
Projecto do Engenheiro civil
João Canavarro Nolasco da Silva
Director clínico do Hospital:
Dr. Jacinto Vargas Moniz”

 Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Hospital S. Rafael 1974Hospital de S. Rafael em 1974 (5)

Nessa reconstrução de 1938-39, as casas que a Mesa da Misericórdia mandara construir (6 casas de aluguer) na esplanada do hospital foram arrasadas, restituindo-se ao hospital a sua antiga esplanada.
A «Maternidade Dr. Soares» foi mantida e renovada e ampliada (o Dr. José Caetano Soares foi o anterior director sendo substituído pelo Dr. Jacinto Vargas Moniz) , a velha consulta externa foi ampliada criando-se consultas de especialidade de gravidez e de ginecologia, olhos, rins e vias urinárias. A «Ambulância» foi completamente reformada tanto no seu material como na sua orgânica. A ala cirúrgica ficou com um  «Bloco Cirúrgico Artur Tamagnini de Sousa Barbosa» (duas salas de operações, duas salas de anestesia, dois arsenais cirúrgicos, uma sala de esterilizações). Foi criado um laboratório de análises clínicas e um gabinete de raio X com equipamentos modernizados. Foi criado o balneário para os hospitalizados e doentes da consulta externa que necessitassem banhos terapêuticos.

Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Hospital S. Rafael antigoAntigo Hospital de S. Rafael (antes da reconstrução)(5)

Em 1787, o pé do hospital civil, tinha um compartimento para os militares (hospital militar com um cirurgião e quartos pata três oficiais, para oito subalternos e uma enfermaria para 80 soldados). O médico do Hospital dos Pobres era sempre o médico do Partido Municipal e uma das cláusulas do contrato determinava que ele prestava serviço gratuito no Hospital das Misericórdia. Em 1834, o Hospital dos Pobres chamava-se hospital civil para o distinguir do militar.
Em 1855, o governo determinou que fosse extinta a enfermaria militar do Hospital mas os doentes militares só a 6 de Junho de 1857 é que passaram para o Convento de Santo Agostinho. Em 1872 começou a construção do Hospital Militar de Sam Januário.

Pe. TEIXEIRA A Medicina em Macau - Relação do pessoal Hospital S. Rafael 1938Relação do pessoal do Hospital de S. Rafael em 1938 (5)

(1) “O estabelecimento devia então ser o «Hospital dos Pobres» e embora  a referência mais antiga seja só de 1591 (nas notas de lançamentos das verbas testamentarias do  escrivão da Misericórdia, António Garcez), o Hospital é anterior a 1591 e para a fundação pertencer a D. Melchior Carneiro haveria que datá-la, o mais tarde, de 1583, que, sem dúvida, sabe-se foi o ano em que ele morreu(SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência,1950).
Segundo o Padre Teixeira, o Hospital dos Pobres foi fundado por D. Melchior Carneiro (o hospital dos cristãos) em 1568 baseado em dois testemunhos coevos e irrefragáveis. ( TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Vol. I-II, 1974).
(2) Acta  de 1747: «Sendo provedor Luiz Coelho, diz este, que o hospital dos enfermos que esta Santa Casa tem se acha totalmente arruinado principalmente a capela… e também, a enfermaria, onde os enfermos existem por ser logar imundo e incapaz de poder ficar criatura humana» Existia uma lápide4 à entrada do hospital em que se lia “Este hospital da Santa Caza de Misericórdia Mandou fazer Luis Coelho sendom provedor no anno de 1747”
(3) Em 1766, sofreu nova reconstrução e posteriormente em 1840, (fizeram-se obras, aumentando-se um andar, ficando concluídas em 1842), sendo provedor Filipe José de Freitas. Foi nessa altura que sobre o portão principal se colocou um nicho coma  estátua de S. Rafael e as palavras MEDICINA DEI. Foi portanto desde então que passou a ser conhecido por Hospital S. Rafael.
(4) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(5) TEIXEIRA, Pe. Manuel – A Medicina em Macau, Vol. I, 1974