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Extraído de «A Voz do Crente», I-1, de 1 de Janeiro de 1887

O estabelecimento oficial das Canossianas em Macau deve-se a D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, bispo desta diocese desde 1873 a 1883. Foi ele que pediu oficialmente à Superiora de Hong Kong, Madre Stella para que as Canossianas se estabelecessem definitivamente em Macau. O bispo Enes só chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1877 mas as Canossianas porém já estavam em Macau, antes dos finais de 1873 ou princípios de 1874. Na altura abriram uma escola chinesa para as crianças pobres que foi aumentando que logo necessitaram de maior espaço. Inicialmente na Rua de S. Paulo até ao tufão de 1874; depois na Rua de Santo António; e mais tarde na Horta da Companhia. Abriram também uma escola em S. Lázaro para as meninas chinesas. O Governador do Bispado Deão Manuel Lourenço de Gouvea e o Padre António Medeiros conhecendo o prestimoso auxílio das irmãs canossianas, pensaram em comprar uma casa maior. Adquiriram o edifico intitulado “Casa da Beneficência” (no Largo de Camões). (1)

Aí, em 1876, as Canossianas acolhiam meninas órfãs tanto europeias como chinesas. Até 1886, a escola da Casa de Beneficência era exclusivamente chinesa. Mas nesse ano muitas famílias portuguesas manifestaram o desejo de internar lá as suas; outras pretendiam também que as suas filhas lá estudassem como externas. Essa escola canossiana de instrução Primária (para além da instrução primária tinham aulas de inglês, francês, música, piano etc., e depois instrução secundária) esteve instalada na Casa de Beneficência durante quase um século, por isso também conhecido como «Colégio da Casa de Beneficência» (2)

(1) Era chamado pelos chineses, ”Hotel queimado”, sede da Procuratura das Missões estrangeiras francesas em Macau que vagou em 1847 com a transferência da sede dessa Procuratura para Hong Kong (2)

(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982, pp.327-331

Extraído de «O Macaense», Vol. V, n-º 1 de 10 de Junho de 1886

Luis Adolfo Lubeck dedicava grande amizade a Pedro Nolasco da Silva em cuja casa terá sido educado como irmão. A mãe Matilde Rosália Barreto foi encarregada de educação de Edith Angier (filha dum inglês protestante de Hong Kong que regressou a Inglaterra e que confiou a sua filha aos seus cuidados) que viria a casar com Pedro Nolasco da Silva em 1868. É autor duma poesia “À Memória de Pedro Nolasco da Silva” que escreveu em Shanghai em 14 de Outubro de 1912. Pedro Nolasco da Silva faleceu a 12 de Outubro de 1912 (1)

Luís Adolfo Lubeck nasceu em Macau a 25-08-1859 (batizado na Igreja de S. Lourenço a 4-04-1866 e faleceu em Shanghai a 06-07-1922. Guarda livros. casou com Ana Joaquina Tavares, em Shanghai. É filho mais velho de Louis Augustus Lubeck e de Matilde Rosália Barreto (viúva, em 1871, ingressou no Convento das Irmãs da Caridade (Canossianas) em Hong Kong). O pai, Louis Augustus Lubeck nasceu na Suécia cerca de 1817, em 1849 vivia em Hong Kong onde era armador de navios e em 1850 foi para Macau, onde faleceu a 14-06-1863. (2)

O irmão de Luís Adolfo, Henrique Carlos Lubeck (Macau 15-07- 1861/ Shanghai a 17-04-1943) foi baptizado em S. Lourenço no mesmo dia do irmão. Terá sido Henrique (3) o primeiro a emigrar para Shanghai.

L.A Lubeck, foi o correspondente em Shanghai dos jornais macaenses “ O Macaense” e “O Mensageiro” . (4)

 “O Macaense” I-1 de 28 Fevereiro de 1882, p. 4

Foi eleito Presidente, do “Club de Recreio”, de Shanghai em 1897 (neste cargo pelo menos até 1903) (5) e também Presidente da “Associação Macaense de Socorro Mutuo” de Shanghai, em 1918. (6)

NOTA: Sobre a família Lubeck, recomendo leitura do blogue onde está ”The Story of the Lubeck Family … and their house in Shanghai”

(1) REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992 pp. 113-116

(2) Em Junho de 1863, um tufão destruiu a empresa de Louis Augustus Lubeck tendo este falecido nesta data (está sepultado no Cemitério Protestante – túmulo n.º 214).

 Os filhos, Luís Adolfo e Henrique, de 5 e 3 anos de idade ficaram a cargo das autoridades portuguesas, tenho depois sido entregues à família Nolasco da Silva, para educação.

(3) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume II, 1996, pp.423 –

(4) Os nomes de H. O Lubeck e L. A. Lubeck, constam no livro “The Desk Hong List; A general and business directory for Shanghai and the Northern and River Ports etc. 1884″,com a seguinte indicação:

Lubeck Fire Insurance Co: Lubeck. Mrs. H. O. – n.º9, Boone Place, Lubeck, Mrs. L. A – 13, Canton Road https://archive.org/stream/1884deskhonglist/1884deskhonglist_djvu.txt

(5) O “Club de Recreio” de Shanghai foi fundado por macaenses, nos princípios de 1890 e em 1893 a sede estava localizada no “No. 36 Whangpoo Road “. Em 1903, a sede foi transferida para “North Szechen Road No. 31”.

(6) A “Associacao Macaense de Socorro Mutuo” de Shanghai foi instituída na década de 10 com sede localizada na “North Szechuen Road n.º 32”

Extraído de «A Voz do Crente», Anno I n.º 1 de 1 de Janeiro de 1887
Igreja de S. Lázaro, década de 30 (séc XX)

“D. Melchior Carneiro, chegado a Macau, em 1568, fundou logo no ano seguinte a Santa Casa da Misericórdia, de que foi o primeiro provedor, e os hospitais de S. Rafael e de S. Lázaro. Não se conhece a data certa da erecção da Ermida de Nossa Senhora da Esperança que devido à leprosaria anexa, ficou vulgarmente conhecida pelo nome de Igreja de S. Lázaro. Também não sabemos qual existiu primeiro: se a Ermida ou o hospital de leprosos. Parece no entanto, pelo que dissemos atrás que, juntamente com Santo António e S. Lourenço, a Ermida de N. Senhora da Esperança deve ter sido coeva do estabelecimento dos portugueses em Macau… (…)
Em volta da Ermida, no decorrer dos tempos, foram-se estabelecendo os chineses, havendo já ali em 1818 nada menos que 98 casas de cristãos chineses; para atender aos seus interesses espirituais levantou-se uma capela aproximadamente no local da actual escola de Kong Kan, ficando a Ermida reservada aos leprosos. Tendo o bairro chinês aumentado mais e mais e sendo já insuficiente a pequena capela para os cristãos chineses foi-lhes cedida em 1878, de acordo com a autoridade eclesiástica, a mesma Ermida ou Igreja de N. S. da Esperança com a sacristia e a casa anexa do sacristão, passando o padre china que vigariava aquele bairro a celebrar os actos do culto na dita igreja. Arruinada com o decorrer do tempo, foi esta igreja, por Portaria Provincial n.º 65 de 8 de Agosto de 1885, reconstruída em 1886, de modo a poder estabelecer-se a nova Paróquia de S. Lázaro, sendo nesta ocasião demolida a capela. A nova igreja servia para cristãos e leprosos, assistindo estes aos ofícios divinos num compartimento reservado, gradeado de ferro.
Em 1895 espalhou-se em Macau uma terrível epidemia, provindo um grande número de casos das miseráveis choupanas do bairro chinês; alguns anos depois, foram elas expropriadas, de comum acordo entre o Governador Horta e Costa e o Bispo Carvalho e então o hábil arquitecto Abreu Nunes delineou e executou o plano de ruas do actual bairro de S. Lázaro. Por esta ocasião, foram removidos os leprosos para a Ilha de S. João e as leprosas para Ká Hó, ficando desde então até hoje a cargo do Governo, depois de terem estado a cargo da Santa Casa durante perto de três séculos e meio.”
TEIXEIRA, P. Manuel – Macau e a sua Diocese I, 1940, p.169-171

“O Correio Macaense,” Vol. V, n.º 230, 17-02-1888,  (1)

Os Estatutos do “Club União” (autoria de Pedro Nolasco da Silva)  foram aprovados em 28 de Agosto de 1879 (Portaria Provincial n.º 99) depois, reformados pela Portaria Provincial  n.º 58 de 13 de Abril de 1887. Esta Associação transformou-se em duas posteriormente: “Associação dos Proprietários do Teatro D.Pedro V” e “Associação do Club União” – estatutos aprovados pelo Governo em 9 de Julho de 1896 – Portaria Provincial n.º 89 (Boletim Oficial n.º 28). Mais tarde, a Associação “Club União” dissolveu-se , sendo substituída pelo “Clube de Macau”. (2)
Do «Directório de Macau de 1885», retiro o seguinte:
e do «Directório de Macau» de 1890
(1) O semanário político, literário e noticioso «O Correio Macaense» apareceu a 2 de Setembro de 1883, fundado por António Gomes da Silva Teles, tendo sido suspenso, em 1888.(3)
Do Directório de Macau, 1885
(2) TEIXEIRA, M. – Galeria de Macaenses Ilustres, 1942, p. 297
(3) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

O Chefe dos Serviços de Saúde, Dr. José Gomes da Silva, no seu Relatório de 1886, informava que “a raposa, vulpes hoole sin, (1) muito semelhante à que que se encontra em Portugal, tem sido caçada na própria península de Macau”
Na China (como na Europa) a raposa (2) é conhecida pela sua esperteza e por isso, conseguir viver por muitos anos. Além disso, transforma-se numa mulher quando atingisse a idade de 50 anos, numa rapariga jovem e bonita quando atingisse cem anos e depois aos mil anos, tornar-se-ia numa raposa celestial, mas muitas poucas raposas conseguem atingir este estadio.
(1) O «Vulpes vulpes hoole” é uma subespécie de mamíferos carnívoros da família “canidae, subespécie que se encontra no sul da China.
https://es.wikipedia.org/wiki/Vulpes_vulpes_hoole
(2) 狐狸 – mandarim pīnyīn: hú lí; cantonense jyutping: wu4 lei4
WILLIAMS Charles Alfred Speed – Chinese Symbolism and Art Motifs – A Comprehensive Handbook on Symbolism in Chinese Art Through the Ages. Fourth Revised Edition:
https://books.google.pt/books?id=xwnRAgAAQBAJ&pg=PT244&lpg=PT244&dq=vulpes+hoole+sin

Postal emitido pela Companhia “Green Island Cement C.º Ltd” de Hong Kong com fotografias das instalações de Hong Kong e da sua fábrica em Macau. (1) (2)
Anúncio de 1912, da mesma companhia, em Hong Kong, onde se encontrava a direcção da empresa, com a lista dos seus funcionários superiores (em baixo)
Extraído de «The Directory & Chronicle of China , Japan… », 1912»
(1) Entre 1882 e 1883, o comerciante chinês Yu Ruiyun fundou a Fábrica de Cimento da Ilha Verde. Por volta de 1886 terá sido vendida a uma empresa americana «Russell & Company» (3) que a revendeu a uma firma inglesa sediada em Hong Kong em 1891.
A Fábrica de Cimento prosperou até carecer de matéria-prima (pedra que deveria vir de Cantão) nos anos 30. Conservando o nome da Fábrica de Cimento da Ilha Verde, mudou-se para Kowloon, Hong Kong, e ainda hoje existe. (SILVA; Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997)
(2) “In 1898 or 1899, the  “Green Island Cement Company Limited” moved to a location on the harbour front at  Hok Yuen, an area in East Kowloon near Hung Hom where  a larger and more fully equipped factory was built. (The Macau “factories”  appear to have continued.)”
http://industrialhistoryhk.org/green-island-cement-company/
(3) “07-05-1886 – Celebrou-se um contrato entre o Seminário de S. José e Creasy Evens (solicitador judicial, representante da firma) que estabeleceu na Ilha Verde a «Green Island Cement Company, Limited», (GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954)
“1886 – Começou a funcionar, na Ilha Verde, a fábrica de cimento, a cargo de comerciantes ingleses que alugaram o local ao seminário de S. José. Tinha adjacente a produção de tijolos e de cal; além de servir Macau também exportava. Decaiu só quando, cerca de meio século mais tarde, deixou de receber matéria prima de Cantão. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995)
08-02-1926 – Rescisão do contrato de arrendamento do terreno a sul da Ilha Verde com a área de 13.335 m2 feito a favor “The Green Island Cement Co Ltda”  (F.A.C. – Processo 15162 a 15175)
http://www.macaudata.com/upload_files/book/1065/p-163.html
1936 – Faliu a Companhia de Cimento que, por contrato celebrado pelo sr. Creasy Evans, com o Seminário de S. José, se estabelecer na Ilha Verde (SILVA; Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997)
NOTA: 1917 – A Rua do Hospital depois Rua de Pedro Nolasco da Silva, pavimentada nesta data pelas Obras Públicas, foi a primeira a utilizar, na sua pavimentação, cimento vindo da fábrica da Ilha Verde.  que começara a operar, por mão de ingleses, em 1886.

POSTAL –  Fábrica de cimento na Ilha Verde
Editor: M. Sternberg, c. 1900

Relatório do Director das Obras Públicas da Província de Macau e Timor José Maria de Sousa Horta e Costa (1) relativo ao ano de 1885 e datado de 1 de Julho de 1886. (2)
1885– “No jardim da gruta de Camões, fizeram-se trabalhos mais importantes. Levantou-se um grande muro, que abatera com as chuvas em que se despenderam $430,00. Abriram-se novas ruas, construiu-se um pequeno jardim com canteiros limitados por pedras britadas e de cores differentes, compraram-se em Cantão muitas plantas para o adornar, bettonaram-se muitas ruas, empregando uma dosagem tal, que resistisse ás chuvas, como de facto tem succedido, construiu-se um viveiro com canteiros limitados de tijolo vermelho, levantou-se provisoriamente um kiosque de bambú e óla para a banda de musica, mandaram-se fazer 20 bancos de madeira, que custaram $120,00, picaram-se todos os degráos de cantaria ali existentes, e fizeram-se outros trabalhos para adorno e embellezamento.
Este sítio, ultimamente adquirido pelo governo, não só pela tradição historica, que lhe está ligada, mas por ser um dos pontos mais bellos e pittorescos de Macau, merece que se lhe preste uma grande attenção, e não hesito em confessar, que esta direcção não tem tempo nem pessoal para cuidar devidamente.
É n’este sitio, que se ergue a gruta, onde, si vera est fama, o nosso eminente epico, Luiz de Camões, compôz parte do seu magnifico poema, conhecido hoje em todo o mundo civilizado, e traduzido em quasi todas as linguas.
Esta gruta formosissima achava-se precedida por um portico de alvenaria, e tapada com uma grade de madeira, que a desfeiavam bastante, e sobre ella levantava-se um kiosque de pouco gosto e em máo estado. Tudo isto foi arrancado, conservando-se apenas a obra da natureza, devendo mais tarde este local ser devidamente adornado.
O que ha a fazer aqui? Muito, mas a verba distribuida é tão pequena, que pouco sobrará depois de pagar as despezas ordinarias. E é pena isto. (3) Ha aqui local proprio para se construir um lago, cujas aguas, subindo por meio de bombas, de poços existentes ali, desçam depois formando repuxo. Tem espaço para reter alguns animaes mais raros, e tornar-se assim de curiosidade zoológica, e o viveiro, já mencionado, e magnificamente disposto para ali se dislfibuirem, por classes e familias, differentes plantas, podendo fazer-se assim um attencioso estudo da flora da colonia, o que com certeza é util e instructivo.
Apezar porém de tudo isto, da falta de meios, de tempo e de pessoal, eu jamais descurarei este local, que a cidade de Macau tanto deve appreciar, e que por tantos motivos lhe deve ser caro”.
(1) José Maria de Sousa Horta e Costa que esteve em Macau como Director das Obras Públicas em 1886 (na altura tenente de Engenharia) viria a ser nomeado governador de Macau (1894 – 1896). Ver anteriores referências  em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-maria-horta-e-costa/
(2) José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. — Relatório da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e Timor relativo ao Ano de 1885, datado de 1 de Julho de 1886 — pág. 356 in Boletim da Província de Macau e Timor, de 14 de Setembro de 1886 — Suplemento ao n. ° 36)
(3) O mesmo Director, no Relatório de 1886, voltaria a falar do mesmo jardim.
“1886 – Nos jardins do Chunambeiro, de S. Francisco e da Gruta pouco ou nada se fez de novo. Apenas n’este ultimo se construiu um pequeno tanque onde a agua, vindo d’um reservatorio collocado a grande altura, cahe em forma de repuxo. A despeza pois feita este anno nos jardins foi apenas a despeza de conservação“.
José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das O. P. – Relatório Sobre Obras Públicas relativo ao Ano de 1886, datado de 30 de Junho de 1887 –pág. 370 — in Boletim da Província de Macau e Timor, de 3 de Novembro de 1887)

Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor referido ao ano de 1985 elaborado pelo Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos (1) e datado de 1 de Fevereiro de 1886. (2)
1885 — Bairro de S. António: “Do lado N fica a casa ou palacete e uma formosissima quinta; cujo dono ha pouco era o sr. Comendador Lourenço Marques, e que actualmente pertence ao estado. N’esta quinta está a gruta histórica de Camões. Foi esta importantissima e formosa propriedade comprada ha pouco pelo Ex. mo Sr. Governador Thomaz Roza, logo que soube que o proprietario a negociava com os missionarios francezes. Por 35:000 patacas se satisfez um dever patriotico, por todos sentido e já pela illustrada sociedade de Geographia lembrado, por ocasião da celebração do tricentenario do Camões. (3)
Descrever a belleza d’aquella quinta, fallar d’aquellas gigantescas arvores, (4) cujas, raizes abraçando caprichosamente as rochas, encantam e extasiam o observador, não é para aqui, nem eu, por incompetente, assumiria tal encargo. Muitas aplicações pode ter tal vivenda, supponho porem que a melhor entre todas, e a que está lembrando aos que a conhecem, é para museu, jardim zoologico e botanico. Em melhores condições naturaes não está decerto o bello e novo museu em Singapura. A idea não é minha, mas seguramente applicação melhor e mais conveniente não pode ter. Corre que ha muito em tão importante e instructivo melhoramento pensa o Ex.mo Sr. Thomaz de Souza Roza. Se conseguir realisal-o, é mais uma obra grandiosa do seu governo.
Em linha com a entrada de tão formosa e encantadora vivenda estão extensas ruínas, esqueletos de dois palacetes, triste recordação do anno de 1874. Pertencem ao mesmo sr. Commendador Lourenço Marques. Diz-se que o seu proprietario tenta de novo erguei-os para arrendar, pois que para si destina parte do grande palacio, que formando do lado SO a face do quadrado do espaçoso largo, foi agora erguido sobre as ruínas d’ um outro palacete que o mesmo tufão em intima alliança com um voraz incendio, conseguira abater. Igual sorte ia tendo a igreja de Santo Antonio que fica ao S. Em geral os edificios d’esta freguezia são de modesta apparencia.”.
(1) Sobre Augusto Pereira Tovar de Lemos, ver em anteriores referências:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/augusto-pereira-tovar-de-lemos/
(2) Augusto Pereira Tovar de Lemos — Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor, referido ao ano de 1885, datado de 1 de Fevereiro de 1886- págs. 149 e 154 — in Boletim da Província de Macau e Timor — Série de 1886)
(3) “1885 — “Embora o processo para aquisição do Jardim de Luís de Camões fosse desencadeado pelo antigo Capitão do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, quando deputado no Parlamento de Lisboa, em Maio de 1880, só perante o desejo dos Padres das Missões Estrangeiras de Paris para ali instalarem um sanatório é que se retomou o processo. Foi então que o Governador Tomás de Souza Roza telegrafou ao Ministro da Marinha e Ultramar, Manuel Pinheiro Chagas e, devidamente autorizado, antecipou-se aos franceses, comprando a propriedade à família Marques“.
(SILVA, Beatriz Basto da — Cronologia da História de Macau — 3. ° Vol., 1995)
(4) “O Jardim Luís de Camões situa-se na colina que é também conhecida por «Colina da Fénix», devido às acácias rubras (delonix regia) que existem naquele local desde a Dinastia Qing que brotam flores vermelhas incandescentes na primavera e verão, tornando o jardim mais belo.”
https://nature.iacm.gov.mo/p/park/detail.aspx?id=b4dd26b1-dd88-4170-9314-9d845834699b

Macao
Praia Grande, vista da Colina da Penha, c. 1885. Autor desconhecido
Gravura feita após fotografia, colorida posteriormente

A Praia Grande em 1885
O Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos (1) descrevia assim a Praia Grande no «Relatório do serviço médico da província de Macau e Timor referido ao anno de 1885»: (2)
«Esta enorme e larga rua (Avenida da Praia Grande), na maior parte pertencente á freguesia da Sé, é curva e talhada juntamente com a muralha que a limita pelo E, S e SO em amphiteatro. É arborizada. Em curva mais suave, segue-se uma extensa linha de prédios, qual deles o melhor. Ao centro d´esta rua está um bello palácio, que por muito tempo foi residência dos Governadores, acomodando actualmente as seguintes repartições públicas – junta da fazenda, tribunaes judiciaes, europeu e china, com os respectivos cartórios e repartição de decimas. E um bello estabelecimento; em harmonia coma amplidão e elegância das salas está a sua mobília. Estão em decência á altura e dignidade de taes repartições. Apenas há a notar e sentir que algumas salas interiores no rez do chão, e que servem para cartórios da repartição da procuratura, tenham pouco ar e pouca luz, resultando, já se vê, crescimento de humidade, e por tanto insalubres, em especial no tempo invernoso. A sala de tribunal é mais de decente, é magestosa.
Um outro palácio de mais subido gosto, segundo a maioria dos pareceres, se encontra ao seguir da mesma fileira de prédios na Praia Grande o qual olha para o S. ou talvez mais rigorosamente para SO. Todo o palácio, como o seu adorno, está em circunstâncias de receber os mais elevados dignitários estrangeiros, sem quebra de nossa dignidade nacional. N´elle reside o actual Governador (Tomás de Sousa Rosa), a quem se deve tanto o melhoramento do palácio com a útil e grandiosa idea de reunir a maior parte das repartições, não se poupando a esforços para que as referidas repartições, se alojassem com o decido conforto, e decência. Todos os prédios que em graciosa e suave curva limitam pelo N. a praia são belos, e como são pintados ou caiados a diversas cores, o conjunto forma um todo bello. A rua é toda arborizada do lado S No limite E fica um elegante edifício, o Grémio Militar, e por detraz d´este em mais elevado plano o vistoso e bom quartel de S. Francisco. Do lado S.O. fica a montanha arborizada da Penha.
Entre os prédios dos particulares os que mais se distinguem são os do sr. Commendador Senna Fernandes e o Hotel (Macao Hotel ) que é de bom gosto. A apparência  d´estes edifícios não está em geral em harmonia com as divisões das casas, que têem irregularidades, com algum prejuízo para a hygiene».
(1) O Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos ( ? – 1933), chefe de serviço honorário da província de Moçambique, chegou a Macau no transporte «África», no dia 1 de Janeiro de 1882, acompanhando como médico, o 1.º Batalhão do Regimento de Infantaria do Ultramar. A 10 de Maio de 1884, foi nomeado cumulativamente o serviço também do 3.º Batalhão. Foi nomeado de 2 de Maio a 19 de Novembro de 1844, Chefe interino do Serviço de Macau e Timor substituindo o Director, Dr. Lúcio da Silva que esteve nesse período em Portugal de licença graciosa  Foi depois chefe interino algumas vezes  (17 de Janeiro a 1 de Dezembro de 1885; 27 de Junho a 3 de Outubro de 1887 e de 18 de Janeiro a 2 de Julho de 1888) , substituindo o Dr. Gomes da Silva, ausente quer por licença graciosa quer em missão de serviço a Timor e Sião. Seguiu de viagem para Portugal em 15 de Outubro de 1889, para se tratar da saúde, não mais regressou. Faleceu no dia 30 de Janeiro de 1933 segundo « Diário da Manhã» Ano II-n.º 630, 3 Janeiro de 1933.

(2) Publicado no Boletim Oficial, 6 de Maio de 1886, p. 154.

Artigo publicado em Agosto de 1886, na revista ilustrada “As Colónias Portuguesas (1)

(1) «As Colónias Portuguesas», IV-6, Agosto de 1886.