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Macao
Praia Grande, vista da Colina da Penha, c. 1885
Gravura feita após fotografia, colorida posteriormente

A Praia Grande em 1885
O Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos (1) descrevia assim a Praia Grande no «Relatório do serviço médico da província de Macau e Timor referido ao anno de 1885»: (2)
«Esta enorme e larga rua (Avenida da Praia Grande), na maior parte pertencente á freguesia da Sé, é curva e talhada juntamente com a muralha que a limita pelo E, S e SO em amphiteatro. É arborizada. Em curva mais suave, segue-se uma extensa linha de prédios, qual deles o melhor. Ao centro d´esta rua está um bello palácio, que por muito tempo foi residência dos Governadores, acomodando actualmente as seguintes repartições públicas – junta da fazenda, tribunaes judiciaes, europeu e china, com os respectivos cartórios e repartição de decimas. E um bello estabelecimento; em harmonia coma amplidão e elegância das salas está a sua mobília. Estão em decência á altura e dignidade de taes repartições. Apenas há a notar e sentir que algumas salas interiores no rez do chão, e que servem para cartórios da repartição da procuratura, tenham pouco ar e pouca luz, resultando, já se vê, crescimento de humidade, e por tanto insalubres, em especial no tempo invernoso. A sala de tribunal é mais de decente, é magestosa.
Um outro palácio de mais subido gosto, segundo a maioria dos pareceres, se encontra ao seguir da mesma fileira de prédios na Praia Grande o qual olha para o S. ou talvez mais rigorosamente para SO. Todo o palácio, como o seu adorno, está em circunstâncias de receber os mais elevados dignitários estrangeiros, sem quebra de nossa dignidade nacional. N´elle reside o actual Governador (Tomás de Sousa Rosa), a quem se deve tanto o melhoramento do palácio com a útil e grandiosa idea de reunir a maior parte das repartições, não se poupando a esforços para que as referidas repartições, se alojassem com o decido conforto, e decência. Todos os prédios que em graciosa e suave curva limitam pelo N. a praia são belos, e como são pintados ou caiados a diversas cores, o conjunto forma um todo bello. A rua é toda arborizada do lado S No limite E fica um elegante edifício, o Grémio Militar, e por detraz d´este em mais elevado plano o vistoso e bom quartel de S. Francisco. Do lado S.O. fica a montanha arborizada da Penha.
Entre os prédios dos particulares os que mais se distinguem são os do sr. Commendador Senna Fernandes e o Hotel (Macao Hotel ) que é de bom gosto. A apparência  d´estes edifícios não está em geral em harmonia com as divisões das casas, que têem irregularidades, com algum prejuízo para a hygiene».
(1) O Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos ( ? – 1933), chefe de serviço honorário da província de Moçambique, chegou a Macau no transporte «África», no dia 1 de Janeiro de 1882, acompanhando como médico, o 1.º Batalhão do Regimento de Infantaria do Ultramar. A 10 de Maio de 1884, foi nomeado cumulativamente o serviço também do 3.º Batalhão. Foi nomeado de 2 de Maio a 19 de Novembro de 1844, Chefe interino do Serviço de Macau e Timor substituindo o Director, Dr. Lúcio da Silva que esteve nesse período em Portugal de licença graciosa  Foi depois chefe interino algumas vezes  (17 de Janeiro a 1 de Dezembro de 1885; 27 de Junho a 3 de Outubro de 1887 e de 18 de Janeiro a 2 de Julho de 1888) , substituindo o Dr. Gomes da Silva, ausente quer por licença graciosa quer em missão de serviço a Timor e Sião. Seguiu de viagem para Portugal em 15 de Outubro de 1889, para se tratar da saúde, não mais regressou. Faleceu no dia 30 de Janeiro de 1933 segundo « Diário da Manhã» Ano II-n.º 630, 3 Janeiro de 1933.

(2) Publicado no Boletim Oficial, 6 de Maio de 1886, p. 154.

“Este estabelecimento será aberto em 2 de Fevereiro próximo, 2 peritos estarão constantemente em attendencia para exercer a arte de tonsura e barbear por preços módicos.
Aos freguezes mensais carregar-se-há $1, (1) sendo servido no estabelecimento, e para attendencia nas residências particulares $1.50 ao mez.
Os sobrescriptos farão o favor de encher a formula anexa e retornal-a. Aos avulsos carregar-se-há segundo o ajuste.

Pedro A. Collaço, (2) encarregado

Retirado do livro FRANÇA, Bento da – Macau e os seus habitantes. Relações com Timor. Lisboa, Imprensa Nacional, 1897, 286 p.
(1) Uma pataca.
(2) Muito possivelmente Pedro Alexandrino Collaço (3) nascido em 1851 e falecido na freguesia da Sé a 28 de Abril de 1906. 5.º filho de Francisco Xavier Collaço (1813-1887), macaense que foi capitão, comandante militar da Taipa de 16 de Julho a 7 de Novembro de 1864 (reformado como major da guarnição de Macau) e de Alexandrina Francisca de Sá (1827-1915) (4)
(3) Hoje os descendentes, depois da reforma ortográfica, utilizam a grafia “Colaço” embora muitos dos que emigraram para o estrangeiro mantiveram a grafia antiga. (4)
(4) FORJAZ, JorgeFamílias Macaenses, Volume I, 1996.

Não podia deixar passar também uma notícia deste dia, 1 de Setembro de 1887, relacionada a um edifício histórico -VILA BRANCA – que não sei se vai fazer parte do plano de destruição para futura construção de um novo edifício que irá servir de Bloco Hospitalar destinado às doenças infecto-contagiosas do Centro Hospitalar Conde de S. Januário. De certeza serão demolidos (ou já estarão ?) os edifícios que foram o  Pavilhão de Isolamento e a Farmácia do Hospital de S. Januário – e assim se vão perdendo os lugares de outrora com passado histórico.
01-09-1887 – Pedido feito pelo Chefe de Saúde desta Colónia, Dr. José Gomes da Silva, de aforamento de um terreno junto ao planalto do Hospital de S. Januário para construção duma casa de habitação (1)

ÁLBUM 2005 - Antiga farmácia do Hospital S. JanuárioFoto de 2005 – edifício da antiga farmácia do Hospital S. Januário (traseiras)

VILA BRANCA situa-se na  vertente Sul da Colina de S. Januário onde estão (ou estavam) edificados os pavilhões de isolamento e a farmácia do Hospital de S. Januário, entre o hospital e a Estrada Nova.
A  Vila Branca era a residência do Dr. José Gomes da Silva, que deu à sua casa o nome de sua esposa.
Gomes da Silva nasceu no Porto  em  1853  sendo filho de Joaquim Gomes da Silva e de Ana Rosa Gomes da Silva. Casou com Branca Chaves nascida em Bordeaux, França, em 1851, sendo filha de João José Lopes e de Casimira Esperança Douguel Branca. Formou-se na Escola Médica do Porto.
O Dr Gomes da Silva faleceu na Vila Branca, no posto de coronel-médico, a 1 de Novembro de 1905, (2) com 52 anos de idade, 22 dos quais passados  em Macau, sendo chefe do Serviço de Saúde desde 1884; foi ele também o 1.º reitor do Liceu de Macau, inaugurado no extinto convento de S. Agostinho a 28 de Setembro de 1894. Sua esposa, Branca Chaves Gomes da Silva, faleceu na Vila Branca a 9 de Dezembro de 1895, com 44 anos de idade, deixando 11 filhos.
O Dr. Gomes da Silva foi também, botânico, músico, jornalista e professor além do liceu, no Seminário
A  vila Branca foi comprada pelo Governo em 1917, por ocasião da epidemia da varíola para isolamento dos variolosos; em 1919, foi lá instalado o serviço de parturientes e puérperas.” (3)
NOTA: Foi dada o nome de «Rua de Gomes da Silva», à rua que começa na Rua da Erva, entre os prédios n.º 29 e 31, e termina na Rua de João de Araújo, entre os prédios n.ºs 22 e 24.

UN de Macau no ano XIV da Revolução -1940 Pavilhão do IsolamentoFoto de 1940 – edifício do Pavilhão de Isolamento (frente e parede lateral direita) do Hospital S. Januário

O edifício do antigo pavilhão de isolamento e o edifício da  farmácia do Hospital de S. Januário, entre o hospital e a Estrada Nova foram restaurados para servir de residência de médicos. Posteriormente à frente do antigo Pavilhão de Isolamento construíram o chamado “Edifício Residencial dos Médicos” dentro do projecto do então novo Centro Hospitalar da década de 80 (século XX).  Na data desta fotografia (1998) estava a residir no primeiro andar, o médico pediatra Dr. Jorge Humberto e família; no rés-do-chão (trás) o médico dermatologista e Director dos Serviços de Saúde, Dr. Larguito Claro e família e no rés-do-chão esquerdo (à direita na foto) estava a sede da Associação dos Médicos de Clínica Geral de Macau (A. M. C. G.M.)

Vila Branca - 1998Foto de  1998 – edifício do antigo pavilhão de isolamento (frente e parede lateral esquerda) do Hospital S. Januário

(1) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(2) Na sessão de 11 de Novembro de 1905 do Conselho Escolar do Liceu, o reitor Dr. Manuel da Silva Mendes «pediu que se exarasse na acta um voto de sentimento pelo fallecimento do sr. dr. José Gomes da Silva, que foi reitor e professor deste lyceu durante o estabelecimento delle nesta colónia, pedindo mais que se desse conhecimento do sentir de todo o conselho à família do finado»
(3) TEIXEIRA, Pe. Manuel – Toponímia de Macau, Volume II, 1997 .

Depois de uma certa inactividade no campo cultural (1) desde o início do século XX por vários motivos entre eles, a diminuição constante do número de sócios por causa da má situação financeira e da tragédia em 1914 (suicídio de João Canavarro, presidente da direcção dos Proprietários do Teatro D. Pedro V, por desfalque), o «Club de Macau», (2) arrendatário do Teatro D. Pedro V, retomou as actividades culturais nomeadamente as representações teatrais, operetas e óperas, muitas vezes aproveitando a passagem de Companhias estrangeiras por Hong Kong e China.
Assim neste dia de 19 de Junho de 1921, a companhia de Ópera Ligeira e Opereta de Daroff e Shtern iniciou a sua temporada em Macau, com «A Viúva Alegre» de Lehar. Os melhores artistas desta Companhia eram os sopranos Glória Charskaia e Rootkowskaia, o tenor Crugloff e os barítonos Daroff e Elin. Tão boa era esta Companhia que, além da «Viúva Alegre», teve de apresentar ainda, nas noites seguintes, no Teatro D. Pedro V, as seguintes operetas: «Os Mistérios de um Harém» de Valentinoff, «Amor de Cigana» de Lehar, «O Conde de Luxemburgo», também de Lehar, «O Rei dos Violinistas » de Kalmann, «Sílvia» de Delibes» «A Princesa dos Dólares» de Leo Fall, o «Pot-Pourri» de Sidney Jones «O Rei Diverte-se», «A Vestal do Deus do Fogo» e «Hadji- Murat». (3) (4)

D. Pedro V - Salão década de 70 (XX)Salão do Teatro D. Pedro V, na década de 70 (Século XX) (5)

(1) Excepto num período muito curto em 1915 em que se passava filmes mesmo sem equipamento adequado, fruto dum contrato entre o Clube de Macau e uma empresa cinematográfica. O «Club de Macau», no dia 05-05-1914, subarrendou o Teatro  à Empresa Cinematográfica representada por Chan Ham Che e Júlio Eugénio da Silva, por um ano, pela quantia de $ 200,00 mensais. Era presidente do «Club de Macau»,  Fernando de Meneses. Este contrato foi desastroso, pois as bancadas ficaram danificadas e o Teatro sujo, vendo-se o clube obrigado a rescindir o contrato antes de findar o prazo (5). Ver anterior referência em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/02/15/anuncio-de-1922-animato-grafo-macau/
(2) Após a aprovação dos Estatutos da Sociedade Teatro D. Pedro V, em 1887, fundou-se o «Club União»  que arrendou à sociedade o edifício do Teatro para o fim de aí estabelecer o clube do mesmo nome, obrigando-se a dita sociedade a pagar a esta associação 15% dos rendimentos brutos do clube e do Teatro». Em 17 de Dezembro de 1896, o presidente dos proprietários, General Garcia, reuniu-se com Pedro Nolasco da Silva, presidente da Comissão directora do «Club União», e acordaram ambos no contrato de arrendamento do edifício do Teatro ao clube pelo tempo de 10 anos, a contar de 1-1-1897. Porém em 1903, o oficial de marinha, tenente Marta, membro do «Club União», trouxe a desunião e a morte ao seu clube, pois portou-se incorrectamente com a sra. Saturnina Canavarro num baile do clube e foi tal a celeuma que se levantou que o clube teve de fechar. Assim surgiu o «Club de Macau» cujo presidente Henrique Hyndman pediu o arrendamento, nas mesma condições (período de 10 anos) com pequenas modificações cujo contrato foi assinado a 23 de Junho de 1903. Contrato que foi renovado a 5 de Maio de 1913. Esse arrendamento foi prolongado por dez anos em 23-06-1903 e em 05-05-23 renovado nas mesmas condições que o contrato anterior (5)
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História  de Macau, 1954
(4) Não consegui qualquer referência dos artistas referidos, excepto uma pequena nota do barítono (segundo a crítica, excelente) russo Vladimir A. Elin (1888-1958), estudante de música em S. Petersburgo, que numa digressão ao Oriente, depois das Filipinas foi para Austrália em 1927 onde se radicou por vários anos. Depois seguiu para Inglaterra (1932) e por fim emigrou para os EUA (1938) onde além de actuar foi professor de voz.
Um anúncio publicado num jornal australiano “The Register Adelaide, July 24, 1928 ” dum programa radiofónico com este barítono.

MÚSICA- Anúncio Vladimir Elin barítonohttp://trove.nla.gov.au/newspaper/article/57054882

(5) TEIXEIRA, Pe. Manuel – O Teatro D. Pedro V, 1971
Anteriores referências:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/teatro-d-pedro-v/

O jornal «O Século» (n.º 10575, p. 3) publicava no dia 22 de Maio de 1911 a notícia do falecimento do Conde de Arnoso: (1)
“O sr. Bernardo Pinheiro Correia de Melo, conde de Arnoso, contava 56 anos de idade. (…) Grande admirador de Eça de Queirós, seu companheiro no famoso grupo dos «Vencidos da Vida». Influiu bastante para que se erguesse a estátua do largo de Quintela à memória do autor da Relíquia. Após o regicídio (…) esforçou-se, na câmara dos pares, por obter a colocação de uma lápide no Terreiro do Paço, comemorando a morte do sr. D. Carlos. Nada conseguiu, porém, embrenhando num alheamento de todos os assuntos da política portuguesa (…). Essa atitude valeu-lhe ir ter que bater-se em duelo à espada, de que saiu levemente ferido.”
BRANCO E NEGRO 1896 n.º 38 pp.182-183 MACAU de Conde de Arnoso IPublicado no semanário ilustrado “Branco e Negro” de 29 de Dezembro de 1896, um artigo denominado “O ORIENTE – MACAU” (2), que reproduz a primeira parte do capítulo “Em Macau”  das “Jornadas pelo Mundo“.
José Sarmento director do  semanário (3) fez uma pequena introdução, a propósito das “«Jornadas pelo Mundo» do conde Arnoso (Bernardo Pindella), um livro “encantador e luminoso que nos falla d´essa impenetrável e silenciosa China, tão cheia de coisas imprevistas, tão typica, tão atrazada e por isso mesmo tão curiosa, onde ha, para quem saiba vêr, uma tão subtil e colorida analyse a fazer. É realmente de tentar este passeio ao paiz dos amarellos; e Bernardo Pindella, com raras qualidades de colorista, d´elle nos trouxe um pedaço delicioso, claro e aromal como um bosque …de tamarindos. … (…)
Das Jornadas pelo mundo que são, n´este ponto o livro de viagens que nos traduz melhor a impressão sentida, doce impressão, como a que se tem a um pôr de sol que morre n´uma gloria d´oiro, recortamos um bello trecho sobre a cidade de Macau.”
BRANCO E NEGRO 1896 n.º 38 pp.182-183 MACAU de Conde de Arnoso IIEncontrar terra portugueza, a mais de 3:600 leguas de distancia da nossa querida patria, é tamanha ventura, que os cinco dias que estivemos em Macau (4) contarão na nossa vida como para o caminhante no deserto contam as horas de descanço passadas à sombra bemfazeja das palmeiras d´um oásis. E o orgulho de ser portuguez parece crescer ainda quando, pisando a bella terra, volvemos os olhos para o passado e de memória folheamos as paginas da nossa gloriosa historia. … (…)
BRANCO E NEGRO 1896 n.º 38 pp.182-183 MACAU de Conde de Arnoso IIIO seminário de S. José é o unico estabelecimento de instrucção secundária da província. (⅟)
Esta casa de educação soffreu um grande golpe com a expulsão dos dois unicos professores estrangeiros, jesuítas que n´ella existiam. Foi o decreto de 1871 que reorganisando o seminario de S. José, prohibiu que n´elle professassem disciplinas padres estrangeiros. Esses dois unicos jesuitas, d´um grande saber, e que tão relevantes serviços tinham prestado á mocidade estudiosa de Macau, tiveram então de sair. Um é hoje professor em Melbourne; o outro tem a seu cargo em Roma, como redactor principal, a Civittà catolica. É triste vês como um simples traço de penna pôde ter tão funestos resultados.Não se imagina a differença que existe entre os macaístas que foram ainda discípulos d´esses dois padres, e aquelles que não puderam aproveitar das suas lições. Ao sexo feminino prestam  hoje relevantes serviços as irmãs de caridade italianas estabelecidas em Macau. Além de receberem as orphãos e as educarem,  as suas classes são frequentadas pelas filhas de macaístas e empregados da província. Ensinam tambem  a lêr e a trabalhar as ceguinhas pobres. Não se calcula a quantidade de chinas, ou absolutamente cegos ou vendo tão pouco que os fórça a trazer óculos fixos, que por toda a parte se encontram.

BRANCO E NEGRO 1896 n.º 38 pp.182-183 MACAU de Conde de Arnoso IV“Mais acima, no alto d´uma pequena colina, assenta o hospital S. Januario, magnífico e elegante estabelecimento que Macau teve, entre outras muitas coisas, á larga iniciativa do conde de S. Januário.”

As irmãs italianas, apezar de abençoadas por todos, não estão livres tambem de ser expulsoas um dia por algum ministro repentinamente atacado de liberal jacobinismo, formula estapafurdia e indígena muito do apreço de conspicuos conselheiros. O actual bispo de Macau, D. António de Medeiros, não descura um momento, com os eu incansável zelo, estes dois estabelecimentos de instrucção. Prelado d´uma illustração que eguala a sua virtude, não lhe serviu a purpura para descançar. Novo ainda, encontramol-o magro e pallido, mirrado pelas febres devoradoras de Timor, adquiridas na longa visita que ultimamente fez no pelo interior d´aquella ilha ás Missões por elle creadas. Durante algum tempo estivemos presos da iua palavra fluente, ouvindo-o discorrer com rara largueza de vistas e superior bom-sendo sobre o estado actual e o futuro de Timor.”
(⅟ ) Uma recente lei creou felizmente um lyceu em Macau que já está funccionando”

BRANCO E NEGRO 1896 n.º 38 pp.182-183 MACAU de Conde de Arnoso V(1) Bernardo Pinheiro Correia de Melo, conde de Arnoso, também conhecido pelo pseudónimo literário Bernardo Pindela (1855-1911). Fidalgo da Casa Real, capitão do Estado-maior de engenharia, oficial às ordens do rei D. Carlos e seu secretário particular, escritor  e diplomata. É filho do segundo matrimónio do primeiro visconde de Pindela, João Machado Pinheiro Correia de Melo, fidalgo cavaleiro da Casa Real, do conselho de S. M.
Chegou a Macau em 23 de Abril de 1887. Acompanhou o ex-governador Tomás de Souza Rosa a Pequim, em 1887, como secretário, numa missão diplomática, que tinha por fim celebrar um tratado com a China, e foi o negociador do convénio do primeiro de Dezembro do referido ano. As suas notas de viagem a Pequim, em 1887, (roteiro da viagem: Singapura,  Saigão, Hong Kong, Macau, Xangai, Tien-Tsin e Pequim) reuniu-as depois num livro com o título de Jornadas pelo Mundo, que publicou em 1895. A edição foi feita pela casa editora Magalhães & Moniz, do Porto. Pelo decreto de 28 de Setembro de 1895 foi agraciado com o título de conde de Arnoso. Até então assinava-se sempre Bernardo Pindela em todos os seus trabalhos literários.
http://www.arqnet.pt/dicionario/arnoso1c.html
Ver ainda anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/conde-de-arnoso/
(2) Publicado em “Branco e Negro, 1896, n.º 38, pp. 182- 183″
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/BrancoeNegro/1896/Dezembro/Dezembro_master/BrancoeNegroN36aN39.PDF
«BRANCO E NEGRO» – semanário ilustrado publicado em Lisboa de 5 de Abril de 1896 a 27 de Março de 1898 (total de 104 números) sob a chancela da Livraria e casa editora António Maria Pereira  sedeada na Rua Augusta n.º 50 a 54.
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/BrancoeNegro.pdf
(3) José de Matos Sarmento de Beja (1870-1939), jornalista, escritor e tradutor. Na imprensa, registe-se que foi chefe de redacção do Diário de Notícias; redactor do Século, Novidades, O Dia e Jornal da Noite; e colaborou com muitos outros títulos de natureza literária e artística, como Serões, De Teatro, Domingo Illustrado, Noticias Illustrado, Século Illustrado, entre outros. Também exerceu cargos na administração do Estado e no universo empresarial.
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/BrancoeNegro.pdf
(4) Chegou a Macau em 23 de Junho de 1887 juntamente com Tomás  de Sousa Rosa.

“Os principais pagodes de Macau são o da Barra e o da Porta do Cerco e o de Matapan.
A religião budista é a que principalmente domina na China, apesar de ter sido primitivamente muito perseguida como contrária às leis estabelecidas. É muito grande o número dos seus deuses. Existe um céu, um purgatório e um inferno. Conforme os presentes que se fazem aos deuses e a prática das virtudes, assim se tem a certeza de ir para um ou outro deste lugares. Acreditam na metempsicose, e, assim, há casos de fanáticos que se matam para voltar à terra transformados em mandarins. Como exemplo, e bem frisante, bastará, sem mais comentários, traduzir literalmente do Chinese Times, excelente jornal inglês que se publica em Tien-Tsin, a seguinte notícia que lemos na sua curiosa secção «Local and General from Sih-Pao» (jornal china):«A mulher de um homem chamado Liu, empregado nas Obras Públicas e que vivia dentro da porta de Hsuan-Wu-Men deu à luz um filho em condições verdadeiramente maravilhosas. Logo que nasceu principiou a falar inteligivelmente dizendo: «Sou Wang-Erb da aldeia de Yen-Chia-Chuang, fora da porta de Hoi-Pien-Men». Extraordinariamente espantado Liu dirigiu-se à aldeia designada para fazer pesquisas e, surpreendido, foi informado que aí tinha havido uma pessoa com esse nome que, por vocação, fora lavrador; mas que nos últimos anos enfraquecera com a idade morrendo no próprio dia em que o filho de Liu nascera, não estando ainda o seu corpo enterrado. Liu, disfarçado em carpidor, dirigiu-se à casa mortuária onde encontrou toda a família chorando sobre o corpo do morto e aí contou o que passara em sua casa. Liu, depois de ter dado dez taéis (10$000 réis) como contribuição do sacrifício ao morto Wang, levou o filho deste a ver o recém-nascido. O baby disse então: «Por causa de afinidades na minha vida anterior vim para debaixo deste tecto!».
Os mais virtuosos vão directamente para o céu gozar da eterna bem-aventurança: os duma virtude média voltam à terra em corpos de ricos mandarins; os celerados, como é natural,  para as Profundas do inferno.” (1)
Conde de Arnoso(1) Bernardo Pinheiro Correia de Melo (1855-1911), 1º conde de Arnoso (título em 1895) também conhecido pelo pseudónimo literário Bernardo Pindela (do grupo “Vencidos da Vida”; entre outros membros, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro)  foi um escritor português (secretário particular do rei D. Carlos). Esteve em Beijing entre Outubro e Dezembro de 1887, acompanhando o embaixador Tomás de Sousa Rosa. As impressões da viagem, editou-as em 1885, nas “Jornadas pelo Mundo” onde descreve detalhadamente o sistema do governo imperial chinês.
ARNOSO, Conde de – Jornadas pelo Mundo , 2 tomos (I – Em caminho de Pekin II em Pekin) de 1895, 440 p.,
Anteriores referência s ao Conde de Arnoso
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/conde-de-arnoso/

Numa postagem anterior “ANÚNCIO -SOCIEDADE DE ABASTECIMENTO DE ÁGUAS DE MACAU LIMITADA (S.A.A.M.)”, (1)  referi que o primeiro reservatório público de Macau foi construído em 1924 no vale da Colina da Guia, (2) mas que devido ao seu tamanho, poucas centenas de metros quadrados de área, muito limitado para o abastecimento de água público, foi abandonado  o seu uso (e também porque a Sociedade foi à falência).
Encontrei esta fotografia de 1927 em que se vê esse reservatório : “Reservatório de água do lado Sul da Colina da Guia”
ANUÁRIO de 1927 - Reservatório de CacilhasNesse mesmo lugar, em 1949, iniciou-se  as obras para a adaptação do reservatório em paiol (Paiol da Solidão) (3)  (estava no “vale”  por cima da Fonte da Solidão, hoje “escondida” porque está parcialmente enterrada com o alargamento da Estrada de Cacilhas e atrás das barreiras de protecção do Grande Prémio) (4)
O reservatório era fechado (na foto vê-se o terraço) e com as obras de adaptação foi cimentada constituindo o terraço do paiol, cuja entrada dava directamente para uma pequena rampa na direcção da Estrada de Cacilhas.
À esquerda da foto, a entrada  para um espaço escavada na colina onde escorria água que depois era canalizada para o reservatório. Este espaço foi readaptado para servir de armazém do paiol. Nesta foto, esta entrada não tinha ligação directa para o terraço (a passagem era feita apenas por uma tábua, do muro para a entrada). Na transformação em paiol foi necessária a destruição de parte desse muro do reservatório para dar  uma ligação mais larga, cimentada e directa à entrada. O transporte do material era difícil para este espaço pois não havia nenhuma passagem do andar superior para o inferior, apenas uma escada de madeira vertical ligava o terraço e a guarita (à direita na foto – futuro local de trabalho do paioleiro) (5) pelo que se construiu uma passagem em terra, da porta da guarita (visível, à direita na foto) para umas escadas de pedra que ainda hoje é possível observar no local (muitos degraus já desfeitos) Pela dificuldade de transporte, armazenava-se aí nesse espaço interior, o material menos usado ou que aguardava  abatimento.

MEU ÁLBUM Paiol de Solidão IAspecto actual do Paiol de Solidão. (FOTO Abril 2015)

Na foto acima, a rampa que dá acesso ao paiol com o muro do antigo reservatório recuperado. A rampa (como ela está, mais larga e alcatroada) foi feita já na década de 60 (século XX) para melhor acesso dos transportes da carga e descarga de armas, munições e explosivos (por força de lei, as empresas que lidavam com  explosivos empregues em trabalhos particulares eram obrigadas a terem esse material depositados no Paiol). À direita, à beira da estrada,  por detrás das barreiras, a Fonte da Solidão.
MEU ÁLBUM Paiol de Solidão II ABRIL 2015À direita a escada de acesso, de pedra (infelizmente mal conservada, semi-desfeita) para o “andar” superior. O portão e a  pequena guarita no topo das escadas foram colocadas depois do 25 de Abril de 1974.
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/07/anuncio-sociedade-de-abasteci-mento-de-aguas-de-macau-limitada-s-a-a-m/
(2) Já em 1919, o coronel (engenheiro) Adriano Augusto Trigo  quando assumiu a Direcção dos Serviços de Obras Públicas de Macau, traçou um plano que incluía o aproveitamento das águas fluviais e águas subterrâneas. O projecto para captação de águas fluviais, entre outros, previa a construção na Colina da Guia de um reservatório.
(3) Recordar que o anterior paiol estava na Flora junto ao Palacete da Flora – hoje Jardim da Flora,  desde 1924 até ao episódio do seu rebentamento pelas 5 horas da manha do dia 11 de Agosto de 1931, atribuída ao excesso de calor. Provocou 24 mortos e 50 feridos e destruiu completamente o Palacete da Flora.
Há indícios dum anterior paiol em Mong-Há com a data de 1887 e outro mais antigo (primitivo’?) numa informação datada de  30-03-1639: “Tendo sido reconhecida a necessidade de se construir um Paiol de pólvora e proposto para este fim o sítio de Nossa Senhora da Penha de França ou no baluarte de Sao Pedro, o Senado preferiu, porém construí-lo no monte de S. Paulo” (MOSAICO, 1951)
(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/decada-de-50/
(5) O primeiro paioleiro deste paiol, foi colocado em 1 de Janeiro de 1951.  O primeiro (e único) paioleiro do Paiol da Solidão foi o  Cabo Pereira, já que posteriormente se construiu outro paiol, (em meados da década de 50 do século XX) ligeiramente mais a oeste, ao nível da  Estrada de Cacilhas que tem no seu interior uma ligação interna – túnel que “perfura” a Colina da Guia – com saída no Jardim da Flora. Os dois paióis sob a designação de Paiós de Cacilhas mantiveram-se em funcionamento simultâneamente e sempre com mesmo paioleiro até à sua reforma e mesmo depois de reformado até 1973.
Paioleiro – guarda de Paiol, ou seja, é o guarda do local onde ficam armazenadas as munições e os explosivos dos militares. Em Macau também se armazenavam (por lei) os materiais das empresas civis que utilizavam explosivos para as obras.