Archives for posts with tag: Leprosarias / Lazaretos

Às 8 horas da noite de 12 de Julho de 1893, na rua nova d´El-Rei, (1) foi apunhalado o chinêsLi Hin Teng, cunhado do capitalista Chan Fong (2) que foi outrora cônsul da China em Honolulu.

Extraído de «Echo Macaense», semanário luso-chinez, Ano I- n.º 1 de 18 de Julho de 1893, p 2

NOTA: a notícia nomeia dois médicos (facultativos) 1- Dr. Luís Lourenço Franco, macaense, nascido a 25-8-1849, formado em medicina em Goa em 1875; nomeado facultativo auxiliar do quadro da Saúde a 20-5-1878, para servir em Timor; nomeado em 4-9-1978 para o quadro de saúde de Macau e Timor. Prestou serviço no batalhão de infantaria do ultramar, no Lazareto da Ilha Verde e na Estação Naval; reformado com a guarnição de capitão a 15-01-1895. 2 – Dr. Pinheiro de Almeida (não encontrei biografia disponível).

(1) A Rua Nova de El-Rei, a artéria principal do antigo Bazar, após a implantação da República em Portugal, em 1910, foi dado o nome de “Rua 5 de Outubro”,. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/rua-5-de-outubro-nova-de-el-rei/

(2) Creio que o falecido era irmão de Lee Hong (李杏), 1.ª mulher (na China) de  Chen Fâng (陳芳) negociante, grande filantropo que ergueu empresas/negócios (venda de ópio, transportes, plantações de açúcar e café, etc.) em Honolulu (Hawai), Macau e Hong Kong: Emigrou de Guangdong para Hawai em 1849, adoptando o nome de Chun Afong, em 1850. Casou também em Hawai com Julia Fayerweather Afong. Deixou, ao todo, 20 descendentes. https://en.wikipedia.org/wiki/Chun_Afong

Extraído de «A Voz do Crente», Anno I n.º 1 de 1 de Janeiro de 1887
Igreja de S. Lázaro, década de 30 (séc XX)

“D. Melchior Carneiro, chegado a Macau, em 1568, fundou logo no ano seguinte a Santa Casa da Misericórdia, de que foi o primeiro provedor, e os hospitais de S. Rafael e de S. Lázaro. Não se conhece a data certa da erecção da Ermida de Nossa Senhora da Esperança que devido à leprosaria anexa, ficou vulgarmente conhecida pelo nome de Igreja de S. Lázaro. Também não sabemos qual existiu primeiro: se a Ermida ou o hospital de leprosos. Parece no entanto, pelo que dissemos atrás que, juntamente com Santo António e S. Lourenço, a Ermida de N. Senhora da Esperança deve ter sido coeva do estabelecimento dos portugueses em Macau… (…)
Em volta da Ermida, no decorrer dos tempos, foram-se estabelecendo os chineses, havendo já ali em 1818 nada menos que 98 casas de cristãos chineses; para atender aos seus interesses espirituais levantou-se uma capela aproximadamente no local da actual escola de Kong Kan, ficando a Ermida reservada aos leprosos. Tendo o bairro chinês aumentado mais e mais e sendo já insuficiente a pequena capela para os cristãos chineses foi-lhes cedida em 1878, de acordo com a autoridade eclesiástica, a mesma Ermida ou Igreja de N. S. da Esperança com a sacristia e a casa anexa do sacristão, passando o padre china que vigariava aquele bairro a celebrar os actos do culto na dita igreja. Arruinada com o decorrer do tempo, foi esta igreja, por Portaria Provincial n.º 65 de 8 de Agosto de 1885, reconstruída em 1886, de modo a poder estabelecer-se a nova Paróquia de S. Lázaro, sendo nesta ocasião demolida a capela. A nova igreja servia para cristãos e leprosos, assistindo estes aos ofícios divinos num compartimento reservado, gradeado de ferro.
Em 1895 espalhou-se em Macau uma terrível epidemia, provindo um grande número de casos das miseráveis choupanas do bairro chinês; alguns anos depois, foram elas expropriadas, de comum acordo entre o Governador Horta e Costa e o Bispo Carvalho e então o hábil arquitecto Abreu Nunes delineou e executou o plano de ruas do actual bairro de S. Lázaro. Por esta ocasião, foram removidos os leprosos para a Ilha de S. João e as leprosas para Ká Hó, ficando desde então até hoje a cargo do Governo, depois de terem estado a cargo da Santa Casa durante perto de três séculos e meio.”
TEIXEIRA, P. Manuel – Macau e a sua Diocese I, 1940, p.169-171

Foto publicada no «Boletim da Sociedade Luso Africana do Rio de Janeiro», n.º 9, 1934, p. 142 – Número especial Comemorativo da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa – Porto.
São cinco edifícios térreos, de traça portuguesa, dispostos em arco que faziam parte das instalações do antigo Leprosário de Ká Hó, e que ficaram devolutos. O Leprosário foi construído em 1885, para acomodar os leprosos de Macau, bem longe da cidade. Na verdade, uma das primeiras iniciativas dos portugueses, assim que se estabeleceram solidamente em Macau, foi construir um leprosário. Pouco depois de completada a construção da Igreja de S- Lázaro – uma das três igrejas fundacionais erigidas entre 1558 e 1560 – foi construído um leprosário.
Na «Breve Monografia de Macau» (p.204) da autoria dos chineses Yin Guangren e Zhang Rulin, (1) refere que “A sudoeste da cidade, fora das muralhas, existe um Fafengsi (2)  Nesta igreja vivem os leprosos bárbaros, vigiados de fora por soldados. Os internados recebem uma mensalidade para a respectiva manutenção” Ao longo dos séculos, o leprosário de Macau mudou-se várias vezes, desde a Colina de D. Maria até às Portas do Cerco, para o distrito de Basalan (Pac Sá Lan) na Ilha de D. João e finalmente para os confins de Ká Hó .
Em 1991, O Instituto de Acção Social de Macau assumiu o controlo do Leprosário de Ká Hó e transformou parte dos edifícios num Lar de Idosos que passou a ser gerido em 2004 pela Federação das Associações dos Operários de Macau. (3)

Leprosário de Ká Hó, em Coloane, anos 30 de século XX

Sobre a Leprosaria de Ká Hó, em Coloane, ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leprosaria-de-ka-ho/
(1) YIN Guangren; ZHANG Rulin – Breve Monografia de Macau. I. C. do Governo da R.A.E. Macau, 2009.
(2) Fafengsi – templo dos leprosos. Também conhecido como Mafengsi, Igreja de S. Lázaro, que fica na Rua de S. Lázaro. Como havia uma leprosaria atrás da igreja, passou a ser conhecida como Fafengsi. (1)
(3) As Ruas Antigas de Macau, IACM, 2016, p.303.

A paróquia de São Lázaro celebra hoje, a Festa de São Roque, com missa solene às 9 horas e 30, seguindo-se a procissão em devoção do “Santo Padroeiro contra a Peste”.(1)  O cortejo religioso vai percorrer algumas artérias do bairro de São Lázaro, tais como a Rua do Volong, Rua de São Miguel, Rua de São Roque e Rua Nova de São Lázaro. (2) (3)
A Festa e procissão de São Roque é tradicionalmente celebrada a 17 de Agosto, mas em Macau é sempre realizada no segundo Domingo de Julho, por causa de uma “epidemia” ocorrida em finais do século XIX. (4) Na altura, a população solicitou intervenção divina para o fim da “epidemia”, e como as doenças desapareceram, cumprindo a promessa a S. Roque, a população passou a realizar a sua festa em Julho.
(1) São Roque é o protector dos leprosos e padroeiro dos inválidos e de profissões ligadas à medicina.
(2) http://www.oclarim.com.mo/local/sao-roque-celebrado-a-8-de-julho/#more-13061
(3) A procissão em honra deste Santo só foi retomada na paróquia de S. Lázaro em 2008 (a última tinha sido em 1966), devido ao surto nesse ano, em Macau, da Síndrome Respiratória Aguda.
(4) A data é incerta, o mesmo jornal “O Clarim” (2) refere a data de 1889 mas consultando as várias fontes sobre efemérides relacionadas com Macau, não encontrei qualquer referência a enfermidades com relevância no ano de 1889.
Provavelmente estará mais relacionada com o ano de 1882 em que faz referência à preocupação das entidades oficiais face ao aumento progressivo dos “leprosos” e à dificuldade em alojá-los, (5) (6) bem como dos muitos focos de infecção nos depósitos de lixo, e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» (7), na freguesia de S. Lázaro.
(5) “6-07-1882 – Relatório do Administrador do Concelho das Ilhas, tenente José Correia de Lemos revela que o número de leprosos em Pac Sa Lan, na Ilha de D. João, é de 40 homens solteiros e 7 casados (sem as mulheres). As mulheres leprosas são 18 e foram admitidas já com a doença; 2 são casadas mas não estão com os maridos, 11 são solteiras, 5 são viúvas e 4 destas entraram já viúvas, trazendo consigo duas filhas menores. É-lhes proibida coabitação, mas é «impossível evitar que tenham correspondência». Os lázaros cultivam uma várzea para sua ocupação e sobrevivência. (8) (9)
10-07-1882O Administrador pede licença para mandar fazer 64 mudas de roupa de verão para os lázaros.É evidente o zelo, e a frequência dos contactos de acompanhamento. (8)
28-07-1882É regulada a admissão de lázaros no depósito de Pac Sa Lan, e determinadas medidas com respeito aos encontrados nas ruas. Determinado que o depósito destinado a indivíduo do sexo masculino seja completamente separado dos das mulheres. (8)
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255.
(6) “06-03-1884Ofício do Administrador ao Governo sugerindo Ká Hó para instalação da leprosaria e não a Ilha da Taipa. (8)
20-01-1885O Hospício para Lázaros, em Ka- Hó, depois de muita resistência e de alterações várias quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto nesta data, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficará completo em Maio deste ano.” (7)
(7) O secretário geral do Governo em 15 de Julho de 1882 (na ausência do Governador) J. A. Corte Real chamava a atenção do Presidente da Camara e administrador do concelho dos administradores de concelho e director das obras públicas para os focos de infecção por muitos e antigos depósitos de lixo, para a necessidade de limpeza e desobstrução de canos e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» e outros pontos de forma que se vão melhorando consideravelmente as condições hygienicas da cidade» e «reclamando por isso medidas extraordinárias, que colocando-os em condições materiaes regulares, possam remover-se os casebres , monturos e permanentes fôcos de infecção, que d´outra fôrma será impossível evitar»
(Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII- 28 de 15 de Julho de 1882, p. 238/239)
(7) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3.
(8) TEIXEIRA, P. Manuel – Taipa e Coloane, 1981, p.117 e 119.
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255

No dia 26 de Maio de 1885: “O hospício de Kao hó está já prompto a receber mulheres leprosas ….”, informa o Administrador das Ilhas à Secretaria do Governo. Entretanto foram já instaladas, entre 30 de Abril de 3 de Maio as mulheres lázaras da Ilha de João, satisfazendo ordens do Governo. As instalações estavam boas e prova disso foi o roubo perpetrado por cerca de 12 piratas armados de «taifós e pistolas», em Setembro desse ano, aliviando as pobres leprosas de toda a roupa de inverno e do abastecimento de arroz para meio mês (160 cates), além de 7 patacas em dinheiro, fugindo pela praia, num pequeno sapatião perdido na noite. E não foi só dessa vez, porque sabiam o lazareto provido e indefeso.
TEIXEIRA, P. Manuel – Taipa e Coloane, 1981.
TAIFÓ – Espada/adaga chinesa, curta e muito afiada.
SAPATIÃO – barco chinês, pequeno e ligeiro.
Segundo Sebastião Rodolfo Dalgado, no seu «Glossário luso-asiático»:
TAIFÓ: julga o Sr.Pelliot que esta palavra não se pode ligar ao chinês tai-to (em mandarim ta-tao), «grande faca» mas que deve provir dalgum nome cantonês, em mandarim ch´u-ang-tu ou ch´uang-kien.
SAPATIÃO: o Sr. Pelliot prefere derivar o vocábulo do chinês sam-pang-ting, «barco sam-pan ou cham-pana»
Ver referências anteriores em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leprosaria-de-ka-ho/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/leprosarias-lazaretos/

O infantário de “Nossa Senhora do Carmo”, na Ilha da Taipa, a cargo do Pároco o Concelho das Ilhas era uma das mais interessantes obras de assistência social de Macau.
O Infantário foi uma obra missionária criada pelo reverendo Pároco das Ilhas (na altura), cónego António André Ngan. (1) Abrigava os filhos da população operária da Vila da Taipa que vivia na grande maioria do fruto do seu trabalho nas fábricas de panchões. Estas empregavam frequentemente, em diferentes misteres, toda uma família: pai, mãe e filhos maiores de 14 anos, ficando então os mais pequenos entregues aos cuidados do pessoal do Infantário, desde as sete horas e meia da manhã às oito da noite.
Inaugurado oficialmente em 8 de Junho de 1952 recolhia diariamente umas 120 crianças divididas em duas secções: infantil e dos bebés. Na primeira eram recebidas as crianças de 2 a 6 anos, mediante a quantia de dez avos que lhes dava direito a uma merenda de tarde, e na segunda os bebés com menos de 2 anos de idade, pagando os pais uma diária de vinte avos para ajudar a despesa feita com o leite que lhes eram administrados durante o dia.
Outra obra do mesmo Pároco – Asilo dos Velhinhos – tinha por fins auxiliar as pessoas mais idosas que, por terem ninguém de família, se veriam na contingência de estender as mãos à caridade, quando despedidas ou impossibilitadas de trabalhar.
De facto, as fábricas de panchões estabelecidas na Ilha da Taipa, uma vez paralisadas ou obrigadas a reduzirem o seu pessoal, despediam, como era óbvio, em primeiro lugar, os velhinhos que, nesta conjectura, iriam recorrer ao Asilo onde receberiam gratuitamente alimentação e alojamento por tempo indeterminado. Aqueles que veriam a conseguir depois, novamente o trabalho, podiam continuar internados, pagando, nesse caso, uma pequena quantia estabelecida de acordo com as suas possibilidades.
O Infantário e o Asilo recebiam os benefícios e o auxílio da Comissão Central de Assistência Pública de Macau, (2) nomeadamente um subsídio anual de $675,00 e $ 1.200,00 respectivamente.

Edifício onde estava instalada a então nova Maternidade da Ilha da Taipa

(1) Cónego (depois Monsenhor) António André Ngan Im Ieoc (1907-1982) foi governador do bispado em 1966 e vigário-geral em 1966-1975 sendo o primeiro padre chinês a ocupar estes cargos na Diocese de Macau. Foi também professor de Música no Seminário S. José (foi professor do Padre Áureo Castro) e publicou dois manuais para ensino do português: “Método de Português para uso nas escolas estrangeiras” (1944) e “Método de Português para uso das escolas Chinesas” (1945), usados durante 50.
Anos, na escola primária, principalmente para as crianças chinesas e na década de 70 n no Instituto D. Melchior Carneiro.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/padre-antonio-andre-ngan-im-ieoc/

A sala de partos da Maternidade da Ilha da Taipa

(2) A Comissão Central de Assistência Pública de Macau apoiava (anualmente tinha inscrita anualmente no seu orçamento uma verba) além destas duas instituições, outras na Ilha da Taipa nomeadamente a Maternidade da Junta Local das Ilhas, (prestava assistência gratuita às parturientes declaradamente pobres da Vila da Taipa); as Leprosarias de Ká-Hó e Seac Pai Van (a de Ká-Hó para mulheres albergava cerca 30 leprosas; a de Seac Pai Van, para homens , albergava cerca de 28 doentes e nesse ano (1956) nela estavam também  os que vieram da China transferidos de um prédio isolado na Ilha Verde); O Lar dos Pobrezinhos (instalado num prédio da Vila de Coloane, na Rua dos Cordoeiros), destinada a recolher as criancinhas pobres e desvalidas do Concelho das Ilhas; e um bloco com 6 casas económicas edificadas em 1952 que foram distribuídas, para habitação a pobres mais necessitados da mesma ilha.
Extraído de «Macau Boletim Informativo», IV-78,1956.

Foi a 13 de Setembro de 1903 que o Padre José António Gomes, então Pároco de Santo António, (1) fundou nesta igreja a benemérita «Obra do Pão dos Pobres», (2) cujo jubileu se celebrou no dia 13 de Setembro de 1953, com toda a solenidade. O 50.º aniversário da fundação do Pão dos Pobres em Macau foi um dia de duplo agradecimento: a Sto. António pelos inumeráveis favores dispensados a todos os benfeitores dos seus pobres; e a todos os benfeitores desta simpática obra de caridade. Socorreu milhares de lares indigentes, continuando no ano de 1953 a minorar a fome a 200 famílias com os dez picos de arroz que lhes distribui mensalmente, além de outras esmolas particulares em dinheiro. (3) Em 1955, a acção benéfica alargava-se para 250 pobres, na sua maioria chineses e concedia esmolas, no valor de $150,00 a pobres a quem o arroz não era distribuído.

O altar do Pão dos Pobres na igreja de Santo António (1953)

Durante os 50 anos (1903 – 1953), o Pão dos Pobres de Santo António distribuiu o elevado número de 17.790 picos de arroz, estendendo também por vezes a sua caridade aos pobres das suas missões da China.
O cofre colocado na Igreja Paroquial representava a maior fonte de receitas da Ora. Tinha um letreiro com uma indicação: “pão dos pobres”. O cofre rendia, em média, mensalmente a quantia de $300,00, pelo que com as ofertas generosas de algumas pessoas, não era preciso recorrer-se a peditórios. Outra fonte da receita provinha da Comissão Central de Assistência Pública que contribuía para esta Obra a soma de $166,66 mensais. Também o soldo de Santo António, (4) como Capitão da Cidade, concedido pelo Leal Senado das Câmara de Macau, na importância de $1.200,00anuais, revertia integralmente a favor desta Obra.
(1) O aparecimento da «Obra do Pão dos Pobres» deveu-se ao Reverendo Dr. António José Gomes, sacerdote ligado às iniciativas no campo do apostolado missionário e caritativo, pois a Santa Infância e as leprosarias muito ficaram a dever a este homem. Em 1953 era pároco o padre José António Monteiro. Após o seu falecimento ficou o Cónego Manuel Pinto Basaloco.
(2) A Obra Pão dos Pobres nasceu e cresceu em Toulon (França), sob os auspícios de Santo António e rapidamente se estabeleceu em um grande número de cidades da França, depois em Itália, Espanha, Portugal e outras nações da Europa. e depois em todos os continentes. Esta obra, em Macau, encontrava-se agregada à Paróquia de Sto. António e a sua administração estava a cargo do respectivo pároco.
(3) Recebeu dos seus generosos amigos e benfeitores, durante o mesmo período, a avultada soma de $ 187.421,43, contribuição sobretudo dos católicos macaenses e chineses.
(4) É muito remota a origem da concessão deste soldo, talvez se remonte às origens desta cidade. É curioso notar que este soldo esteve interrompido durante três anos, pelos meados do último quartel do século XVIII. Por esta altura pesadas tribulações caíram sobre Macau, o que levou o povo a considerar a crise como castigo pelo corte do soldo a Santo António. O que é certo é que o Senado se viu na contingência de lhe mandar «assentar a sua praça com o vencimento de Capitão da Cidade».
Informações e fotos retiradas de «Macau B. I.»,  1953 e 1955.

O Hospício para Lázaros, em Ka Hó, depois de muita resistência e de alterações várias (1) quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto no dia 20 de Janeiro de 1885, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficaria completo em Maio desse ano. (2)
mapa-de-ka-hoPor portaria Provincial n.º 327 de 13 de Setembro de 1929 foi nomeada uma comissão, a qual cumpriu o seu mandato, fazendo construir no Hospício Ka Hó, cinco pavilhões e uma capela, com dependências anexas para constituírem a residência das Religiosas que venham ali a instalar. Em Ká Hó, com a preparação do terreno, construções dos cinco pavilhões, capela, poço, tanque e valsa de protecção, canalização de água potável e de esgoto e conservação de todas as obras despendeu-se a bela soma de $ 21.478, 19. A capela foi inaugurada e benzida por D. José da Costa Nunes no dia 21 de Outubro de 1934.

pe-teixeira-macau-e-a-sua-diocesse-i-pavilhoes-das-lazaras-de-ka-hoPAVILHÕES DOS LÁZAROS EM KA-HÓ, 1940

A Leprosaria fica na Baía de Ka Hó, construída num promontório na ponta leste de Coloane, perto da chamada aldeia ou povoação de Ká Hó (é um pequeno vale entre montanhas e era o mais cultivado antigamente). Tem uma bela igreja contemporânea dedicada a N.ª Sr.ª das Dores, ostentando um grande crucifixo de bronze sobre a porta norte.
coloane-igreja-de-nossa-senhora-das-dores-ka-ho(1) Os leprosos que durante três séculos estiveram no Hospital S. Rafael, em 1878 são transferidos para a Ilha de D. João na altura sob a administração portuguesa, em Pac Sá Lan. Em 25-11-1896 é extinto o Hospício de S. Lázaro junto à Igreja de S. Lázaro.
“1878 – Os leprosos, recebidos na primeira instituição congénere no Extremo-Oriente – O Hospital de S. Rafael – durante três séculos, são transferidos neste ano para a Ilha de D. João (para homens) sob a administração portuguesa”. (2)
17-03-1894 – O Administrador das Ilhas, Capitão João de Sousa Canavarro, oficia à Secretaria do Governo fazendo uma breve mas expressiva panorâmica da situação dos leprosos. É estudada a construção de novas barracas para o alojamento dos Lázaros em Pac-Sá-Lan e Ká-Hó.” (2)
Mas os constantes assaltos dos piratas (maus tratos e roubos) ao longo da década de 10 a 30 (século XX), (3) (4) à gafaria de Pac Sa Lan instalada na Ilha de D. João, foram transferidos aos poucos para a Gafaria de Ká Hó que com o tempo foi-se ampliando. Em 1933, o director da leprosaria Fernando Dias Costa (5) informava estarem construídos oito pavilhões para o tratamento da lepra. As instalações da leprosaria de Pac Sá Lan foram destruídas pelos militares comunistas em 1953. (6)
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(3) 19-06-1912 – Pedido dos leprosos instalados no Hospício de D. João para serem dali retirados a fim de não estarem sujeitos aos constantes assaltos de piratas.(GOMES, Luís G. – Catálogo do M.M., n.º 254)
(4) “24-01-1927 – Queixa apresentada pelos asilados da gafaria de Pac-Sa-Lan, na Ilha de D. João, contra os maus tratos e roubos de que eram vítimas às mãos dos piratas. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997).

(5) Fernando Castanha Dias Costa, foi Director dos Serviços da Fazenda e Contabilidade de Macau de 1932 a 1936, ano em que  há um processo de inquérito aos actos praticados pelo Director dos Serviços de Fazenda e Contabilidade de Macau. Por inerência do cargo era também Director das Leprosarias existentes na altura na colónia de Macau (Ilha de Coloane e Ilha de D. João). («Portugal Colonial», Ano I, n.º 24 – Fevereiro de 1933 p. 18.)

(6) “1953 – Destruídas pelos comunistas a leprosaria de Pak-Sa-Lan. Aventou-se a hipótese dos doentes terem sido transferidos para outra ilha, perto de Hong Kong. Mas não se conseguiu confirmar tal notícia, sendo provável que os últimos leprosos tivessem perecido, porque já em 1949 tinham sido ameaçados de morte por Ng Seng, comandante da guarnição chinesa de Man Lei Wai, se não pagassem $500 em notas portuguesas. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 5, 1998).

Os hospícios em Macau que foram com o tempo construídos para os doentes com lepra, eram sempre afastados das povoações para evitarem o contágio,  e após a fase da instalação dos lazaretos em Macau, foram afastados para as ilhas. Mas tinham sempre problemas para a sua gestão quer no envio de mantimentos e outras necessidades como por exemplo: material para construção das barracas e controle / fiscalização da comida, quer no “policiamento” para evitar que fugissem ( e eram frequentes as fugas) . Mas o principal problema era o constante ataque e roubos praticados pelos piratas.
A 3 de Setembro de 1885, o tenente Lemos (1) enviou um ofício à secretaria do governo:
«Pelas 20 horas da noite do primeiro do corrente (1 de Setembro) assaltaram o hospício de Kao hó, (2) uns doze piratas armados de taifós (espadas curtas) e de pistolas, roubando toda a roupa de inverno das leprosas e o arroz que lhe havia sido distribuído para o rancho até 15 deste mês.
Os piratas dirigiram-se primeiro à casa do guarda, a cuja porta bateram para que viesse apresentar-se ao comandante da Taipa ─ disseram eles que estava ali à sua espera. O guarda foi o primeiro roubado.
Dali foram ao hospício, arrombaram a janela do lado da cozinha por onde entraram, e abriram em seguida uma porta. Roubaram aí a roupa das leprosas e algum dinheiro na importância de sete patacas e 160 cates de arroz.
Pela meia-noite retiraram os piratas embarcando num pequeno sapatião que os esperava na praia.
Já mandei proceder a concertos da janela, em virtude da autorização que recebi para esse fim.»(3)
Os piratas levaram tudo o que encontraram: a ração de géneros e arroz, as roupas das mulheres  e do guarda (vê-se que não tinham medo à lepra), dinheiro e louça. Vivia em Ká Hó um mulher católica, mandada pelas Canossianas, que era a catequista das leprosas.
As suspeitas recaíram em Lao Teng Yao e nos seus companheiros, Leung Con Soy e A Mine, mais conhecido por Pac Tao Fat (“cabelos brancos”) que foram presos cerca de três meses depois em Cantão (notícia de 12 de Dezembro de 1885), por outros crimes de pirataria, praticados na vizinhança de Hong Kong.
O grupo pertencia a uma sociedade secreta, denominada Sam Hap, cujo cabecilha nestes lugares (Coloane) era o Lao Teng Yao. Entre os filiados estavam o Tai Chi Seng (Asseng) e Tai Chi San (Assam) e ainda um terceiro por nome Achi,  (cabecilha duma embarcação de piratas, e com cadastro prisional),  filho do proprietário da firma Ngui Ki. Estes piratas levavam uma existência miserável já que o produto dos roubos iam para o jogo (frequentavam a casa de Tan A Ngok, lugar de jogos ilegais)  e para a frequência das casas de ópio.(3)

MBI I-13 15FEV1954 - Lazareto de Ká HóO Lazareto de Ká Hó em 1954 (4)

(1) O Alferes José Correia de Lemos foi nomeado a 5 de Maio de 1879, Administrador substituto e Ajudante do Comando Militar das Ilhas. Passou a efectivo a 25 de Agosto de 1879. Promovido a tenente em 1882, foi substituído no cargo em 14 de Janeiro de 1890 pela Capitão José Maria Esteves.
(2) O Hospício para Lázaros, em Ká Hó era de construção recente nessa data (1885) pois,  tinha sido inaugurado em 20 de Janeiro desse ano. Para evitar a convivência dos lázaros com a lázaras (desde 1978, os lázaros tanto homens como mulheres, estavam  no lugar de “Pac Sá Lan” na Ilha de D. João)  o Governo (em 1884) mandou construir uma casa de tijolos na Ilha de Coloane,  no lugar de Ká Hó  e em 1885 transferiram para Ká Hó as mulheres, permanecendo os  homens “Pac Sá Lan” .  Em 1884,  Ká Hó, a N.E. da Ilha de Coloane não era habitada e tinha água  e a povoação mais próxima desse local (2 milhas) era uma pequena povoação (Hac Sá) de vinte casebres cujos habitantes empregavam-se na agricultura e nos pesqueiros da areia preta. (3)
“20-01-1885 – O Hospício para Lázaros, em Ka Hó, depois de muita resistência e de alterações várias quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto nesta data, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficará completo em Maio deste ano” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995).
Em 1886, havia 48 leprosos em Ká Hó e Pac Sa Lan (Ilha de S. João – as barracas dos leprosos neste local achavam-se de todo arruinadas, nesse ano, havendo necessidade de serem construídas novas barracas),sendo 13 mulheres no primeiro lazareto e 35 homens no segundo; e que a despesa feita com eles nesse ano fora de $ 805.631.
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – Taipa e Coloane, 1981.
(4) Com o fim da leprosaria de Pac Sá Lan  (destruída em Maio de 1953 pelas autoridades chinesas; uns dizem que os leprosos forma mortos, outros que eles foram levados para uma ilha perto de Hong Kong, notícia nunca confirmada) os homens diagnosticados com a doença, passaram a ser internados no Lazareto de Ká Hó pelo que o Governo mandou construir dois espaçosos edifícios, um para homens e outro para mulheres (em 1965) (3)

Nos dias 15 e 16 de Maio de 1955, acompanhado de sua esposa, esteve em Macau, aonde veio em visita particular, o conhecido filantropo francês  Raoul Follereau, membro da Academia das Ciências Coloniais Francesa e presidente-fundador da Ordem da Caridade da França. Foi recebido na ponte cais de desembarque pelo Capitão Abílio de Oliveira Ferro, que lhe apresentou, em nome do governador Almirante Marques Esparteiro, cumprimentos de boas vindas.
Durante a sua estadia, Raoul Follereau e sua esposa tiveram ocasião de visitar os principais lugares históricos da cidade bem como vários pontos pitorescos e outros lugares onde se acha assinalada a obra de assistência pública.
A convite do Governador e sua esposa, o casal francês jantou, no dia 16, no Palácio de Santa Sancha.
No da seguinte, à partida foram-lhe igualmente apresentados pelo Capitão Oliveira Ferro, cumprimentos de despedida, em nome do governador.
Reportagem de «MACAU Bol Inf. 1955»

MBI II-44,31MAI1955 Leprosia de Ka-Hó 1955O lazareto para leprosos na Ilha de Coloane, em Ká Hó (1955)

Depois de visitar Macau, Raoul Follereau proferiu em Paris no dia 18 de Novembro de 1955, a conferência «Portugal Ultramarino», onde fala longamente  desta parcela oriental, dizendo, a propósito do pequeno mas generoso e missionário entreposto: «Macau é uma catedral imensa. Macau é um dos lugares altos do Mundo».
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 5, 1998
MBI II-44,31MAI1955 LOUIS FOLLEREAURaoul Follereau (1903 – 1977) – poeta, jornalista, escritor, advogado e fundador da «Ordem da Caridade» (em 1946). Como jornalista, em 1935, foi enviado para uma reportagem em África e durante um safari tomou contacto pela primeira vez com a lepra. A partir daí, tornou-se um  lutador incansável pela reabilitação social do leproso e  decidiu percorrer o mundo inteiro a fazer conferências para sensibilizar as pessoas para o problema da lepra e angariar donativos  para a criação de centros de tratamento e reabilitação. Em 1953, tornou realidade o sonho das religiosas em Adzopé (Costa de Marfim) onde foi inaugurada a primeira  cidade onde os leprosos podiam ser tratados e curados.
No último domingo de Janeiro de cada ano celebra-se o Dia Mundial dos Leprosos, instituído pela ONU em 1954, a pedido de Raoul Follereau. Ainda hoje, a lepra que já é uma doença curável, em certas zonas do globo ainda persistem doentes sem acesso aos tratamentos necessários.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Raoul_Follereau

MBI II-44,31MAI1955 Leprosia de Ka-Hó 2014Estado em que estavam as casas da leprosaria de Ká -Hó em 2014.

Na altura, 2014,  havia uma promessa do Governo da RAEM para a recuperação das casas. (Foto retirada do Jornal «Ponto Final» de 04-09-2014)
https://pontofinalmacau.wordpress.com/2014/09/04/recuperacao-das-casas-da-antiga-leprosaria-de-ka-ho-sem-data-para-terminar/
NOTA: Notícia de 12 de Maio de 2016 no mesmo jornal «Ponto Final» refere que o Instituto Cultural da RAEM vai avançar ainda este ano com trabalhos de reparação em cinco edifícios com valor cultural propostos para recuperação, entre eles as nove casas da antiga leprosaria de Ká Hó.