Archives for category: Poesia

Macau,
Entreposto português na China,
Às margens do rio das Pérolas
Que  adornam a fronte da deusa A-má
Refletida no mar de espelho,
Azul, manchado de vermelho.

Camões,
O poeta,
O soldado,
O aventureiro,
O exilado,
Desce da nau,
Sobe à colina,
Ali encontra uma gruta entre rochedos,
Um refúgio
Para armar sua rede,
Guardar a espada
E afiar a pena;

Escreve então um longo poema
De heróis trágicos,
De deuses mitológicos,
Paixões,
Intrigas,
Batalhas e cobiças,
Salvou a si mesmo
E ao nosso idioma.
Lá embaixo, na ilha,
O calor é sufocante,
Sopram  os tufões,
Há jogatina,
Licores,
Cavalhadas,
Amigos vadios
E saiotes de meretrizes,
O poeta perde a fibra
E o fôlego,
Afoga-se em tormentas
Nadando a vau.

Camões – miniatura de 15??
Postal comemorativo do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (1987) (1)

Naufrágio…
Salta do barco,
Braçadas,
Mais braçadas,
O manuscrito colado ao corpo,

Dinamene,
Escrava de quem era escravo,
Engolida no turbilhão,
Terra firme,
Desmaia agarrado ao couro do gibão,
Febre,
Ânsias,
Ardência,
Dói seu coração.
Macau
Foi seu destino,
Rolar como um calhau,
Bastava-lhe amor,
Mas os erros,
A violência,
Os duros fados
Se conjuraram aos desígnios
De um terrível anjo mau.

Raquel Naveira (2)

Raquel Maria Carvalho Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, (Brasil) no dia 23 de Setembro de 1957. Formou-se em Direito e Letras pela UCDB/MS, onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP. Trabalhou por nove anos como revisora da Editora UCDB. Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB e do “Flores e Livros” pela UPTV e pela ORKUTTV. Professora do Curso de Letras da Faculdade Anchieta, de São Bernardo do Campo/SP, desde julho de 2008 a março de 2011 e da Faculdade HOTEC, como professora de Comunicação Aplicada. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e ao Pen Clube do Brasil.
http://novaserie.revista.triplov.com/numero_22/raquel_naveira/index.html
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/06/08/postais-de-macau-a-gruta-de-camoes/
(2) Extraído da «Revista Lusofonia» – Blog dos Países de Língua Portuguesa, coordenação do Círculo Fernando Pessoa; disponível em:
https://revistalusofonia.wordpress.com/2012/03/22/poemas-do-sangue-portugues-camoes-em-macau/

Lótus! Flores da noite, flor´s sagradas
De folhas verdes, longas, espalmadas,
Flor´s brancas e rosadas, flor´s de lago,
Que a lua beija e despe n´um afago.

À tona de água, pelas noites cálidas,
Lembrais-me virgens, sonhadoras, pálidas.
Noivas à espera do seu bem-amado . . .
Envoltas no veu branco de noivado.

Cobrindo os lagos quietos, azulados,
O´ flor´s de lótus de botões rosados,
Lembrais-me . . . seios castos, virginais,
Pombas brancas fugidas dos pombais.

Corpos leves de nymphas, a fluctuar
Sobre a alfombra das fôlhas verde-mar;
Princezinhas do Oriente, transformadas
Em pétalas de lótus, desmaiadas.

Foto pessoal do Jardim da Dra. Laurinda Marques Esparteiro, Taipa – 2015.

Flor´s de nácar de folhas côr de jade,
Inimigas do sol, da claridade,
Companheiras das águas que ao luar
Vos quedais todas brancas a scismar . . .

Dizei-me, ó princezinhas de algum dia,
Porque extranho pudôr ou phantasia,
Só quando a noite desce mysteriosa,
Abris as pet´las brancas-côr de rosa?

Flor´s que adornaes os templos, os altares,
Irmãs gémeas dos lindos nenúfares.
Graciosas princezinhas, encantadas
Em flor´s de lótus doces, perfumadas,

Se houvesse um deus, um feiticeiro, um santo,
Que para sempre vos quebrasse o encanto,
Os lagos silenciosos e parados
Morreriam de dor, inanimados!

Foto pessoal do Jardim da Dra. Laurinda Marques Esparteiro, Taipa – 2015.

Os cysnes exultavam de vaidade,
Mas choraria a lua de saudade
E os poetas não cantavam, nunca mais,
A poesia das noites orientais!

Maria Anna Acciaioli Tamagnini (1)

(1) TAMAGNINI, Maria Anna Acciaioli – Lin-Tchi-Fá, Flor de Lotus, Poesias de Extremo Oriente, 1925
Ver anteriores referências a esta poetisa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-acciaioli-tamagnini/page/2/

ÚNDE TA VAI, QUIRIDA?

Macau di nosso coraçám,
Alma di nosso vida,
Únde vôs ta vai, quirida,
Assi metido na iscuridám?

Qui di candia pa lumiá vôs?
Quelê-môdo vôs pôde andá?
Cuidado, nom-mestê tropeçá!
Vôs cai, nôs cai juntado co vôs.

Macau di rosto tristónho,
Únde têm vôsso alegria?
Quim já suprá vôsso candia
Largá vôs na treva medonho?

Ventania fórti ta zurní,
Tempo ta fazê coraçám esfriado;
Na fugám, fôgo apagado,
Amôr tamêm pôde escapulí.

Nom-têm calôr, bom-têm luz
Mâz fé sã nom-pôde falta.
Dios Misericordios logo achá
Unga Cirineu pa vosso cruz!

Verão portuguesa:
ONDE VAIS, QUERIDA

Macau do nosso coração,
Alma da nossa vida,
Onde vais, querida,
Tão cercada de escuridão?

Onde está a vela para te alumiar?
Como podes caminhar assim?
Cuidado, não tropeces!
Caindo tu, cairemos todos contigo.

Macau de semblante tristonho,
Onde para a tua alegria?
Quem foi que te soprou a vela
E te deixou nessas medonhas trevas?

Fustigam ventos fortes
E o tempo vai arrefecendo o teu coração;
Com o fogo apagado na lareira,
Até o amor acabará por sumir.

Não há calor, não há luz,
Mas fé não poderá faltar
Deus Misericordioso descobrirá
Um Cirineu para a tua cruz!

FERREIRA, José dos Santos – Poema na Língu Maquista, 1992

Poesia de J. M. da Fonseca datada de Novembro de 1854 e publicada no «Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor», de Dezembro desse ano (1) com o título “A AMASONA” (lorcha de guerra «Amazona») e dedicado ao 1.º Tenente J. E. Scarnichia (2) que em 10 de Novembro de 1854, passou a comandar já no posto de 2.º tenente, a lorcha de guerra Amazona.(1) Extraído de «BGPMTS» I-7 de 2 de Dezembro de 1854, p. 27
(2) João Eduardo Scarnichia (1832- 1888) guarda marinha em 1841, colocado na corveta D. João I em 1853 e em 10 de Novembro de 1854, passou a comandar no posto de 2.º tenente, a lorcha de guerra Amazona. Por esta brilhante acção de 12 de Novembro de 1854, foi promovido por distinção em 12-11-1854, a 1.º Tenente. Do comando da Amazona passou a desempenhar o cargo de Capitão do Porto de 1861 a 1876. Depois foi comandante da Polícia Marítima durante 8 anos (1868-1876) e posteriormente em 1877 foi eleito deputado pelo círculo de Macau. Reeleito, exerceu o cargo de deputado até à morte. (TEIXEIRA, Mons. Manuel – Marinheiros Ilustres Relacionados com Macau)
Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joao-eduardo-scarnichia/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/lorcha-amazona/

DIÁLOGO ENTRE JOSÉ FAGOTE E PANCHA GUDUM, AMBOS VELHOS

FAGOTE
Bons dias senhora Pancha!
Minha musa encantadora!
Quer bocê casar comigo?
Diga já, já, sem demora!

PANCHA
Cusa? Sium na sium sua terra
Sã assim pidi cazá?
Ung-a ome assim vêlo
Inda num sabe falá.

FAGOTE
Oh2 Minha querida flôr,
Não se zangue por tão pouco!
Dê-me essa mão de esposa,
Quando não eu mouro louco!

PANCHA
Tirá mão daqui galego!
Vai casá cô moça, moça!
Nom basta vêlo franzido
E sem sápeca na borça.

FAGOTE
Eu já sei que não és moça,
És uma velha coruja!
Com os cabelos já brancos,
E com a bôca toda suja!

PANCHA
Sai! Lagarto sem vergonha!
Já depressa vai s´imbora!
Si non quero eu logo
Fazê corê com vaçora!.

FAGOTE
Boça mercê não me insulte!
Tome cuidado comigo!
Nunca vi uma pantera
Com tanta sanha consigo!

PANCHA
Azinha trezé vaçóra!
Dáli, pinchá na rua
Para este porco sem vergonha,
Déçá ele mulá com chúa!

FAGOTE
Oh! Não, não, eu já me vou!
Nada faço com esta gente.
Que um raio abraza esta casa
Junto com esta serpente!.

José Baptista de Miranda e Lima (1)

(1) José Baptista de Miranda e Lima (Macau, na rua hoje chamada Central, 10-11-1782- Macau na mesma casa, 22-01.1848; sepultado no Cemitério de S. Paulo), benemérito da instrução e hábil educador, se não foi o primeiro, tornou-se seguramente o mais importante poeta macaense (compunha em português e em patuá num estilo marcado pela literatura neoclássica). Professor régio desde 1804, até a sua morte da cadeira de Gramática Latina e de Português no Real Colégio de S. José, de Macau. José Baptista de Miranda e Lima era grande adepto de Miguel de Arriaga Brum da Silveira (a quem dedicou em 1810 uma poesia cantando as virtudes deste ao vencer o pirata Cam Pau Sai), e em 1822, dirigiu em nome dos constitucionais de Macau uma representação ao Rei e à Cortes, declarou-se a favor do novo rei D. Miguel, em 1829 e por isso foi suspenso do seu lugar de professor. Foi reintegrado, anos mais tarde.
Filho de José dos Santos Baptista e Lima, (natural de Lila de Alpedriz-Leiria, veio para Macau onde casou em 23 de Janeiro de 1782, grande educador e professor régio das línguas portuguesa e latina em 1775 – primeira cadeira de Instrucção publica criada em Macau depois da reforma de Estudos pelo Ministério Pombalino.
Família de beneméritos da instrução já que a sua irmã Maria Izabel Baptista de Miranda e Lima (1785-????) foi Mestra de Escola Publica de Caridade desta cidade-para os Bairros da Sé e Santo António.(2)
(1) Poéma retirado de REIS, João C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano Editora, Macau, 1992, 485 p.
(2) «MBI» I.6 de 31 de Outubro de 1950.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-baptista-de-miranda-e-lima/

Monumento a Vasco da Gama, em 1956 (1)

Para os festejos de gala para celebração do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama, (1498 -1898) que começou a 17 de Maio de 1898, em Macau, publicou-se o jornal ilustrado que se chamou “Jornal Único”. Entre os artigos publicados retiro este da p. 27, um soneto de J. L. Marques, dedicado a Vasco da Gama.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jornal-unico/
(1) Ver anteriores referências ao monumento de Vasco da Gama em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/monumento-a-vasco-da-gama/

Um poema da Professora Graciete Batalha, em “Língu Maquista” sobre o progressivo desaparecimento das lorchas nas águas de Macau, em finais da década de 80.

Ai mar di Macau sem Vela!

Onde foi teu velejá?
Qui saiã vela tam bela,
Cor di azul, rosa, amarela,
Deitando a sombra na mar! …

Hoje tancá nã qué vela,

Pressa, pressa, as lorchas nua …
Antigo passa tambela,
Em frente di eu-sa janela
As vela, em noite di lua ! …

Hoje nem lua nem estrela,

Nem sol vê elas passa …
Onde qui Macau é ela
Sem boniteza di vela
Sem borboleta na mar? …

             Gracieta Batalha (1)

Anteriores referências à Professora Graciete Batalha em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/graciete-batalha/
(1) Da Sampana ao Jactoplanador, Da Cadeirinha ao Automóvel. Correios e Telecomunicações de Macau, 1990, 114 p.