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Como forma de regularizar o sistema de transporte – jerinxás/riquexós (1), (2) o governo, optou pela concessão em regime de monopólio mas surgiram nos últimos anos do século 19 várias greves. Para tentar revolver o problema, surgiu a hipótese de municipalizar este serviço, isto é, ficar o Leal Senado com o exclusivo dos serviços de transporte, mas não foi concretizado. (3)

Mas em 7 de Julho de 1909, nova greve de serviço de carros – «jerinxás» – promovida pelos cules. (4)

(1) O primeiro regulamento deste meio de transporte data de 1883, tendo sido alterado em 1888. Incluía questões relacionadas com a sinalização, estacionamento, circulação e preços do respectivo aluguer. Em 27-08-1883, após Sessão da Câmara, o Leal Senado de Macau apresenta ao Conselho da Província um projecto de Postura sobre a circulação, vigilância e preços dos carros chamados «Jin-rik-shás» (riquexós); o projecto é aprovado em 26-09-1883 e publicado integralmente no Boletim N.º 42 de 20 de Outubro.

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Extraído de «BPMT», XXIX-42 de 20 de Outubro de 1883, pp. 370-371

(2) O Jerinxá ou riquexó é um pequeno carrinho, muito leve, de rodas raiadas de arame de aço e guarnecidas de arcos de borracha, com assento para uma pessoa. Possui capota para o sol ou para a chuva, dois delicados varais entre os quais se coloca o cule a puxar; e como se tratasse de qualquer outra carruagem, tinha uma campainha ou guizo e as respectivas lanternas. O jerinxá teve origem no Japão jin-riki-gá (homem-força-carro) os ingleses adoptaram o termo para jin-riki-shá e simplificaram depois para rick-shaw. A grafia “riquexó” terá surgido, pela primeira vez, num texto do escritor macanese contemporâneo Luís Gonzaga Gomes” (informação de CAVALHEIRO, Jorge in “Da Sampana ao Jactoplanador, Da Cadeirinha ao Automóvel”, pp. 42-44)

jin-riki-gá, Japão, c. 1897 (https://en.wikipedia.org/wiki/Rickshaw)

(3) Há uma notícia surgida no semanário luso-chinez «Echo Macaense» (1893-1898) de 3 de Janeiro de 1895 que refere “Estão em greve os conductores dos carros jinrickshas [riquexós]. É a segunda vez que isto acontece. Já estava previsto que o regime de monopolio traria por repetidas vezes estas semsaborias. O monopolista não pode explorar o público, porque não pode alterar a tabella dos preços, visto que se obrigou por contrato a respeitá-la. Resta-lhe portanto explorar o trabalho insano dos pobres conductores…”

(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume III, 2015, p. 38

Ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/

Edital da “Repartiçãm da Camara” (Leal Senado) sobre a extinção da companhia dos cules chinas para a limpeza das ruas da cidade devido a grande despesa para o erário público.

Extraído de «O Procurador dos Macaístas», I-13 de 30 de Maio de 1844,

“17-05-1913 – Queixa apresentada por William Farmer, (1) proprietário do «Macao Hotel», (2) contra o facto de os culis se servirem de um cais fronteiro ao seu hotel, na Praia Grande, para mictório – Providências tomadas pelo Governo.” (3)

Este episódio por mim já relatado em 17 de Fevereiro de 2017 (4), aparece também descrito por Vaudine England (jornalista correspondente da BBC,  em Hong Kong de 2006 a 2011) na página 28 do  seu livro  “The Quest of Noel Croucher: Hong Kong’s Quiet Philanthropis”, (5) bem como a carta que o proprietário do hotel, William Farmer, escreveu, queixando-se e pedindo providências, às entidades oficiais do governo – Administração civil.

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/william-m-farmer/

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hotel-macao/

(3) GOMES, Luís G. – Catálogo dos M. M n.º 416.

(4) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/17/noticia-de-17-de-fevereir

(5) ENGLAND, Vaudine – The Quest of Noel Croucher: Hong Kong’s Quiet Philanthropist. Hong Kong University Press, 1998, ISBN: 9789622094734, 436 p.

“Biography of unusual Hong Kong broker, philanthropist and curmudgeon, telling a story of Hong Kong 1900-1980”.

Continuação da leitura de Francisco de Carvalho e Rego, publicado em anterior post (1):

As três curvas da Baía da Praia Grande (final da década de 40, século XX)

“… Então, o cunho português desaparecia, surgindo o aspecto de um a pequena cidade chinesa, que a avenida marginal do Porto Interior revelava aos olhos cobiçosos do observador.
O peixe estendido pela via pública, exposto ao Sol, na salga que o chinês faz a capricho, espalhava pelo ar um aroma desagradabilíssimo que, de mistura com o cheiro de hortaliças salgadas, do balichão e outros produtos da indústria explorada, confundia e perturbava quem a ele não estivesse acostumado.
Altos rickshaws, pintados a vermelho, com aros de ferro nas rodas, cruzavam a rua em correria, sem que os peões se afastassem, apesar dos altos gritos dos cúlis.
O casario baixo e sujo igual em toda a Avenida marginal, sendo os baixos utilizados para comércio e o primeiro e único andar para moradia.
Junto ao cais de desembarque viam-se muitos rickshaws, e cúlis segurando longos e grossos bambus, prontos para a descarga.
Serviço da polícia marítima, rudimentaríssimo, era feito nos cais por um ou outro indiano, auxiliado pelos chamados loucanes, que vestiam uniforme curiosíssimo, com meias brancas por fora das calças e pequenos chapéus feitos de filamento de bambu.
O policiamento das ruas pertencia aos soldados de infantaria que, de grandes chapéus de aba larga, se lobrigavam de quando em vez, aqui, ali, ou acolá.
Desse cais do porto interior caminhava-se para o coração do bairro chinês e, por ruas tortuosas, vinha dar-se ao Largo do Senado, onde o edifício da Câmara mais e melhor nos fazia lembrar que tínhamos deixado a China e regressado a Portugal.
Só faltava o pelourinho!”…”

continua

Balichão – tempero para guisados ou acepipes; molho composto de camarões pequenos, esmagados com sal, pimenta, malagueta, aguardente e aromatização com folha de louro (2)
Cúlis do inglês coolie – Cule- trabalhador chinês: carregador (carregava aos ombros  os palanquins, liteiras)  estivador, puxador de carroças e riquexó, condutor de triciclo, etc (2) Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cules/
Loucanes – assim denominados os “marujos chineses”.
Riquexó, “rickshaw” ou jerinchá – é o meio de transporte humano em que uma pessoa puxa por uma carroça de duas rodas. Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/
(1) REGO, Francisco de Carvalho e – Macau … há quarenta anos in «Macau». Imprensa Nacional, 1950, 112 p.
(2) (BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1988 e Suplemento ao Glossário do dialecto Macaense, 1988.

Notícia curiosa referenciada em 17 de Fevereiro de 1913: (1)
Queixa apresentada por W. Farmer, (2) gerente do «Macao Hotel», (3) contra o facto de os culis se servirem de um cais fronteiro ao seu hotel, na Praia Grande para mictório. Providências tomadas pelo Governo.
(1) Processo n.º 416 – Série Q, dos Arquivos de Macau in Boletim do Arquivo Histórico de Macau, Tomo I (Jan/Jun 1985).
NOTA. Esta mesma notícia é reproduzida por Luís Gonzaga Gomes (Catálogo dos Manuscritos de Macau, 1965) com a data de 17 de Maio de 1913. Não sei qual a data exacta, confirmação essa só com uma consulta directa do Arquivo da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil (documentos referentes ao ano de 1913) existente no Arquivo Histórico de Macau.
(2) Em Maio de 1903, W. Farmer comprou por 20 mil patacas o «Hotel Hin-Kee» de Macau mudando o nome para «Macao Hotel». O objectivo inicial do Sr. Farmer era conseguir o arrendamento do Hotel «Boa Vista» que os franceses pretendiam comprar para aí instalarem um sanatório mas o governo (por pressão dos ingleses que duvidavam das verdadeiras intenções dos franceses) expropriou o edifício e vendeu-o à Santa Casa da Misericórdia.
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/04/25/postais-macau-em-bilhetes-postais-antigos-vi/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/hotel-hing-kee/

Data de muitos  anos, em Macau, a existência destes modestos trabalhadores, figuras típicas deste Oriente sempre desconhecido, exótico e fértil em sensações.
Condutores de riquexós (1) – veículos para transporte de um passageiro – os cules (2)  simbolizam a velha e tradicional China, onde se trabalha indiferente à natureza  do serviço, ainda que este pela sua qualidade nos pareça vexatória de dignidade humana.
No  seu jeito característico e com uma passada de cadência matemática , palmilham diariamente  – na melhor hipótese de numerosos clientes – alguns bons quilómetros.

MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós ICondutores de riquexós aguardando os clientes

Tomando apenas ligeiras refeições de arroz ou massa com peixe ou carne, ou a tijela de canja, percebe-se que não são indivíduos dotados de muita força. Possuem, no entanto, uma resistência inconcebível na sua corrida de fraca velocidade, mas sempre igual, em contraste com a sua aparência franzina e débil.
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós IIDesconhecedor dos costumes e tradições do Oriente, qualquer europeu ou americano que desembarque em Macau, sente uma desagradável impressão pelo quadro desumano ao ver  um homem acarretar com outro, qual quadrúpede, num panorama idêntico à besta  que puxa a carroça em qualquer  terra da nossa metrópole. Não há dúvida, porém,  que são  mais carregadas as cores do cenário que a realidade  dos factos. Segundo eles próprios confessam, não é a força o elemento principal a considerar, pois as ruas onde, estes carros transitam são, na sua maioria, planas e cimentadas.
À partida, após o esforço inicial no arranque do carro, que possui as duas rodas forradas de borracha , a virtude dos condutores está em conseguir manter o carro em equilíbrio e toada certa , conservando sempre o impulso primitivo, o que conseguem colocando as mãos nos varais de modo especial.
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós IIIE depois, no género de trotar, ritmo compassado, sem grande esforço, exceptuando numa ou noutra rua um pouco íngreme, lá seguem, lestos, sem frouxidão, na ânsia de bem servir.
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós IVÀ falta de passageiro, utilizam o veículo para transporte de muitas e variadas coisas, causando, por vezes, profunda admiração, a quantidade de peças de mobiliário que acomodam num tão pequeno carro.
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós VOs cules, na sua maioria, não têm horário definido para tomar as suas parcas refeições. Comem a qualquer hora, a sua tijela de arroz ou massa, com um pouco de peixe ou carne, servindo-se de ordinário, dos cozinheiros ambulantes que abundam pelas ruas de Macau.

MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós VINo estacionamento, nas horas de ócio, conversam com grande alarido.

Como distracção, vão uma vez por outra ao cinema, ao jogo de bolinha (futebol em miniatura) e só com grande sacrifício assistem ao Auto-China, espectáculo demasiado dispendioso para as suas reduzidas possibilidades financeiras. Como, aliás,  quase todos os chineses, são singelos no seu trajar, e a sua indumentária, simples e prática, adequa-se bem à função que desempenham. Em pleno Verão, cálido, saturado de humidade, temperatura asfixiante, quase insuportável, usam apenas camisola, calção e alparcatas, trazendo alguns o característico chapéu largo «tudum», (3)  feito de fibras de bambu forradas de folhas de palmeira, para a chuva ou sol.
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós VIINos dias chuvosos, vestem um impermeável o «so-i», (4) feito apenas de folhas secas de palmeira.
Em 1951 foram introduzidos em Macau os triciclos que comportam dois passageiros, veículos menos bárbaros à vista do visitante, mas que obrigam os cules a um maior esforço na sua condução.” (5)
MBI I-3 15SET1953 Os cules dos riquexós VIIICom a introdução dos triciclos que chegaram a circular cerca de mil, o número de  riquexós diminuiu progressivamente até ao seu desaparecimento. Creio que na década de 60 já não existia nenhum riquexó para transporte de passageiros embora recorde de um ou outro ainda a circular, levando mercadorias. Os triciclos por sua vez, como transporte público permaneceram até a década de 70 e hoje (escassos) são só para o transporte de turistas.
(1) Riquexó, “rickshaw” ou jerinchá – 人力車 (mandarim: rén li che; cantonense jyutping: jan4 lik6 ce1) é o meio de transporte humana em que uma pessoa puxa por uma carroça de duas rodas. Os primeiros jirinkshás (riquexós) terão surgido em Macau em 1883.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/riquexos/
(2) Cule era um trabalhador chinês, carregador, estivador, puxador de riquexó, condutor de triciclo, etc. Várias hipóteses para a origem deste termo, desde  meados do século XVII: do hindi/urdu «qulī» que significa “trabalhador(diário)”; do tribo natural do Guzerate «kulī», com o mesmo significado;  palavra tâmil «kuli», salários.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cules/
(3) Um dicionário online define tudum (substantivo, masculino) como um termo de Macau significando «capucha preta, usada por senhoras»
http://populu.net/tudum.
No entanto o correcto é a definição da professora Graciete Batalha: “chapéu feito de ola e coberto de tiras de bambu entrançado, usado pelos pescadores e trabalhadores chineses (homens e mulheres) para se protegerem quer do sol, quer da chuva”. O termo possivelmente no passado terá vindo do malaio «tudong», identificando-o com o “dó preto, bloco usado pelas damas macaenses ” (Glossário do Dialecto Macaense, 1977)
(4) 水衣 (mandarim pinyin: shuǐ yī; cantonense jyutping: seoi2 ji1 – água+cobertura/vestimenta
(5) Retirado de «Macau B. I.,1953»

“30-10-1858 – Foram estabelecidas três companhias de cules em cada bairro , cada uma das quais com um chefe ou cabeça, responsável perante o Procurador da Cidade pela conduta extravios e roubos que foram cometidos por aqueles que eram obrigados a trazer um barrete ou chapéu de bambu numerado e de cores diferentes para cada companhia. Esses cules eram isentos de décimas, sendo obrigados a apresentar-se, no Largo do Senado, para o serviço de bombas, sempre que houvesse incêndio” (1)
“O «Regulamento para trez Companhias de Cules Chinas» (chins, chinas ou chineses, designações correntes no século XIX) foi publicado no Boletim n.º  de 6 de Novembro de 1858. Entre outros aspectos se preceituava que  «cada Cule trará um barrete ou chapeo de bambú com o seu número, e de côr differente da de outra companhia, para ser conhecida do Publico». Tratava-se de carregadores, ou cules de transporte, que deveriam concorrer, por obrigação geral, ao Largo do Senado, quando houvesse rebate de incêndio, para prestarem serviço nas bombas, pelo que as três companhias, em compensação deste serviço de utilidade pública estariam isentas de pagamento de décimas” (2)
Cule era um trabalhador chinês. carregador, estivador, puxador de riquexó, condutor de triciclo, etc. Várias hipóteses para a origem deste termo, desde  meados do século XVII: do hindi/urdu «qulī»que significa “trabalhador(diário)”; do tribo natural do Guzerate «kulī», com o mesmo significado;  palavra tâmil «kuli» ,salários. (3)
O termo cule ou coolie/cooly/kuli foi mais utilizado no século XIX e princípios do século XX, para se referir aos trabalhadores braçais oriundos especialmente da China e Índia.
Os próprios chineses usavam este termo (4) no memso sentido mas dado o valor pejorativo que se foi tomando (principalmente na chamada “emigração dos cules”), (5) caiu-se em desuso tanto entre os chineses como entre os portugueses ou os ingleses.
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) SILVA, Beatriz Basto da –  Cronologia da História de Macau Vol.3, 1995.
(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Coolie
(4) A palavra chinesa 苦力 (mandarim pinyin:  kǔlì; cantonense jyutping: fu2 lik6 )significa literalmente “(uso) amargamente severo (de) força“.
O termo chinês mais utilizado culturalmente é   (mandarim pinyin:   gū lí; cantonense jyutping: gu1 lei1 ).
(5) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/emigracao-dos-cules/

Nesta data, 30 de Novembro de 1867, os emigrantes chineses (1) que deveriam seguir para Havana, na galera francesa Orixa, surta na rada, amotinaram-se, à hora do rancho da tarde, e atacaram os tripulantes com facas, achas de lenha e bandejas do rancho. A tripulação viu-se obrigada a fazer uso das suas espadas e, em consequência da revolta morreram cinco dos amotinados e ficaram feridos alguns marinheiros. (2)

(1) Conhecido como “emigração de cules”. Devido à quebra de mão-de-obra/abolição da escravatura em Cuba, com a chegada do primeiro agente cubano, em 1850 criou-se em Amoy a chamada “Emigração por Contrato” sendo encarregue à firma inglesa “Tait y Comp.”, a actividade de engajar e expedir para Havana os emigrantes. E em 1981 começa a actividade de emigração contratada em Macau (via Hong Kong) atingindo o apogeu entre 1866 e 1873. Em 1874, eram mais de cem mil chineses que gozavam de protecção consular portuguesa em Cuba. (3). Termina em 1874 (4) com a publicação em 27 de Dezembro de 1873 do Decreto Ministerial, determinando a abolição da emigração de chineses contratados em Macau (B.O. de 27 de Dezembro pela Portaria n.º 89 do Governo de Macau).
SILVA, Beatriz Basto da – Emigração de Cules. Dossier Macau 1851-1894. Fundação Oriente. 1994, 197 p. ISBN-972-9440-35-2
(2) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 367 p.
(3) Em 1874, com o reconhecimento de uma embaixada da China em Havana, os colonos chineses cessaram a sua ligação com Macau e com o consulado português em Cuba. Sobre este acontecimento, Eça de Queirós (4) comentaria sobre o fim da receita consular proveniente dos chineses que era o rendimento do cônsul, o seguinte:
«Na Havana, era apenas pago pelos chins, pelos serviços que lhes fazia: pagaram-me bem, honra seja feita aos chins, e deram-me uma bengala de castão de ouro! É verdade que eu, pelo menos por alguns anos futuros, garanti-lhes mais pão e menos chicote
(4) Recorda-se aqui o papel fundamental de Eça de Queirós que desencadeou no sentido de desligar o nosso governo de uma actividade que exibia tão desprestigiante e desumanas características ao tempo da sua chegada às Antilhas.
José Maria d’Eça de Queiroz foi nomeado cônsul de lª classe de Portugal nas Antilhas Espanholas em 16 de Março de 1872. Toma posse do consulado em Havana no dia 20 de Dezembro (5). Tinha então 27 anos. Em 1874 (20 de Março de 1874), um decreto do Ministério dos Negócios Estrangeiros transfere-o para o Consulado de Newcastle. A actividade principal nesta curta estadia de Eça em Cuba, foi os milhares de chineses que embarcavam em Macau recrutados por engajadores para trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar, numa situação muito próxima da escravatura e em condições infra-humanas. Vinham por contratos de oito anos mas, uma vez estes terminados, eram forçados a renovar pois não tinham condições para regressar à China.
Eça insurge-se contra esta situação, e através de relatórios enviados a Lisboa, ia dando conta desta situação e das diligências que praticava junto das autoridades coloniais espanholas no sentido de aliviar as péssimas condições de vida impostas aos “cules”. Algo terá conseguido porque, mais tarde, os chineses deram-lhe de presente uma bengala com castão de oiro.
Certamente reflexo dos seus relatórios para Lisboa, as autoridades portuguesas viriam,  justamente quando Eça deixava Cuba, decretar a proibição de Macau ser o ponto de partida dos emigrantes chineses para as Antilhas, situação que tivera início em 1851 após a abolição da escravatura em 1845 e que era devida à falta de braços na então colónia espanhola.
Informações retiradas do artigo de Mário Quartin Graça – Eça de Queirós em Havana em:
http://e-cultura.blogs.sapo.pt/170399.html
(5) “Chega a Havana, onde é empossado no seu cargo pelo seu antecessor, Fernando de Gaver. Neste posto encontram-se sob suas directrizes um chanceler, dois amanuenses e um intérprete chinês. Cuba era uma colónia espanhola em rebelião com Madrid, com o apoio final dos EUA, e que só acabaria em 1898 com a assinatura do Tratado de Paris em que Espanha foi forçada a renunciar aos direitos de potência colonizadora.”
http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/eca_queiroz/consul_havana.html

“Corria, suavemente, o Outono, em Macau, no ano de 1872, Outubro……(…)…
Vivia-se assim, despreocupadamente, pensando cada um em divertir-se da melhor forma que pudesse, sem precisar de pensar no dia de amanhã, pois o próspero negócio da emigração (1) dava para que toda a gente andasse ocupada e passasse os dias sem problemas económicos que a atribulassem.
Surtos no porto, viam-se três barcos de guerra nacionais, a corveta a vapor «Duque de Palmela»(2), a escuna de guerra «Príncipe Carlos » (3) e o vapor de guerra «Camões», além dos navios mercantes como a galera «Viajante» do comando de Francisco Jerónimo de Mendonça; a barca « Cecília» comandada por H. Mesquita e o brigue «Concórdia». Naves doutras nações demandavam também o nosso porto, como o vapor italiano «Glensannox», o vapor espanhol «Buenaventura», que sairia no dia 30, com destino a Havana, levando a bordo 84 colonos chineses, a galera da mesma nacionalidade «Alaveza», as barcas francesas «Blanche Marie» e «Veloce», os brigues «Maggie» e «Water Lily» e a galera «Star of China», que navegavam sob bandeira inglesa, a barca da confederação germânica «Vidal» e os vapores de guerra chineses «An-Lan», «Chien-Jui» e «Ngan-Tien»….
As disponibilidades que abarrotavam os cofres do tesouro público foram, no entanto, bem aproveitadas, pelo inteligente governador, Visconde de S. Januário, de nome, Januário Correia de Almeida (4), bacharel formado em Matemática, que chegara a Macau, com o posto de capitão do Estado-maior, tendo exercido, anteriormente, o cargo de governador geral da Índia. Assim grandes melhoramentos se efectuaram, no seu áureo governo, como:

  • a construção da estrada da Barra, até aos depósitos de lixo que existiam por aquelas bandas, saneando um local que constituía um foco de infecção, obra dispendiosa, pois muita rocha nos sopés das colinas de Penha e de Barra teve de ser arrebentada para se poder abrir esta via pública; (5)
  • a estrada de D. Maria II;
  • os trabalhos de pesquisa de água com a abertura duma mina na parte posterior do jardim da Flora;
  • a bateria rasante na ponta da praia em S. Francisco; (5)
  • uma nova casa para a guarda principal na Praia Grande (as outras foram construídas no campal das Portas do Cerco, no campo de Santo António, no largo de Matapau e na Flora, respectivamente, as duas primeiras em 1863, e as duas restantes em 1866 e 1869;(5)
  • uma carreira de tiro no campo da VItória;
  • ao alargamento do aterro marginal do porto interior; (5)
  • à canalização geral das ruas, próximas do bazar e teatro chinês; (5)
  • à construção de um quartel, destinado a uma bateria de artilharia, na fortaleza do Monte;
  • ao aterro marginal e construção da muralha da Praia Grande para o lado sul, (5) e
  • de muitos outros melhoramentos, mas nenhum sobrelevou ao da construção do hospital, que veio a ter o seu nome….

………………………………………………………………………………continua………

GOMES, Luís Gonzaga – Macau Factos e Lendas, páginas escolhidas. Edição da Quinzena de Macau, 1979, 152 p.

MACAU, 1870 – FOTO de JOHN THOMSON (8)

(1) Sobre o negócio e a emigração de Cules, aconselho a leitura do livro de
SILVA, Beatriz Basto da – Emigração de Cules Dossier Macau 1851-1894. Fundação Oriente, 1994, ISBN-972-9440-35-2.

O último Regulamento do Governo de Macau sobre Cules foi promulgado a 28 de Maio de 1872 (estabelecia a liberdade de emigrar e de ser repatriado no caso de mudar de intenções), embora posteriormente tivesse surgido acrescentos a este regulamento.
(2) “8 de Novembro de 1871 – Uma força composta de 60 praças de marinhagem da corveta «Duque de Palmela», com dois guarda-marinhas, 18 soldados da polícia do porto e de loucanes (marujos chineses) da guarnição dos escaleres, transportados, na lancha a vapor Sergio, em dois escaleres da polícia do porto levados a reboque e na lancha da corveta, desembarcaram em Uong-K´am (Ilha da Montanha), sob o comando do 2.º Tenente Vicente Silveira Maciel da lorcha Amazona, e conseguiram destruir um couto de piratas”
Em 2 de Setembro desse ano, a corveta «Duque de  Palmela» tinha sofrido grandes avarias, em consequência dos embates com os barcos chineses, por causa de um tufão.
 (3) “No dia 20 de Novembro de 1873, pelas 19.00 horas, o 1.º Tenente da Armada Vicente Silveira Maciel, comandante da escuna «Príncipe Carlos», acompanhado do guarda-marinha Caminha e do capitão de Infantaria Caetano Gomes da Silva, que jantara a bordo, quando seguiam numa baleeira para terra, veio um “fai-ai”, com uma equipagem de 60 a 70 homens, «abalroou premeditadamente contra a baleeira» ficando atravessada na proa do barco chinês, que mudou de rumo para a Lapa. Tendo conseguido trepar até ao “fai-ai”, os oficiais e dois ou três marinheiros que iam na baleeira travaram rijo combate com os chineses, caindo o Tenente Maciel ao mar; mas foi salvo por um marinheiro, agarrando-se ambos a um bambu. Salvaram-se também o guarda-marinha Caminha e um marinheiro. O capitão Silva e outros marinheiros foram considerados como desaparecidos” (7)
 (4) “23 de Março de 1872 – Januário Corrêa de Almeida, Visconde de S. Januário, capitão de cavalaria e bacharel de matemática, toma posse do cargo de Governador de Macau (para que tinha sido nomeado em 19 de Janeiro anterior)”. O Visconde fez entrega do governo ao seu sucessor em 7 de Dezembro de 1874, José Maria Lobo d´Ávila (tinha sido nomeado em 7 de Maio de 1874) (7)
(5) “17 de Janeiro de 1873 – O Governador ordenou a execução da primeira fase do alargamento do aterro marginal do Porto Interior e simultânea regularização do regime da corrente do rio, numa extenção de 160 metros desde a Fortaleza da Barra até à Doca de Uong-Tch´oi, a canalização geral das ruas próximas do novo bazar e teatro china, junto da doca, que acabava de ser aterrada, denominada de Manuel Pereira, construção de um edifício destinado a quartel de uma bateria de artilharia, na Fortaleza do Monte; e a continuação da muralha e aterro marginal no Chunambeiro, próximo da Fortaleza do Bom Parto até à chácara de Maximiano António dos Remédios (antigo Hotel Bela Vista)” (7)
(6) Há duas informações sobre S. Francisco:
“26 de Julho de 1872 – A portaria Provincial n.º 48 determina a construção de uma bateria «em forma de luneta» na ponta da praia de S. Francisco para as peças de grosso calibre”
e outra
“1 de Dezembro de 1872 – Lançamento da primeira pedra para a construção da Bateria Rasante 1.º Dezembro. A planta é do capitão de engenharia Dias de Carvalho e do Barão de Cercal, macaense e vice-presidente da Câmara
Para esta última bateria foi necessário fazer o corte do “Outeiro de S. Francisco
(7) SILVA, Beatriz Basto da –Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p., ISBN 972-8091-10-9
(8) http://images.wellcome.ac.uk/indexplus/image/L0055556.html