Archives for posts with tag: 1847
Extraído de «A Voz do Crente», I-1, de 1 de Janeiro de 1887

O estabelecimento oficial das Canossianas em Macau deve-se a D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, bispo desta diocese desde 1873 a 1883. Foi ele que pediu oficialmente à Superiora de Hong Kong, Madre Stella para que as Canossianas se estabelecessem definitivamente em Macau. O bispo Enes só chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1877 mas as Canossianas porém já estavam em Macau, antes dos finais de 1873 ou princípios de 1874. Na altura abriram uma escola chinesa para as crianças pobres que foi aumentando que logo necessitaram de maior espaço. Inicialmente na Rua de S. Paulo até ao tufão de 1874; depois na Rua de Santo António; e mais tarde na Horta da Companhia. Abriram também uma escola em S. Lázaro para as meninas chinesas. O Governador do Bispado Deão Manuel Lourenço de Gouvea e o Padre António Medeiros conhecendo o prestimoso auxílio das irmãs canossianas, pensaram em comprar uma casa maior. Adquiriram o edifico intitulado “Casa da Beneficência” (no Largo de Camões). (1)

Aí, em 1876, as Canossianas acolhiam meninas órfãs tanto europeias como chinesas. Até 1886, a escola da Casa de Beneficência era exclusivamente chinesa. Mas nesse ano muitas famílias portuguesas manifestaram o desejo de internar lá as suas; outras pretendiam também que as suas filhas lá estudassem como externas. Essa escola canossiana de instrução Primária (para além da instrução primária tinham aulas de inglês, francês, música, piano etc., e depois instrução secundária) esteve instalada na Casa de Beneficência durante quase um século, por isso também conhecido como «Colégio da Casa de Beneficência» (2)

(1) Era chamado pelos chineses, ”Hotel queimado”, sede da Procuratura das Missões estrangeiras francesas em Macau que vagou em 1847 com a transferência da sede dessa Procuratura para Hong Kong (2)

(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982, pp.327-331

Extraído de «Boletim do Governo de Macau», XII-47 de 19 de Novembro de 1866, p. 189

A Procuratura dos Negócios Sínicos, cujo início se aponta para 1583, tinha um Procurador com um lugar cativo na vereação municipal. Em 1847, a Procuratura ficou na dependência do Governo e em 1852 (1) clarificaram-se as suas atribuições quanto aos negócios sínicos. Em 1865, por decreto de 5 de Julho, (2), o Procurador foi definitivamente desligado do Senado nos assuntos municipais de que ainda estava dependente, passando a ser de nomeação régia, sob proposta do Governador e em 1877, nova lei, a Procuratura foi reforçada com um tribunal especial. A Procuratura foi extinta em Maio de 1894, pelo Regimento de Justiça para as Províncias Ultramarinas. As competências passaram para o juiz de Direito da Comarca (3)  

(1) “19-11-1852 – Em 19 de Novembro de 1852, foi promulgado e publicado pelo Governador Isidoro Francisco Guimarães, o primeiro regulamento da Procuratura dos Negócios Sínicos, (com 19 artigos) determinando que, para além do Procurador, somente o Governador pudesse interferir nos assuntos sínicos de Macau.

Regulamento da Procuratura, n-º 67 de 17-12-1862 Extraído do «Boletim do Governo de Macau», IX-4 de 27 Dezembro de 1862, p.14

Pela portaria provincial publicada em 17 de Dezembro de 1862, surgiu um novo regulamento relativo ao processo cível onde as questões cíveis de que a Procuratura se ocupava, eram, segundo a Lei, aquelas que não pertenciam ao juízo de Direito e que as questões não decididas por conciliação, naquele organismo, continuavam a ser decididas por árbitros nomeados pelas partes. (3)

(2) “5-07-1865 – Em 1865, por decreto de 5 de Julho, o Procurador foi definitivamente desligado do Senado nos assuntos municipais de que ainda estava dependente. O Procurador que desde 1853, era eleito pelo povo, passou a ser de nomeação régia, sob proposta do Governador, feita de entre os elegíveis a vereadores. Assim, foi constituído um funcionário do Estado de responsabilidade directa do Governo central e atribuída a denominação de Procuratura dos Negócios Sínicos àquela que tinha sido a Procuratura do Senado.” (4)  

“12-07-1865 – Foi criado, por decreto, do Marquês Sá de Bandeira como Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar a criação de «um corpo de intérpretes de língua sínica», apto para o exercício das funções que lhes forem incumbidas” (4)

Extraído de «TSYK»,  III ano, n.º 2 de 12 de Outubro de 1865, p. 1

“31-12-1865- Nomeado procurador interino – António Feliciano Marques Pereira, e em 1866, nomeado Procurador dos Negócios Sínicos. A nomeação régia para este cargo vem substituir a forma de provimento anterior; este era feito localmente, na pessoa de um Vereador da Câmara.” (3)

Quadro de funcionários, da Procuratura dos Negócios Sínicos em 1866 (Almanach Luso Chinez de Macau para o anno de 1866, p. 36.)

(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume II, 2015, pp. 135, 176, 302.

(4) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

Nesta data, Francisco António Pereira da Silveira oficiou ao Senado protestando contra uma fábrica de vermilhão, (2) cujo fumo incomodava os habitantes da Penha e que ali se instalara alegando estar fora da cidade:
«Com quanto eu tribute os meus sinceros respeitos aos Snres. Facultativos de que se compõem a Junta de Saúde, não só pela nobre Arte que exercem, mas them pelos méritos pessoaes de cada hum d´elles comtudo não posso acomodar-me com a exorbitância da hipótese classificando aquelle sítio como fora da Cidade, porque a Cidade chega athe a Barra, que fica mais distante do que o tanque–Mainato, e do Tanque-Mainato se faz caminho p.ª ella. O muro que há do Forte de Bomparto à Penha nunca indicou limite da Cidade, nem já mais foi considerado esse muro como limite da Cidade, mas como hum assessorio do Forte, para do mesmo Forte se fazer caminho seguro ao muro da Penha que lhe he sobranceiro; e principalmente desde o anno de 1825 em que o Governo de Macao fez romper o muro, abrindo passagem, e franqueando o terreno aos habitantes para cultivarem, e edificarem propriedade, e esses moradores à sua custa remirão sepulturas chinas, abrirão caminhos, edificarão propriedades, etc., esse muro já mais foi olhado como barreira da Cidade.
Se o aumento das propriedades chinas sobre os entulhos do lado do porto interior de Macao mereceo a protecção do Governo actual do paiz, que estabeleceo alli huma nova rua com  o titulo de rua nova d´El Rey; reputando sem duvida aquelles edifícios ainda que chinezes como fazendo parte da Cidade Portuguesa de Macao, não menos pode deixar de ser registada parte da Cidade, e o sítio do Tanque-Mainato agregado à Cidade, e à Parrochia de Sm. Lourenço pelo Governo de 1824, onde não só os chinas, mas os Nacionaes alli fabricarão suas propriedades, cultivarão-no, e fizeram a sua principal rua a que o Governo de 1847 deo o nome de rua de Tanque-Mainato – nome que qualquer pode lá ver na taboleta da porta» (3)
(1) Tanque do Mainato, área da cidade situada a leste da Colina da Penha, área que abrange a Rua do Comendador Kou Hó Neng, as Calçadas da Praia e das Chácaras e parte da Estrada de Santa Sancha. A designação da área foi conhecida até ao século XIX como Tanque do Mainato pois havia no local um tanque onde os mainatos lavavam a roupa, significando mainato “aquele que lava roupas”. Esta designação, no entanto,  caiu em desuso, especialmente na parte sul desta área, que é hoje mais conhecida por Santa Sancha (onde estava a Chácara de Santa Sancha)
(2) Francisco António Pereira da Silveira (1796-1873) nasceu em Macau na Freguesia da Sé, numa grande casa situada entre a desaparecida Rua do Gonçalo e a mais nobre das avenidas locais — a Praia Grande — filho de Gonçalo Pereira da Silveira (um abastado comerciante e armador, filho de um capitão de navios da Marinha Real de Goa, natural de Lisboa, Joaquim José da Silveira, que em Macau se casou, na Sé, em 10 de Janeiro de 1760, com uma das filhas de um dos mais conceituados homens da terra, Maria Pereira de Miranda e Sousa, constituindo família e fixando-se na cidade) que nasceu em 19 de Outubro de 1762, homem rico e casado em 1795, com Ana Joaquina, filha do homem mais rico e conceituado de Macau, Simão Vicente Rosa. Deste casamento nasceram pelo menos três filhos, Francisco António, Gonçalo e Ana Joaquina.
Francisco António casou com Francisca Ana Benedita Marques, em 15 de Agosto de 1819, e assim ficou relacionado com as famílias mais nobres e ricas de Macau, uma vez que sua mulher descendia, por um lado, em linha recta, de Domingos Pio Marques Castel-Branco, pertencente à melhor nobreza do Reino, e por outro à riquíssima família Paiva.
Deste casamento nasceram cinco filhos: uma menina, a primogénita, e quatro varões, dos quais apenas três atingiram a idade adulta.
Francisco António, depois de ter frequentado o Seminário de São José até 1818, data em que seu pai faleceu, veio a constituir família, tendo de rejeitar a ida para Coimbra para prosseguir os estudos de Direito com que sonhava (regalia que conquistara por ser um dos dois mais brilhantes alunos do seu tempo), para ocupar o lugar de chefe da família e gerir os negócios da casa. No entanto veio a perder, depois, a fortuna paterna nos riscos do mar. Foi director e administrador da Tipografia do Governo, exonerado a seu pedido em 1825.Foi almotacé da Câmara em 1815; vereador do Leal Senado em 1822; escrivão do juízo de direito de Macau em 1843; Irmão, tesoureiro e provedor da Santa Casa da Misericórdia. (4)
Ver biografia deste homem-bom, num trabalho de Ana Maria Amaro para a «Revista de Macau» , disponível em:
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30019/1715
(3) Vermilhão ou Vermelhão: substância tintória, o mesmo que mínio ( designação vulgar do deutóxico de chumbo, também conhecido por cinábrio, zarcão ou vermelhão (Dicionário de língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo, 1986)
Vem do francês: vermeilionpigmento opaco alaranjado que tem sido usado desde a antiguidade. O pigmento ocorrente na natureza é conhecido como cinabre. Quimicamente, o pigmento é sulfeto mercúrico (HgS) e como muitos compostos de mercúrio é tóxico. A maior parte do vermelhão produzido naturalmente vem de cinabre extraído na China, daí seu nome alternativo vermelho China ou vermelho chinês.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Vermelh%C3%A3o
(4) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia da Macau, volume I, 1997, p. 419-420.
(5) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume III, pp. 801-802,  1996.

Das cartas escritas por Rebecca Chase Kinsman (1) há a datada de 4 de Novembro de 1843, em que descreve as suas primeiras impressões de Macau, após a sua chegada:
“ Chegámos aqui a 13 de mês passado depois duma próspera viagem de 129 dias. As primeiras impressões são boas. Fomos cordialmente recebidos por Wm R. Lejee (2) e Wm. Cooper, membros da Casa de «Wetmore and Co.».
Ficámos hospedados em casa de R. Lejee, que é a mesma delicadeza; a casa é nova e uma das melhores de Macau, espaçosa e arejada, e agradavelmente situada na Praia Grande, que é uma larga rua marginal ao longo da praia-mar. É rodeada dum alto muro que cerca um lindo jardim, e tem dois andares, como é estilo aqui: o primeiro para os criados, o segundo para a família.
Da minha janela veja as árvores do jardim e, mais além, a baía, onde estão sempre ancorados um ou mais navios: neste momento, há lá dois navios de guerra franceses e um holandês além de vários mercantes e ainda ontem saiu de cá um navio inglês.
À esquerda, a terra descreve uma curva graciosa formando uma baía semi-circular. Na ponta extrema da terra, ergue-se uma igreja católica e um convento e um forte português (3), no qual tremula a bandeira nacional, ao passo que a cruz indica o edifício sagrado. Ao longo da curva, estendem-se em belas moradias, circundadas de árvores e arbustos e numa alta colina atrás delas, que parece quase inacessível, levanta-se outra igreja e outro forte. (4) Há aqui muitas e grandes igrejas e algumas delas com sinos de sonoros repiques. Gostamos muito deles, pois nos recordam a nossa terra.
No dias Santos que ocorrem frequentemente, eles repicam quase sem cessar mas não nos incomodam, visto não haver nenhum perto de nós, sobretudo na véspera do Natal, pode ouvir-se muita boa música na velha igreja de S. José, que nós pensamos visitar.
…………………………………..…………………………………continua (5)

Rebecca Chase Kinsman, ca.1842, by Charles Osgood.
Credit: Silk Damask.
http://hongkongsfirst.blogspot.pt/2012_02_01_archive.html………

(1) Rebecca Chase Kinsman (1810-1882) mulher de Nathaniel Kinsman, acompanhou o marido (e dois filhos, uma sobrinha e uma criada.) em 5 de Julho de 1843 com o destino: Macau. Rebecca permaneceu em Macau servindo de secretária dos negócios da empresa “Wetmore & Company”. (6). A família viveu em Macau 3,5 anos. Nathaniel morreu em Macau em 1 de Maio de 1847. Rebeca regressou a Salem em Junho de 1847. Tornou-se a casar em 1865 com Joseph Grinnell de “New Bedford”.

Os Jardins das fábricas americanas em Guangzhou c. 1845.
Artista chinês desconhecido
https://en.wikipedia.org/wiki/Old_China_Trade#/media/File:The_American_Garden.jpg

Nathaniel Kinsman (1798-1847), capitão e mercador, (comércio do chá) natural de Salem, Massachusetts, (E.U.A.) após eminência de falência económica, aceita em 1943, uma sociedade com “Wetmore & Company” e é enviado para Cantão (Guangzhou) para dirigir a firma e iniciar uma nova fábrica nesta cidade.
Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/03/17/leitura-macau-no-sec-xix-visto-por-uma-jovem-americana/
(2) “A família compõe-se de Lejee e do contabilista Whitney, sendo este de Nova-York; os amanuenses na repartição são portugueses, que vivem em suas casa. Lejee está na China há 10 anos e no próximo Fevereiro vai à América”. (5)
(3) Igreja, Convento e Forte de S. Francisco
(4) Ermida e Forte da Guia
(5) TEIXEIRA, Padre Manuel – Macau no Séc. XIX visto por uma jovem americana, p. 53/54.
Sobre Rebecca Kinsman, aconselho trabalhos académicos, consultáveis na net:
“Rebecca Kinsman and the Architecture of Macao, 1843–1847” de Kimberly Sayre Alexander em:
http://worldhistoryconnected.press.illinois.edu/11.1/forum_alexander.html
Interpreting Macao through the Journals of Harriet Low and Rebecca Chase Kinsman” de  Rogério Miguel Puga em:
http://www.academia.edu/867552/Interpreting_Macao_through_the_Journals_of_Harriett_Ltrabalho deow_and_Rebecca_Chase_Kinsman
The Kinsmans: Love and Loss in Nineteenth-Century Macau” de Dane A. Morrison em:
https://www.amdigital.co.uk/about/blog/item/the-kinsmans
(6) William Shepard Wetmore (1801-1862) comerciante do “Old China Trade” (comércio entre o Império Qing e os Estados Unidos após o Tratado de Wanghia (Mong Há) de 1844.
Formou a empresa “Wetmore & Company” com Joseph Archer em 1833 – chá, seda, especiarias, vinhos, pérolas, objectos chineses, porcelanas, etc. Empresa que não alinhou com o comércio do ópio.
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/William_Shepard_Wetmore_of_Newport_Rhode_Island.jpg

Faleceu a 14 de Julho de 1870, dum ataque repentino que o privou dos sentidos, o padre Jorge António Lopes da Silva, nascido em Macau, em 8 de Maio de 1817. Foi muito estimado por toda a população, tendo recebido, em Manila, aos 24 anos de idade a sagrada ordem de presbítero. Na volta a Macau, regeu a cadeira de Português, no Colégio de S. José e abriu, em sua casa, uma escola, donde saíram alguns padres e muitos guarda-livros. Foi depois convidado, pela Câmara Municipal para exercer a cadeira de professor de liceu, que fora então aberto, em Macau (1)
Não foi professor de liceu pois não havia ainda liceu em Macau. O Senado de Macau convidou a 14 de Abril de 1847 o Padre Jorge António Lopes da Silva para ser um dos primeiros mestres da futura Escola Principal de Instrução Primária. (2) O Padre respondeu a 27 do mesmo mês que aceitava ser um dos mestres das primeiras letras com o ordenado de 350 patacas anuais, pondo no entanto as seguintes condições: 1) levar consigo os meninos que estudavam em sua casa; 2) os requerimentos para admissão deveriam ser dirigidos não a ele, mas ao Senado; 3) que se alterasse o horário de inverno, pois o tempo do meio-dia às 2 horas lhe parecia curto para descanso de professores e alunos”, O Senado concordou e o Padre Jorge foi nomeado director e mestre da Escola Principal de Instrução Primária que foi inaugurada a 16 de Junho de 1847. A Escola ficou instalada em metade das casas do Recolhimento de S. Rosa de Lima. (3) (4)
A 14 de Junho de 1847, dois pretendentes oficiaram ao Senado: José Vicente Pereira oferecendo-se para mestre de inglês e francês dessa escola e John Hamilton pedindo-lhe um lugar de professor; a 22 de Novembro de 1847, o Senado comunicou ao Padre Jorge a nomeação de José Pereira e perguntando-lhe se carecia de mais outro professor. A Escola compreendia 3 cadeiras: uma de ensino primário, a cargo de Joaquim Gil Pereira, outra de português a cargo do Padre Jorge Lopes da Silva e outra de inglês e francês a cargo de José Vicente Pereira (3)
Apesar do seu limitado pessoal chegou a ter mais de 300 alunos.
Em fim de 1853, o Padre Jorge António Lopes da Silva pediu a demissão de director e mestre da escola. (5) Para a direcção da Escola foi nomeado o Padre Vitorino José de Sousa Almeida (6) que ficou só um ano pois o Senado teve de o despedir, ou por ter achado nele inaptidão ou por sua severidade pois que no cabo de um ano, estava deserta a aula das línguas portuguesas e latina.

Planta da Colónia Portuguesa de Macau
1870
Desenhada  por M. Azevedo Coutinho (7)

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) A 27 de Janeiro de 1847, o Senado de Macau oficiou a José Vicente Jorge, Francisco António Pereira da Silveira, Francisco João Marques e Padre António José Victor, comunicando-lhes que haviam sido nomeados para fazer parte duma comissão a fim de elaborar um plano de educação para a mocidade deste estabelecimento. A Escola Principal de Instrução Primária foi fundada pelo Senado de Macau por meio de uma subscrição pública. O  Senado comunicou a João Maria Ferreira do Amaral, governador de Macau entre 1846 e 1849, a 17 de Fevereiro de 1847 que
deliberou com os eleitos das freguesias  solicitar dentre os moradores abastados desta Cidade
Huma subscrição, cujo produto incorporado ao Capital agora existente de $ 5 000 (doado pelo inglês James Matheson feita a Adrião Acácio da Silveira Pinto, governador de Macau de 1837 a 1843), constitua hum fundo capaz de produzir hum rendimento, que junto  ao que este Senado agora despende com a sua escola de primeiras letras seja sufficiente para cubrir as despezas de huma Escola Principal de Instrução Primária: e na qual … se ensine também as línguas Ingleza e Franceza, cujo conhecimento he hoje reconhecidamente de suma utilidade, senão indispensável neste pais”. (3)
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – A Educação em Macau, 1982
(4) Em Abril de 1849, a escola foi transferida para o Convento de S. Francisco; mas a 28 do mesmo ano, o Conselho de Governo comunicou ao Senado que, tendo de aquartelar nesse convento a força auxiliar vinda de Goa, a escola devia ser mudada para outro lugar; regressou então ao Recolhimento. (3)
(5) Segundo artigo publicado no «Echo do Povo» n.º 68 de 15-07-1960, o Padre Jorge Lopes da Silva rdeixou a direcção que ocupava porque obrigaram-no a aceitar o vicariato de S. Lourenço. Foi portanto, nomeado pároco de S. Lourenço e a 5 de Fevereiro de 1866, foi nomeado Governador do Bispado. O Padre Jorge Lopes da Silva foi nomeado em 1867 presidente duma comissão encarregada de estudar as necessidades da Santa Casa de Misericórdia, nomeadamente do recolhimento das raparigas abandonas à porta da Santa Casa, que levou posteriormente ao decreto do Governador José Maria da Ponte e Horta à abolição da Roda dos Expostos da Santa Casa, a 2 de Fevereiro de 1867.
(6) Padre Vitorino José de Sousa Almeida chegou a Macau a 2 de Janeiro de 1832 no Novo Paquete. Foi pároco de S. Lourenço de 1842 a 1852. (3)
(7) Ver referência a este Capitão em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/08/22/noticia-de-agosto-de-1952-clube-militar/

A 2 de Março de 1844, sendo Ministro dos Negócios da Marinha e do Ultramar Joaquim José Falcão, e reinando D. Maria II, é decretada por Carta de Lei desta data a criação de um governo provincial em Macau e a redução do Leal Senado a uma simples Câmara Municipal. (1)
Macau ficou a chamar-se «Província de Macau, Timor e Solor» e, quando ao seu governo, ficará independente do Estado da Índia. Junto do Governador «haverá um Conselho de Governo composto dos Chefes das Repartições Judicial, Militar, Fiscal e Eclesiástica e de mais dois conselheiros que serão o Presidente, e o Procurador da Cidade (…)» (2)
O Decreto-lei que institui a província independente do Estado da Índia (situação que se manteria até 1850), a «Província de Macau, Timor e Solor”, somente é publicada a 20 de Outubro de 1844 (2)
diarion-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-idiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-iidiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-iiidiario-do-governo-2out1844-provincia-de-macau-timor-e-solor-ivCollecção Official da Legislação Portugueza 1943-1845, redigida pelo Desembargador António Delgado da Silva in
http://catalog.hathitrust.org/Record/010425335
(1) O Senado de Macau, que em 13 de Maio de 1810, recebera o honroso título de »Leal» viu fugir-lhe todo o seu antigo esplendor, deixando de ser «um Senado» que a tudo era superior, em 9 de Janeiro de 1834, pela «Nova Reforma Administrativa Colonial», que reduziu-a  a uma simples Câmara Municipal, sujeita ao Governador. O governador Bernardo José de Sousa Soares Andrea, dissolveu a Câmara a 22 de Fevereiro de 1835.
Posteriormente a 20 de Agosto de 1847, foi-lhe retirada a procuratura, sendo anexada à Secretaria do Governo e a 5 de Julho de 1865 determinou-se que a procuratura da cidade passasse a ser de nomeação régia, sob proposta do Governador
TEIXEIRA, P. Manuel – O Leal Senado.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.

“20-08-1851 – O Governador António Gonçalves Cardoso fez ocupar a «Taipa Quebrada», (1) uma zona da Ilha que ficava afastada da actual vila, mas também a pedido dos moradores e suas embarcações, carecidos de defesa contra os piratas e outras espécies de lanchaes (ladrões). Entretanto Coloane servia-lhes de excelente esconderijo. Em contrapartida da protecção à Taipa, foi elaborado um pequeno mas eficaz articulado legislativo” (2)

MAPA - Esboço de Adolpho Loureiro - 1882Representação esquemática do projecto Adolpho Loureiro (1882)

(1) A Taipa, que em chinês é conhecida por  Tâm Tchai (3) ou Pequeno Lago.  após assegurada a sua posse em 1845 e ocupada por ordem do governador Ferreira do Amaral  (hasteada a bandeira portuguesa pela primeira vez em 9 de Setembro de 1847), (4) estava, ainda no início do século XX, dividida em duas ilhas – a Taipa Grande ou Taipa Quebrada e a Taipa Pequena – separadas por uma estreita língua de mar. Foram, mais tarde, unificadas por assoreamentos naturais e, posteriormente, por aterros. Foi junto a uma das suas colinas – na Taipa Pequena – que se constituiu a povoação da Taipa, com um ancoradouro. Aqui, desde o século XVII, “os barcos estrangeiros que se dirigiam a Cantão, subindo o rio das Pérolas e que deviam tomar a bordo, em Macau, piloto e intérprete, apenas eram autorizados a seguir viagem depois de fundearem na Taipa, local portanto bem conhecido dos marinheiros, a ponto de algumas cartas marítimas se referirem a Macau como “porto da Taipa”.
COSTA, Maria de Lourdes Rodrigues – História da Arquitectura em Macau. Instituto Cultural de Macau, 1997.
(2) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Vol. 3, 1995.
(3) mandarim pīnyīn: dàng zǎi; cantonense jyutping: tam5 zai2

Esboço das Ilhas da Taipa 1912Esboço das Ilhas da Taipa (1912)

(4) “1847 – O Governador João Maria Ferreira do Amaral, na sequência de conversações diplomáticas encetadas com a China pelo seu antecessor resolve ocupar a Ilha da Taipa. De resto são mesmo os comerciantes que ali habitam que pedem protecção portuguesa contra os frequentes ataques de piratas que não só atacam do mar como se açoitam em grutas do litoral, de onde organizam investidas e roubos à população. O tenente Pedro José da Silva Loureiro constrói, no actual espaço da esquadra das Forças de Segurança, uma fortaleza, tendo em vista maior eficiência da defesa. Ali se ergue pela primeira vez a bandeira portuguesa, em Setembro deste ano. Pedro Loureiro (1792-1855) natural de S. Miguel (Açores), Oficial da Marinha de Goa foi também proprietário do brigue Genoneva e Capitão do Porto de Macau” (2)
Anterior referência à Taipa Quebrada:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ilha-da-taipa/page/2/

Continuação da leitura da carta escrita (minha postagem de 22-04-2014 ) (1) pelo capitão Joseph Fry, oficial do barco «Plymouth» quando esteve em Macau , Abril de 1853, para a esposa.
Nós éramos assaltados por tantas com estes gritos, e o clamor era tal, que, para nos defendermos, tivemos  de escolher um barco e partir. As raparigas, mencionadas em primeiro lugar, devido à sua beleza, ganharam a maioria, e o seu barco era limpo e bem equipado, e isto vai além do que se podia dizer de muitos deles. Notei o olhar de desapontamento que passou pelas faces da rapariga que acabo de descrever, o qual me persegue ainda agora. Se bem que pareçam ninharias para nós, estas cenas constituem grandes acontecimentos nas suas pobres existências, e estes triunfos ou derrotas são para elas de grande importância.
Depois de entrar no barco tanká, (2) notámos que a mãe destas raparigas e a criança estavam tipicamente vestidas. A criança era filha da mais bonita das raparigas, cujo marido andava ausente na faina da pesca. A velha era muito palradora e deu-nos de facto muitas notícias!.

CHINNERY Sampana com tancareira 1834Sampana (com tancareiras)
Aguarela sobre papel de George Chinnery (1834)

Tinham um templo em miniatura na proa do barco, com um ídolo sentado, de pernas cruzadas, mostrando-se muito gordo, muito vermelho e muito estúpido. Diante dele havia uma oferta de dois pêssegos, mas o ídolo não se dignava olhar para eles e parece que não tinha apetite. No entanto, senti um profundo respeito para com os sentimentos devotos destes pobres idólatras, reconhecendo ainda aqui o instinto universal que ensina que há Deus.

CHINNERY Tancareira num barco 1830Tancareira num barco
Desenho a lápis sobre papel de George Chinnery (1830)

Visitei o comodoro, que me recebeu com grande cortesia e me deu um relato interessante da viagem, via das Ilhas Maurícias, do «Susquehanna”, (3) para cujo serviço eu recebi a minha primeira nomeação. Ele (o navio) partiu para Amoy.
Conheci uma família portuguesa, chamada Lurero (4). As raparigas tinham uma educação completa, falando francês, espanhol, italiano, mas não o inglês. Elas desceram para receber a visita do nosso cônsul (5) e esposa, que foram a casa delas quando eu ali estava. O sr. Lurero deu-me alguns exemplares de soap-fruit (fruta-sabão) (6) e mostrou-me  a árvore. O fruto é um sabão magnífico, que, sem preparação alguma, é usado para os artigos mais elegantes.” (7)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/04/22/noticia-de-22-de-abril-de-1853-o-plymouth-em-macau/
(2) Tanká ( 蛋  家mandarim pinyin: dàn jiá; cantonense jyutping: daan2 gaat1 – casa do ovo), também chamado “t´eang-chai”, é uma pequena embarcação, comum nos portos da China, pelo menos no Sul e muito usada em Macau, no transporte de passageiros dentro do porto. Quase sempre tripulada por mulheres a que em Macau chamam «tancareiras»
(3)O “Susquehanna” era o navio principal da expedição diplomática  americana à China por indicação do Comodoro Matthew C. Perry (comandante das expedições ao Japão entre 1852 e 1954) que esteve em Macau e Hong Kong de 4 a 17 de Abril) a bordo da fragata “Mississipi“. Os outros navios da expedição à China foram o “Plymouth” (onde estava Joseph Fry),  o “Saratoga” e o “Supply” (navio de abastecimento).
(4) Segundo Padre Teixeira, tratava-se de Pedro José da Silva Loureiro, capitão do porto de Macau desde 1847 até à sua morte ocorrida a 12-09-1855. Casou com Ana Rosa Inocência de Almeida  (neta paterna do Barão de S. José de Porto Alegre e materna do Conselheiro Manuel Pereira e Ana Pereira Viana. Pedro Loureiro teve de Ana de Almeida 10 filhos.
Nesse tempo o francês prevalecia sobre o inglês, que pouca gente aprendia; por isso as filhas de Pedro Loureiro, conheciam a primeira, mas não a segunda língua.”
Foi sob a direcção de Pedro Loureiro que foi construído em 1847 o forte na Taipa sendo ele louvado, em 14-01-1848, pelo Governador João Maria Ferreira do Amaral.(7)
(5) Robert P. De Silver era o  Vice-cônsul dos E. U. A. em Macau, nesse ano.
(6) É a árvore sapindus , em chinês môk wan sue (木患樹) , árvore que atinge até 15 e 18 metros de altura; fácil de identificar pelos seus frutos: uma drupa carnuda, oleosa, quase transparente, com um ou dois carpelos na base, dando ao fruto um aspecto assimétrico.. Os chineses empregavam o fruto como sabão para a lavagem da seda preta, devido à grande percentagem da saponina contida na polpa oleosa.(7)
木 患樹mandarim pīnyīn: mù huàn shù; cantonense jyutping: muk6 waan6 syu6.
Sapindus” derivado do latim que significa “sapo” = sabão e “indicus” = índia
Joseph Fry . Plymouth(7) Transcrito das pp. 45-46 de TEIXEIRA, P. Manuel – Macau Através dos Séculos. Macau, 1977.
Para quem estiver interessado poderá ler o original em inglês ” Life of Captain Joseph Fry – The Cuban Martyr” em
http://www.latinamericanstudies.org/book/Joseph_Fry.pdf

No dia 8 de Março de 1828, faleceu na sua casa na Rua do Hospital, Marta da Silva Merop (Mierop) , (1) fazendo-lhe o enterro o Cura da Sé, Cónego António José Victor, que registou o seu assento de óbito no respectivo livro da Sé: «aos oito do mês de Março de 1828, nesta cidade, faleceu Martha da Silva Merop com todos os sacramentos, fez testamento e Codicilo »(2) (3) Foi sepultada na capela-mor da Igreja do Convento de S. Francisco.
“O seu marido era o inglês Tomas Merop, com quem casou religiosamente em Macau, (4) o qual no seu testamento declara: «A minha querida esposa, Marta da Silva , deixo a soma de dez mil libras e a minha casa da Rua do hospital e toda a mobília. Se ela mudar de ideias de passar toda a vida em Macau e vier para a Europa, deve receber mais três mil libras. É meu desejo que ela case após a minha morte, com uma condição: se ela casar com um português, receberá apenas cinco mil libras, quer venha para a Europa ou não. Se casar com um indivíduo doutra raça, receberá dez mil libras, e mais três mil libras se vier para Europa. Quer se conforme ou não com os meus desejos no respeitante ao casamento, deixo-lhes os meus livros e a mobília, a minha placa, relógio, anel, roupas, impressos, vinhos, instrumentos músicos e artigos curiosos, juntamente com a minha casa»
Marta não foi para Europa nem casou pela segunda vez; passou toda a vida em Macau” (1)
No  testamento que deixou, feito a 3 de Março de 1828, diz:
«Eu Martha da Silva Merop, viuva de Thomaz Merop, moradora n´esta cidade de Macau (…)  natural d´esta Cidade do santo Nome de Deus na China, filha de Pae e mai gentios (…) fui casada com Thomas Merop ora defundo in facie Ecclesiae segundo manda a  Santa Madre Igreja (…)  deste Matrimónio não tive filho algum (…) não tenho herdeiros descendentes nem ascendentes. (…) deixo por ora… (5)
Deixou o seguinte:
$ 1 000 para 1 000 missas por sua alma
$ 400 para ofícios solenes
$ 1 400 para pobres recolhidos
$ 400 para pobres de porta
$ 900 para fazer um depósito e com os juros celebrar festas anuais na Sé
$ 20 000 à Santa Casa de Misericórdia
$ 5 000 ao Mosteiro de Santa Clara
$ 5 000 ao Convento de S. Francisco
$ 20 000 às educandas do Recolhimento de S. Rosa de Lima devendo casa uma receber ainda $ 200 quando se casar
Deixou ainda várias somas às suas numerosas afilhadas e escravas que deveriam ficar livres após a sua morte. (1)
Marta MeropO seu retrato (6) em corpo inteiro pintado por volta de 1815, ocupa lugar de honra na galeria de benfeitores da Santa Casa de Misericórdia, na sala de Actos.
(1) Marta da Silva Van Mierop (1766 -1828), foi abandonada à nascença e recolhida pela Santa Casa da Misericórdia em meados do século XVIII. Casa com o inglês Thomas Kuyck Vam Mierop, sobrecarga da Companhia das Índias inglesa que lhe deixa em testamento parte da sua fortuna. Torna-se assim a mulher mais rica de Macau, famosa armadora e benfeitora da cidade.
(2) TEIXEIRA, Padre Manuel – Vultos Marcantes em Macau, 1982, pp. 103-104.
(3) Codicilo – alteração ou aditamento de um testamento (FIGUEIREDO, Cândido – Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 1986.
(4) Afirmação do Padre Manuel Teixeira mas que não se encontra registo do casamento em Macau. Outros referem concubinato. (5)
(5) Para uma melhor compreensão da história de vida desta benfeitora , aconselho a leitura, disponível na net, de
PUGA, Rogério Miguel – A Vida e o Legado de Marta da Silva Van Mierop in Women, Marruiage and Family in Macao
http://www.academia.edu/3785773/A_Vida_e_o_Legado_de_Marta_da_Silva_Van_Mierop
(6) José Tomás de Aquino, (7) em carta endereçada à Santa Casa pedia desculpas «quanto à demora dos retratos de Francisco Xavier Roquete que legou $ 62 000 a essa Instituição e de Maria da Silva Merop; os quais foram executados pelo retratista china VÓ Qua, mas sob o meu contorno e direcção» (2)
(7) José Tomás de Aquino ( 1804-1852), educado no Real Colégio de S. José de Macau, partiu para Lisboa em 1819, por indicação do pai, para estudar  Medicina.  Estudou no Colégio Luso-Britânico e formou-se em »Matemática, Desenho e Comércio». Regressou a Macau em 1825. Além de proprietário de navios e negociante era também «arquitecto».  Dirigiu a construção de muitas residências e edifícios em Macau, reedificou, modificou, alterou muitos outro edifícios oficiais. Saliento a construção do Teatro Luso-Britânico (1839); reconstrução da Sé Catedral (concluída em 1850); reconstrução da igreja de S. Lourenço em 1847 (reedificada em 1898); construção do Palácio do Barão de Cercal na Praia Grande (posterior Palácio do Governo); construção do Palacete da Flora e a construção da casa do Barão de Cercal na Rua da  Prata n.º 4.
TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, 1952.
NOTA : também Patrícia Lemos abordou este assunto na «Revista Macau», em 2014 : “De Marta a macaense”, disponível em:
http://www.revistamacau.com/2014/03/05/de-marta-a-macaense/

Foi aprovada, por Decreto Régio de 12 de Março de 1847  e publicado no Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor de 10 de Dezembro de 1847,  a criação do Batalhão Provisório de Macau, em 17 de Outubro de 1846, pelo Governador João Maria Ferreira de Amaral,  destinado a auxiliar a Força de 1.ª linha.
Este batalhão foi criado pelo Governador Ferreira de Amaral  (e organizado com os moradores), após a revolta dos faitiões de 8 de Outubro desse ano, (1) para reforçar a força armada da Colónia que então o governador reconheceu ser insuficiente para defender a Colónia de possíveis ataques futuros.(2)(3)
A criação deste Batalhão não foi do agrado do Leal Senado que contrariava a política do Governador Amaral mas este proclamava em 22 de Dezembro de 1847 “ha de conservar-se o Batalhão Provisorio no pé em que está, porque o mui disciplinado batalhão d´Artilharia apenas pode suprir para o serviço ordinario, e só serão punidos os Cidadãos, que ou por mandrice, ou por pouco respeito à lei faltarem às reuniões.” (2)
O seu primeiro Major-comandante foi o macaense Francisco José de Paiva, que comandou o Batalhão até 13 de Dezembro de 1849, data do seu falecimento, aos 48 anos de idade. (4) O Batalhão ficou aquartelado no extinto Convento de S. Domingos.
A Relação dos Oficiais do batalhão que era composta por 4 Companhias, todos elas chefiadas por um Capitão,foi aprovado por Decreto de 13 de Dezembro de 1847.

O Estado Maior era formado por:
Major Comandante: Francisco José da Paiva
Tenente  Ajudante: Pedro Marques
Cirurgião-Mór: Joaquim C. da S. Telles
Alferes Porta bandeira: Luiz João da Silva

O Batalhão Provisório de 2.ª linha foi depois reorganizado em Dezembro de 1857 e passou designar-se Batalhão Nacional. Este Batalhão foi extinto em 1876, tendo os militares passado para o Regimento de Infantaria do Ultramar que se manteve até à sua extinção 1893.(5)
Francisco José da Paiva, nascido a 4 de Janeiro de 1801, na freguesia de S. Lourenço era filho de Francisco José de Paiva (natural de Vila do Mato, freguesia de Milhões, do Bispado de Coimbra) (6) e de Inácia Vicência Marques.
Joaquim José de Paiva, avô de Francisco, também natural de Vila do Mato viera de Portugal para Macau no século XVII tornando-se em breve um dos mais ricos comerciantes desta cidade, vindo a família Paiva a ser uma das mais poderosas de Macau. Estava casado com Maria Nunes também natural da Vila do Mato.
Francisco José da Paiva, foi nomeado Juiz ordinário de Senado em 1831, e Encarregado dos Negócios Sínicos, em 1836.(7)
Francisco José de Paiva andou envolvido nas lutas que se travaram em Macau entre constitucionais e absolutistas. Recebida em Macau a nova da revolução de 24 de Agosto de 1820, que proclamara a Constituição em Lisboa, apressaram-se alguns elementos a jurar aqui a Constituição, o que se realizou em 15 de Fevereiro de 1822.
Em 19 de Agosto de 1822, é eleita pelos constitucionais a nova Câmara, sendo escolhido Francisco José da Paiva para Procurador com 87 votos; esta Câmara cessou em 23 de Setembro de 1823 dia em que tomaram posse do Governo de Macau,  o Bispo Fr. Francisco de N. Sra. da Luz Chacim, o Major João Cabral de Estefique e o vereador do senado Inácio Baptista Cortela.
Francisco José de Paiva  foi nomeado em 1846,  o primeiro Cônsul de Portugal em Hong Kong. Foi agraciado com a comenda da Ordem de Cristo.
Fora das suas actividades como grande Homem Público, Francisco José de Paiva tomou parte importante na fundação da antiga «Casa de Seguros de Macau» de que foi, entre as pessoas particulares, o segundo maior accionista. (8)
Francisco José de Paiva casou com Aurélia Pereira (neta paterna do conselheiro Manuel Pereira) e tiveram 3 filhos: Francisco José de Plácido de Paiva (1836) Carolina Maria de Paiva (1839) e António Aurélio de Paiva (1843).

Seminário S. José 1929Igreja do Seminário 1929

Faleceu a 13 de Dezembro de 1849, sendo sepultado no Cemitério de S. Paulo. A lápide sepulcral  de Francisco José de Paiva foi depois transladada para a igreja do Seminário de S. José, onde está na parede debaixo do coro, à esquerda de quem entra do lado do Evangelho.(2)

Seminário S. José -Lápide de Francisco José PaivaTRADUÇÃO
Cristo, alfa e ómega, i. é. princípio e fim

“Aurélia Pereira de Paiva, viúva, com os seus filhos, Francisco José Plácido de Paiva, da Ordem de S. bento, e Carolina Maria de Paiva, pede, aflita, luz e descanso para Francisco José de Paiva, caritativo para com os pobres de Cristo, o qual nasceu em Macau, em 4 de Janeiro de 1801, e aqui faleceu em 13 de Dezembro de 1849, confortado com os sacramentos da Igreja”.

NOTA: Francisco José de Paiva tem o seu nome na toponímia de Macau: Travessa do Paiva (擺華巷), construída pelo Eng. Abreu Nunes em 1896, que começa entre a Rua Central e a Rua de S. Lourenço e termina na Rua da Praia Grande, ao lado do Palácio do Governo.
(1) “08-10-1846 – O Governador João Maria Ferreira do Amaral sufocou, prontamente a revolta dos faitiões (embarcações chinesas de passageiros e carga) que se tinham revoltado por ter sido lançado o imposto de uma pataca sobre essas embarcações, o qual fora proposto ao governo pelo Procurador da Cidade Manuel Pereira. “(GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954)
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX, 1942.
(3) E não tardou muito que os acontecimentos viessem demonstrar a veracidade desta afirmação, pois que, assassinado o Governador Amaral, em 22 de Agosto de 1849, e vendo-se a cidade ameaçada pela invasão china, o batalhão Provisório concorreu bastante para a memorável vitória de 25 de Agosto, segundo se vê, das seguintes palavras do Capitão Ricardo de Melo Sampaio (Boletim do Governo n.º 80 de 5 de Setembro de 1849) : “As forças do batalhão Provisório que me foram enviadas durante a acção concorreram bastante pela sua actividade e disciplina par que o resultado da luta nos fosse favorável, e sem algum acontecimento funesto a não ser um só ferido, não gravemente.(2)
(4) Boletim do Governo da Província de Macau, Timor e Solor, Ano V, n.º 89, de 10 de Janeiro de 1850:

NECROLOGIA

«Um dos golpes mais severos, que tem soffrido ultimamente esta nossa Cidade, é pela voz geral de todos, a falta do nosso mui digno, e mui chorado concidadão o Ilmo. Sr Francisco Jozé de Paiva, Commendador da Ordem de Christo, nomeado por sua Majestade Fidelíssima, Consul Portuguez em Hong Kong, e Commandante do Batalhão Provisório de Macao. – Elle já não é comnosco! No Cemiterio de Sm. Paulo, onde jaz, está esperando, como os outros que alli moram, o dia final dos seculos …(…)
…Alem d´outras prendas estimaveis, que possuia, fallava a sua lingua materna com pureza, e correcção , assim coomo diversas outras d´Europa, não ignorava o latim, sabia a Historia, e a Geographia, amava e cultivava a Musica e a literatura nacional e estrangeira, de que tinha bom conhecimento. Sua enfermidade foi longa; mas supportada com paciencia…
(5) CAÇÃO, Armando António Azenha – Unidades Militares de Macau, 1999.
(6) Francisco José de Paiva (pai do biografado, com o mesmo nome) nascido em 1758, em Midões,  faleceu em Macau (27-11-1822) sendo sepultado na Igreja do Convento de S. Francisco. Casado com Inácia Vicência Marques (faleceu a 2 -11-1848) que era proprietária do mato/monte do Bom-Jesus onde estava instalado o Carmelo de Bom Jesus. Tiveram  oito filhos.
Uma das filhas Maria Vivência da Paiva (irmã do biografado, Francisco José de Paiva que era o terceiro na linhagem mas varão) nascida em Macau a 22 de Julho de 1802.
casou com Albino Gonçalves de araújo proprietário do navio Conde de Rio Pardo de quem teve um filho, Albino Francisco de Araújo que nasceu em Macau na freguesia de S. Lourenço a 19-05-1824 e se suicidou em paris em 1873 com 51 anos de idade. este episódio relatei em:
“OUTRAS LEITURAS – 365 Dias com histórias da HISTÓRIA DE PORTUGAL (I)”
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/05/02/outras-leituras-365-dias-com-historias-da-historia-de-portugal-i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/albino-f-paiva-araujo/
(7) “07-10-1836 -O Procurador Francisco José da Paiva escreve ao Mandarim da Casa Branca, pedindo para autorizar o restauro da Fortaleza da Barra, destruída com o último tufão e chuvas, alegando ser obra pública de grande necessidade.” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995)
(8) “29-11-1817 -Foi instalada a Casa de Seguros de Macau que devido ao seu poderio, era conhecido por Casa Forte. A sua primeira direcção, nomeada a 23 de Dezembro de 1817 ficou  assim constituída: Presidente, o Barão de São José de Porto Alegre; Vogais, Francisco José da Paiva e João de Deus Castro ....” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995)