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Artigo de Luís Gonzaga Gomes publicado no jornal “A Voz” e republicado no BGU, Fevereiro de 1953.

Consta por memorias antigas e papeis particulares que neste dia (4-04-1702) em que foi o de Sexta feira maior, houvera huma grande bulha com hum Mandarim e seus soldados e muitos Chinas ao mesmo tempo em que sahia a Procissão do Senhor morto, levando os Chinas preso à presença do Mandarim seu que aqui se achava o Procurador do Senado, por cujo motivo se pos a Cidade em Armas, mas três dias depois se acabou a dezordem em bem“. (1)
Sendo este dia Sexta-Feira de Paixão houve grande desordem entre os cristãos e a comitiva de um mandarim, na ocasião da procissão do Encontro. Os chineses, que se juntaram contra os portugueses, prenderam o Procurador do Senado, Manuel Gonçalves Rabouça, levando-o à presença do mandarim da cidade. Travaram-se lutas nas ruas, os moradores puseram-se de alarme, mas, no fim de três dias, foi restaurada a ordem. (3)
(1) BRAGA, Jack M. – A Voz do Passado, 1987.
(2) PEREIRA, A. M. – Efemérides Comemorativas da História de Macau.
(3) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.

Faleceu no dia 31 de Março de 1856, (1) com 53 anos de idade, o acreditado comerciante desta praça José Vicente Jorge, que ocupou por várias vezes o cargo de Procurador do Senado, tendo sido agraciado pelos relevantes serviços prestados ao governo, com várias condecorações (2)
Trata-se de José Vicente Caetano Jorge nascido em S. Lourenço a 17-03-1803 e falecido a 31.03.1857. Terceiro filho de Emídio Jorge e Ana Maria Baptista Suriano. Estudou ciência náutica no Colégio do Seminário de S. José, após o que enveredou por uma bem sucedida carreira de negociante e exportador, em navios próprios, granjeando uma sólida fortuna. Esteve também ligado ao negócio da emigração de trabalhadores chineses para as colónias espanholas da América Central e do Sul. Foi almotacé da Câmara em 1831, procurador do concelho em 1840 e 1845 e provedor da Santa Casa da Misericórdia.(1)
O primeiro filho do seu 2.º casamento chamava-se Francisco José Vicente Jorge (nascido em Macau a 1-11-1847 e falecido em Hong Kong a 2-04-1920). E é avô de José Vicente Jorge (nascido a 27-12-1872 e falecido em Lisboa a 22-11-1948) que foi chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico (autor de “San-Tok-Pun – Novo Método de Leitura”) (3), professor de inglês no Liceu e coleccionador de arte chinesa (autor do livro: “Notas sobre a Arte Chinesa”, 1940). (4)
(1) Jorge Forjaz na sua “Famílias Macaenses”, Vol. II (1996) refere a data do falecimento no dia 31 de Março de 1857.
(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
A mesma data encontra-se registada por Luís G. Gomes na Revista «MOSAICO» (n.º 7, 1951) e Beatriz Basto da Silva na sua “Cronologia da História de Macau”, Vol. 3, 1995.
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/07/07/leitura-novo-methodo-de-leitura-ii/
(4) Anteriores referências “deste” José Vicente Jorge em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-vicente-jorge/

Artigo publicado no «Notícias de Macau» por Luís G. Gomes (1)
(1) Reproduzida depois no «Boletim Geral das Colónias», Ano XXIV, Maio de 1948, n.º 275 pp. 216-218.

No dia 21 de Março de 1845, faleceu em Macau, antes de ser sagrado, (1) o 12.º Bispo de Diocese, D. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja, que foi sepultado, no cemitério de S. Paulo, sendo os seus ossos transladados, em 1859, para o carneiro da capela do Santíssimo da Sé Catedral, cuja reconstrução é, em grande parte, devida ao Bispo Borja. (1) (2)
O Padre Nicolau Rodrigues Pereira de Borja (1841-1845), sacerdote da Congregação de Missão (lazarista) chegou a Macau em 1802, para Mestre na Sagrada Theologia no Real Colégio de S. José da Cidade de Macau, e desempenhou depois as funções de Reitor do mesmo Colégio. No ano 1834, devido a perseguição tanto em Portugal como em Macau, expulsando todos os religiosos e sequestrando os seus domínios, houve uma vagatura da Diocese por um período de treze anos, depois da morte do Bispo D. Francisco Chacim. O Padre Nicolau Borja, foi nomeado Bispo de Macau em 25 de Novembro de 1841, confirmado em 19 de Junho de 1843, e tomou posse do Bispado aos 14 de Novembro do mesmo ano.
(1) O Padre Manuel Teixeira – refere que a morte do Bispo Borja ocorreu a 29 de Março de 1945, baseado no ofício do Bispo D. Jerónimo José da Mata, sucessor de D. Nicolau Borja, comunicando a morte do prelado e convidando o Leal Senado para o enterro do Bispo D. Nicolau que se realizaria no dia 1 de Abril. O Bispo Nicolau Borja não chegou a ser sagrado (marcado para 8 de Setembro de 1844) encontrando-se para esse fim já em Macau D. Fr. Tomás Badia mas este falece a 1 de Setembro de 1844 e o Bispo Borja falece a 29 de Março de 1845 com 68 anos de idade. Foi sepultado no interior da Capela do cemitério de S. Paulo. Transladado depois para debaixo do altar principal da Sé Catedral.
TEIXEIRA, Pe. Manuel – Macau e a sua Diocese, II Volume, 1940, p. 393
(2) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954 e PEREIRA; A. Marques –Ephemerides commemorativas da historia de Macau e das relações da China com os povos Christãos (Macau: da Silva, 1868)
Anterior referência a este prelado em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/d-nicolau-r-pereira-de-borja/

O semanário “O Domingo Ilustrado” (1) publicado em Portugal, datado de Fevereiro de 1925, apresentava na sua primeira página um desenho (2) para ilustrar os acontecimentos que tiveram lugar em Macau, no dia 13 de Dezembro de 1924, (3), intitulando-o:

A grande chacina de Macau

“Em pleno areal de Cka – Hó, (Ká-Hó) um posto numa ilha (Coloane) de um kilómetro quadrado, os presos insubordinaram-se, assassinando com as ferramentas do trabalho os soldados portugueses (duas praças africanas).  Depois correram ao quartel e mataram o sargento comandante, ferindo mais praças. Por fim, no meio da carnificina ficaram abatidos cinco dos revoltados e todos os soldados feridos e mortos”

(1) “O DOMINGO ILUSTRADO semanário editado regularmente, em Lisboa, entre Janeiro de 1925 e Dezembro de 1927. A sua curta existência coincide com um período de grande perturbação política e social, que muitos autores consideram mesmo de guerra civil latente, e que conduzirá à Ditadura Militar, instaurada pelo golpe militar de 28 de Maio de 1926.
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/DomingoI.pdf
(2) “Reconstituição sobre documentos e fotos fornecidos na Sociedade de Geografia, por um oficial que já comandou este posto
(3) Já relatado em anterior postagem:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/12/13/noticia-de-13-de-dezembro-de-1924/
Seis prisioneiros chineses que estavam trabalhando na construção duma estrada na Ilha de Coloane, tentaram evadir, agredindo de surpresa e barbaramente duas praças africanas que os estavam vigiando e, depois de as terem desarmado, dirigiram-se ao quartel, onde mataram o 1.º Sargento Manuel Ferreira da Silva que comandava o posto militar da povoação de Ká-Hó, sendo depois mortos cinco e capturado um.” (GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.)

Foi promulgado em 20 de Março de 1588, o primeiro regimento da Ouvidoria de Macau cuja existência datava de 1580, tendo Rui Machado sido o primeiro Ouvidor. (1) (2)
Desde Rui Machado do que foi, em 1580, o primeiro ouvidor, até Amaral, que foi o último (1837), Macau andou sempre em luta com os poderes excessivos que estes ouvidores usavam.
A Ouvidoria era tão odiada e achava-se em tal contradição com o bem-estar da Colónia, que D. João V aboliu-a.
Foi porém, restabelecida mais tarde, em 1784, na pessoa de Lázaro da Silva Ferreira.
A Ouvidoria, aumentada em breve com as jurisdições concedidas pelo alvará de 26 de Março de 1803, veio a ter um poder enorme.
A Fazenda, a Câmara, a Alfândega, a Misericórdia, os Órfãos, as Confrarias, as Capelas, os Presídios , os Defuntos e Ausentes, em geral, tudo quanto era administração, estava nas suas mãos, além do próprio ofício de julgador, letrado único na terra, de quem todos dependiam.
Com tal poder, a vontade do Ouvidor era pouco menos que lei.
Não tendo superior no ramo judicial, pois que na mesma Junta de Justiça e da Coroa eram os ouvidores os primeiros vogais, relatores, intérpretes das leis, e quem as aplicava e julgava de direito e de facto, o que era um Ouvidor, desde 1784, senão um pequeno rei?
Em 1738 principiaram os bens municipais a confundir-se com os da Fazenda Real, aproveitando-se o Ouvidor A. Pereira dos Santos deste facto, para se intrometer na administração do Senado.
Publicou, pois, um artigo de lei, em que dizia que, achando-se os bens do Senado misturados e confundidos com os da Fazenda Real, era por esse facto precisa a assistência do Ouvidor na administração do Senado.
Foi deste modo que os ouvidores entraram na administração do antigo Senado.
Este, mais ou menos maniatado pelas medidas tomadas, em 1784, pelo Governo da Índia, não pôde opor-se a semelhante intrusão.” (3)

Residência do Governador no ano de 1845 e fortim de S. Sebastião (Praia Grande)

(1) O primeiro ouvidor de Macau foi Ruy Machado que tomou posse do seu cargo em 1580.Os outros membros do Senado eram dois juízes  ordinários, três vereadores e um procurador da cidade, a cujo cargo estava a gerência dos dinheiros públicos. GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) “Em 1580, os portugueses habitantes de Macau procederam, por iniciativa própria, à eleição do Ouvidor e impuseram leis de Portugal em Macau. Foi esta a primeira tentativa de os portugueses habitantes de Macau estabelecerem no Território uma estrutura administrativa. Em 1586, o Senado de Macau voltou a pedir a cessação do poder jurisdicional do Capitão sobre Macau, e finalmente, obteve a autorização do Rei de Espanha. Em Fevereiro de 1587, o Rei de Espanha nomeou um Ouvidor para Macau para governar os assuntos de administração e de justiça.”
HG Siu Yu – A Administração de Macau ao Longo da sua História . Administração, n.º 34, vol. IX, 1996-4.º, 1015-1028.
(3) COLOMBAN, Eudore de – Resumo da História de Macau, 1927, pp.89-91.