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Tông Kuá Tchông  – 冬瓜盅 (1)

É um prato de cozinha chinesa, entre nós conhecido por cabeça de bonzo. É uma corcubitácea (2) recheada com caldo, no qual se encontram misturados pedaços de carne, de pato fresco, de pato salgado, cogumelos, cevada, etc. Em chinês ao indivíduo que é traído pela sua mulher, se diz tái lôk môu (usa chapéu verde) (3).  Como a casca desta corcubitácia é verde este termo é também empregado para se referir a um marido que é traído pela sua mulher.
GOMES, Luís Gonzaga in «Mosaico», 1952.
(1) 冬瓜盅mandarim pīnyīn: dōng guā zhōng; cantonense jyutping: dung1  gwaa1 zung melão cucumber + inverno + tigela
A foto foi retirada de:
http://www.daydaycook.com/daydaycook/hk/website/recipe/details.do?id=25941
(2) Cucurbitaceae é uma família de plantas eudicotiledôneas fabídeas, de haste rastejante, rupícolas ou terrícolas, frequentemente com gavinhas de sustentação, que reúne cerca de mil espécies entre as quais várias domesticadas e de grande importância econômica tais como abóbora, melão, melancia, bucha, cabaça (cuia), abobrinha, pepino, etc. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Cucurbitaceae)
(3) 戴  绿 帽  mandarim pīnyīn: dài lǜ mào; cantonense jyutping: daai3 luk6 mou6

No dia 1 de Fevereiro de naufragou no baixo da Prata, a galera portuguesa “Joven Idhap” de José Vicente Jorge, (1) a qual tinha largado, em 23 de Janeiro deste ano, (2) de Manila para Macau, com 35 praças de tripulação, 2 passageiros – um chinês e outro filipino – e um rapazito filho de um dos marinheiros. Esta galera de 375 toneladas e 41 centésimos foi construída, no ano de 1847, em Bordéus (3) (4)
O «Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor»(5) traz o relato completo deste acidente. Reproduzo somente duas colunas desse comunicado.
(1) José Vicente Caetano Jorge (1803-1857) estudou ciência náutica no Colégio do seminário de S. José, após o que enveredou por uma bem sucedida carreira de negociante e exportador, em navios próprios, grangeando uma sólida fortuna. Esteve também ligado ao negócio da emigração (6) de trabalhadores chineses para as colonias espanholas da América Central e do Sul. (7)
Segundo Luís G. Gomes (3) (bem como Beatriz Basto da Silva) José Vicente Caetano Jorge faleceu em 31 de Março de 1956, com 53 anos de idade. Segundo Jorge Forjaz (8) foi a 31 de Março de 1857, com 54 anos de idade.
Ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-vicente-jorge-1803-1857/
(2) O navio “Joven Idhap“ tinha partido de Macau no dia 4 de Janeiro para Manila, onde chegou a 11, com retorno a 23 de Janeiro do mesmo ano, com uma carga de arroz. Do «Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor» II-11 de 5 de Janeiro de 1856.
Portuguese barque Joven Idhap, laden with rice, from Manila to Macao in January , 1856; two men died in the boats” (The Nautical Magazine and Naval Chronicle for 1857. Journal of Papers on Subjects  connected with maritime affairs)
(3) “31-03-1856 – Faleceu, com 53 anos de idade, o acreditado comerciante desta praça José Vicente Jorge, que ocupou por várias vezes o cargo de Procurador do Senado de 1840 a 1845 tendo sido agraciado pelos relevantes serviços prestados ao governo, com várias condecorações”  (GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954).

A “Villa d´Alva”, residência de José Vicente Caetano Jorge em Hong Kong, ficava na “Macdonnell Road”. Demolida na década de 30 ? do século XX . (8)

(4) «Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor» II – 11 de 5 de Janeiro de 1856.
(5) «Boletim do Governo da Província de Macao, Timor e Solor» II-16 de 9 de Fevereiro de 1856.
(6) De 1851 a 1894, data do último regulamento que aborda em Boletim Oficial a emigração chinesa, vamos acompanhar o percurso do fenómeno, que deve o seu arranque europeu (via Hong Kong) a dois pioneiros franceses, Guillon e Durand; dispunham de engajadores chineses já prácticos nessa actividade bem à vista do próprio Império do Meio. Seguiu-lhes o macaense José Vicente Caetano Jorge, tendo este começado por levar 250 cules contratados para Callao de Lima (Peru), na barca Sophia, de que ele mesmo era proprietário (SILVA, B. B. da – Emigração dos Cules, 1994).
(7) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume II, 1996, p. 256
(8) Segundo o site “Gwulo: Old Hong Kong”,
m>https://gwulo.com/node/36130#15/22.2757/114.1615/Map_by_ESRI-Markers/100

Em 9 de Maio de 1780, o Vice-Rei ordenou ao Senado que cada fortaleza passasse a ter de guarnição 20 soldados efectivos,  pelo que o Senado suspendeu o soldo que Santo António recebia anualmente na sua festa, 13 de Junho, como «soldado» desde o começo do presídio militar na cidade, (1) visto não lhe chegar o dinheiro para tantas despesas. A quantia era de 143 taéis, 8 mazes e 6 condorins de prata. (2) Após essa data e durante três anos, a cidade começou a sofrer várias “continuadas infelicidades” que foram atribuídas pela população ao facto de a vereação passada ter dado baixa do soldo pelo que em 1783 (3) o novo Governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria (1783-1788), ao saber disso, pediu ao Senado que renovasse a matrícula de St.º António; este assim fez, pagando-lhe com a patente nova de «Capitão da Cidade», reembolsando-o dos atrasados.
(1) “Reza a tradição que Santo António foi alistado como soldado em 1623 ano em que veio de Goa o primeiro presídio militar com o primeiro governador D. Francisco de Mascarenhas” (TEIXEIRA, Manuel – Macau e a sua Diocese, Vol. XII, Macau, 1976)
(2) Ver: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2017/02/01/noticia-de-1-de-fevereiro-de-1849-o-jogo-em-macau/
(3) “27-12-1783 – Tendo há três anos experimentado a cidade contínuas infelicidades atribuídas ao facto de a vereação passada ter dado baixa de soldo ao glorioso St.º António, que o recebia, anualmente, como soldado, desde a que houve presídio militar nesta cidade, por motivo de cada guarnição de fortaleza ter sido reduzida, em 9 de Maio de 1780, a vinte soldados efectivos, o Senado, reconhecendo a necessidade de protecção deste Santo, com o vencimento do soldo de capitão e com o título de Capitão da Cidade.  (GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954)
O Governador da Índia, D. Frederico Guilherme de Sousa em carta endereçada ao Senado de 25 de Abril de 1784 dizia:
(…) aprovo o pio acordo que tomou, com os pareceres do Governador e do Desembargador Juiz Sindicante, de mandar pagar os soldos de soldado ao Glorioso Santo António do tempo que teve de baixa, mas também que devesse assentar Praça de Capitão da Cidade, e que se paguem daqui em diante, os soldos que vencer, e que serão aplicados no culto desse Glorioso Santo Português… (…)” (TEIXEIRA, Manuel – Macau e a sua Diocese, Vol. XII, Macau, 1976)
Anteriores referências ao soldo de Santo António em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/06/10/noticia-de-10-de-junho-de-1988-santo-antonio/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/06/18/festa-do-taumaturgo-portugues-santo-antonio-de-lisboa-em-18-de-junho-de-1955-capitao-da-cidade-de-macau/

No dia 13 de Dezembro de 1922, foi lançada uma bomba, nos jardins do Palácio do Governo, na série de vários atentados bombistas que os terroristas chineses xenofobistas estavam executando, periodicamente, na cidade, tendo o cinema Vitória, o Grémio Militar e alguns estabelecimentos comerciais sido vítimas das suas proezas (1)
Em 29 de Maio desse ano, tinha sido novamente proclamado (2) o estado do sítio em todo o território em Macau devido ao cerco à esquadra de Ship Seng e a resposta policial. Foram mandadas encerrar todas as associações de classe cujos estatutos não estivessem autorizados ou requeridos. (3)

Palácio do Governo c. 1910

(1) GOMES, Luis G. – Efemérides da História de Macau, 1954
(2) O anterior estado de sítio tinha sido declarado a 24 de Setembro de 1921 (com suspensão de garantia pelo prazo de 8 dias), mas que, em consequência de certas entidades inglesas terem intervindo, se evitou um sério rompimento, sendo ordenada, no dia seguinte, a cessação da ordem de estado de sítio (4)
(3) “29-05-1922 – Novamente é proclamado o estado de sítio em todo o território. Factos graves contra a soberania nacional, o prestígio das autoridades e a segurança da população”. (4)
“30-05-1922 – O 2.º Suplemento ao B. O. n.º 21 contém o edital n.º 2: «São convocados todos os cidadãos portugueses válidos a apresentar-se imediatamente no quartel do corpo de Voluntários (em Santa Clara), a fim de serem mobilizados para serviço do Governo. Macau, 30 de Maio de 1922 – O Comandante Militar da Cidade – Joaquim Augusto dos Santos, Coronel» Só a firmeza da resposta do Governador (Comandante Corrêa da Silva – Paço d´Arcos) às autoridades de Cantão evitou crise maior.” (4)
(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, 1997.
Sobre estes incidentes no ano de 1922, anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/23/os-tumultos-de-macau-em-1922i/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/24/os-tumultos-de-macau-em-1922-ii/
E aconselho a leitura de GUEDES, João – O General anarquista e a “República Cantonense” em http://arquivo.jtm.com.mo/view.asp?dT=355903012

Título e artigo retirado duma rubrica que Luís Gonzaga Gomes manteve durante alguns números da revista «Mosaico» de 1952.
Kuó-Ká-Máu – 過家 – Gatas que atravessam as ruas
É termo que se emprega para se referir às mulheres que não param em casa, e, por isso, vivem quase que exclusivamente na rua, passando o dia a visitar a casa desta e daquela, em constante prática de bisbilhotice, conhecendo assim a vida particular de toda a gente.

Lêong-Fân –涼粉 – Farinha fresca
É uma geleia feita com farinha de coquinhos (castanhas aquáticas) e apresenta-se com cor negra e com o formato do alguidar que lhe serviu de forma. Esta geleia, vendida só no Verão, é servida em malgas, aos bocados ou ralada, com calda de açúcar e, apesar de por este facto ser muito doce, deixa, no entanto, um travo especial na boca.
Ora, na China (antiga) as criadas de servir costumavam andar vestidas de tch´áu preto e, por isso, se lhe referiam geralmente como membros da hák-i-tui (grupo de trajos negros). E, assim, a situação embaraçosa criada pelos patrões que mantiveram relações ilícitas com as suas servas é comparada à geleia lêong-fân, tão agradável ao paladar na ocasião em que é saboreada, mas cujo travo fina, isto é, as consequências, se não pode escapar.
mandarim pīnyīn: guō jiā māo; cantonense jyutping : gwo1 gaa1 maau1
涼粉mandarim pīnyīn: liáng fěn; cantonense jyutping : loeng4 fan2

Anúncios publicados no «Boletim do Governo de Macao», IX- 3 , 20 de Dezembro de 1862 p. 12.
NOTA: não sei se o proprietário desta loja será o mesmo José Maria da Silva (nascido a 26-11-1824 e falecido em 24-Julho de 1898) que fundou o jornal “Independente”, quinzenário político e noticioso, em 1867. O jornal viria a ser suspenso por ordem do Governador, almirante António Sérgio de Sousa, em 18-06-1869, tendo reaparecido e suspenso várias vezes tenho o seu redactor José da Silva sido mais de uma vez agredido, multado e preso pelos seus virulentos artigos de crítica contra a administração pública e ataques pessoais. Está também referenciado como proprietário da tipografia onde era impresso o jornal e onde posteriormente em 10-10-1869, foi publicado o hebdomadário político “O Oriente”, fundado pelo Dr. Francisco da Silva Magalhães, tendo por administrador João Albino Ribeiro Cabral. Este jornal também viria a ser suspenso em 14 de Outubro de 1872 pelo Governador Januário Correia de Almeida Visconde e depois Conde de S.. Januário.(GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954)

Na noite de 11 de Outubro de 1950, no Teatro D. Pedro V, incluído no Ciclo de Concertos da cantora macaense Maria Margarida Gomes, (1) o Círculo Cultural de Macau (C. C. M.) organizou o segundo recital, (2) este dedicado a Schubert. (3) Colaborou neste concerto a pianista Maria Amália de Carvalho e Rego (4) que, pela primeira vez tomou parte de um programa do Círculo Cultural de Macau.
O programa foi dividido em 4 grupos de 3 “lieder”, sendo estes escolhidos com a intenção de mostrar a evolução sentimental do Autor, desde a época das ingénuas composições de sabor lírico até ao tempo das obras dramáticas, revelando as suas desilusões e o seu sentido da proximidade do fim.
No intervalo de cada um dos grupos de “lieder”, Luís Gonzaga Gomes, chefe da secção musical do C. C. M. proferiu alguns comentários técnicos e biográficos sobre Schubert e a sua obra, que revelaram profundos conhecimentos de musicista e uma facilidade de expressão digna de relevo.” (5)
Este acontecimento cultural foi também noticiado no «Boletim Geral das Colónias» (6) acompanhado com duas fotos.
(1) Maria Margarida de Alacqoque Gomes, irmã de Luis Gonzaga Gomes, estudou canto e piano no «Trinity College» de Londres e é autora do livro «A Cozinha Macaense» (7)
(2) O primeiro recital foi realizado no dia 16 de Setembro de 1950 aquando da primeira apresentação pública do Circulo Cultural de Macau (após a tomada de posse no dia 1 de Setembro dos Corpos Gerentes dos fundadores do Círculo Cultural). Nesta apresentação também realizada no Teatro D. Pedro V, constava de uma conferência de Hernâni Anjos sob o tema: “Afinidades Transitórias: do simbolismo português – Camilo Pessanha – ao Romantismo alemão – Henrique Heine (estudo retrospectivo” e de um recital dedicado a “Schumann” cantada por Maria Gomes.
(3) Franz Schubert por Wilhelm August Rieder,
Óleo pintura, após aguarela em 1875.
Franz Peter Schuber (1797-1828) , compositor austríaco do fim da era clássica, escreveu cerca de seiscentas canções (o “lied” alemão) bem como óperas, sinfonias, e sonatas.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Franz_Schubert
(4)Maria Amália de Carvalho e Rego, “pianista sobejamente conhecida e apreciada pelo público de Macau e Hong Kong, onde tem actuado várias vezes, sempre com geral agrado “ (segundo a mesma revista) (5), é filha de Francisco Ernesto Palmeira de Carvalho e Rego, já citado em anteriores postagens (8)
(5) Extraído de «Mosaico», I-3, 1950.
(6) Extraído de «BGC» XXVI–306, 1950.
(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-margarida-gomes/
(8) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/francisco-de-carvalho-e-rego/