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Extraído de «O Macaense», Vol. V, n-º 1 de 10 de Junho de 1886

Luis Adolfo Lubeck dedicava grande amizade a Pedro Nolasco da Silva em cuja casa terá sido educado como irmão. A mãe Matilde Rosália Barreto foi encarregada de educação de Edith Angier (filha dum inglês protestante de Hong Kong que regressou a Inglaterra e que confiou a sua filha aos seus cuidados) que viria a casar com Pedro Nolasco da Silva em 1868. É autor duma poesia “À Memória de Pedro Nolasco da Silva” que escreveu em Shanghai em 14 de Outubro de 1912. Pedro Nolasco da Silva faleceu a 12 de Outubro de 1912 (1)

Luís Adolfo Lubeck nasceu em Macau a 25-08-1859 (batizado na Igreja de S. Lourenço a 4-04-1866 e faleceu em Shanghai a 06-07-1922. Guarda livros. casou com Ana Joaquina Tavares, em Shanghai. É filho mais velho de Louis Augustus Lubeck e de Matilde Rosália Barreto (viúva, em 1871, ingressou no Convento das Irmãs da Caridade (Canossianas) em Hong Kong). O pai, Louis Augustus Lubeck nasceu na Suécia cerca de 1817, em 1849 vivia em Hong Kong onde era armador de navios e em 1850 foi para Macau, onde faleceu a 14-06-1863. (2)

O irmão de Luís Adolfo, Henrique Carlos Lubeck (Macau 15-07- 1861/ Shanghai a 17-04-1943) foi baptizado em S. Lourenço no mesmo dia do irmão. Terá sido Henrique (3) o primeiro a emigrar para Shanghai.

L.A Lubeck, foi o correspondente em Shanghai dos jornais macaenses “ O Macaense” e “O Mensageiro” . (4)

 “O Macaense” I-1 de 28 Fevereiro de 1882, p. 4

Foi eleito Presidente, do “Club de Recreio”, de Shanghai em 1897 (neste cargo pelo menos até 1903) (5) e também Presidente da “Associação Macaense de Socorro Mutuo” de Shanghai, em 1918. (6)

NOTA: Sobre a família Lubeck, recomendo leitura do blogue onde está ”The Story of the Lubeck Family … and their house in Shanghai”

(1) REIS, João C. – Trovas Macaenses, 1992 pp. 113-116

(2) Em Junho de 1863, um tufão destruiu a empresa de Louis Augustus Lubeck tendo este falecido nesta data (está sepultado no Cemitério Protestante – túmulo n.º 214).

 Os filhos, Luís Adolfo e Henrique, de 5 e 3 anos de idade ficaram a cargo das autoridades portuguesas, tenho depois sido entregues à família Nolasco da Silva, para educação.

(3) FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume II, 1996, pp.423 –

(4) Os nomes de H. O Lubeck e L. A. Lubeck, constam no livro “The Desk Hong List; A general and business directory for Shanghai and the Northern and River Ports etc. 1884″,com a seguinte indicação:

Lubeck Fire Insurance Co: Lubeck. Mrs. H. O. – n.º9, Boone Place, Lubeck, Mrs. L. A – 13, Canton Road https://archive.org/stream/1884deskhonglist/1884deskhonglist_djvu.txt

(5) O “Club de Recreio” de Shanghai foi fundado por macaenses, nos princípios de 1890 e em 1893 a sede estava localizada no “No. 36 Whangpoo Road “. Em 1903, a sede foi transferida para “North Szechen Road No. 31”.

(6) A “Associacao Macaense de Socorro Mutuo” de Shanghai foi instituída na década de 10 com sede localizada na “North Szechuen Road n.º 32”

MACAU LH 119 Portas do Cerco

Porta do Cerco é padrão

da lusa Soberania

(ergueram-no

braços possantes

de portugueses de antanho

e cimentaram-no

o sangue de Mártir

e o rasgo do Idólatra

E Passaleão  simboliza

bronzeas estrofes

dum novo canto

de “Os Lusíadas”

Patrício Guteres (1)

NOTA 1: Patrício Guteres : “ Jornalista que fez da profissão um acto de fé. Animador dp movimento que caracterizou a sua geração, e tão profundamente marcou Macau. …(…). Como Elói Ribeiro fez poesia”  (1)
NOTA 2: Postal da década de 90 (século XX) da colecção  “MACAU  澳門”-  LH 119
No verso, indicação de:

關閘
Border Gate Macau-China
Portas do Cerco

(1)   In “Clarim” – 1950  retirado de REIS, João C. – Trovas Macaenses. Macau, 1992, 485 p.

Da cor do lírio, triste, amargurada
A tarde, brandamente, vem tombando…
E os “juncos”, em fileira, vão entrando,
Como as aves em busca da pousada …

Sobre a água do mar, quente e parada,
Nesta tarde de Julho , está boiando
Uma “lorcha”, que ali ficou sonhando
E vendo a sua imagem retratada…

No poente pairam nuvens cor de sangue,
A dizer-nos que o dia está exangue,
E tudo é paz e doce quietação…

Nesta hora serena, de beleza,
Por que sinto em mim tanta tristeza?
Por que sinto chorar o coração ?

Porto Interior 1986 Revista Nam VanJuncos e Sampanas no Porto Interior em 1986 (2)

Soneto de Rita Margarida Rodrigues, esposa do Governador Rodrigo Rodrigues ( em Macau de 1924 a 1926),  publicado no “Notícias de Macau” em 1961 (1)

(1) Reproduzido em REIS, João C. – Trovas Macaenses. Macau, 1992, 485 p.+ |10|
(2) Foto da revista “Nam Van”, 1986

Espelho do Mar P.e Videira Pires I

Livro do Padre Benjamim Videira Pires, “ESPELHO DO MAR” (publicado em 1986) (1),  terceiro livro de poesia do autor, que o dedica a todos os amigos de Macau. Contém 26 poesias, sendo as três últimas composições (“Pecado Original“, “Tríptico” e Acto de Esperança” reedições, “levemente actualizadas”.

Da Nota Prévia escrita pelo autor, retiro:
O primeiro (livro), JARDINS SUSPENSOS, mereceu as honras de uma tradução japonesa, feita pelo licenciado da Universidade «Sofia» de Tóquio, sr. Shigeru Otake.
            O tempo de vinte e oito anos, decorrido sobre a publicação da segunda obra poética, DESCOBRIMENTO, purificou os elementos «circunstâncias» e «artifício», que insensivelmente se infiltram, em qualquer «criação» do homem. Estes poemas ganharam, assim, mais simplicidade e verdade. Porque a espontaneidade e a candura da infância têm de ficar, até ao fim, na nossa alma.”

ACTO DE ESPERANÇA

 – Senhora de T´oi Sán e da fronteira,
sentinela isolada de Além-Mar,
envolve-nos a noite traiçoeira,
comes trelas vermelhas a rondar…

Dominas, Mãe de Deus, a terra inteira,
dum trono atapetado de luar;
Que futuro, Divina mensageira,
descobre para nós o teu olhar?

Nesta hora,  a Cidade iluminada
é uma flor de nenúfar delicada,
pairando sobre medos e cansaços…

Senhora, não reveles o destino;
Macau prefere a sorte de um menino
que dorme, confiado, nos teus braços! –

Macau, Ilha Verde, 12 de Maio de 1953

Espelho do Mar P.e Videira Pires IIBenjamin Videira Pires (Torre de D. Chama, Mirandela, 1916 – 1999), missionário da  Companhia de Jesus desde 1932, ordenado sacerdote no Porto, em 1945, vem para Macau em 1948. Historiador, Pedagogo (deu aulas no Liceu Nacional Infante D. Henrique), Ensaísta e Poeta, com vários livros publicados em cada especialidade. Na poesia, publicou 3 livros: “Jardins Suspensos“, publicado em 1955, “Descobrimentos: Poesias“, em 1958 e “Espelho do Mar“, em 1986.

Referenciado na obra “Trovas Macaenses“, (2) o autor, João C. Reis diz dele, o seguinte:
Possuidor de vasta cultura, a sua escrita é ponderada, profunda e comunicativa. Desenvolveu, no jornal “Confluência” de 1974/1975, uma poesia intervencionista, sem adornos que ficará a perder em relação à outra apenas na limitação natural dos temas
NOTAS:
1 – Sobre o Padre Videira Pires, aconselho leitura do trabalho de António Aresta na Revista “Administração“, de 1999, e que pode lê-lo em:
http://www.safp.gov.mo/safppt/download/WCM_004211
2 – A capa do livro é da autoria de A. Conceição Júnior.
3 – Anterior poesia do Padre  Videira Pires, “Crepúsculo” no “post”:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/01/22/poesia-crepusculo/
(1) PIRES, Benjamim Videira – Espelho do Mar. Instituto Cultural de Macau, 1986, 57 p. + |1|, 25,5 cm x 16 cm.
(2) REIS,  João C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano-Editora, Macau, 1992, 485 p. + |10|

NENE……. E…….CHICO

N.      Bonote [1] Chico, qui nova?[2]
Tudo banda luminado[3]
Nom basta de andá cansado,
Inda quente

C.      Caranguejo stá contente;
Com que gosto, com que brio,
Cada qual com sua pavio[4]
Fazê festa

N.     Cuidado com nosso testa
De chintoe[5] de camarão
Se no meu de função
Sahe foguete.

C.       Rancho, Rancho[6] cô vivete[7]
Cada tempo de enculido[8]
Agora  já tezo, e empido[9]
Como gente.

N.      São sussesso de repente,
Caranguejo respirá;
Aquele outro virá,
Fico frio:

Qual com cara de subio[10]
Porque já não tem remede[11]
Qual com cara de fêde[12]
Pensativo

C.       São pensamento altivo,
Lembrá de perturbação,
Elle outro[13] tem Coração
Pequinino

Se não q´foi [14]perde tino[15]
Quando Fragatta já entrá
Ma  rua nunca encontrará
Cara murcha[16]

N.     Como tem vento na burcha[17]
Alguma vez sae sua bazofia;
Mas tudo são farofia
De Quixote

C.       Que tanto[18] são deste lote,[19]
Por isso na medo nada;
Se restá algum cambada,
Stá capido.[20]

N.      Emprega nosso sentido
Na paz e na sociedade;
Disfarçá tudo maldade
D´este gente.

C.      Tudo nos vive contente,
Nom tem cuza[21] mais melhor
Viva El-rey  Nosso Senhor
E Macau!

N.       Nada já de alcunha mau;
Nunca ouvi padre pregá
E que pode negá
A verdade

C.       Viva tudo este cidade
Governo, Tropa e Senado !

N.       Seja tudo abençoado

AMBOS      Em afião[22]
De José Baptista de Miranda e Lima (1)

(1) Poéma retirado de
TEIXEIRA, P. Manuel – Galeria de Macaenses Ilustres do Século XIX. Macau, Imprensa Nacional, 1942, 659 p.
Esta poesia foi cedida por J. Leite de Vasconcelos a J. F. Marques Pereira, que as publicou no Vol. II do Livro TA-SSI YANG KUO , p. 779, segundo
REIS, João  C. – Trovas Macaenses. Mar-Oceano Editora, Macau, 1992, 485 p. +  |10|
 
José Baptista de Miranda e Lima (Macau 1782- Macau 1848), se não foi o primeiro, tornou-se seguramente o mais importante poeta macaense. Foi professor Régio de Gramática Portuguesa e Latina do Colégio de S. José, benemérito da instrução da Cidade.


[1] BONOTE – Deve ser Bônôte: Boa noite
[2] QUI NOVA ?  – Que nova ? São estas as palavras que os macaista empregam quando se encontram e se cumprimentam. Equivale ao reinol – como passou? como está ? Convém notar que os macaistas não dizem bônôte quando se despedem na ocasião de se deitarem; mas sim – bon sono
[3] LUMINADO – Iluminado (por causa dos festejos)
[4] PAVIO – Está aqui no sentido de lanterna ou balões para a iluminação
[5] CHINTOE – Espécie de bolo chinês, frito à maneira dos nossos sonhos, recheado de camarão. Tem graça a comparação entre este bolo e a testa saliente dos chins ou dos cruzados com chins
[6] RANCHO, RANCHO – Muitos ranchos, muita gente , grupos, e mais grupos de gente.
[7] VIVETE – Talvez seja antes pivete, espécie de pauzinhos  tendo à superfície uma massa combustível de pó de sândalo ou de outras madeiras  que se vão queimando  lentamente. Como o autor fala no ultimo verso da quadra anterior, em foguetes, calculo  que se teria escrito essa palavra em vez de vivete. Mas talvez seja vivete, que pode ser traduzido  por vivas
[8] ENCULIDO – Encolhido. Cabá tempo de enculido – Acabou o tempo de estar encolhido, ou antes, mettido na concha.
[9] EMPIDO – De pé, em pé, teso, soberbo
[10]  SUBIO – Assobio –cara de subio, cara enfiada.
[11]  RAMÊDE – Remédio
[12] FÊDECara de fêdeCara de quem fêde, cara mortificada
[13] ELE OUTRO – Deve ser Il´ôtro – Eles
[14] QUE FOIQui foi? – porque foi, porquê?
[15] PERDE TINO – Deve ser perdê tino -Perdeu o fino, atrapalhou-se
[16] É MURCHO – Em macaista cerrado, na maioria dos casos, não há concordância nos géneros entre o adjectivo e os substantivos, empregando-se quase sempre o adjectivo no masculino
[17] BURCHO – É bucho, como o faz notar o Sr. L de Vasconcellos. Vento na bucho, quer dizer barriga cheia de vento, ou melhor, todo emproado de bazofia, de toleima
[18]  QUE TANTOQui tanto, quantos, que grande número, que tantos
[19]  D´ESTE LOTE – Desta espécie, deste feitio
[20]  CAPIDO – Capi – apertando, levando debaixo do braço. Está aqui na significação de encolhido, metido na concha
[21]  CUZA – Coisa. Non tem cuza mas milhor -não há coisa melhor. Nota-se o comparativo ou antes superlativo mais melhor.
[22] AFIÃO – Em português antigo anfião, corruptela de afium, nome árabe do ópio extraído da papoila preta. Não se emprega em Macau o nome de ópio para essa droga quando destinada a fumadores. China fumá afianChina fumador de ópio