“Reza a tradição que vivera outrora na cidade de Funchau (1) uma donzela que resolvera um dia dirigir-se ao porto que servia aquela localidade. Queria dali passar para Cantão, mediante uma passagem gratuita, num dos barcos ancorados.
Os mais abastados senhores dos juncos recusaram-se a atender o pedido da jovem, não lhe permitindo o embarque para o desejado destino. Os mais modestos barqueiros olharam entristecidos para as suas embarcações quase completamente vazias. E, um deles, com muita cortesia e delicadeza, aceitou a pobre donzela como passageira sem lhe exigir qualquer encargo pela passagem.
Já os barcos se encontravam em plena viagem rumo aos seus destinos, quando se levantou ameaçadora uma tremenda tempestade. Nenhum dos juncos dos riso mercadores resistiu à fúria da tormenta e em breve se viram destroçados pelas ondas alterosas. No meio do temeroso vendaval, em plena noite, todas as esperanças de salvamento se consideravam perdidas. Então a donzela, no seu pobre veleiro, dirigiu-se ao leme e tomou conta dele com tal segurança que o conduziu a um porto de abrigo.

Postal Templo A MA 1910Templo de A Má (cerca de 1910) (2)

 Mal o junco aportou são e salvo, ainda com a tripulação sob a influência da tempestade, eis que a jovem passageira desapareceu. Depois, ninguém mais a viu. Só então os ocupantes da embarcação caíram em si e acreditaram que tinham estado sob a protecção de Neang-Ma, uma das manifestações de Tien-Hau (4), a Rainha do Céu.
O acontecimento divulgou-se, ao perto e ao longe, e não tardou que as contribuições acorressem de muitas partes para erecção, em Macau, dum templo condigno em honra daquela divindade.
Tudo isto convence qualquer incrédulo sobre a autenticidade da história da deusa A-Ma, nome este com que os pescadores de Macau invocam a sua desvelada protectora.
Quando os portugueses aqui chegaram viram este pequeno templo e souberam então que o ancoradouro era conhecido como porto da deusa A-Ma.” (4)
Nos primitivos documentos portugueses o nome do lugar aparece, todavia, com a designação de «A Cidade do Nome de Deus de Amacao»….(5)

(1) Fujian (福建), romanizado como Fukien or Foukien: provincia da costa sudeste da China, a norte de Guangdong.
http://en.wikipedia.org/wiki/Fujian
(2) Da revista “Serões”, 1910
(3) Tin Hau, (天后 – mandarin pinyin: tian hòu; cantonense jyutping: tin1 hau6 rainha celeste,  um dos nomes da deusa Matsu 媽祖 – mandarin pinyin: ma jie ; cantonense jyutping: maa1 zou2 – deusa mãe),  deusa chinesa do mar, protectora dos pescadores e marinheiros. Diz a lenda, que terá nascido no ano de 960, em Meizhou (湄州) na provincia de Fujian, pertencente da família Lin (). De nome Lin Moniang (林默娘), terá falecido em 4 de Outubro de 987. A lenda terá começado na dinastia Song especialmente nas zonas de Zhejiang, Fujian, Guangdong, Hainan, e Taiwan, e depois espalhado por toda a Sudeste Asiático.
http://en.wikipedia.org/wiki/Mazu_(goddess)
(4) Macau tem três pagodes dedicados a “Tin Hau”: o templo de “Á-Má” – 媽閣廟 (cantonense jyutping: Maa1 Gok3 Miu6)- toponímia donde terá derivado o nome de Macau), o templo de “Tin Hau” em Coloane e outro na ilha da Taipa.
http://en.wikipedia.org/wiki/Mazu_(goddess)
(5) Adaptação da Revista «Mensagem” in SIMÕES, Antero – Nós… Somos Todos Nós (Antologia “Portugalidade”), I Tomo. 2.ª Edição. Edição dos Serviços de Publicações da M. P. da Divisão de Angola, 1969, 418 p.