Num barco de pedra,
em frente ao quartel,
gravou um romance
o cabo Manuel.

São só duas letras
– duas iniciais –
e a data incompleta
– cinco numerais

Teve talvez carta,
sem termos humanos
naquele 1 de Abril,
dia dos enganos.

E saiu-lhe o fado,
cantado em segredo,
de preso que cumpre
pena de degredo.

Se a sua rubrica
é, ao ler-se, MÁ,
aí o seu fadário
como findará?!

A sua carreira
em cabo parou,
porque a inscrição
nem a terminou.

E a última estrela
caiu-lhe no pó:
Perdeu-se, naquela
Ponta de Ka-Hó.

Benjamim Videira Pires
Coloane, 31 de Agosto de 1976

PIRES, Benjamim Videira – Espelho do Mar. Instituto Cultural de Macau,  1986.

Anteriores referências ao Padre Videira Pires em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/padre-benjamim-videira-pires/