Recebi, há pouco, a sumptuosa “cabaia”, e foi hoje revestido com ela, risonho e grave, que provei o chá da Terra das Flores. Com certeza  me trouxeste da  China um presente esplêndido! Mas  tenho medo, amigo, de não ser competente  para dignamente usar essa nobre vestimenta de Mandarim erudito! Oh Bernardo (1), onde tenho eu as qualidades precisas para me poder encafuar com coerência dentro daquelas sedas literárias?”
Onde tenho eu o austero escrúpulo gramatical, a dogmática pureza de forma, a sólida gravidade dos conceitos, o religioso respeito da tradição, a serena e amável moral, o optimismo clássico de um bom letrado chinês, membro fecundo da Academia Imperial?. Onde tenho eu sobretudo a pança para encher aquelas pregas amplas e mandarinais?. Eu não tenho pança! Nem a mão fina, de unhas ilimitadas, para sair com graça daquelas mangas abundantes e cheias de austeridade. nada tenho para a “cabaia” magnífica! Não podendo, portanto usá-la sobre as costas magras, vou dependurá-las na minha sala…” (2)
Eça de Queirós agradecendo ao seu amigo, Conde de Arnoso, a vestimenta que este lhe trouxe do Extremo Oriente.

NOTA: A cabaia pode ser apreciada em Tormes, na Quinta da Vila Nova, no Douro, uma das residências de Eça e onde ele situou a acção de “A Cidade e as Serras”

Fotografado por Frazão, visconde de Alcaide, quando era consul em Paris e residia em Neuilly.
(1) Bernardo Correia de Melo, primeiro Conde de Arnoso, membro do grupo dos Vencidos da Vida, esteve em Beijing entre Outubro e Dezembro de 1887, acompanhando o embaixador Tomás de Sousa Rosa. As impressões da viagem, editou-as em 1885, nas Jornadas pelo Mundo
(2) QUEIRÓS, Eça de – Correspondência, volume I