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Saiu recentemente o livro:

Curandeiras Chinesas CAPAAs Curandeiras Chinesas. Um motim que abalou a I República” (1), romance de ficção histórica de Joaquim Fernandes (2), passada em Novembro de 1911, quando duas chinesas chegam a Lisboa e começam a recuperar a visão dos cegos mais pobres que as consultam. Quando as entidades oficiais intervieram, surgiu um motim popular, com destruição de lojas (entre elas, uma sucursal do jornal «O Século» no Rossio), intervenção da cavalaria da Guarda Republicana que no Rossio entre feridos e presos se deu uma das mais graves “colisões” entre a Guarda e o povo. Houve depois, manifestações dos cegos à frente do Ministério do Interior, intervenção política, e pareceres médicos.

Curandeiras Chinesas CAPA+CONTRACAPASaliento do prefácio «Um bom romance histórico» (p. 7) de Miguel Real que sublinha: Como romance histórico, obedece às categorias clássicas deste género literário: fidelidade e exactidão na descrição dos acontecimentos relatados, narração verosímil tendo em conta os documentos consultados e uma poderosa imaginação para cruzar e unificar o diversíssimo leque de acontecimentos sociais, criação de fortes personagens agregadoras, amplificadoras e sintetizadoras doas acontecimentos, integrados e estruturados estes na unidade de espaço e de tempo.

E perguntarão – Que relação tem este romance com Macau?
Uma menção, um parágrafo na página 254:
Capricho do caso, nesse mesmo dia, encontrei Azevedo Gomes, (3) ex-ministro da Marinha, um açoriano do Pico, que me disse conhecer o truc que acabara de ser anunciado no Brasil.
– Eu preveni as autoridades … mas não fizeram caso do meu aviso! – queixou-se. E tratou de explicar quanto se recordava dos procedementos das curandeiras. – Quando estive em Macau e nos portos do sul da China tive conhecimento desse truc que, seja dito em abono da verdade requer uma grande habilidade e destreza

Quanto ao “truque” mencionado, quem quiser saber que leia o romance. Leitura que vale a pena e recomendo.

Dois dos periódicos da época relataram (com fotos), este episódio do quotidiano lisboeta. A “A Illustração Portugueza” de 1911, com o título “ As Chinezas Milagrosas”:
Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - I

Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - II

Curandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - IIICurandeiras Chinesas Iluistração Portugueza 1911 - IV

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro periódico “Revista Brasil-Portugal”, Dezembro de 1911 apresentou uma reportagem de 3 páginas (também com fotos) com o título “O Caso das Chinezas”.

Curandeiras Chinesas Brasil-Portugal ICurandeiras Chinesas Brasil-Portugal IICurandeiras Chinesas Brasil-Portugal III

(1) FERNANDES, Joaquim – As Curandeiras Chinesas. 2.ª edição. Publicações Gradiva, 264 p.ISBN: 978-989-616-593-2
(2) Licenciado em História, mestre em História Moderna e doutorado na área da História das Ciências. Professor da Universidade Fernando Pessoa, Porto
Curandeiras Chinesas AMARO J. GOMES(3) Amaro Justiniano de Azevedo Gomes (1852-1928) assentou praça na Armada em 1873, iniciou a carreira como guarda-marinha em 1875 chegando a capitão-de-mar-e-guerra em 1908. Entre vários cargos nas colónias ultramarinas, esteve em Macau onde regeu a Escola de Pilotagem. Casou em Macau no dia 9 de Agosto de 1882 com Lília Carlota Gonzaga de Melo, filha de António Alexandrino de Melo, 2.º barão de Cercal. Político republicano, fez parte do Governo Provisório da República Portuguesa (logo após a implantação da República) no cargo de Ministro da Marinha e do Ultramar (7 de Outubro de 1910 a 3 de Setembro de 1911).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Amaro_de_Azevedo_Gomes

Cortsários e Piratas Capa

O livro (1) aborda as actividades dos corsários e piratas portugueses na época dos descobrimentos em mares asiáticos (2). Sendo o texto uma adaptação da tese de Mestrado de investigação em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa que a autora apresentou em 1998 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa é, no entanto, de leitura agradável, acessível e interessante. 

Cortsários e Piratas contracapaSinopse (na contra-capa):  Sebastião Gonçalves Tibau, nascido em Santo António do Tojal, embarcado para a Índia na qualidade de soldado em 1605, desertou do serviço da Coroa tornando-se líder de uma república pirata. Sob o seu comando mais de 3 mil homens, uma imponente armada e numerosas peças de artilharia espalharam a violência e o terror nos mares de Bengala. Navios com velas desfraldadas sulcando as ondas do mar prontos para o combate, abordagens e assaltos violentos, vidas e acções entrecortadas por combates de artilharia e duelos de esgrima travados corpo a corpo, tudo em prol da disputa das fantásticas riquezas que nos séculos XV-XVI circulavam por aquelas paragens. É este o cenário de Corsários e Piratas Portugueses que nos traz a história de homens como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e de outras figuras, descobridores de novas terras, conquistadores de praças ao serviço da Coroa cuja actividade corsária, ao serviço de El-Rei, é praticamente desconhecida. “

Em relação com Macau, há quatro entradas mas somente duas delas abordam (muito sumariamente) episódios da história de Macau:
1 – A perda da nau Santa Catarina que partira do porto de Macau com destino a Goa. Era um navio de 1400 toneladas (1 500 toneladas segundo Luís Gonzaga Gomes e Beatriz Basto da Silva) (3) e (4) com carregamento de açúcar, algodão, sedas e porcelanas e levava 600 pessoas. No dia 25 de Fevereiro de 1603 foram atacados pelo almirante holandês Jacob Heemskerck no estreito de Johore tendo morrido 70 homens e tendo o capitão do navio Sebastião Serrão, rendido para não haver mais mortesentre os passageiros. (3) Recordar que nesse ano e nos anos seguintes, os holandeses tentaram tomar Macau. (4) Nesse ano, em 30 de Julho, entraram no porto duas naus e um patacho holandeses que tomaram a nau do Capitão -Mor Gonçalo Rodrigues de Sousa, cuja tripulação se encontravam terra a fazer os preparativos para seguir para o Japão (3)
2 – A acção de Leonel de Sousa, entre 1552 e 1554 (ano em que consegue reatar a confiança das autoridades chinesas de Cantão com o primeiro acordo verbal, e o pagamento de direitos comerciais que legalizaram o comércio livre na zona que viria a ser Macau  (4).

Nota da autora: A figura representada na capa é a de Bartolomeu Português, que fez carreira como salteador no mar das Caraíbas durante e a década de 1660. Na ausência de iconografia específca sobre o corso e a pirataria levados a cabo por portugueses nos mares da Ásia, a apresentação da referida imagem presta-se apenas à evocação simbólica de um determinado tipo social e da actividade que lhe era conexa.
(1)   PELÚCIA, Alexandra – Corsários e Piratas Portugueses Aventureiros nos Mares da Ásia. A Esfera dos Livro, 2010, 213 p + 8 páginas a cores, 16 cm x 23,5 cm. ISBN 978-989-626-239-6.
Informações sobre a autora em:
http://www.segredodoslivros.com/sugestoes-de-leitura/corsarios-e-piratas-portugueses.html
(2) Corsários e piratas são no fundo todos piratas. Chamam-se corsários àqueles que se dedicavam ao roubo de cargas de embarcações, com autorização – carta do corso – e financiados por governos que queriam prejudicar economicamente as nações inimigas – guerra do corso. O período em que a acção destes corsários foi mais efetiva, ocorreu entre os séculos XV e XVIII. A prática do corso foi extinta no século XIX, com o tratado de Paris (1856). Os corsos eram usados como um meio fácil e barato para enfraquecer o inimigo por perturbar as suas rotas marítimas. Com os corsos, os países podiam enfraquecer os seus inimigos sem suportar os custos relacionados com a manutenção e construção naval.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cors%C3%A1rio
Não esquecer que o corso foi uma actividade muito lucrativa e difundida em Portugal no século XV.
(3) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Séculos XVI-XVII, Volume 1. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 198 p. (ISBN 972-8091-08-7)

” Aprendiz de carpinteiro, Zhou Difan: «Aí, nas margens de um dos afluentes do rio Changjiang, (1) frequentes, nesse tempo, inundações e pragas de insectos, pelo que, no inverno, os homens pediam esmola a cantar pelas portas enquanto as mulheres se prostituiam:

A primeira sombra que eu vi

Fui a de um velho enforcado

Nesse mesmo dia

vendia-se o martelo, a plaina, o formão do enforcado

………………………………………………………………

Depois o patrão desatou a ralhar-me:

A corda do maldito? Que é da corda?

Devia estraçalhá-la e queimá-la sem demora.

Caso contrário, muito provável o fantasma do velho visitava a oficina em busca de um «substituto». Atava as mãos na cabeça, o patrão. Que ia ser do seu negócio, se tal acontecesse? Outro dos operários pendurado das traves do tecto, olhos esbugalhados, língua até ao peito, e ele completamente arruinado: boatos a correr, os clientes a desistirem das encomendas, a afastarem-se da casa assombrada.

Entretanto,

A destruir a cama, a tigela, a corda
do enforcado,

Eu dentro de mim a implorar-lhe:

Por favor, não persigas os companheiros!

Nunca te fizeram mal,

São os teus amigos, enterraram-te

A tremer, a rezar, o moço de carpinteiro:

Não procures aqui substitutos…

São afinal tão miseráveis como tu

Artigo de Maria Ondina Braga (2) sobre uma poesia de Zou Difan, publicada no início da sua carreira como poeta, em 1937.
鄒狄帆  Zou Difan, natural de Hubei, Tianmen (1917-1995) publicou em 1940  «Muchang“The Carpenter´s Shop”, 1.ª edição em Shanghai: Wenhua shenghuo chubanshe, 160 p.»
Na net existe inúmeros artigos sobre este poeta, no entanto uma análise a este livro, poderá ler-se em:
http://books.google.pt/books?id=-KzbQM2sAjoC&pg=PA293&lpg=PA293&dq=Zou+Difan+poet&source=bl&ots=vfkhowohZf&sig=
Zou Difan refugiou-se em Hong Kong após a 2.ª Guerra Mundial (1948) devido à perseguição do governo nacionalista porque em 1938 tinha alistado no Exército Vermelho e regressou à China após a República Popular.
(1) Chang Jiang ()  ou  Rio Yangtze
(2) BRAGA, Maria Ondina – Espíritos in NAM VAN, n.º 4, 1984,p. 11

Recebi, há pouco, a sumptuosa “cabaia”, e foi hoje revestido com ela, risonho e grave, que provei o chá da Terra das Flores. Com certeza  me trouxeste da  China um presente esplêndido! Mas  tenho medo, amigo, de não ser competente  para dignamente usar essa nobre vestimenta de Mandarim erudito! Oh Bernardo (1), onde tenho eu as qualidades precisas para me poder encafuar com coerência dentro daquelas sedas literárias?”
Onde tenho eu o austero escrúpulo gramatical, a dogmática pureza de forma, a sólida gravidade dos conceitos, o religioso respeito da tradição, a serena e amável moral, o optimismo clássico de um bom letrado chinês, membro fecundo da Academia Imperial?. Onde tenho eu sobretudo a pança para encher aquelas pregas amplas e mandarinais?. Eu não tenho pança! Nem a mão fina, de unhas ilimitadas, para sair com graça daquelas mangas abundantes e cheias de austeridade. nada tenho para a “cabaia” magnífica! Não podendo, portanto usá-la sobre as costas magras, vou dependurá-las na minha sala…” (2)
Eça de Queirós agradecendo ao seu amigo, Conde de Arnoso, a vestimenta que este lhe trouxe do Extremo Oriente.

NOTA: A cabaia pode ser apreciada em Tormes, na Quinta da Vila Nova, no Douro, uma das residências de Eça e onde ele situou a acção de “A Cidade e as Serras”

Fotografado por Frazão, visconde de Alcaide, quando era consul em Paris e residia em Neuilly.
(1) Bernardo Correia de Melo, primeiro Conde de Arnoso, membro do grupo dos Vencidos da Vida, esteve em Beijing entre Outubro e Dezembro de 1887, acompanhando o embaixador Tomás de Sousa Rosa. As impressões da viagem, editou-as em 1885, nas Jornadas pelo Mundo
(2) QUEIRÓS, Eça de – Correspondência, volume I

QUEIRÓZ, Eça de – O Mandarim. Livraria Lello & Irmão – Editores (proprietários da Livraria Chardon), sem data, 156 p. , 19,7 cm x 13 cm (1)
Ficção de Eça de Queirós, que no “O Mandarim” resolve um problema de escrúpulos de um português tentado pelo demónio com a invocação da irrelevância estatística da morte de um obscuro mandarim. Longe dos olhos, longe do coração !
Embora seja das obras “menos conhecidas” de Eça de Queirós (conhecendo o enredo duma novela feita pela televisão, de que não gostei) (2), comprei num mercado de rua esta obra e ao lê-lo, fiquei surpreendido com a leitura: personagens “cómicas”, tom satírico, crítica social e um final moralista:

Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim” (p. 156).

Esta edição (1), tem um prefácio de Eça de Queiroz, em francês  “A propos du mandarim – lettre qui aurait du être une préface“, carta escrita ao “Monsieur le rédacteur de la REVUE UNIVERSELLE, datada “Lisbonne, 2 août 1884“. Esta carta serviu posteriormente de prefácio à publicação francesa da novela. Nessa carta, é o próprio Eça que refere ” …obra bem modesta e que se afasta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura, que se tornou, nestes últimos anos, analista e experimental“. Esta novela fantasista/fantástica (3), foi na época acusado de “afastar-se da estética realista em favor da pura fantasia” (4)

Eça de Queirós (1845-1900) (5) (nesta foto com uma cabaia de mandarim – dragão, que foi oferecida pelo Conde de Arnoso), um dos mais importantes escritores portugueses, conhecido mais pelos romances O Primo Basílio,  A Relíquia, Os Maias., A Ilustre Casa de Ramires, O Mistério da Estrada de Sintra, O Crime do Padre Amaro, escreveu O Mandarim em 1880 (na última página do livro tem a indicação “Angers – Junho de 1880“)  (na altura Eça de Queirós era cônsul em Bristol).
Foi publicada inicialmente em folhetim, no “Diário de Portugal”, entre 7 e 18 de Julho de 1880, depois publicado em livro no mesmo ano. (6)

O Mandarim – Resumo (7)
“O narrador desta novela é Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino. Mora em Lisboa, na pensão de D. Augusta, na Travessa da Conceição. Leva uma vida monótona e medíocre de um pobre funcionário público que suspira por uma ventura amorosa, por um bom jantar, num bom hotel, mas que tem pouco dinheiro.
Teodoro não acredita no Diabo nem em Deus, mas é supersticioso e reza a N. Sr.ª das Dores.
Um dia descobre, numa Feira da Ladra, um livro com a lenda do Mandarim, segundo a qual um simples toque de campainha, a uma certa hora, mataria o Mandarim e faria dele herdeiro dos seus milhões. O Diabo aconselha-o a tocar a campainha. Tocará a campainha e será rico.
Começa então, uma vida de luxúria e dissipação. As mulheres são o seu fraco, logo é traído por Cândida, que o troca por um Alferes. Logo se aborrece permanecendo em si o sentimento de culpa do Mandarim que assassinara.
Viaja pela Europa e Oriente. Depois, decide partir para a China, pensando em compensar a deserdada família do falecido Mandarim. Tudo corre mal. Tenta em vão fugir dos remorsos.
Regressado a Lisboa tem visões com o Mandarim. Acaba por pedir ao Diabo que ressuscite o Mandarim e o livre da fortuna. Teodoro, deixa a sua fortuna ao Diabo, em testamento. Volta à sua vida de aborrecimento e saciedade, considerando finalmente, que “só sabe bem o pão que dia-a-dia ganham as nossas mãos”.

Resumindo, recomendo a leitura da  novela (para quem a não conheça)

Publicações com o mesmo título, até 1946, referenciadas na bases de dados PORBASE (8) e em (9):
O mandarim – Porto: Chardon, 1900, 183 p + 2, 19 cm.
O mandarim – Porto: Chardon, 1907, 5.ª ed.com pref. do autor, 183 p. + 1 il., 19 cm
O mandarim – Porto: Chardon de Lello & Irmão, 1916, 6.ª ed com pref do autor, 175 p.: il; 19 cm.
O mandarim / Eça de Queiroz ; il. Rachel Roque Gameiro. – Porto: Livraria Chardron, de Lello & Irmão, 1927 – 123 p.: il. ; 22 cm
A cidade e as serras/O mandarim – Porto: Lello & Irmão, 1946, 1 V.; 25
(1) NOTA: O livro possivelmente é de 1945 e embora não conste a edição, informação recolhida da Infopédia, sabe-se que a partir da quinta edição, de 1907, o texto “faz-se acompanhar do prefácio que Eça de Queirós projectara, ” A propos du Mandarim”, texto que reveste de importância pelo seu carácter doutrinário, onde Eça aponta o idealismo como « a tendência mais natural, mais espontânea do espírito português»
http://www.infopedia.pt/$o-mandarim
(2) O Mandarim, série TV, 1990, prod. Radiotelevisão Portuguesa (RTP), com Vitor Norte, Pedro Barão, Virgílio Castelo, Antónia Assunção, Fernando Luís, Natalina José.
(3) Embora descreva a viagem à China, da leitura da vida do escritor, não consta que tenha estado na China
(4) http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_mandarim
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/E%C3%A7a_de_Queir%C3%B3
(6) http://www.infopedia.pt/$o-mandarim
(7) http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/eca_queiroz/mandarim.html
(8) http://porbase.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=13V08352347JP.14990&profile=porbase&source=~!bnp&view=subscriptionsummary&uri=full=3100024~!514084~!19&ri=1&aspect=subtab11&menu=search&ipp=20&spp=20&staffonly=&term=O+MANDARIM&index=.GW&uindex=&aspect=subtab11&menu=search&ri=1#focus
(9) http://memoriaafrica.ua.pt/searchRecords/tabid/166/language/ptPT/Default.aspx?q=AU%20queiroz,%20eca%20de

Ofereceram-me e estou a lê-lo (1), uma história por dia (às vezes, duas ou três!) seguindo a indicação do autor na “Introdução”:
“A ideia é que o leitor tome uma delas por dia, como remédio para a alegria de viver. mas ao contrário do que se passa com os medicamentos que se vendem nas farmácias, estes permitem que se esforce a dose à vontade sem que daí advenha qualquer dano físico ou moral. pelo contrário”
Até agora (vou na SEMANA 4) encontro três histórias com ligação a Macau. A primeira nos “Factos & Episódios” sobre “O Governador decapitado” (João Ferreira do Amaral que abordarei em futuro(s) post ); a segunda ” O dragão e a formiga“, sobre os acontecimentos de “1,2 e 3” e o terceiro, a mais interessante (e mais desconhecida dos macaenses) de “Amores, Traições & Infidelidades”  intitulada ” A judia polaca de Paiva Araújo“.
“Era um dia triste do inverno de 1872, ali na margem do Sena…(…) … vindo a deparar com o amigo estendido na cama e de rosto desfeito por um tiro disparado á queima-roupa. Tinha-se suicidado. Os outros compreenderam. A «culpada» era la Paiva.”
Quem era Albino Francisco de Paiva Araújo ? (2)
Nascera em Macau, 48 anos antes, filho de um negociante rico e de uma bela mestiça chamada Mariana que, ao enviuvar, decidira estabelecer-se no Porto, onde ficou conhecida por A Macaense”
Camilo Castelo Branco que conheceu Albino Paiva Araújo, sobre ele refere:(3)
Paiva Araújo nascera em Macau e era filho único de um negociante rico, ali falecido por 1842. Quando o pai morreu, Paiva Araújo estava em Paris num colégio. A viúva veio para a Europa, e para residir escolheu o Porto, onde não conhecia alguém. Mandou edificar uma casa perto da alameda da Aguardente, mobilou-a com muito gosto e selecta riqueza de baixelas de ouro e prata, jarrões japoneses e porcelanas antigas. Fechou-se com o seu misterioso luxo de fada, sozinha, quasi desconhecida de nome e de pessoa. Chamavam-lhe a Macaense. O seu nome era D. Mariana de Paiva Araújo. Sabia-se apenas que era viúva, muito rica e tinha um filho a educar em França. A casa arquitectada pelo risco burguês, trivial no Porto, era de azulejos amarelos com muitas janelinhas de estores brancos, sempre descidos. Tem um jardim com vasto portal gradeado para a rua, tufado de bosquetes de arvores exóticas e miniaturas de montanhas que punham na alma saudades das florestas do Bussaco e Senhor do Monte. Paiva Araújo não frequentou curso algum nem adquiriu noções vulgares em algum ramo de ciência. Aos dezoito anos veio para a companhia da mãe. Sobejava-lhe riqueza á mãe extremosa que dispensasse o seu filho único dos fastios de uma formatura inútil.
Por 1845 apareceu Paiva Araújo no Porto curveteando garbosamente o seu cavalo árabe por aquelas sonoras calçadas. Era um galhardo rapaz trigueiro, alto, com um buço preto encaracolado nas guias, elegante, sem as farfalhices coloridas da toilette dos casquilhos seus coevos. Tinha poucas relações, e dava-se intimamente com Ricardo Browne, o arbitro da moda…
O Porto e a vida reclusa de sua mãe deviam ser intoleráveis a Paiva Araújo. Browne saiu para Paris, e ele para Lisboa, onde se notabilizou facilmente pelas prodigalidades das suas despesas. Bulhão Pato, em um dos seus escritos entristecidos pela saudade daquele tempo, fala do cavalheiro Paiva Araújo. Dava jantares aos rapazes da alta linha, a colmeia do Marrare do Chiado, parte dos quais ainda vive mais ou menos pintada ; e, feito o ultimo brinde, quebrava a louça do toast, voltando a mesa como quem ergue a tampa de um baú. Pagava generosamente o prejuízo. O seu vinho, além de reduzir os cristais a cacos, não tinha mais funestas consequências. Assim que perfez a idade legal, pediu o seu património paterno á mãe, e foi viajar. Recebeu letras no valor de cento e tantos contos.
Conheceu então em Baden-Baden a deslumbrante mulher que chegara da exploração dos lords com um pecúlio que lhe permitiu construir um palácio. Casou.”..(…)…
“Paiva Araújo, casado, visitou Lisboa e a mãe, com a esposa. A polaca no Porto, no topo da fétida rua do Bonjardim, com a nostalgia de Paris! . . Certas mulheres que viveram em Paris, nas máximas condições de horizontalidade, só lá podem viver.
Dois anos decorridos, Paiva Araújo abandonara a viúva do alfaiate, mais ou menos espontaneamente, a um dos cinco mil príncipes russos que dão mobília nova aos bordeis parisienses, e regressou a Portugal com bastantes malas inglesas, uma dúzia de floretes, outras tantas caraças e manchetes, a fora algumas dividas. A mãe pagou-lhe as letras, e perdoou-lhe o casamento e a dissipação do património. Durante quatro ou cinco anos, Paiva viveu muito recolhido no Porto, mas frequentando pouco a convivência da mãe. Habitava uma casinha de duas janelas, situada na extremidade do jardim. Saía de noite, recolhia de madrugada, e passava o dia a comer e a dormir. Um escudeiro levava-lhe em tabuleiro coberto o almoço e o jantar da cozinha da mãe, que ele raras vezes procurava. Era-lhe odiosa, porque lhe não dava dinheiro para sair de Portugal, e apenas lhe enviava mensalmente o necessário para dignamente se tratar na sociedade pacata, frugal e económica do Porto.
Em 1855 e 56 encontrei-o muitas tardes nos pinhais e carvalheiras da Prelada e de Lordelo, passeando com uma francesa de muita vista, escultural, com a trança dos cabelos louros desatada sob as amplas abas d’um chapéu de palha azul ondulante de fitas escarlates. Se eu procurasse o nome dela na sepultura para lho dizer, não o acharia, porque a francesa, d’um espirito raro, morreu na obscuridade da pobreza, e d’uma velhice que redime e pede perdão para os delitos da juventude.
D’essa época lembram-me dois episódios de Paiva Araújo. A Macaense dera azo a que se soubesse cá fora que o filho a quisera matar com veneno, para empolgar a herança. O «Jornal do Porto» dera a noticia com discreta prudência; mas Paiva foi insultar com ameaças de azorrague o honrado proprietário daquele jornal, que desviou de si a responsabilidade da noticia, aliás verdadeira. O outro caso, mais cómico pelas consequências, foi um duelo á espada, por motivos melindrosamente caseiros, com um fidalgo portuense chamado D. António Peixoto Pinto Coelho Pereira da Silva Padilha de Souza e Haucourt, simplesmente. Se bem me recordo, Paiva Araújo desarmou, com pouca efusão de sangue, o contendor. D. António, alucinado com o êxito do duelo, atirou se da ponte Pênsil sobre . . um barco rabelo de batatas que vinha mansamente descendo o Douro. E saiu sem contusão d’entre as batatas que, de certo, não eram tão macias e flácidas como os almadraques de um califa de Córdova…
E quem era la Paiva?
Para quem estiver interessado, além da leitura da história,  pp. 449-451 do livro (1), sugiro  a leitura “esboço incompleto da extraordinária história de La Paiva (1819-1884)”, na “biografia” mais completa de  (Esther) Thérèse Pauline Blanche Lachmann no Blog “Do Porto e não só …” (4) e  “Los Diamantes de La Paiva” (5).
E continua Camilo (3)
“Em 1860 encontrei Paiva Araújo em Braga, seccionando francês no colégio da Madre de Deus, no palácio dos Falcões, onde uma família estrangeira tentava inutilmente a fortuna. O marido de Branca Lachmann, n’esse ano, trajava menos que modestamente. O seu casaco e chapéu, em tais condições, não lhos aceitaria um dos seus antigos criados. Dobaram-se alguns anos em que nada averiguei ; até que, em 1873, li nos jornais portugueses que Paiva Araújo se suicidara em Paris. Conversando a tal respeito com António Augusto Teixeira de Vasconcellos, em Lisboa, por 1874, me disse o famoso escritor, que o conhecera muito em Paris, e tinha exactas informações da sua morte. O marido indigente de madame de Paiva procurou congraçar-se com a sua marquesa, que vivia opulentamente no seu palácio de Pont-Chartrin o das 365 janelas, decorado por Paul Baudry, ligada ao conde Henckel de Donnesmark. Ela repeliu-o. Paiva manteve-se algum tempo de empréstimos, e pequenos donativos talvez da mãe com que ia disfarçando a sua pobreza aos olhos de outros a quem tencionava recorrer. Um dia, era grande apuro, escreveu pedindo 2.000 francos a um rico e antigo conviva dos seus desperdícios, e, juntamente com a carta, meteu na algibeira do frac coçado, um revolver. A carta foi, posta interna, ao seu destino, e a resposta, no dia imediato, foi entregue ao porteiro do hotel. Quando voltou a casa e leu a resposta negativa, ainda subiu alguns degraus, e, no primeiro patamar, caiu moribundo com um tiro no peito. Se bem me lembro, foi o ministro português quem pagou o carro que conduziu o cadáver ao Père La Chaise.”
NOTA:A cidade do Porto foi a primeira cidade portuguesa a ter os carros americanos. Em 1858, Albino Francisco de Paiva Araújo, solicitou ao Governo “concessão para estabelecer um caminho de ferro dos denominados americanos” entre esta cidade nortenha e a Foz, não consegue a autorização da «embora esta tenha sido obtida pelo Barão da Trovisqueira em 1870.” (6)
1) MARTINS, Luís Almeida – 365 dias com histórias da História de Portugal. A Esfera do Livro, 3.ª edição, 2011, 694 p., ISBN  978-989-626-337-9
(2) http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=632687
Albino Francisco Araújo de Paiva
Macau 18.05.1824 + Ile de France, Paris 08.11.1872
Pai:  Albino José Gonçalves de Araújo 1797
Mãe:  Mariana Vicência de Paiva  22.07.1802
Casamento Ile de France, Paris 05.06.1851
Thérèse Pauline Blanche Lachmann  07.05.1819
Não houve descendência deste casamento
A Macaense” Mariana Vicência de Paiva nasceu em Macau 22.07.1802 (7)
Pai: Francisco José de Paiva c. 1758
Mãe: Inácia Vicência Marques,
Casamento: Macau, S. Lourenço 08-01-1823 com Albino José Gonçalves de Araújo,  1797
(3) BRANCO, Camilo Castelo – Madame de Paiva, pp. 535-541 in SANTOS, Carlos Pinto; NEVES, Orlando – De Longe à China, TOMO II. Instituto Cultural de Macau, 1988, 781 p.
(4)  http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/esboco-incompleto-da-extraordinaria.html
(5)  http://retratosdelahistoria.lacoctelera.net/post/2009/11/02/los-diamantes-la-paiva
(6) MARTINS, Fernando Pinheiro – O carro eléctrico na cidade do Porto. Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, 2007.
     http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/12819/2/Texto%20integral.pdf
(7) http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=632716

Romance de  Xiaolu Guo, escritora chinesa da chamada nova geração (nasceu em 1973).
“Uma história chocante de abuso, silêncio e vergonha e, contudo, de uma beleza inaudita”


Retiro do romance um pequeno trecho duma superstição que também vigora em Macau entre os pescadores e não só…
Naquele primeiro dia, na presença dos seus recentemente adquiridos sogros e marido mais velho dez anos, a minha avó olhou para as espinhas do peixe e decidiu que seria boa ideia virar o peixe ao contrário com os pauzinhos. assim que ela virou o peixe, o sogro, que fora capitão de um barco de pesca toda a vida, ficou extremamente agitado, tal como a sua mulher. O meu avô, que andara no mar pouco tempo, mas que tivera várias experiências desagradáveis, ainda ficou mais furioso porque a sabedoria convencional dos pescadores da aldeia dizia que um peixe não podia, nunca, ser virado ao contrário à mesa, ou os seus barcos virar-se-iam em alto mar…” (1) (pp. 50-51).
Da consequência desse acto, sugiro que leiam o livro…

(1) XIAOLU Guo – Aldeia de Pedra. Quetzal Editores, Lisboa, 2004, 229 p. (ISBN 972-564-600-2)