“Como Macau se encontra na extremidade sul do distrito de Héong-Sán, (hoje Tchông-Sán), (1) e como já existisse nesses recuados tempos uma estrada que ligava com o interior, o que vinha facilitar enormemente o escambo de mercadorias, os portugueses não hesitaram em solicitar a autorização das autoridades chinesas para se estabelecerem nesta península a fim de aproveitar para mercaria e centro de distribuição, mediante uma renda anual de 500 taéis, cobrada pelas autoridades desse distrito.

Os chineses das aldeias limítrofes, atraídos pela veniaga que poderiam realizar com estes estrangeiros que lhes traziam mercadorias absolutamente inéditas para o seu mercado, principiaram a afluir em massa para este estabelecimento que, por este motivo, rapidamente começou a prosperar e a desenvolver-se.

Entretanto, principiaram a aparecer por estas paragens, os piratas que infestavam toda a região do sul da China e que, devido à impotência dos mandarins que nada podiam contra eles, foram singrando pelo rio das Pérolas abaixo, nos seus velozes juncos, cometendo toda a espécie de atrocidades e pilhagens entre a população potamita e a das cidades e vilas das duas margens.

Um dos chefes do bando mais poderoso ostentava orgulhoso na sua flâmula de guerra o pomposo nome de Fêi-Lôu-Fu ( (O Tigre Voador) (2), sendo os que operavam sob a suas ordens tidos pelos mais aguerridos e mais cruéis corsários de quantos nesses tempos infestavam os mares da China. Tão terrível era a sua fama que bastava o seu nome para fazer tremer os poderosos mandarins. Assim, mal descia o sol, já ninguém se atrevia a sair das suas casas e, quando as mães chinesas necessitavam de intimidar os seus filhos desobedientes, só a menção do seu execrando nome era suficiente para os conservar quedos.”… (3)

(1) 中山, Zhōngshān.

(2) 飛 老 (mandarim pinyin: fei lao hù; cantonense jyutping; fei1lou5 fu2)

(3) GOMES, Luís Gonzaga – Curiosidades de Macau Antiga. Instituto Cultural de Macau, 1996, 184 p. ISBN 972-35-0220-8