“Há uma boa centena de anos, vivia um velho jerarca, chamado T´ám-Uân, que se recolhera ao templo, afim de se dedicar a uma vida eretímica de inédia e contemplações  O asceta senil dedicava todo o seu tempo à leitura de sutras e à recolhida meditação dos filósofos e doutores do Budismo, sendo a sua única aspiração o poder subir um dia ao Nirvana por eutanásia.
Nesse tempo, os habitantes da cercana aldeia de Lông- T´in, sofriam cruelmente com as dificuldades, originadas pela falta da água potável.
Vendo que os homens não podiam viver neste mundo sem este precioso elemento e condoído com as aflições daquele povozito, o velho cenobiarca tratou de empregar toda a sua misteriosa ciência para que os seus fiéis pudessem ficar providos com o inestimável líquido.
E assim, recolheu-se um dia para o interior do templo e durante semanas entregou-se a um estado anagórico, aniquilando, com severo esforço, todas as suas vontades, não comendo, não bebendo e não falando.
Passado breve período daquela heróico exinanição , ouviu-se uma noite, um horrível estrondo no templo. As pessoas  pano que moravam nos arredores acorreram imediatamente, julgando ter desabado o telhado, mas nada encontraram. Foram então até ao parque e, depois de terem escabichado por todos os lados, julgaram ver através da obnubilação causada por um fugaz clarão, uma névoa que se ia enovelando e ascendendo dum escuso recanto. Aproximaram-se e verificaram  com enorme surpresa que uma grande porção de terreno tinha abatido, naquele sítio produzindo, dentro de funda cova, uma nascente.
Provaram os curiosos aquela cristalina água e verificaram que era dulcíssima. Próximo deste poço encontraram uma faixa de pano encarnado. Era ela a única relíquia que o cenobita T´am-Uân deixara neste mundo, pois o poço fora obra do seu estóico e milagroso sacrifício.
Daí em diante os camponeses de perto da aldeia de Lông T´in, passaram a servir-se da água deste poço que, mesmo nos períodos da maior estiagem nunca secava. Como reconhecimento por este milagre de T´am-Uân, todos os anos, no aniversário do seu desaparecimento, os aldeões não deixavam de celebrar a sua memória, dedicando-lhe pivetes, incensos, e velas votivas, rito que perdurou durante muito tempo, até que o poço foi entulhado ” (1) (2)

(1) GOMES. Luís Gonzaga – Curiosidades de Macau Antiga, Instituto Cultural de Macau, 1996, 184 p.
(2) Este poço estava no Colina de Mong Há e terá sido entulhado com a construção do fortim.