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«Pedras amontoadas sobre pedras, constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito, estendendo as raízes por entre os negros mamelões, soberbas árvores seculares; tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões , e o já de longe se destaca, na aridez quase uniforme da costa, como um grande ramalhete de verdura.
O jardim da Gruta de Camões é um do sítios mais aprazíveis do nosso pequenino domínio do Extremo-Oriente; ao prestígio  da sua velha lenda reúne o encanto natural da posição culminante, dos horizontes vastos, da vegetação que aqui encontra asilo, aconchegada com a s rochas contra a fúria inclemente dos tufões.
Dizem, não sei com que fundamentos históricos, que aqui, sobre estas trilhas sinuosas que circundam os penedos, passeou por longas horas a sua melancolia de boémio um pobre procurador dos defuntos e ausentes, ou coisa que o valha, que se chamou Camões.
Acrescentam até que, durante as calmas sufocantes do estio, fugindo sorrateiramente com fastios de mandrião ao desempenho rigorosos do seu empregozinho reles, ele procurava de preferência a sombra fresca de umas três pedras grandes, dispostas naturalmente em forma de gruta…(…)

Gruta de Camões 1880“A Gruta de Camões” cerca de 1880

Comemorando o facto, cá está hoje, à entrada da gruta, um bustozinho barato do poeta; pendem festões floridos, que a mão do jardineiro china muito intencionalmente entrelaça, como se estivesse arrebicando algum buda de pagode; e não faltam, sobre lages próximas, sonetos mal feitos, escritos em todas as línguas….(…)

Gruta de Camões 1898A Gruta de Camões em 1898

O que se impõe ao nosso espírito, é a grandeza desta mesma vegetação rude e espontânea, que espadana cheia de seiva zombando da tesoira dos serviçais; é a face limosa das pedras abruptas, chorando pelas fendas pequenas gotas de água, como lágrimas de saudade; é a solidão das áleas sombreadas, que o acesso pedregoso torna pouco apetecíveis aos passeantes; é o encanto dos panoramas»
Venceslau de Morais
A Gruta de Camões
Macau, Imprensa Nacional, 1940, pp. 9-12

NOTA: Tentei incorporar uma pequena cronologia da estadia de Wenceslau de Moraes em Macau mas face à incongruência das  datas de diversas fontes consultadas, deixarei para uma próxima oportunidade essa descrição.
Anteriores citações de Wenceslau de Moraes, no meu blogue:
LEITURA – ANTOLOGIA DO CONTO ULTRAMARINO (I)
MACAU E O DRAGÃO (II)
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/wenceslau-de-moraes/

Na sequência da LITERATURA ULTRAMARINA, OS PROSADORES, colectânea de contos organizado por Amândio César (1) lembrei-me doutra colectânea de contos (enxertos de contos) organizada pelo mesmo autor que foi publicado há muitos anos numa série de livros de bolso da RTP – Biblioteca Básica Verbo (2)

Intitulada Antologia do Conto Ultramarino (3), era o n.º 85 dessa colecção chamada Biblioteca Básica Verbo e continha contos de Cabo Verde (dois), Guiné (dois), S Tomé (dois) Angola (oito), Moçambique (sete), Estado Português da Índia (dois), Macau (dois) e Timor (dois).
De Macau os contos publicados foram:
O calvário de Lin Fong (Deolinda da Conceição)
História do pequeno Afat (Wenceslau de Moraes)
Na ” explicação em norma de posfácio”  (pp.279-280) o autor afirma:
“… Deu-se relevo, intencionalmente, ao natural da terra e só, de longe, ao radicado, e quando este fosse representativo ou a radicação significasse uma nova personalidade dentro do homem. Os exemplos de Fausto Duarte e de João Augusto Silva, de Reis Ventura e de Orlando de Albuquerque; de Castro Soromenho, de Campos Monteiro Filho e de Rodrigues Júnior; de Wenceslau de Moraes e de Ferreira da Costa, nesta integração é curioso notar-se que, na Guiné, os seus escritores angolanos tenham nascido em Moçambique; que dois pioneiros da novelística moçambicana sejam naturais da Metrópole e, no caso de Macau e de Timor, sejam ainda escritores metropolitanos que lançam mão do tema, por simpatia, experiência, tragédia e deslumbramento.”

Creio ter havido engano do autor (frase que realcei em negrito) quanto a um dos dois escritores seleccionados de Macau. Se Wenceslau de Moraes é da Metrópole, o outro conto é de Deolinda da Conceição, macaense,  nascida e falecida em Macau (1913  – 1957).
Na altura e depois da publicação do livro “Cheong-Sam – A Cabaia” onde contém o conto publicado, a autora  recebeu elogios de diversos escritores e críticos de Portugal e de Macau, entre eles de Amândio César que referiu no Diário Popular, Junho de 1970:
“Narrativas feitas de experiência, carregadas de sentimentos íntimos e de íntimas dores e alegrias
e  “Uma obra curta, pelo curto viver da escritora, mas uma obra definitiva.” (4)
(1) Quanto ao autor, ver anterior post:  LEITURAS – LITERATURA ULTRAMARINA – DENTRO DO BARCO DA VELHA
   https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/03/02/leitura-literatura-ultramari-na-dentro-do-barco-da-velha/
e
    https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/05/08/leitura-literatura-ultramari-na-a-lorcha/
(2) “Em 1970, em colaboração com a RTP, a Editorial Verbo lança a Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP, uma colecção de livros de bolso…(…)… Foram estudados incansavelmente cada um dos 100 títulos a incluir; a periodicidade, acabando por se optar pela semanal; o papel a utilizar nos livros; a cartolina das capas; o tipo de letra; o formato do livro; o grafismo das capas (da autoria de Sebastião Rodrigues, o pai do design gráfico português) e a distribuição…(…)… A Editorial Verbo previu quase tudo pensado que tinha previsto tudo e imprimiu 50.000 exemplares dos dois primeiros volumes (o segundo livro era oferecido na compra do primeiro). O que não previa era que esses 50.000 exemplares se iriam esgotar na própria manhã do dia do lançamento, 6 de Novembro de 1970, e que as pessoas os disputariam a murro nos armazéns da editora, a ponto de impedirem a entrada a um dos administradores da Verbo, porque as centenas de homens e mulheres que formavam fila para serem abastecidos pensaram que ele lhes ia passar à frente e tirar o lugar!…(…)… Dos dois primeiros volumes – a novela Maria Moisés, de Camilo, e 100 Obras–Primas da Pintura Europeia – acabaram por se imprimir, à lufa-lufa, e vender 230.000 exemplares de cada. Em Outubro de 1972, do 100º título, Os Lusíadas, ainda se venderam mais de 100.000 volumes.
http://lisboacity.olx.pt/livros-rtp-coleccao-completa-100-volumes-aceito-ofertas-iid-44965894
(3) CÉSAR, Amândio – Antologia do Conto Ultramarino. Editorial Verbo, Livros RTP, n.º 85, 280 p.|6|
(4) http://pt.wikipedia.org/wiki/Deolinda_do_Carmo_Salvado_da_Concei%C3%A7%C3%A3o

Transcrevo parte do conto “História do pequeno Afat“, tirado do volume “Traços do Extremo Oriente” de Wenceslau de Moraes  (Lisboa 1854 – Tokushima 1929) (1) (2)

“Passara uma tromba marítima… O povo de rabicho ouvia-nos, e ria-se sarcàsticamente das nossas teorias.
Fora o Long, o dragão que passara.
Nos velhos tempo da China, passeavam os dragões cá por baixo, monstros terríveis, que simbolizam ainda hoje para esta gente a suprema força e a suprema audácia. A tradição guarda bastantemente os seus traços dominantes para que se lhes possa reconstruir a forma. Ali estão eles, nas porcelanas rendilhadas das coberturas dos templos; nas alfaias do culto; nos antigos bronzes; nos mil produtos delicados a indústria de hoje; ei-lo, coruscante e altivo, o dragão heráldico, estampado no pavilhão amarelo do império, sintetizando o poder supremo daquele que do trono de Pequim governa os seus quatrocentos milhões de vassalos.
Se interessa a ocidentais o retrato do monstro, eu vo-lo pinto. Réptil imundo, participando do lagarto e da serpente, mas diferindo de tudo que a imaginação possa conceber. Corpo onduloso e hercúleo, rastejando, rutilante de escamas multicores; patas curtas e robustas, terminando em garras aceradas; cauda erguida, lanceolada, mas é a cabeça que mais o caracteriza, a sua enorme cabeça disforme, de pontas proeminentes, barbas fulvas, tentáculos façanhudos, a cavernosa goela escancarada, patenteando a alva dentadura de fera e língua em serpentina; e sobretudo os seus grandes olhos esbugalhados, estoirejando fora das órbitas, faiscantes de cólera… Um todo assombroso, com este predicado particular para a nossa apreciação decrescente de bárbaros: a aliança do horrível e do grotesco – que resulta afinal de contas de todos os símbolos do culto da família chinesa.
Sabe-se que estas alimárias passaram a habitar desde o undo dos céus. Uma só ficou por cá. Foi-lhe defeso o ingresso por não ter cauda, pois lha cortou um dia, por desfastio, um certo moço. Anda pois a penar pela terra, e afirmam até que não muito longe de Macau, ali para San-hui…(…)
E o dragão havia passado em Macau…”

(1) Este conto está incluído na “Antologia do Conto Ultramarino“, selecção da novelística ultramarina feita por Amândio César, para a Editorial Verbo (livros RTP), 1972, 280 p. + 6
(2) MORAES , Wenceslau – Traços do Extremo Oriente. Depósito Livraria Barateira, Lisboa, 1946, 265 páginas