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Para os festejos de gala para celebração do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama, (1498 -1898) que começou a 17 de Maio de 1898, em Macau, estavam programados para o dia 20 de Maio – feriado no território – o Te-Deum na Sé Catedral, a abertura solene da Avenida Vasco da Gama, (1) o lançamento da 1.ª pedra para o monumento a Vasco da Gama (2) no Jardim do mesmo nome (3)  e a publicação de um jornal ilustrado que se chamou “Jornal Único” (4).
Este jornal foi publicada sob a direcção de uma subcomissão composta pelo comendador António Joaquim Basto, conselheiro Arthur Tamagnini da Motta Barbosa, Dr. José Gomes da Silva, Dr. Horácio Poiares, Eduardo Cyrillo Lourenço. Pedro Nolasco da Silva e João Pereira Vasco.
O Presidente da comissão executiva da celebração em Macau do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama, (1498 -1898), foi o Conselheiro Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (governador de Macau)
Sumário dos artigos publicados e seus autores:
1 – Glorificar os heroes da Pátria comemorando os seus altos, é honrar a mesma Pátria – Eduardo Augusto Rodrigues Galhard
2 – 8 de Julho de 1497 – 20 de Maio de 1498 – José, Bispo de Macau (D. José Manuel de Carvalho)
3 – A Caminho da Índia – João Pereira Vasco. Tradução para chinês por Pedro Nolasco da Silva
4 – Praia Grande – António Joaquim Basto
5 – S. Gabriel – sonetos -Camilo Pessanha (5)
6 – O Centenário em Macau – José Gomes da Silva
7 – Portugal – Macau – Wenceslau de Moraes
8 – O edifício do Leal Senado – António Joaquim Basto
9 – O assalto do Passaleão – E. A. Marques
10 – Hontem, hoje e amanhã – G. S.
11 – Na China, conto pueril – Horácio Poiares
12 – Currente calamo – Mário B. de Lima
13 – Avenida Vasco da Gama – Augusto Cezar d´Abreu
14 – A Vasco da Gama – soneto – J. L. Marques
15 – Querer é poder – Domingos M. Amaral
16 – Sé Catedral – Arthur Tamagnini Motta Barbosa
17 – Cam Pau Sai – Abeillard Gomes da Silva
18 – A gruta de Camões –G. S.
19 – A Voz da Infância – Anna Caldas
20 – Fachada do antigo convento de S. Paulo – António Joaquim Basto
21 – Pharol da Guia – Eduardo Cyrillo Lourenço
22 – O patois de Macau – Pedro Nolasco da Silva
23 – O pagode da Barra – António Joaquim Basto
24- A Porta do Cerco – Arthur Tamagnini Barbosa
25 – O Porto Interior de Macau – A. Talone da Costa e Silva

Projecto do Monumento a Vasco da Gama

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/avenida-vasco-da-gama/
(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/monumento-a-vasco-da-gama/
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jardim-de-vasco-da-gama/
(4) O “Jornal Único” publicou-se, num único número, no dia 20 de Maio de 1898, com óptima apresentação e interessante colaboração, em comemoração do 4. º Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por vasco da Gama (GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954)
Impresso nas Tipografia « N. T. Fernandes e Filhos» e «Noronha & Ca», 1898, 65 p.
Disponível para leitura em:
http://purl.pt/32511
(5) Dois poemas inéditos de Camilo Pessanha publicadas na revista Contemporânea, 3.ª Série, n.º1, de Maio de 1926.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/01/24/poesia-dois-sonetos-ineditos-de-camillo-pessanha/

Foi inaugurado no dia 28 de Setembro de 1894, o Liceu Nacional de Macau criado pelo decreto de 27 de Julho de 1893 (assinado pelo Ministro da Marinha, João António de Brissac das Neves Ferreira), instalado no Convento de Santo Agostinho com uma simples visita do Governador Horta e Costa. Não se realizou nenhuma solenidade por a família real se encontrar de luto. Estiveram presentes na inauguração os professores do Seminário e da Escola Central  (1)
Portaria n.º 92, de 14 de Abril de 1894: «Tendo sido posta em vigor na província por portaria provincial n.º 89 desta data a carta de lei de 27 de Julho de 1893 que criou o Lyceu Nacional de Macau: Hei por conveniente determinar que o edifício do extincto convento de Santo Agostinho seja entregue ao reitor do mesmo Lyceu para alli serem devidamente instalados os estabelecimentos criados pela citada carta de lei»

Convento de Santo Agostinho – o primeiro edifício que albergou o Liceu em Macau

Segundo Pedro Nolasco da Silva, o primeiro a solicitar do Governo da Metrópole a criação do liceu foi D. António Joaquim Medeiros, bispo de Macau. O Liceu era sustentado pelo Governo, mas recebeu para a sua criação de um subsídio do cofre municipal, atribuído pela vereação do
Leal Senado de 1893-1894, no valor de $ 4 000 anuais para a manutenção do ensino. Teve apoio também da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (subsídio anual de 500 mil reis)
O Regulamento foi aprovado pelo Governador José Maria de Sousa Horta e Costa  por Portaria n.º 164, de 14-08-1894.
No dia 16 de Abril de 1894, no palácio do governo de Macau, foi conferido auto de posse aos seguintes professores:
1.ª cadeira – língua e literatura portuguesa – Horácio Poiares
2.ª cadeira – língua francesa –Mateus de Lima
3.ª cadeira – língua inglesa – P.e Baltazar Estrócio Faleiro
4.ª cadeira – língua latina – João Albino Ribeiro Cabral
5.ª cadeira  – matemática elementar – Wenceslau de Morias
6.ª cadeira – física, química e história natural – Dr. José Gomes da Silva
7.ª cadeira – geografia e história – João Pereira Vasco – tomou posse a 14-05-1894
8.ª cadeira – filosofia elementar – Camilo Pessanha
9.ª cadeira – desenho – Abreu Nunes
O reitor interino foi Dr. José Gomes da Silva.
No mesmo dia e local se fez a primeira reunião do Conselho Escolar, numa das salas do palácio (posta à disposição pelo Governador. Nessa sessão foi resolvido por unanimidade a eleição de Camilo Pessanha como Secretário do Conselho.
Começou apenas com 30 alunos.
O porteiro – Francisco Xavier Brandão
O contínuo – Clementino José Borges
Guarda da Biblioteca – Damião Maximiano Rodrigues (2)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) Informações retiradas do livro TEIXEIRA, Monsenhor Manuel – Liceu de Macau, 1986.

Apresento o livro: “O Jardim do Encanto Perdido – Aventura Maravilhosa de Wenceslau de Moraes no Japão”, que começou a ser escrito por Armando Martins Janeiro (1), em Tokushima , em 1 de Julho de 1954,  dia da inauguração do monumento a Wenceslau de Moraes, e acabado de escrever em Tóquio, em Novembro do mesmo.

A edição original foi de 300 exemplares, “em papel arroz japonês, ilustrada com estampas a cores gravadas, por meio de blocos de madeira, em papel especial japonês, na Adachi Hanga Kenkyujo, de Tóquio, e impressa na tipografia Yoshikawa-do, de Tokushima, e na tipografia da Livraria Simões Lopes, do Porto. Foram publicados vários capítulos no jornal «O Comércio do Porto», onde Wenceslau de Moraes deu a conhecer, também em folhetim, a mais importante parte da sua obra” (extraído última página do livro)
Da parte interior da contra-capa retiro o seguinte:
SOBRE ESTE LIVRO: O Jardim do Encanto Perdido
Até hoje houve apenas um ocidental que se passou para o modo de vida oriental e que nos deixou o relato da sua invulgar experiência – foi o português Wenceslau de Moraes. Moraes foi viver para o Oriente, para o Japão, com o simples propósito de encontrar a felicidade, depois de se convencer que o sistema europeu perdeu o sentido fundamental da vida, se afastou do espírito essencial da obra da criação. Desiludido dos ideais do Ocidente, abandonou a sua carreira de oficial de Marinha e de cônsul ´, a família, a sua terra, por outro ambiente social e outros ideais, que lhe pareceram mais sãos e mais conformes à natureza humana. Moraes foi a primeira vítima da atmosfera de frustração e descrença em si mesma que invadiu a Europa já antes da primeira guerra mundial.. (…)
A pedido dum japonês, o próprio Wenceslau de Moraes traça a um ano antes de morrer a sua biografia, e em relação a Macau refere (in pp. 43-44)
De Macau visita repetidas vezes a China e o Japão. Com o lugar de imediato acumula outros cargos: é inspector da importação e exportação do ópio por um ano; é professor de língua portuguesa no Seminário de São José. Aluga uma casa que mobila, cuidadosamente, «descendo às minuciosidades». Gosta de observar os vizinhos chineses na sua lida diária, o formigueiro humano que passa na rua, dos garotos, das mulheres, dos vendilhões, dos mendigos. Com a sua predilecção pelas ciências naturais, vai plantando o seu jardim, madrugador, «passando as manhâs num cómico afã de jardinagem». Tem um companheiro, um cão chinês, Kowloon.
Começa Já a escrever impressões da vida de Macau, do que vê nas curtas visitas à China, pequenas histórias extraídas do que, no espectáculo que o cerca, lhe encanta os olhos ou lhe comove o coração sensível. Tem um grande amigo em Macau, o poeta Camilo Pessanha, a quem dedica as «Paisagens da China e do Japão».
Nas suas viagens ao interior da China, que nunca levou muito longe, poor terra, ou no seu barco, vai conhecendo o povo e a sociedade, que o repelem pela promiscuidade e mau cheiro das imundícies…(…)
Em 1898 teve um enorme desgosto na sua carreira – foi preterido no preenchimento da vaga de Capitão do porto de Macau por um oficial de patente inferior à sua. Orgulhoso e sensitivo como era, nºão quis ficar, como imediato, debaixo da autoridade do coelga menos qualificado. Surgiu-lhe a ideia do Japão, que desde há muito o atría. Pede ao Governo que o nomeie Cônsul no Japão. O pedido é atendido.Em 1899 vem instalar-se em Kobe.

Wenceslau de Moraes ajoelhado sobre as esteiras de palha de arroz (tatami), ao lado do braseiro (hibachi), como um japonês. Em frente, a caixa de fumar (tabako-bon) , onde se põe o tabaco, o lume sempre aceso e o delgado cachimbo japonês (kiseru)

(1) Armando Martins Janeiro viveu três anos no Japão, (como Primeiro Secretário de Legação em Tóquio, de 1952 a 1955; viria posteriormente a exercer funções de Embaixador de Portugal em Tóquio, de 1964 a 1971), visitou lugares e conversou co pessoas que conviveram  com Moraes, na pequena cidade de Tokushima, e reuniu grande número de documentos e escritos inéditos, de fontes japonesa e portuguesa.
Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/armando-martins-janeiro/
JANEIRO, Armando Martins – O Jardim do Encanto Perdido – Aventura Maravilhosa de Wenceslau de Moraes no Japão, Manuel Barreira-Editor, Porto, 1956, 245 p. + XCIX anexos “101 Bilhetes Postais Ilustrados de Wenceslau de Moraes”
Traduzida para japonês uma versão resumida – Yoake no Shirabe (Em Busca da Madrugada) – a que se juntaram os estudos Lafcadio Hearn e Wenceslau de Moraes – Dois Intérpretes do Japão e Bases Ocidentais e Orientais para um Humanismo Universal; tradução de Minako Nonoyama, Katsura Shobo, 1969.

O Dr. Virgílio Armando Martins Janeira (1) embaixador de Portugal no Japão de 1964 a 1971, proferiu no salão nobre do Leal Senado uma conferência no dia 21 de Abril de 1965 subordinada ao tema:«Um intérprete português do Japão – Venceslau de Morais». (2)

Esta conferência foi noticiada e publicada no jornal «O Clarim» de 25 de Abril de 1965 e depois reproduzida no Boletim Geral do Ultramar, onde poderá ser lida na íntegra no respectivo site/sítio (3)
https://www.revistaraizes.pt/virgilio-armando-martins-janeira-um-transmontano-do-oriente/

(1) Virgílio Armando Martins, mais conhecido pelo nome literário de Armando Martins Janeiro / Janeira (1914 – 1988) – diplomata, escritor, sociólogo e orientalista. Licenciado em Direito na Universidade de Lisboa ingressou na carreira diplomática em 1939 tendo representado Portugal em vários países como cônsul e embaixador de 1952 a 1979. No Japão, Armando Martins Janeira exerce funções diplomáticas em dois períodos: como Primeiro Secretário de Legação em Tóquio, de 1952 a 1955, e como Embaixador de Portugal em Tóquio, de 1964 a 1971. Toma parte em congressos de orientalistas e fez conferências em universidades de numerosas cidades europeias e asiáticas. Em 1971 foi nomeado embaixador em Roma e em 1977 em Londres, o seu último posto na carreira diplomática.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Armando_Martins_Janeira

Armando Martins Janeira em Kobe, no Japão, em 19 de Dezembro de 1964, dia em que foi descerrado o busto de Wenceslau de Moraes.
http://armandomartinsjaneira.net/wdm/

(2) Publicado posteriormente (1966) em livro:
JANEIRO, Armando Martins – Um Intérprete Português do Japão – Wenceslau de Moraes. Imprensa Nacional, Instituto Luís de Camões, Macau, 1966.
Traduzido para inglês: A Portuguese Interpreter of Japan: Wenceslau de Moraes. Tradução de Kazuo Okamoto, Ken Kyoiku Insatu Co. Ltd., Tokushima, Japão, 1985.
(3) «BGU» XLI – 480, 1965.
Para leitura aconselho ainda um artigo da mulher de Armando Martins Janeiro:
MARTINS, Ingrid Bloser – Portugal e o Japão: Armando Martins Janeira e Wenceslau de Moraes, duas personalidades humanas diferentes
Disponível para leitura em:
http://armandomartinsjaneira.net/downloads/Ingrid_Bloser_Martins-Portugal_e_o_Japao.pdf

Tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões” (Wenceslau de Moraes)

A Gruta de Camões em 1950

Peregrinos das sombras divididas
A desenhar os sonhos sobre as pedras
Doridas da memória, que feridas
Em bálsamo envolvemos, escondemos
Da luz amanhecida? Repartimos
O perfume dos ramos já pendentes
Em cabelos de cinza no caminho
Mais secreto, por dentro do regresso.

José Augusto Seabra , 1990

SEABRA, José Augusto – Poemas do Nome de Deus. Instituto Cultural de Macau, 1990
Anteriores referências deste poeta em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-augusto-seabra/

FILATELIA -LXXV Aniversário LNIDH 1969

Em 1969, esta data foi dia de lançamento do envelope (16,5 cm x 10,5cm) e carimbo comemorativos do 75.º Aniversário do Liceu Nacional Infante D. Henrique /Exposição Biográfica, Bibliográfica e Filatélica.

Os selos de 10 avos (tambor 1548) e 15 avos (soldado com montante 1548) são de uma colecção anterior a esta data: Uniformes Militares do Exército (8 selos com motivos uniformes utilizados pelo exército português em missão de serviço em Macau, nos anos de 1548 a 1904), emitidos em 1966 (Portaria 22141 de 31 de Julho).

Nesse ano de 1969, em que se celebrava o Jubileu de Diamante do Liceu (1), além da cerimónia oficial, realizaram-se várias actividades ao longo do ano nomeadamente as exposições biográfica, bibliográfica e filatélica.

O Liceu Nacional de Macau aprovado pelo Governo da metrópole a 30 de Junho de 1893, foi inaugurado com 31 alunos (30 alunos, segundo o mesmo autor na reedição do livro, em 1986) (2) a 28 de Setembro de 1894 ficando instalado no convento de Sto. Agostinho, antigo quartel da extinta Guarda Policial, ficando reitor o Dr. José Gomes da Silva.

Nos dias 10 e 11 de Setembro, fizeram-se os exames de admissão ao liceu, a que concorreram os alunos de várias escolas de Macau.

Tomaram posse das respectivas cadeiras, em 16 do mesmo mês, os seguintes professores:

  • O bacharel Horácio Afonso da Silva Poiares
  • O engenheiro civil Mateus António de Lima,
  • O bacharel Camilo de Almeida Pessanha
  • O cónego Baltasar Estrócio Faleiro
  • O tesoureiro-geral João Albino Ribeiro Cabral
  • O imediato da Capitania do porto, capitão-de-fragata Wenceslau de José de Sousa Morais
  • O chefe do Serviço de Saúde, Dr. José Gomes da Silva
  • O director das Obras Públicas, major de engenharia Augusto César de Abreu Nunes. (2)

Certo dia ruiu o Convento, passando o liceu para um casarão entre a Praia Grande e o Leal Senado; dali passou para o hotel Bela Vista, depois para o edifício da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, donde foi transferido para o edifício próprio construído no Porto Exterior (Liceu Nacional Infante D. Henrique) entre a antiga Avenida Dr. Oliveira Salazar e a de Infante D. Henrique (1) (demolido posteriormente, após construção do novo edifício, nos aterros do Z.A.P.E.) O novo complexo escolar, denominado Liceu de Macau,  foi inaugurado em 4 de Janeiro de 1986.

(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Liceu Nacional Infante D. Henrique, Jubileu de Diamante (1894-1969). Macau, 1969, 291 p.
(2) TEIXEIRA, Monsenhor Manuel – Liceu de Macau. Direcção dos Serviços de Educação, 1986, 377 p. +|10|

Wenceslau de Moraes no JapãoO escritor Wenceslau de Moraes, nascido a 30-05-1854 e falecido em 1 de Julho de 1929, em Tokushima, Japão, (1) esteve ligado a Macau cerca de 10 anos tendo chegado a 7 de Julho de 1888 a bordo do transporte “Índia”. No dia 8 de Julho, Moraes passou do “Índia” para a canhoneira “Rio Lima.” Em 1889 viu pela primeira vez o Japão. Em 31 de Setembro de 1889 passou da canhoneira “Rio Lima” para a canhoneira “Tejo”, tendo posteriormente assumido o comando em 31 de Setembro de 1889.
Wenceslau de Moraes assumiu o comando interino da estação naval de Macau em 20 de Janeiro de 1891 (exercendo o comando somente até Março) tendo regressado na canhoneira Tejo (sob o seu comando) a Lisboa. Voltou a Macau nesse mesmo ano e viveu em Macau até ser exonerado de imediato da capitania de Macau em 8 de Junho de 1898, para ser nomeado encarregado da gerência interina do Consulado Português de Hiogo e Osaka e posteriormente em Kobe e Osaka (de 1899 até 1913). (2)
O seu interesse pela China e por Macau foi escasso ao contrário do Japão que o apaixonaria até á morte.
Em Macau conviveu com Camilo Pessanha por quem tinha «vivíssima estima» , que era correspondido. Camilo Pessanha escreveu e dedicou-lhe, o poema “Viola Chinesa” (3 ) escrito em Macau em Julho de 1898

Pessanha e Wenceslau em HK c.1895Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes, cerca de 1895, em Hong Kong
(Postal – Edição do Instituto Português do Oriente – Macau, 1990)

Foi professor de Matemática Elementar do Liceu Nacional de Macau (posse a 16 de Abril de 1894)
NOTA: anteriores referências a Wenceslau de Moraes em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/wenceslau-de-moraes/
(1) GOMES, L. G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(2) DIAS, Jorge – A Presença de Macau na Vida e na Obra de Venceslau de Morais. MACAU- edição do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau, n.º 1, Maio de 1987.
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/07/01/noticia-de-01-de-julho-de-1929-poesia-viola-chinesa

Hoje celebra-se o CHENG MENG – FESTIVIDADE DA PURA CLARIDADE, o dia em que os chineses exprimem a sua piedade filial com aqueles que já partiram deste mundo, o respeito e obediência aos seus antepassados – culto dos antepassados. (1)

Relembro um escrito de Wenceslau de Moraes (2) , nos primeiros meses da sua estadia em Macau, sobre este dia.

O dia 5 de Abril amanhecera excepcionalmente belo em Macau. Uma alegria, este renascimento da luz, a alvorada cor-de-rosa, as montanhas doiradas pelo sol, a brisa tépida varrendo o espesso çlençol de neblina; alegria que só compreendem os que já por longo tempo habitaram as costas da China, e que por experiência conhecem a tristeza dos fastisiosos meses de Fevereiro e Março, invarialvelmente turvos, frigidos, desoladores. Com um poucochinho de boa vontade, quem não acreditaria numa influência complacente das grandes divindades budísticas, que, em amigável pacto, houvessem assi deliberado proteger o pacífico povo das vizinhanças de Macau, na realidade da festa religiosa mais grata talvez a todos os filhos do império?

Wenceslau de Moraes

As recortadas colinas, que rematam o panorama do porto interior, semeadas de velhos túmulos, ordinariamente desertos, encheram-se de peregrinos logo ao romper da madrugada. Curiosa romaria; um desprevenido julgaria surpreender misteriosas emboscadas, processos estratégicos de invasão, naquele desfilar indeciso de cobaias serpeando cautelosamente pelas trilhas das serras, aqui ocultando-se nas moitas, além ascendendo aos outeiros, dividindo-se em grupos, estudando o solo, perscrutando atentos. Mas peregrinação bem de paz era aquela, a comemoração do Tsing-Ming (3) ou festa dos mortos, geral em toda a China.

No entanto atravessava eu a cidade, passava para além do nosso domínio, e achava-me no chamado Terreno neutro, vasto campo arenoso, onde os chinas de Macau e dos lugares vizinhos enterram habitualmente os seus mortos; terreno de mortos se lhe poderia mesmo chamar, sem ofensa aos nossos brios de dominação, atentas a imparcialidade política, a absoluta neutralidade, que professam a imparcialidade de todos os países…  A mesma peregrinação: no dorso suavemente curvo da encosta, eriçada de pedras funerárias, formigava uma multidão enorme de povo; famílias inteiras, os avós trémulos de velhice, os pais vigorosos, os rapazes, as criancinhas agarradas às mãos das mães, onda humana alastrando-se por mais de dois quilómetros de extensão, salpicada de tons vivos pelas cores variegadas dos vestidos (4)

(1) Sobre esta festividade ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/04/04/cheng-meng-festividade-da-pura-claridade-em-macau/
(2) Escrito por Wenceslau de Moraes em Junho de 1890. A 1.ª data referida a Wenceslau de Moraes nos documentos de Macau, como oficial imediato da Canhoneira Tejo, fundeada em Macau, é de 14 de Fevereiro de 1890.
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XIX, Volume 3. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1995, 467 p (ISBN 972-8091-10-9)
(3) 清明節 – mandarim pinyin: qing ming jié; cantonense jyutping: ceng1 ming4 zit3)
(4) MORAES, Wenceslau de – Traços do Extremo Oriente Siam – China – Japão. Livraria Barateira, Lisboa, 2.ª edição, 1946, 265 p.

NOTA 1: em Macau, uma edição mais recente deste livro, foi publicada por Carlos Morais José, edição COD, Junho de 2004, em parceria com a Comissão das Comemorações dos 150 anos de Wenceslau de Moraes, com o título: “ Obras Completas de Wenceslau de Moraes, Vol I; Traços do Extremo Oriente”, 197 p. (ISBN 99937-786-1-3)

NOTA 2: aconselho a leitura da tese de mestrado de Maria Margarida da Silva Faria Capitão, de Março de 2012, com o título: “Entre duas civilizações. O universo de leituras em Wenceslau de Moraes” que poderão encontrar em:
http://run.unl.pt/bitstream/10362/7827/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20M%20Margarida%20Capit%C3%A3o%20EPLSE%20mar%C3%A7o%202012.pdf.

Parte do texto “A Gruta de Camões”, (1) de Wenceslau de Moraes, de Março de 1890.
O início deste texto foi publicado em anterior post (2)

“… Se alongarmos depois o passeio, embrenhando-se sempre por entre as matas sussurantes, onde reina uma meia-luz esverdeada, chegamos ao limite natural do jardim, o despenhadeiro quase a pique das rochas, em parte mascaradas pelas moitas das mimosas e pelas ramadas das trepadeiras. Alarga-se então o horizonte. Vê-se em baixo a cidade, a amálgama prodigiosa das negras casas chinas, a linha serpeada das vielas; e chega-nos confuso o som de mil pregões dos bazares, o papear e insólito dos garotos, o ruído dos tantãs e dos foguetes festivos. Vê-se o leito lodoso do porto interior, juncado de lorchas de comércio oferecendo à brisa as suas hgrandes velas de esteira; centenas de pequenos tancás navegam em todas as direcções; amarram, junto da barra, as canhoneiras de guerra; e à direita, do lado oposto, destaca-se viçosa uma ilhota, a ilha Verde, onde agora fumaça a alta chaminé duma fábrica de tijolos. Em frente, na outra margem, contorna-se a lombada ressequida da ilha de Tew-lien-shan ou da Lapa, com as suas pobres povoações de pescadores, e umas manchas esverdeadas em baixo, indicando as várzeas em cultivo. Para lá da Porta do Cerco, limite do nosso domínio colonial, acastelam-se ao longe, num esbatimento de tons azulados, as montanhas da grande ilha de Heang-shan, ou de Macau, da qual o pequenino Macau português não é mais do que uma língua de rocha, apenas perceptível nas cartas geográficas.

Gruta de Camões antes 1940Aspecto do recinto da Gruta antes da restauração efectuada em 1940

Quantas vezes, sobre esta eminência da Gruta de Camões, ele, o poeta expratiado e perseguido pelas intrigas e prepotências dos mandões, não alongaria a vista desolada, assistindo talvez ao jubiloso embarque dos forasteiros para a nau de viagem, prestes a largar para Lisboa! Estas pedras devem ter sido molhadas pelas suas lágrimas de fel; devem ter assistido, mudas e frias, aos seus longos desesperos de homem ardente, ferido no seu grande coração por tantas ingratidões e por tantpos revezes! No sussurar deste arvoredo majestosos, na humidade lacrimosa que sessuda destas rochas,l nos descantes amorosos destas aves, no volutear destes insectos. Há alguma coisa, efectivamente, que lembra a efervescente agonia, intervalada de fugazes esperanças, do pobre procurador dos defuntos e ausentes, ou coisa que o valha, que se chamou Camões…

Gruta de Camões depois  1940Após a restauração de 1940

 (1)   MORAES, Wenceslau de – A Gruta de Camões. Macau, Imprensa Nacional, 1940, 17 p.
(2)   https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/19/macau-e-a-gruta-de-camoes-vi-wenceslau-de-moraes/
 NOTA: sobre outros textos de Wenceslau de Moraes, neste blogue, ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/wenceslau-de-moraes/

Morre neste dia, no ano de 1929, em Tokushima, Wenceslau de Moraes (nasceu a 30-05-1854). Terá esperado pelo mês de Julho, para se findar, “ouvindo” ao ritmo do rondel (1)  a “Viola Chinesa” que o seu amigo e poeta Camilo Pessanha, lhe dedicou ?

Foi precisamente neste mês de julho, mas de 1898 que o amigo e poeta Camilo Pessanha escreveu em Macau, ” Viola Chinesa“, poema dedicado a Wenceslau de Moraes.

Este poema como quase todos os de Camilo Pesanha, tem várias versões. Creio, a mais difundida seja esta:

VIOLA CHINESA

Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que, amadornado, eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa…

NOTA : Poderá ouvir a “musicalização” deste poema composto por Nuno Ramos cantada em “MACAU – A OUTRA BANDA“,  com a participação do grupo musical chinês “Cheong Hong”, gravado em 1995, em
http://www.youtube.com/watch?v=KGkVcnW1aHQ

MACAU A Outra Banda

(1) O Rondel é um gênero de poesia francesa. Sua forma é sempre a mesma, não varia nunca. É formado por duas estrofes de quatro versos e uma de cinco versos, nesta mesma ordem.Pela maneira que é estruturado, o Rondel irá sempre ter apenas duas rimas. As rimas são: ABAB/BAAB/ABAB. Tem outras peculiaridades: os dois primeiros versos da primeira quadra vão ser os dois últimos versos da segunda quadra e  ainda,  o primeiro verso da primeira quadra será o último verso do poema (da estrofe de cinco versos).
http://www.dicionarioinformal.com.br/rondel/