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Poema “Jóia do Oriente” de autoria do então jovem 2.º tenente Leonel Cardoso, de Setembro de 1950, inserido num artigo intitulado “Recordação de Macau”, publicado na «Revista da Armada» de 1986 (1)

Lorchas, tancar, tancareira – imagens de Macau (foto do sargento-ajudante L. Manuel Horta)

N. R.: Glossário: «cabaia» – vestido usado pelas chinesas; «coolie» – assalariado chinês; «fan-tan» -jogo de azaar; «lorcha» – embarcação chinesa, à vela ligeira e pequena, usada especialmente em Macau; «pataca» – moeda de Macau; «pei-pa-chai» – versão chinesa da gueixa que actualmente já não existe; «sapeca» – dinheiro; «tancar» ou «tancá» – pequeno barco chinês a remos; «tancareira» – mulher que tripula o tancá ou tancar; «tin-tin» – ferro velho

(1) «Revista da Armada» n.º 179, Agosto de 1986, ANO XVI, pp. 16-17, pp. 270-271
https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/1986/index.html#p=270

A propósito do ataque de piratas à ilha inglesa de Cheong Chau, (1) corre o boato de que na ilha de Tai Vong Cam (em litígio entre Portugal e a China) (2) há piratas açoitados. O governo de Hong Kong pretende organizar uma expedição mista de forças terrestes chineses e de forças navais inglesas e portuguesas para bater os piratas nas ilhas de Vong Cam. Governo de Macau discorda da proposta por entender que a expedição deve ser levada a efeito, em terra e no mar, por forças portuguesas e por forças chinesas se estas quiserem colaborar. Realiza-se, nestas condições, uma exposição combinada entre os Governos de Macau e Cantão, mas nenhum pirata é encontrado.” (3)
Nesse ano de 1912, a pirataria nos mares da China, principalmente nas ilhas do delta, estava bastante intensa, incomodando as populações das ilhas menos povoadas, com notícias várias de assalto de piratas como a uma lorcha nas alturas de Ka Tai, em 03-05-1912; em 1-07-1912, os piratas de Tai Vong Cam  assaltaram o Hospital de Leprosos em D. João e um tancar de Macau, na Ribeira da Prata (A lancha «Macau» foi fazer o policiamento daquele local) e a 14-08-1912, o Capitão dos Portos oficiava ao Comandante da Companhia Indígena da Índia, solicitando que dêsse ordens às praças de serviço na Avenida da  República para prestarem atenção a qualquer sinal feito da Taipa. Idêntico pedido foi feito, a 19 de Agosto ao Quartel da Fortaleza da Barra. Muitos proprietários de embarcações pediram autorização para adquirir pólvora para sua defesa. (3) (4)
Na verdade, posteriormente, no dia 26-08-1912, a ilha inglesa de Cheung Chau era atacada por piratas que cometeram vários assassinatos e roubos, A polícia de Macau descobriu a pista dos criminosos que se haviam refugiado na ilha da Lapa e prenderam alguns suspeitos. (3)
(1) Cheung Chau 長洲, literal: “ilha comprida” a 10 km sudoeste de Hong Kong.
(2) Ilha da Montanha – Tai-Vong-Cam – 大横琴島 – Da Hengqin
(3) GOMES, Luís G. – Catálogo dos M. M e Arquivos de Macau, Boletim do Arquivo Histórico de Macau, Tomo I (Jan/Jun 1985)
(4) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau ,Volume 4.
Anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ilha-da-montanha-tai-vong-cam-%E5%A4%A7%E6%A8%AA%E7%90%B4%E5%B3%B6-da-hengqin/

“Enquanto os maridos vão à pesca, as tancareiras labutam por sua vez, engolindo à pressa as suas parcas refeições, habitualmente de arroz com peixe e hortaliça, não vá, entrementes, fugir-lhe qualquer freguês apressado.

MBI As tancareiras IIINo seu pequeno mundo – o seu tancar – nasce, cresce, vive e morre a tancareira à árdua labuta de ganhar, honradamente, o pão de cada dia, sempe com um sorriso nos lábios que lhe traz a alegria de viver

O trabalho é áspero e grosseiro e demanda esforço e perícia; mas a tancareira é hábil e a prática de muitos anos fá-la, em pleno labor, correr ou saltar dentro do tancar, sempre em equilíbrio, como se picasse terreno firme, ainda que a embarcação oscile pela ondulação continua.

MBI As tancareiras IVEm fila, sobre as águas do rio as tancareiras aguardam a chegada de passageiros, sobretudo daqueles que ávidos de sensações novas, nunca experimentaramo bailoçar rítmico destes pequenos  barcos que abundam  nas costas da China

Vida atribulada, incerta de proventos, rodeada de perigos e sacrifícios a jovem tancareira continua, sem relutância nem desfalecimento, como sua mãe já continuara de seus antepassados e seus filhos hão-de continuar, a missão que se habituou a desempenhar no decurso de vários anos. Quer transportando passageiros ou bagagem junto da costa de Macau, ou ainda em serviço para as ilhas da Taipa e Coloane, as tancareiras trabalham árduamente ao sol ou à chuva, sem vislumbres de fadiga, com afã insuperável, impulsionadas pelo fito dum mínimo de demora em cada serviço.” (1)

………………………………………………………………………….continua

(1) Texto e fotos retirados de Macau Boletim Informativo, 1953.

 

Fotos do final da década de 50 ou princípios de 60. (1) (2)

Lorchas regressando da pesca, entrando no Porto Interior

Tancares ancoradas no Porto Interior

Junco

Tancares e sampanas

NOTA: “Lorchas ou Juncos: os ingleses e outros estrangeiros chamam indistintamente “junks“. Em Macau reserva-se a designação de “lorcha” para os barcos de pesca de apreciável tamanho, enquanto se aplica a de “juncos” ou ” tous” para os de tráfego.
Tancar é uma embarcação de 14 côvados de comprimento, 4 de boca e 1 de calado, coberto de esteira e destina-se a transporte de passageiros dentro do porto. É movido só a remos apoiados em toletes, por 2 ou 3 pessoas, gingando uma com remo maior que serve também de esparrela.
Sampan(a) – embarcação de serventia dos tous e outras embarcações de pesca. É remado por meio de pás, como as pirogas africanas.” (3)
(1) BRAGA, J. M. – Macao a short handbook. Information and Tourism Department, Macao, 1963, 64 p. 21,3 cm x 15 cm.
(2) MACAU Portugal no Oriente. Edição da Agência-Geral do Ultramar, 1964
(3) CARMONA, Artur Leonel Barbosa – Lorchas, Juncos e outros barcos usados no sul da China. Obra Social dos Serviços de Marinha, 2.ª edição, 1985, 77 p.