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Extraído de «O Correio de Macau», Vol I n.º 15 de 21 de Janeiro de 1883.

NOTA: Embora, segundo o Padre Teixeira, (1)  a Calçada e o Beco do Poço deixassem de existir por efeito do “camartelo municipal” , a  Calçada do Poço mantém-se na toponímia actual de Macau: começa na Rua de S. Miguel e acaba na Rua do Volong, na freguesia de S. Lázaro.
(1) “O camartelo municipal nem sequer deixou em paz as Calçadas, pois as botas ferradas dos vândalos modernos partiram as Calçadas do Marfim, do Poço e da Fundição, desaparecendo assim a memória da Fundição de Manuel Tavares Bocarro, a melhor de todo o Oriente” (Toponímia de Macau, Vol. I, 1997)

A paróquia de São Lázaro celebra hoje, a Festa de São Roque, com missa solene às 9 horas e 30, seguindo-se a procissão em devoção do “Santo Padroeiro contra a Peste”.(1)  O cortejo religioso vai percorrer algumas artérias do bairro de São Lázaro, tais como a Rua do Volong, Rua de São Miguel, Rua de São Roque e Rua Nova de São Lázaro. (2) (3)
A Festa e procissão de São Roque é tradicionalmente celebrada a 17 de Agosto, mas em Macau é sempre realizada no segundo Domingo de Julho, por causa de uma “epidemia” ocorrida em finais do século XIX. (4) Na altura, a população solicitou intervenção divina para o fim da “epidemia”, e como as doenças desapareceram, cumprindo a promessa a S. Roque, a população passou a realizar a sua festa em Julho.
(1) São Roque é o protector dos leprosos e padroeiro dos inválidos e de profissões ligadas à medicina.
(2) http://www.oclarim.com.mo/local/sao-roque-celebrado-a-8-de-julho/#more-13061
(3) A procissão em honra deste Santo só foi retomada na paróquia de S. Lázaro em 2008 (a última tinha sido em 1966), devido ao surto nesse ano, em Macau, da Síndrome Respiratória Aguda.
(4) A data é incerta, o mesmo jornal “O Clarim” (2) refere a data de 1889 mas consultando as várias fontes sobre efemérides relacionadas com Macau, não encontrei qualquer referência a enfermidades com relevância no ano de 1889.
Provavelmente estará mais relacionada com o ano de 1882 em que faz referência à preocupação das entidades oficiais face ao aumento progressivo dos “leprosos” e à dificuldade em alojá-los, (5) (6) bem como dos muitos focos de infecção nos depósitos de lixo, e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» (7), na freguesia de S. Lázaro.
(5) “6-07-1882 – Relatório do Administrador do Concelho das Ilhas, tenente José Correia de Lemos revela que o número de leprosos em Pac Sa Lan, na Ilha de D. João, é de 40 homens solteiros e 7 casados (sem as mulheres). As mulheres leprosas são 18 e foram admitidas já com a doença; 2 são casadas mas não estão com os maridos, 11 são solteiras, 5 são viúvas e 4 destas entraram já viúvas, trazendo consigo duas filhas menores. É-lhes proibida coabitação, mas é «impossível evitar que tenham correspondência». Os lázaros cultivam uma várzea para sua ocupação e sobrevivência. (8) (9)
10-07-1882O Administrador pede licença para mandar fazer 64 mudas de roupa de verão para os lázaros.É evidente o zelo, e a frequência dos contactos de acompanhamento. (8)
28-07-1882É regulada a admissão de lázaros no depósito de Pac Sa Lan, e determinadas medidas com respeito aos encontrados nas ruas. Determinado que o depósito destinado a indivíduo do sexo masculino seja completamente separado dos das mulheres. (8)
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255.
(6) “06-03-1884Ofício do Administrador ao Governo sugerindo Ká Hó para instalação da leprosaria e não a Ilha da Taipa. (8)
20-01-1885O Hospício para Lázaros, em Ka- Hó, depois de muita resistência e de alterações várias quanto à escolha do local, quer em Macau (D. Maria, Porta do Cerco) quer na Taipa e depois em Coloane, foi entregue pronto nesta data, com guarda e zona circundante delimitada. O apetrechamento só ficará completo em Maio deste ano.” (7)
(7) O secretário geral do Governo em 15 de Julho de 1882 (na ausência do Governador) J. A. Corte Real chamava a atenção do Presidente da Camara e administrador do concelho dos administradores de concelho e director das obras públicas para os focos de infecção por muitos e antigos depósitos de lixo, para a necessidade de limpeza e desobstrução de canos e valetas nas hortas do “Volong” e da «Mitra» e outros pontos de forma que se vão melhorando consideravelmente as condições hygienicas da cidade» e «reclamando por isso medidas extraordinárias, que colocando-os em condições materiaes regulares, possam remover-se os casebres , monturos e permanentes fôcos de infecção, que d´outra fôrma será impossível evitar»
(Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII- 28 de 15 de Julho de 1882, p. 238/239)
(7) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3.
(8) TEIXEIRA, P. Manuel – Taipa e Coloane, 1981, p.117 e 119.
Boletim da Província de Macau e Timor, XXVIII-30 de 29 de Julho de 1882, pp. 254-255

Na continuação do POST «O CASO DA RUA VOLONG (I)», referente ao livro do mesmo nome (1), retirei alguns trechos que considero de interesse ou “curiosos”.
Pág. 17: “Quando chegara a Hong Kong tinham-lhe indicado o Macao Hong Kee´s Hotel, que no Tourist´s Book vinha anunciado: « A perfectly new Building -30 bedrooms – A confortable family Hotel – Five minutes from  the steamer Wharves – Every thing of the Best – Charges very moderate.»


NOTA:

O “Hong Kee´s Hotel”  ou «Hing Ki»  como é chamado no livro foi o Hotel HING KEE,  inaugurado em  1880. Posteriormente rebaptizado Hotel Macao em 1903 e depois Hotel Riviera (1927) (2) 
Imagem retirada de Macau, Portugal no Oriente”, edição da Agência-Geral do Ultramar, 1964, p. 15
Pág 21 : “E o seu olhar, relanceando distraído pela Praia Grande, fixou-se nas casas, caiadas de côres alegres. Via o edifício do Correio, com a galeria em pórtico de colunas baixas; via o Palácio das Repartições, ex-Palácio dos Governadores, o antigo prédio luxuoso da Baronesa do Cercal; e os prédios sucediam-se para um e outro lado do «Hing-Ki» acompanhando acurva da Baía até acabar nas verduras do arvoredo lustroso do jardim Público onde, por entre a ramaria baixa, se descortinavam as persianas das janelas do Grémio Militar, e, por fim, a negrura dos baluartes da histórica Fortaleza de S. Francisco”
Pág 60: “Contornaram o sítio da Areia Preta, tão preferido na época do banhos. Lá estava a  barraca do bufete do Teobaldo Jorge Colaço, que servia de potinière durante a exibição dos maillots à moda inglesa e americana e que escandalizavam as macaístas…”
Pág 149: “Primeiro, um passeio simples: – Praia Grande, Ruínas de S. Paulo, Gruta de Camões, Jardim de S. Francisco, Clube Militar – e à noite, uma volta pelos Fan- Tans.  Se quizesse demorar-se, começaria por um banho de mar na Areia Preta, seguiria em visita aos Jardins do Seminário de S. José, ao Clube de Macau, ao Palácio do Governador, Fábricas do ópio, do tabaco, das sêdas, ouvir a missa das onze na Sé, a orgão, visitar a Igreja de SA. Domingos, o Leal Senado, as Repartições Públicas, o Hospital Militar, o Farol, os jardins da Casa de campo do Lucau, iria tifinar a um restaurante chinês e, depois, seguiria para a Ilha Verde, cerrada de arvoredo, habitada  por pescadores, com a Fábrica do Cimento, e a casa de campo do senhor Bispo

(1) BRUNO, Emílio de San – O Caso da Rua Volong, scenas da vida colonial. Lisboa, 1928. Tipografia do Comércio, Oficina Gráfica Lda. , Rua da Oliveira (ao Campo), 8, 414 p.
(2) Sugiro sobre este tema,  uma leitura ao “Hotel Riviera” de Henrique de Senna Fernandes (pp. 215-232) in SENNA FERNANDES, Henrique de – Hong-Há, Instituto Cultural de Macau, 1998, 275 p. , ISBN-972-35-0269-0

BRUNO, Emílio de San – O Caso da Rua  Volong, scenas da vida colonial, Lisboa, 1928.. Tipografia do comércio, Oficina Gráfica, L.da, Rua da Oliveira (ao Carmo)  8, 414 p.

Este livro que adquiri num mercado de rua (“livros velhos”), em Lisboa, em mau estado de conservação, tem uma marca de carimbo na pág. 3: “Biblioteca José Carlos Pinto Gonçalves”  (????)
Este livro, em 1928, ficou em 2.º no Concurso do Prémio de Literatura Colonial  da Agência Geral das Colónias  (1)1928
1.º não atribuído
2.º Emílio de San Bruno, O caso da rua Volong
3.º Julião Quintinha, África misteriosa

Segundo skocky-alcyone.blogspot (2) :
O nome do pretenso autor, EMÍLIO DE SAN BRUNO é pura ficção!   Quem escreve a obra é quem assina o “PRÓLOGO`, com data de Lisboa, 1925, é CARLOS CRISPIM DA CUNHA CARVALHO??? que se «identifica»  como ex-chefe duma secção colonial de um Banco, que nesse malfadado ano de 1925` fechou as suas portas…
O “PRÓLOGO”  diz-nos que em um domingo, no princípio de 1925, depois de uma visita a um conhecido, subiu ao Largo da Graça e por mero acaso de uma chuvada viu na rua da Verónica a clássica bandeira dos leilões. Ficou curioso e decidiu subir…
Vendo uma pequena caixa de madeira de cânfora que continha diversas bugigangas…foi revolvendo com indiferença, e com a ponteira da bengala, aquele lixo colonial, que entreviu no fundo da velha caixa…uns cartões bafientos a capear umas folhas manuscritas.
Que seria?
O empoeirado maço de papeis estava atado e continha quatro fascículos! Cada um deles tinha o seu título:
1º. «GADIR E MAURITÂNIA», por EMÍLIO DE SAN BRUNO
2º. «ZAMBEZIANA»
3º. «A VELHA MAGRA DA ´ILHA DE LOANDA`»
4º. «O CASO DA ´RUA VO-LONG` , nº 7, em MACAU»
Gulosamente decidiu ficar com a caixa de cânfora e seu conteúdo bizarro… Leu com vagar os apontamentos dos folhetos, …evidentemente escritos sob o pseudónimo de EMÍLIO DE SAN BRUNO..”.

Segundo Professor David Brookshaw, no seu trabalho “Entre o Real e o Imaginado: O Oriente na Narrativa Colonial Portuguesa” (3):
Emílio de San Bruno é o pseudónimo literário de Filipe Emílio de Paiva, outro oficial da marinha, contemporâneo de Jaime do Inso, que esteve alguns anos em Macau no início deste século, além de servir em outros territórios do ultramar. O Caso da Rua Volong (1928) foi um de três romances escritos para apoiar o esforço colonial português, sendo os outros A Magra da Ilha de Luanda (1927), cuja acção decorre em Angola, e Zambeziana (1929), que tem como palco Moçambique. Nos três romances, o protagonista principal é o mesmo: Paulo, jovem oficial da marinha. No entanto, ele é mais observador das acções dos outros do que participante no drama da história. É o prototipo do bom colonial já que não se rende perante atraçoes que o poderiam comprometer nas suas funções”

E analisava assim o livro,  a propósito do tema:
Em O Caso da Rua Volong, é a paixão do Conde de Palhais pela enigmática Miss Grace, portuguesa mascarada de americana, vítima de uma indiscreção do próprio Conde em Lisboa, e que o seguiu ao Oriente com a intenção de recuperar o seu amor. Poderíamos estar em plena comédia shakesperiana, se não fosse que o romance acaba numa tragédia melodramática. Tal como o herói de Jaime do Inso, Miss Grace se rende às atrações do Oriente na pessoa de Mansilla, elegante cavalheiro hispano-americano nos serões da alta sociedade de Macau, mas que na realidade é nacionalista filipino, e contrabandista de armas sem escrúpulos. Mansilla encarna as forças anárquicas e exóticas que atraem e destroem: «Sorria-se para mim, cravando no meu olhar atónito, o seu olhar fascinador, donde sentia, mau grado meu, irradiar uma força magnética poderosíssima. Como estava belo!» (Bruno, 380-1)…(…)…
Como colonialista, e autor de um romance que ia concorrer para o prémio da Agência Geral das Colónias, San Bruno nao podia acabar num tom tão pessimista. Como o seu contemporâneo, Jaime do Inso, cujo livro também ganhou um prémio da Agência, concluiu positivamente o seu romance, recorrendo a uma técnica já conhecida dos românticos: o narrador se distancia do período em que se desenrolou a acção da história, ao informar os seus leitores que o manuscrito tinha sido achado num velho baú. Refere, portanto, a uma situação que já não existia: «Hoje, Macau, já difere, em civilizado confôrto, e em adequadas obras de fomento, do daquele tempo, em que o autor dos folhetos coloniais por lá andou» (Bruno, 413-4). San Bruno escrevia quando a ditadura de Salazar estava-se consolidando, criando as condições para a imposição da lei orgânica que ia entrar em vigor no império a partir da década de 30. … (…)…
Por fim, em O Caso da Rua Volong, Maria José, macaense, católica, é outra possível parceira para um oficial português. Porém, aqui, San Bruno teve que proceder com cuidado: por um lado havia uma longa tradição de portugueses a casarem com filhas da terra. Por outro lado a legislação colonial, reiterada pelo regime salazarista (Decreto de 1941), discriminava contra o casamento de oficiais do império com mulheres não européias. Na prática, acontecia, e San Bruno o admitia, sendo o exemplo no romance, o capitão do porto de Macau, residente na colónia há mais de trinta anos e casado com uma macaense, mas a origem desta união se achava no mesmo processo de sedução quase clínica que fazia os portugueses abandonarem o seu papel de colonizador, e daí a sua Pátria, processo portanto, no fundo negativo e a ser evitado: «… ter-lhe-ia a nhonhita que o encantara dado a comer o doce de nymphea alfa, o lin chin dos indígenas, cujo fruto tem, segundo dizem, a virtude de fazer esquecer aos europeus a família e a Pátria, quando dela comem a dose calculada para o efeito?»(Bruno, 75). Quanto a Maria José, meio caminho entre as tentações da angolana branca e a anárquica força sedutora de Dona Rosário, afigura-se como um ser essencialmente solitário, uma mulher que se embranquece com talcos sem esperança de achar marido entre os portugueses.”

A Rua Volong  começa na Calçada do Poço e termina na Estrada do Cemitério e no livro, há uma referência, na pág. 107: ” na Rua Volong n.º 7, rua muito socegada e limpa, num bairro novo onde o rico Chico Volong que se naturalizara há pouco tempo português, construíra quási tôda a rua, tendo comprado os terrenos ao Leal Senado

Segundo Mário Botas (5) “O Volong que lhe deu o nome foi Francisco Volong, negociante chinês, cristão, que em 1856 obteve a naturalização portuguesa.”

Retirei esta foto da Rua Volong de Travel Blog da autoria de James Clark   (6)

Em próximo post,  irei apresentar outros trechos “curiosos” do livro.
Há uma crónica de Maria Caetano, sobre a Rua Volong , no “Ponto Final” em (4)

(1)http://literaturacolonialportuguesa.blogspot.com/2008/05/concursos-e-vencedores-do-prmio-de.html
(2) http://skocky-alcyone.blogspot.com/2011/05/zambeziana-scenas-da-vida-colonial.html
(3) http://www.ueangola.com/index.php/criticas-e-ensaios/item/256-entre-o-real-e-o-imaginado-o-oriente-na-narrativa-colonial-portuguesa.html
(4) http://paragrafopontofinal.wordpress.com/page/2/
(5) http://macauantigo.blogspot.com/2009/12/bairro-da-horta-do-volong.html
(6) http://www.itravelnet.com/photography/asia/macau/macau/rua-do-volong.html