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Extraído de «BPMT», XXX-15, 12 de Abril de 1884.

Anteriores referências àTipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/tipografia-mercantil-de-n-t-fernandes-filhos/

Extraído de «BPMT», XXX-15, 12 de Abril de 1884.

Anteriores referências Á Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos em:
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          Vivia em Macau, na Rua de Felicidade, um velhinho chinês dos seus 64 anos de idade, já todo calvo e trôpego, chamado Lei Seng, sendo, porém, mais conhecido por Iok-Hei Mông, isto é, o “Tonto de Artigos de Jade“, alcunha que lhe adviera do facto da sua profissão de vendedor de artigos de jade e da sua avançada idade. Ou por pressentimento ou porque talvez tivesse motivos suficientes para suspeitar o que lhe iria acontecer, ao sair da casa, no dia 2 de Julho de 1883 – era já cerca de meio-dia e meia hora – para o seu costumado giro pelas ruas da cidade, advertira a mulher que, se não regressasse dentro de duas horas e meia, isto é, pelas 3.00 horas da tarde, o mandasse procurar. Levava consigo o seu inseparável saquinho que continha braceletes de jade e diversos outros objectos de atavio com que as damas chinesas costumavam ornamentar o penteado, todo no valor de $ 700.00.

Rua da Felicidade c 1900

RUA DA FELICIDADE c. 1900

         O homenzinho fora visto a caminhar pela Rua de S. Lourenço, mas como não regressasse a casa, na manhã seguinte, a sua família, seriamente inquieta, tratou de dar parte da ocorrência à Procuradoria, receosas como estava de a causa do desaparecimento ter talvez sido motivada sabe-se lá por algum tenebroso crime. Por seu lado, logo que lhe constou não ter o vendedor de jóias regressado à casa, o dono da ourivesaria que lhe tinha confiado as jóias para vender, desassossegado com tão misterioso desaparecimento e palpitando, também, alguma sinistra fatalidade, anunciou alvíssaras para aquele que lhe pudesse dar qualquer informação sobre o paradeiro do desaparecido. Entretanto, a Capitania do Porto remeteu à Procuradoria um saquinho contendo uma pulseira e mais alguns objectos insignificantes, que a vasa tinha deixado a descoberto na areia da praia do Chunambeiro, mesmo defronte do Palácio da Justiça, estando cortado na extremidade e manchado de sangue.

Chunambeiro c. 1890

CHUNAMBEIRO, SUL DA PRAIA GRANDE c. 1890

          Informada da participação do desaparecimento de Lei Seng e da descoberta do saquinho de jóias, que facilmente se identificou como sendo seu pertence, a polícia, dirigida pelo capitão comandante da 1.ª divisão da Guarda Policial, Caetano Maria Dias Azedo, iniciou com afinco as suas investigações, conseguindo averiguar que aparecera um indivíduo num “hão de penhor” (casa de penhores), com o fim de tentar empenhar um par de braceletes de jade por $ 150.00 e que o inquilino da casa N.º 19 da Rua do Padre António, a mais central da Freguesia de S. Lourenço, chamado Ung-Tak Tch´oi, um rapaz dos seus 19 anos, apenas, mais conhecido pelo alcunha de Mou-I-Tch´âi (Sem Orelha), mudara de residência, alugando uma casa na Rua da Felicidade, para o que pagara de pronto $ 25.00, quantia correspondente ao aluguel de um mês …(…) ………………………………………………….continua (1)

(1) GOMES, Luís Gonzaga – Páginas da História de Macau. Instituto Internacional de Macau, 2010, 358 p. ISBN: 978-99937-45-38-9