…………………………………continuação do “post” anterior (1)

“Tinha o corpo estendido em todo o seu comprimento com a cara voltada para o sobrado e os cabelos estendidos para a frente, estando o corpo e o sobrado todo ensanguentado. O crâneo estava literalmente macerado, e ao lado uma coronha de clavina de dois canos quebrado pelo delgado, estando a fecharia envolta em cabelos também ensanguentados. Por cima da mesma havia uma folha de espada de boa têmpera e muita antiga, que mostrava não ter servido em toda a luta por não se descobrir nela vestígio de algum sangue. Só restava saber o que fora feita do coronel Mesquita, e logo houve quem se lembrasse de que se a casa tinha poço, Mesquita devia ter ido ali acabar seus dias, e não se enganou.
Todos se dirigiram em massa ao lugar do poço, onde foi encontrado o desventurado Mesquita, julgo que com vida ainda pelo facto de subirem à flor da água algumas bolhas de ar. O poço, porém, era de grande profundidade, que foram frustradas todas as tentativas para o trazer acima, enquanto não chegou um aparelho preparado para aquele fim, conseguindo-se trazê-lo acima sómente às 5 horas da madrugada, tendo na cabeça algumas fracturas por efeito de pancada nas paredes do poço por ocasião da queda.”

O remate desta triste tragédia, é fácil de compreender ou prever, a família Mesquita ficou reduzida a metade:  3 mortos, 2 feridos e 1 sem receber ferimento algum; os mortos foram o coronel Mesquita, sua esposa Carolina Maria Josefa da Silveira e sua filha mais nova, Iluminada Maria Os feridos foram: a filha mais velha, Leopoldina Rosa e o filho mais velho, Geraldo, ficando ileso o filho mais novo, Francisco,  que contava 18 anos de idade. Este veio a falecer mais tarde em Xangai, empregado numa firma comercial; Geraldo foi para Timor, sendo furriel em 31 de maio de 1883, por assim o haver requerido; mais tarde ascendeu ao posto de sargento, de que depois pediu baixa, vindo a falecer em Macau; a última, Leopoldina, faleceu em 1937; como todos três morreram solteiros, ficou para sempre extinta a família do coronel Mesquita, que parecia estar sob a influência de má estrela (2)

………………………..Voltarei ao assunto numa próxima oportunidade.

NOTA: a casa onde se deu a tragédia já não existe; ficava no lugar onde está o prédio n.º 1 da Rua do Lilau. O poço foi entupido com as obras do novo prédio.

 Vicente Nicolau de Mesquitahttp://en.wikipedia.org/wiki/File:Mesquita-portrait.jpg

 Vicente Nicolau de Mesquita casou aos 17 anos de idade ( nessa altura, era já voluntário no Batalhão do Príncipe Regente) com a crioula Balbina Maria da Silveira de quem teve cinco filhas, três das quais faleceram no mês de Maio de 1842, com intervalos de uma semana. Enviuvou. após 24 anos de casamento, tendo depois desposado Carolina Maria Josefa da Silveira, irmã da sua primeira mulher (mais nova 11 anos). A quarta filha do primeiro casamento faleceu meses após o 2.º casamento do pai. Leopoldina Rosa  faleceu em 14 de Outubro de 1937 no asilo da Misericórdia, com 95 anos de idade. (ARAÚJO, Amadeu Gomes – Diálogos em Bronze, Memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001, 168 p. + |6|. ISBN 972-9418-88-8)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/03/19/noticia-de-19-de-marco-de-1880-tragedia-em-macau-vicente-nicolau-de-mesquita-i/
(2) TEIXEIRA, P.e Manuel – Vicente Nicolau de Mesquita. Macau, 2.ª edição, 1958, 98 p.