Archives for posts with tag: Rua da Caldeira

Duas caixas de fósforos iguais do restaurante “TAI SAM YUEN – 大三 元 酒家 que ficava na Rua da Caldeira n.º 41-45 e esteve aberto durante toda a década de 70 (século XX). Desconheço quando terá fechado já que no seu lugar está actualmente o hotel  com o nome de “Ole Tai Sam Un” – 澳萊大三元酒店 (1)

Tinha três números de telefone para contacto: 2529 – 6596 – 7292

Fósforos com as “cabeças” encarnadas

大三

澳門福隆下街四十一四十五号 (2)

電話: 二二几-六五几

 (1) “Ole Tai Sam Un” – 澳萊大三元酒店

Ole Tai Sam Un Hotel – Rua da Caldeira, N.º 43-45 https://www.agoda.com/pt-pt/ole-tai-sam-un-hotel/hotel/macau-mo.html?cid=1844104

(2)  Nome conhecido em chinês desta rua 福隆下街 – mandarim pinyīn: fú lōng xià jiē; cantonense jyutping: fuk1 lung4 haa5 gaai1. RUA ABAIXO DA (RUA) FELICIDADE. O nome oficial em chinês é 白眼塘橫街mandarim pinyīn: bái yǎn táng héng jiē; cantonense jyutping: baak6 ngaan5 tong4 waang4 gaai1

Ver anteriores referências à Rua, Largo e Travessa da Caldeira: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/largo-da-caldeira/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/travessa-de-caldeira/

Rua do Auto Novo (Teatro Chinês)

Extraído do “Anuário de Macau 1921”.
A foto vem legendada com indicação de Rua do Auto Novo (Teatro Chinês)
Trata-se no entanto da Travessa do Auto Novo.
Começa entre as Ruas da Caldeira e da Felicidade e termina na Travessa das Virtudes. Foi-lhe dado este nome por se representarem ali os autos chinas. Em chinês cama-se Cheng Peng Hong ou Ch´eng Sán Kai ou Ch´eng P´eng Chek Kai; tem este nome por lá existir o Cineteatro Cheng Peng que é o prédio n.º 23 dessa Travessa, construído um pouco antes de 1907. (1)
O Padre Teixeira, parece não ter razão quanto à data de início (“um pouco antes de 1907”) pois há indicações do Teatro/Auto China ter iniciado em 1875, construído por Vong Lok, um destacado comerciante de Macau (um dos fundadores do Hospital Kiang Wu) (2) e ainda uma outra referência a este teatro, de 1872, aquando da visita do Príncipe Alexis a Macau (3) pois embora não venha mencionado o nome do teatro, a menção do empresário “Eloc” muito possivelmente será o mesmo do apelido “Lok”
O Cine-Teatro Cheng Peng, no início, a maior parte dos espectáculos eram sessões de ópera chinesa (cantonense e de Beijing) mas a partir da década de 20 do século XX, com a popularidade do cinema, passava já filmes (4) predominantemente filmes chineses embora continuasse a apresentar ópera chinesa e outros tipos de espectáculos: circenses, musicais como por exemplo a do artista Xavier Cugat em 1953 (5), o “Trio Odemira” na década de 60, os chamados “pop concert” com artistas e agrupamentos de Hong Kong na década de 60s, etc. Recordo neste cine-teatro, os dois festivais de música de 1963 e 1964, concurso para eleger o melhor conjunto “ié ié” de Macau. Renovado em 1970 voltou a passar filmes (mais chineses) mas reposições e os chamados filmes “B”. Fechou no dia 21 de Agosto de 1992 quando o sistema de ar condicionado se avariou.
Foi o Cineteatro que mais tempo esteve em actividade em Macau 1875 a 1992 (117 anos).
(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau Volume 1,1997, p. 493
(2) https://macaostreets.iacm.gov.mo/p/route/detail.aspx?gid=4&id=0bc7aeda-ee3d-47b8-95f7-493cdc1fc971
Anteriores referências a este Cine Teatro
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cine-teatro-oriental/
(3) “29-09-1872 – No domingo, dia 29 de Setembro, após o almoço, a que assistiram também vários funcionários, o Príncipe Alexis visitou o Leal Senado e a Gruta de Camões. De tarde recebeu cumprimentos dos funcionários e, à noite, novo jantar de gala, após o qual assistiu num teatro a um auto-china. Não se esqueceu de galardoar o empresário do teatro, chamado Eloc, com um alfinete cravejado dum pérola e brilhantes…. “ (TEIXEIRA, Padre Manuel – Residência dos Governadores do Macau, p. 13)
(4) Em 1925, projectou-se neste teatro o célebre filme de Lilian Gish “The White Sister” –  filme mudo americano (drama; filmado em Itália) de 1923 com Lillian Gish e Ronald Colman, dirigido por Henry King para a “Metro Pictures”.
https://www.youtube.com/watch?v=0Hh3ZcAEHPY
(5) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/11/29/noticia-de-29-de-novembro-de-1953-xavier-cugat-em-macau/

Outra caixa de fósforo (1) publicitando o “Clover Hotel / Lee Hong Kei Restaurant“, da década de 60/70 (século XX).
Esta caixa de fósforos de cor acastanhada com letras a preto e branco, dimensões:  5,5 cm x 3,5 cm x 0,9 cm e com o logótipo (desenho do Hotel) no campo superior esquerdo, é posterior à publicada anteriormente (1) . Tem indicação em português do endereço: Rua da Caldeira n.º 71.

caixa-fosforos-hotel-clover-e-rest-lee-hong-keiCLOVER HOTEL
N.º 71 rua da caldeira, Macau
高華酒店 (1)
澳門福隆下街71 號4樓
電話 5452 – 5599

No outro lado da caixa, o mesmo anúncio da anterior caixa (1)

caixa-fosforos-hotel-clover-e-rest-lee-hong-kei-outro-ladoLEE HONG KEI RESTAURANT
N.º 33 – 35 rua da caldeira, Macau
李康記海鮮 飯店
澳門 福隆 下街  33-35 號
電話 6670 – 5400 – 3886

caixa-fosforos-hotel-clover-e-rest-lee-hong-kei-cabecasAs cabeças dos fósforos de cor vermelha

caixa-fosforos-hotel-clover-e-rest-lee-hong-kei-um-ladocaixa-fosforos-hotel-clover-e-rest-lee-hong-kei-lado-superior(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/05/18/caixa-de-fosforos-clover-hotel/

Clover HotelCLOVER HOTEL
高華酒店 (1)
澳門福隆下街71 號4樓
電話 5599

Embora o endereço enunciado seja: 福隆下街  (2) – rua “abaixo” da Rua da Felicidade, trata- se da Rua de Caldeira (prolongamento da Rua da Felicidade em direcção ao Porto Interior) que em chinês (nome oficial) é: 白眼塘横街 (3)
Portanto o Hotel ficava na Rua da Caldeira, n.º7, 4.º andar.
Não consegui documentar-me melhor quanto à categoria do hotel,  muito possivelmente classificado como Pensão/Pousada ou Hospedaria/estalagens pois na décadas de 60 e 70 existiam algumas na Rua da Caldeira.

O outro lado da caixa tem o anúncio do “Restaurante Lei Hong Kei” (romanização do cantonense em português) ou “Lee Hong Kee Restaurant” (romanização do cantonense em inglês).

Clover Hotel versoLEE HONG KEE RESTAURANT (4)
李康記 飯店
澳門 福隆  下街  33-35
6670 – 5400 – 3886

Este restaurante esteve referenciado no Anuário de Macau em toda a década de 70 (1972 até 1980) com o endereço na Rua da Caldeira 33-35, Macau, Tel. 28376670.
(1) 高華酒店mandarim pinyin: gāo huà jiǔ diàn; cantonense jyutping: gou1waa4 zau2 dim3. Tradução literal: Hotel Trevo (clover) Alto.
(2) 福隆下街  – mandarim pinyin: fù lóng xià jiē; cantonense jyutping: fuk1 lung4 haa5 gaai1.
福隆街 é a Rua da Felicidade pelo que  福隆下街   é uma rua “abaixo” da Rua da Felicidade.
(3) 白眼塘横街 (又名福隆下街)mandarim pinyin: bái yǎn táng guāng jiē (yòu míng fù lóng xià jiē); cantonense jyutping: baak6 ngaan5 tong4 waang4 gaai1 (jau6 meng4 fuk1 lung4 haa5 gaai1) – Rua da Caldeira também conhecida como Rua abaixo da Rua da Felicidade.
(4) Este restaurante de comida cantonense ainda se mantém no mesmo sítio e vem referenciado como
李康記海鮮酒家 Lei Hong Kei Restaurante
新馬路福隆新街33-37號 Avenida Almeida Ribeiro, Rua Nova da Felicidade
+853 2837 6670
http://www.openrice.com/macau/restaurant/photos.htm?shopid=24071&photoid=90452&con=door

Em Setembro de 1929, foi feita a entrega solene de trezentas casas de alvenaria e tijolo, construídas nos terrenos do norte da Ilha Verde (Macau), destinadas aos sinistrados chineses que, no grande incêndio ali ocorrido em 1928 (1), perderam totalmente a habitação e haveres e cujos efeitos desde logo o governador Tamagnini Barbosa (2), procurou atenuar, com a cedência do terreno e a quantia de $ 35.000,00 patacas. Para isso também contribuíram donativos de Macau e Hong Kong (cada casa custou cerca de $ 240.00 patacas).

No acto oficial da entrega, o capitalista chinês sr. Kou Ho Neng (3) pronunciou um discurso (4) em que transcrevo uma parte:
S. Ex.ª o Governador, antes da partida, (5) receando que esmorecêssemos nas obras de construção das ditas casas, recomendou à comissão encarregada de vigiar pela sua construção – a minha humilde pessoa, Chôi Nôk Chi, Vong Su, Mak Meng, Lou, Ch´ui Iôk, Lai Chan Vá e Ung Fat  – que não largássemos a obra a meio de caminho e que tivéssemos pela sua construção o mesmo carinho que tivemos no início.
Foi em virtude desta recomendação queimámos papel amarelo e fizemos um juramento, prometendo trabalhar com ardor e com honestidade até ao fim da obra.
Aproveito a ocasião para agradecer ao sr. Director das Obras Públicas que nos forneceu os fiscais Ló Sá Liu e Ki Li Lu Fi Nan Ti (6) que nos consentiu tirar pedras da colina de Mong Há, de Lin Fong e nos permitiu tomar saibro na colina da Ilha Verde; ao sr. Comissário de Polícia que pôs um polícia secreta para guardar o recinto das obras, dia e noite; à Companhia da Luz Eléctrica pela instalação da luz eléctrica; à Repartição dos Telefones pela instalação de um aparelho telefónico; à Companhia de Navegação «T´ông On», que transportou, gratuitamente o madeiramento pelos seus vapores «Seng Cheong» e «Hang Cheong», cujo frete seria de $ 1.846,00 (se tivéssemos de pagar); aos vapores «Chun Chao» e « Chun Li» que transportaram gratuitamente, 800 sacos de cimento e 190 vigas de pinho; à Vong Chiu que emprestou alguns reservatórios de peixe, para servir de depósitos de água; a Chu Ch´ôn Teng que ofereceu 15 barricas para encher com óleo; a Ló U pela dádiva de algumas tábuas grosseiras; ao Hotel Presidente que, no tempo da seca forneceu um dos dois carros de água por dia, por espaço de mais de dois meses; aos membros da comissão que gastaram algum dinheiro para as despesas de rick-shaw. (riquexó)
Também aproveito a ocasião para declarar que, receando que não tivesse quem quisesse tomar a responsabilidade da fiscalização das obras, incumbi Ung Fat para estar, desde a manhã até à tarde, a vigiar as obras, pelo que o gratifiquei, do meu bolso, com a quantia de $100,00 mensais, por espaço de cinco meses. Cumpre-me, outro-sim, declarar que Ung fat se recusou terminantemente a receber a gratificação que lhe quis dar e só aceitou depois de muito instado por mim, pois que eu não queria que êle arcasse com tão grande responsabilidade sem receber uma compensação.
Devo também declarar que um amigo meu, Li Io Sam, que foi por duas vezes comprar tijolos e telhas, fê-lo sem receber dinheiro para as despesas da viagem.”

(1) “8 de Outubro de 1928 – Pavoroso incêndio que vitimou a população chinesa que ocupava a aldeia junto à Porta do Cerco, sendo necessário dar alojamento a mais de 2 000 pessoas.
10 de Outubro de 1928 – Construção de 490 barracas para as vítimas do incêndio que devastou a aldeia da Porta do Cerco.”
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 2.ª Edição, Macau, 1997, 454 p . (ISBN 972-8091-11-7)
(2) 2.º mandato como Governador: Artur Tamaginini de Sousa Barbosa de 8-12-1926 a 1-02-1931
(3) Gao Kening (Kou Ho Neng) (1878-1955), conhecido como o «rei do jogo» pois dirigia as casas do jogo e também as do ópio. Em 1911, obteve uma licença para exploração do jogo “fan-tan” (7) na Rua da Caldeira. Em 1937 com Fu Lou Iong, (também conhecido como Fu Tak Iam) fundou a «Tai Hing Company» que viria a obter o exclusivo da exploração do jogo em Macau, por uma soma de 1.8 milhões de patacas por ano e assim continuaria por mais de 20 anos. Também conhecido em Hong Kong e Macau como «Rei das Casas de Penhores” por ter estabelecido muitas dessas “lojas” sobretudo nas cercanias dos estabelecimentos de jogos. (http://www3.icm.gov.mo/gate/gb/www.archives.gov.mo/en/featured/detail.aspx?id=61)
Foi condecorado pelo presidente da República General Craveiro Lopes (1951-1958) e receberia a condecoração a 28-06-1952, aquando da visita do Ministro do Ultramar a Macau. Em 1916 mandou construir uma mansão na Rua do Campo, hoje classificada como Património.
Tem uma rua em Macau, com o seu nome “Rua do Comendador Kou Ho Neng”, na Penha.
(4) Tradução do sr. António Maria da Silva, sub-chefe da Repartição do Expediente Sínico da Colónia.
(5) Em Abril de 1929, o Governador Tamagnini Barbosa partiu para Portugal para conferenciar com o Ministro das Colónias.
(6) Possivelmente Rosário e Guerreiro Fernandes
(7) Sobre o “fan-tan” ver
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/11/26/leitura-fan-tan/