Archives for posts with tag: Rio das Pérolas / 珠江 / Zhū Jiāng ou de Cantão /Chu Kiang / Tchu Kong

Livro de Joaquim Heliodoro Callado Crespo, (1) “Cousas da China, Costumes e Crenças” (2), integrado nas comemorações do quarto centenário do descobrimento da Índia, 1898.

Exemplar, na capa e contracapa, com manchas próprias do papel, com pequenos rasgões e perda de papel (mais na parte inferior da contracapa). Lombada com grande defeito. Páginas interiores em bom estado geral de conservação. Na capa, canto superior esquerdo, uma etiqueta (muito provável de uma biblioteca) com a seguinte indicação: “n.º 18 / I / 169”

Na página 3, ao lado do logo do “Quarto Centenário do Descobrimento da Índia”, (3) um carimbo “Quinta do Salgueiral A. G. Guimarães”. (4)

Livro muito curioso, um repositório sobre a sociedade chinesa, de usos e costumes da China do ponto de vista do seu autor (juízo extremamente negativo da China e dos chineses). Fundamentando-se “no estudo que temos feito do que lemos e observado e colhido”, o autor abordou muitas temáticas, como se pode observar pelo índice (pp. 281-283) tão variado:

As últimas páginas do livro, (pp. 261-280) são constituídas por um trabalho alheio, intitulado “O animismo entre os chineses”, da autoria do fundador dos estudos de sânscrito em Portugal, Guilherme de Vasconcelos Abreu (1842 – 1907; orientalista, militar, geógrafo, literato e escritor português). Na parte dedicada à “Linguagem chinesa, caracteres e imprensa” (pp. 40 -48), Callado Crespo refere o sinólogo Pedro Nolasco da Silva:

«A língua escrita, diz um synólogo nosso, o Sr. P. Nolasco da Silva, nas suas lições progressivas para o estudo da língua sínica, é lacónica e diffícil de entender; as letras são perfeitos camaleões que mudam de accepção, conforme são as outras letras com que vem ligadas, o seu valor grammatical é regulado quasi unicamente pela sua posição na oração, às vezes uma oração contém só as ideias principaes, e a imaginação do leitor tem de supprir as idéas acessorias

(1) Joaquim Heliodoro Callado Crespo (1860? 1961? – 1921) Tenente de infantaria, (oficial da marinha, segundo outras fontes), Cônsul Geral de 1ª classe em Cantão, Cavaleiro de S. Thiago, Commendador da Estrella Brilhante de Zanzibar e S. S. G. L. Além do presente livro, tem outro publicado “A China em 1900”, Lisboa: Manuel Gomes ed”  e um artigo “A Questão do Extremo-Oriente – o papel de Portugal no «desconcerto» europeu, publicado no “Ta Ssi Yang Kuo”, Vols I, pp. 587-603 e Vol II, pp. 639-654. .

(2) CRESPO, Joaquim Heliodoro Callado – Cousas da China, Costumes e Crenças.Contribuições da Sociedade de Geographia de Lisboa. Quarto Centenário do Descobrimento da Índia. Acabou de imprimir-se aos 31 dias do mez de Maio do anno M DCCC XCVIII nos prelos da Imprensa Nacional de Lisboa. 1898, 283 p., 25 cm x 17 cm. Disponível para leitura em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k375439b/f13.image

(3) Em 1898, há 120 anos, neste dia, um grande evento cultural tinha destaque na edição do DN: “a grande corrida de toiros” no Campo Pequeno. “Na corrida de comemoração do IV Centenário do Descobrimento da Índia, no reinado de D. Carlos I e com a presença do monarca e da corte num Campo Pequeno …” https://paixaoporlisboa.blogs.sapo.pt/comemoracao-do-iv-centenario-da-109759 .

Em Macau, foi publicado “JORNAL ÚNICO: Celebração do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama. Macau: N.T. Fernandes e Filhos e Noronha & Ca, 1898.” https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jornal-unico/

(4) A quinta/casa do Salgueiral fica na Rua do Salgueiral, n.º 29, uma das antigas casas senhoriais existentes em Guimarães. Segundo informações, hoje é um lar.

GOMES, José Maria Gomes – Apontamentos para a História do Concelho de Guimarães. Manuscritos do Abade de Tagilde. Notas e Comentários, In “Revista de Guimarães (Publicação da Sociedade Martins Sarmento”, 1983, n.º 93 p. 44. https://www.csarmento.uminho.pt/site/files/original/4155e04aa4d176a37b078df255b8176cab4fbf18.pdf

MORAES, Maria Adelaide Pereira de – Velhas Casas de Guimarães, Volume I. Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica e História da Família da Univ. Moderna do Porto, 2001

O livro “CHRONICA PLANETARIA (Viagem à Volta do Mundo) ” de José Augusto Correa, (1) publicado em 1904 (2) é um relato de viagem à volta do mundo que o autor começou em Lisboa, no dia 15 de Março de 1902 na estação do Rossio:

Partida da estação central do Rocio, Lisboa, às 11 horas e 6 minutos da manhã de sábado, 15 de Março de 1902. Dia esplendido e sol. Em seguida aos abraços de despedida e á grata operação de fotografar o grupo de amigos que compareceram, dissemos, o Soares e eu, um último adeus á cidade amada de Herculano. (…)

e terminou na mesma cidade, a 19 de Setembro de 1902: A 7 de setembro e ao som de hymnos festivaes que saudavam a aurora anniversaria da independencia do Brazil, (…) deixei o solo paraense para bordo do «Jerome», que em doze dias me transportou à formosa cidade de Ulysses, termo, como fôra princípio, da minha viagem circular planetária.

Exemplar encadernado, com lombada em pele, bem encadernada., mas com desgaste (contornos das capas)
Exemplar com uma dedicatória do autor numa folha incorporada antes da folha de rosto,  “offerece José Augusto Correa, Lisboa, 24 de Fevereiro de 1905

Da estadia em Macau de 20 de Junho a 22 de Junho, o autor descreve-o nas páginas 352 a 362 (III Parte- De Alexandria a Hong Kong pp. 251 a 1370)

Infelizmente das 240 fotogravuras que o livro apresenta, somente uma foto (a Praia Grande) é de Macau.

20 de Junho – Entre as três próximas cidades: Vistoria (Hong Kong), Macau e Cantão, há uma regular carreira de vapores de roda, som serviço de restaurante. Em três horas de bôa marcha, vence-se as quatro milhas que separam Hong Kong, isto é, a China inglesa, de Macau, a China portugueza.

Foi por uma tarde límpida e formosa que avistei o pharol da Guia, e a linda capellinha contigua, a alvejar por entre a ramaria. Apparece depois o bello quartel mourisco, hoje, hospital de colericos, (3) a monumental fachada de S. Paulo, os campanarios de S. Lourenço, toda a magnifica edificação da Praia Grande, d´entre a qual sobresahe o palácio do governador, e no extremo oposto o hotel-sanatorio da Boavista, elevado no meio de um caracol maravilhosamente pittoresco. Todo este conjunto impressiona encantadoramente o forasteiro que pela primeira vez aporta à cidade do Santo Nome de Deus de Macau.

O porto, d´este lado da minúscula peninsula, é inacessível a embarcações de alto bordo. É preciso dobrar a ponta da Boavista e ir fundear no porto interior, que defronta o bairro chinez. Este é extenso mas sujo, com exterior apparencia de remota antiguidade. (…)   …………………. continua.

(1) José Augusto Corrêa nasceu em Vigia (Vigia, também chamada de Vigia de Nazaré, é um município brasileiro do estado do Pará) mas passou a maior parte do tempo na Europa sobretudo em Lisboa e Paris. Era da Academia de Ciências de Portugal e editou várias obras de caráter teológico, filosófico e literário entre 1894 e 1926. Na sua obra “Crônica Planetária”, de 1902, Augusto Corrêa escreveu sobre sua passagem pela terra natal em agosto do referido ano: “22 de Agosto de 1902,- eram nove horas e meia da manhã quando pisei o sólo da pátria idolatrada, (Belém – capital de Pára) depois de uma ausência de vinte e sete anoshttps://www.culturavigilenga.com/copia-biografias

(2) CORREA, José Augusto – Cronica Planetaria (Viagem à volta do mundo), 2.ª edição. Editora: Empreza da História de Portugal, Lisboa, 2.ª edição, 1904, 514 p. Illustrada com 240 photogravuras; 15,5 cm x 21 cm

(3) O “hospital de colericos” (sic)  – Hospital (militar) de Sam Januário foi construído em 1872, destinado a militares, nunca foi quartel mourisco, nem foi para doentes com cólera. De 1896 a 1901 houve uma epidemia de peste bubónica em Macau (e arredores) e em 1902 surgiu uma epidemia de cólera em Cantão : “15-03-1902 – O B. O. acautela para a necessidade de tomar medidas preventivas face à epidemia de cólera que grassa na província de Cantão. O B. O. n.º 30 considera-a já extinta” (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia de História de Macau, Volume 4, 1977)

“O Porto Interior é formado por um braço do rio Sikiang. As províncias de Kuang-tung e Kuang-si, ou seja, os dois Kuangs são cortados em três sentidos por três rios – o Sikiang (Rio do Oeste), o Pehkiang (Rio do Norte) e o Chukiang (Rio do Este ou das Pérolas –Rio de Cantão)

O Sikiang e Pehkiang fundem-se num só ao chegarem a Sam-chui; é este que, com o nome de Sikiang, vai descendo numa linha tortuosa, recebendo afluentes e ramificando-se em numerosos braços até Mo-to, numa extensão de 57 milhas. Percorre ainda aproximadamente 9 milhas até ao Broadway, desviando-se para Macau pelo canal de Malau Chau; é um braço desse rio que forma o Porto Interior de Macau que mede duas milhas de comprimento da entrada da Barra até à Ilha Verde, medindo na sua maior largura uma milha e um quarto e meia milha na menor. A leste, Macau é limitado pelas águas do delta do rio Chu Kiang” (1)

24-02-1868 – Em Macau, nesta data, o aterro do rio, para o lado da Barra, achava-se já unido ao aterro do Pagode chinez, de modo que as povoações da Barra e Patane ficaram em comunicação pela estrada marginal (2). Miguel Aires da Silva concessionário das obras do cais e aterro, foi o homem que se abalançou à terragem da marginal do Porto Interior, ficando as obras concluídas em 4 de Março de 1881. (1)

(1) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997.

(2) «Boletim da Província de Macau e Timor», XIV-8 de 24-02-1868.

Crónicas/relato do jornalista Barradas de Oliveira, que acompanhou a viagem do Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues às províncias portuguesas da India, Timor e Macau no ano de 1952. (1)
17 de Junho – Com mar esplêndido – depois do temporal, a bonança – chegámos (no «Gonçalo Velho») a costa chinesa. Passámos através de várias ilhas que defendem Hong Kong e ancorámos na foz do Rio das Pérolas. Águas castanho-claras, espessas, desagradáveis. Próxima, a ilha de Lan-Tao. Montes escalvados, de vegetação baixa, semelhante a musgo, nas rugosidades da pedra. Outras ilhas mais rochosas e tristes. Ao longe vê-se piscar, caída a noite, o farol da Guia em Macau, o primeiro farol levantado em todo o Oriente.
A entrada na cidade portuguesa far-se-á amanhã à hora marcada. ” (p.181)
Referente a Macau, estão as crónicas do capítulo XX a XXVI, nomeadamente:
Capítulo XX – Macau – Síntese das almas chinesa e portuguesa numa cidade maravilhosa (pp. 183-190).
Capítulo XXI – Comentário breve e simples sobre o chinês (pp. 191-198).
Capítulo XXII – A sabedoria incarnada que segura as areias ou o sentido duma interpretação (pp. 199-206).
Capítulo XXIII – Em Macau até o diabo é bom (pp. 207-214).
Capítulo XXIV – Lutam leões nas ruas de Macau (pp. 215-218).
Capítulo XXV – Houve um momento em que a China esteve à beira da conversão ao cristianismo (pp. 219-230),
Capítulo XXVI – Notícias da Vida Cultural na cidade de Macau (pp. 233-245).

… Não encontramos aqui, neste agregado urbano, onde sobressai por vezes certo sentido de monumentalidade, nem grandes igrejas, nem grandes estátuas. Destas, o monumento a Ferreira do Amaral, embora vigoroso e movimentado, está prejudicado pelo pedestal e pela falta de cenário. Será de esperar que a urbanização da zona onde se encontra lhe dê enquadramento adequado. A estátua a Nicolau de Mesquita é uma brutalidade a afrontar a fachada pobre mas digna do Leal Senado.
Quanto às igrejas, confrange ver as barbaridades cometidas. Há um predomínio das pífias, lambidas, inexpressivas imagens do princípio deste século e quase total desaparecimento da forte imaginária antiga. Uma Virgem magnífica do século XVIII, da qual adivinhamos o delicado rosto amarelado e as roupagens castanho-escura, debruadas a oiro . foi restaurada em São Domingos por um amador de pintura, que a transformou num triste mamarracho azul e vermelho… (…)
(1) OLIVEIRA, Barradas de – Roteiro do Oriente. Agência Geral do Ultramar, 1953, 249 p.
Anteriores referências a este jornalista
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/barradas-de-oliveira/

Publicado na imprensa estrangeira no dia 20 de Novembro de 1916, um artigo intitulado «MACAO – MONTE CARLO OF THE ORIENT» (1) 

MACAO – «MONTE CARLO OF THE I ORIENT»
FLOURISHING FANTAN MONOPOLY
AMONGST THE CELESTIAL ADVENTURERS.

“In my China paper the following brief telegram, headed “Macao,” takes the eye:
Eleven lenders have been received for the fantan gambling monopoly for a period of five years, dating from the expiry of the present monopoly on June 30, 1917, of which six are for over 1,000,000 a year. The highjest is $1,266.660, and the lowest $610,000 a year, as compared with the present payment of $603,000 per annum.
Evidently the fantan business flourishes at Macao. But what is Macao, and what is fantan? Those who love a resounding label speak of Macao as the Monte Carlo of the Orient. M. Blanc will not he flattered, and he who has not set eyes upon Macao will not be illuminated.
Macao is to Hong Kong as Margate to London, says H. Sachen in the “Manchester Guardian.” It is some forty miles away, and a trifle further from Canton. On Sundays you may make the return trip in a day.
The river steamers are capacious and comfortable. You can eat as well aboard them as ashore, with the same excellent service of Chinese “boys”— surely the best in the world except the almost extinct old-fashioned English waiter, — and if you travel by night you may get a cabin which the P. and O. would not despise. And there are suggestions of romance. On the top deck the pilot’s quarters are walled off with steel bars, and two armed sentries tramp up and down.
The West River and the Canton River swarm with pirates—there are those who say that every dweller jby the river is a pirate when his other business is slack—and one of their pleasant devices is to come aboard as passengers and seize the ship.
I have heard British skippers —most of the ships in Chinese waters are officered by Britons —prefer the room of the armed guards imposed upon them by the Hongkong Government to their company. Down below, where the Chinese are gatherled, there are more sentries. Here .the Chinese lie with their copious belongings, packed, odorous, but well mannered. It is not odours alone you may find there. In Chinese towns there is usually some epidemic  disease. When I came back from Canton we had smallpox aboard, and I in the season you may have plague. The Chinese take such things calmly. They will use as a pillow the body of a fellow-passenger dead of plague…”          (continua…)
(1) « The Sun» Volume III, Issue 867
https://paperspast.natlib.govt.nz/newspapers/SUNCH19161120.2.45
«The Sun» jornal neozelandês sediado em Christchurch, iniciou-se em Fevereiro de 1914 e terminou em 1935 – fusão com outro jornal da mesma cidade e depois em Auckland de 1927 a 1930.
https://paperspast.natlib.govt.nz/newspapers/sun

Continuação da leitura da conferência realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 5 de Junho de 1946, pelo tenente-coronel de engenharia Sanches da Gama e publicada no Boletim Geral das Colónias de 1946. (1) (2)
………………………………………………………………………………..continua
(1) Ver anterior postagem em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/06/05/noticia-de-5-de-junho-de-1946-leitura-macau-e-o-seu-porto-i/
(2)  «BGC» XXII -253, 1946.

Parte dum mapa – carta náutica – de 1808, desenhado por Chretien-Louis-Joseph de Guignes, onde se visualiza Macau, Hong Kong  e Cantão.
Esta carta náutica (com pormenores de marcação de profundidade, tipo de fundo marítimo) mostra o estuário /delta do Rio das Pérolas  (珠江三角洲), Macau e arredores e à direita, Hong Kong com as ilhas ao seu redor (Lantau, Lamma, etc)
Este mapa encontra-se incluída no livro “Voyages a Peking, Manille et l’Île de France faits dans l’Intervalle des Annees 1784 à 1801” (1)
(1) Sobre Chretien-Louis-Joseph de Guignes que esteve cerca de 10 anos em Macau e este livro (três volumes) ver anterior postagem:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/chretien-l-j-de-guignes/

“Macau, 13 de Janeiro de 1927 (1)
… (…) … Eramos convidados do celebre cabeça Lei-lam, que há muito insistia pela minha visita, assegurando a abundância de perdizes na ilha, onde poderíamos caçar com toda a segurança até à hora do almoço que ofereceria em minha honra.
Tentado pela originalidade do convite e confiado na palavra do pirata, acedi ao pedido, saindo um belo dia de Macau com um grupo de caçadores a bordo da canhoneira Pak-tou das Alfândegas chinesas.
A certa altura do rio passámos por uma sampana de Lei-Iam, seguindo pelos enredados canais que recortam o famoso delta, transpondo barragens sobre barragens até ao cais de desembarque em Pakchiu. No cais eramos aguardados pelo filho do pirata, um verdadeiro gentleman educado na América, vestido à europeia em traje de caça, que me saudou em correcto inglês.
mapa-do-rio-de-cantao-1927-o-cruzador-republica-na-chinaUma escolta de polícias bem uniformizados e armados de pistola fazia a guarda de honra, seguindo-nos depois a distância durante todo o tempo que nos demorámos na ilha.
A caçada foi muito feliz, cabendo as honras ao Dr. Serrasqueiro Rossa, médico do República e exímio atirador.
O almoço foi uma magnífica comida china, com a indispensável sôpa de barbatanas de tubarão, ovos pôdres e outros pratos exquisitos, tudo regado com vinhos portugueses e lipum.
Depois do almoço os caçadores saíram a dar mais uma volta, mas eu fiquei com Lei-Iam que insistiu comigo para fumar um cachimbo do ópio. Ora eu que nem tabaco fumo, lá acedi às instâncias do meu hospedeiro, ficando a dormitar na cama apropriada à complicada operação.
embarcacoes-de-pesca-1927-o-cruzador-republica-na-chinaA certa altura senti que alguém me tocava. Entre-abri um ôlho desconfiado. Era o velho pirata que carinhosamente me cobria com um edredão de sêda, porque fazia muito frio.
Ficámos depois a conversar, e Lei-Iam, um dos mais temidos piratas nesta região, explicou-me que era muito amigo dos portugueses, tendo por isso dado ordens terminantes para que os seus homens não praticassem qualquer atentado contra gente de Macau. E era verdade.
(1) Um dos relatórios do Comandante em Chefe das Forças Navais Portuguesas no Extrêmo Oriente do Comodoro Guilherme Ivens Ferraz, publicado nas pp. 362-363 de:
FERRAZ, Guilherme Ivens – O Cruzador “República” na China. Subsídios para a História da Guerra Civil na China e dos Conflitos com as Potências. Academia de Marinha, 2.ª edição (fac-simile da 1.ª edição de 1932),  2006, 654 p.

A frota de Martim Afonso de Melo (1) que saíra de Malaca, em 10 de Julho de 1522, (2) com 300 homens, comandando 6 navios dos quais eram capitães ele mesmo, seus irmãos Vasco Fernandes Coutinho e Diogo de Melo Coutinho, Pedro Homem, Duarte Coelho e Ambrósio do Rego,  foi atacada no dia 23 de Setembro de 1523, por uma poderosa esquadra chinesa, no porto de Tamão, (3) pois os chineses rejeitaram as propostas de comércio e amizade do enviado de D. Manuel. Dois navios portugueses foram capturados com 42 homens, morrendo uns de ferimentos, outros de fome ou de frio, e 23 foram executados, sendo cortados em sete pedaços cada um, no dia 23 de Setembro de 1523. Aos canhões e outras armas de fogo que foram tomados deram os chineses o nome de feringuis (4) e, enviados para a  corte, serviram de modelo para as armas que os chineses passaram a fabricar para o seu uso.” (5)

MAPA alemão sec XIX - Ilha de LintinMapa alemão do século XIX mostrando a Ilha de Lintin
no meio do estuário do Rio das Pérolas

“Esta expedição é considerada como a segunda embaixada de Portugal à China. Martim Afonso de Melo Coutinho tinha instruções de D. Manuel para conseguir a amizade do Rei da China e estabelecer em Tamão, ou noutro lugar mais conveniente, uma fortaleza. Os chineses, que se encontravam ainda excitados com a embaixada de Tomé Pires, receberam tão mal os portugueses que se travou uma rija batalha naval, de novo, no porto de Tamão, onde Martim Afonso «tinha entrado, descuidadamente, e donde conseguiu escapar, a coberta da luta sobre humana travada pelo barco de Pedro Homem que, obrando prodígios de incomparável valor, conseguiu atrair sobre si toda a atenção dos chineses» até ser derrubado por um tiro «pelejou de maneira, que se o não acabara um tiro de fogo contra quem não valem um exército inteiro» …!
Martim Afonso de Melo quis vingar-se da derrota que sofrera mas foi disso dissuadido pelos seus capitães, voltando assim, antes da execução dos seus companheiros, para Malaca, onde chegou em Outubro de 1522” (1)

(1) Em 1521, D Manuel ordena a Embaixada de Martim Afonso de Melo Coutinho, recomendando ao Vice-Rei da Índia, então já D. Duarte de Meneses, que o auxiliasse. A 5-04-1521, partiu de Lisboa a frota de Martim Afonso de Melo, que D. Manuel enviara como seu embaixador à China. A frota era composta de quatro navios comandados por Martim Afonso de Melo, Vasco Fernandes Coutinho, Diogo de Melo Coutinho e Pedro Homem. Em Malaca, juntar-se-lhes-iam os navios de Duarte Coelho (cfr. 1517-15-VIII) e Ambrósio do Rego (Cfr 1522-10-VII) (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume I, 1997)
(2) Beatriz Basto da Silva refere na sua «Cronologia da História de Macau, Volume I» (1997) a data de 10 de Julho de 1522. Luís G. Gomes nas «Efemérides da História de Macau» (1954) refere a mesma notícia em duas datas: 10-06-1522 e 10-07-1522.
(3) Ilha de Tamão, (Tumon segundo Tomé Pires), Tun-mên, “Tau Mun”, ou Lin Tin , também conhecida entre os portugueses pela Ilha da Viniaga, no delta do Rio das Pérolas. Actual,  Ilha de Lingding ou ilha de Nei Lingding 内伶仃.
(4) “Assim como os nossos tiveram conhecimentos da precisa situação geográfica da China e dos seus principais portos de comércio, pelos chineses que frequentavam os numerosos interpostos comerciais da Ásia Meridional, também a novidade doaparecimento dos portugueses por essas paragens do Oriente deveria ter-se espalhado pela China, trazida por esses mesmos comerciantes e navegantes chineses, no regresso ao seu país, que adaptaram à sua língua a palavra feringue, já utilizada pelos mouros, indianos e malaios, para designar os mareantes portugueses… (…)
O termo fát-lóng-kei佛朗機, transliteração cantonense da palavra feringue, foi inicialmente, empregado para designar esse estranho espécime de gente nunca vista, de elevada estatura, costas largas, olhos profundos, nariz afilado, de barbas e cabelos compridos, louros ou acastanhados, e encaracolados, duma robustez física invulgar e de costumes diferentes dos povos que conheciam e que pretendia vir agora devassar os segredos do seu país…(…) (GOMES, Luís Gonzaga – Os Feringues in Páginas da História de Macau, 2010)
佛朗機mandarimpinyin: fó lǎngjī; cantonense jyutping: fat1 long5 gei1
(5) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954

“Era este o nome que os portugueses davam a Iquan, ou Cheng Chi-lung. (1)
Nasceu no distrito de Chuan-chow, aí por 1600. Aos 18 anos, veio para Macau, onde foi baptizado com o nome de Nicolau, do nome do seu padrinho, (2) que o tratou como filho.
Regressando à sua terra, partiu para o Japão, onde se colocou ao serviço dum rico comerciante chinês, Li Han, casando ali com a japonesa Tagawa (3). Sabendo português, foi para a Formosa como intérprete da Companhia Holandesa, cujo serviço abandonou em 1625 para se fazer pirata.
Quando Li Han morreu, (4) Iquan tomou conta da maior parte dos seus navios e da sua riqueza. Em breve, comandava 400 juncos que, em fins de 1627, se elevavam a mais de 1000. Apoderou-se de Amoy (5), e dali dominava toda a costa entre o rio Yantse e o rio das Pérolas.
O Imperador (Chongzhen 崇禎); vendo que o não podia vencer, nomeou-o em 1628, comandante da frota imperial com o grau de mandarim, com a condição de limpar os mares de outros piratas, o que ele aceitou, estabelecendo em Amoy o seu quartel-general.
Passando em silêncio as suas façanhas, (6) vejamos apenas o incidente que se deu com Macau.

IQUAN o pirataIlustração de Zheng Zhilong e do seu filho Coxinga
http://en.wikipedia.org/wiki/Zheng_Zhilong

Demos a palavra a Palafox:
«Julgo agora necessário dizer algo sobre a questão que se originou entre Icoan e os Portugueses de Macau. Ele mostrou sempre inclinação e apreço por esta cidade, onde viveu quando era jovem, quando nunca esperava ser elevado à categoria actual. Aconteceu agora um notável incidente que esteve para o levar (como ele ameaçou) a indispor-se fortemente com os seus habitantes.
A ocasião foi a seguinte: Achando-se no Japão no início da sua carreira teve lá uma filha natural, que foi baptizada e educada na Religião Católica. Quando os cristãos foram expulsos do Japão, ela fugiu e veio com eles para Macau, onde foi recebida por pessoas caritativas, que se incumbiram da sua pia educação no exercício da Religião Cristã.
Sendo informado de que a sua filha se achava em Macau, enviou recado aos portugueses para que lha mandassem, visto ser sua filha.
Estes sabiam que era o pai que exigia a sua filha, mas não julgaram conveniente enviar-lha; e a razão era que ela era cristã e ele, ainda que ele fora baptizado e fizera a sua profissão de fé, vivia agora como infiel e não tratava senão com infiéis. No entanto, quiseram examinar e considerar tão importante negócio. Para este fim, reuniram uma Assembleia de Eclesiásticos e de outras pessoas piedosas, os quais chegaram à conclusão de que se não devia restituir a filha ao pai.
Ao saber disto, Iquan lançou terríveis ameaças, de que viria e cercaria Macau com uma esquadra de 500 a 1.000 navios, que levaria a sua filha pela força, arruinaria ou extirparia todos aqueles que haviam detido a sua filha, e que desde este momento ele começaria a reduzi-los à extremidade da indigência e da necessidade, pondo final à recepção de quaisquer provisões ou comodidades da China.
Apesar de todas estas ameaças, (7) não lhe entregaram a filha, nem permitiu Deus que ele fizesse cair a cidade os flagelos que meditara».
Esta filha devia ser uma que casara em Macau com um português (ou macaense) chamado António Rodrigues, filho dum cidadão chamado Manuel Belo; ambos eles foram viver com Iquan em Anhai aí por 1640; o último acompanhou-o a Pequim em 1646, voltando depois para Anhai, onde faleceu em 1649.
Iquan tinha 300 negros ao seu serviço, sendo todos cristãos e escravos fugidos de Macau. Quando foi preso traiçoeiramente (8) pelos manchus em Amoy, os escravos opuseram forte resistência, sendo mortos uns 100 no combate. Os restantes colocaram-se ao serviço dos manchus em Cantão, onde muito se distinguiram no cerco de 1647.
O seu grito de guerra era Santiago.” (9)

(1) 鄭芝龍 Zheng Zhilong ou Cheng Chi-lung, baptizado com o nome de Nicolau Iquan Gaspar nasceu em 1604, no distrito de Chuan chow, provavelmente na cidade de Nan’an (Fujian), 820 milhas ao norte de Amoi/Xiamen.
(2) Nicolau Gaspar (???), português respeitável e rico que lhe deixou larga porção da sua herança pois morreu sem descendência. (10)
(3) Tagawa Matsu (田川松), ou Weng-shi (翁氏) (1601 – 1646). O filho de Iquan e Tagawa, nascido em Hirado (Japão), Zheng Chenggong (鄭成功 – em pinyin: Guóxìngyé (1624-1662), recebeu do príncipe de Tang, de nome Lung Wu (imperador Ming), o título de Kuohsing-yeh   (“Senhor do Apelido Imperial”), que os portugueses chamaram de Koxinga ou Coxinga. Como os Tártaros-Manchus não tinham esquadra, Lung Wu estava seguro sob a protecção de Iquan e do filho Coxinga; mas, querendo internar-se no interior, foi derrotado em Tingchow (Tingzhou) ; fugiu e morreu no cativeiro. (10)

Zheng Cheng gong Estátua de Zheng Chenggong em Xiamen, Fujian.
http://en.wikipedia.org/wiki/Koxinga

(4) Li Han e Iquan haviam favorecido em 1624 a transferência dos Holandeses dos Pescadores para a Formosa e estimularam a emigração dos Chineses para esta ilha.
(5) Amoy 廈門 Xiamen

Hans PutmansHans Putmans
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 (6) Em 11 de Julho de 1633, uma esquadra holandesa sob o comando de Hans Putmans chegou a Amoi e, dois dias depois, atacou traiçoeiramente a frota imperial sob o comando de Iquan, destruindo-a completamente dentro de poucas horas. Iquan organizou em breve uma nova esquadra de 100 navios e, aos 22 de Outubro atacou a de Putmans e, depois de afundar o navio Brouckerhaven e de capturar o Sloterdijck, obrigou os Holandeses a levantar o cerco de Amoi. Tendo perdido outros 2 navios num tufão, Putmans retirou-se para os Pescadores e Formosa. (10)
(7) Pelo contrário, mostrou-se amigo dos Portugueses e auxiliou-os no seu comércio com o Japão, levando lá nos seus próprios barcos as mercadorias de Macau. (10)
(8) Os Tártaros-Manchus prometeram então a Iquan nomeá-lo vice-rei das três províncias de Chekiang, Kwangtung e Fukien, se ele se submetesse, o que ele fez. Em 1646, o general manchu Tung Kuo-chi induziu-o a descer a terra, e quando o apanhou, traíu-o e “convidou-o” a seguir para Pequim. Pretendendo os Manchus obter a submissão da sua esquadra e dos seus sequazes, sobretudo do seu filho Coxinga, trataram-no como um príncipe; mas o filho rejeitou todas as ofertas e colocou-se ao lado do último pretendente ming, o príncipe de Kwei, mais conhecido por imperador Yung Li. Em 1648, os padres Gabriel de Magalhães e Luís Buglio foram levados de Szechevan a Pequim; Iquan visitava-os amiúde, construiu-lhes uma casa e capela, proveu-os de dinheiro, criados e alfaias.
Nem as promessas nem as ameaças dos Manchus puderam seduzir Coxinga, que em 1656 atacou Nanquim e em 1660 alcançou uma brilhante vitória naval em frente de Amoi. Os Manchus acusaram então Iquan de encorajar secretamente o filho e privaram-no de todas as honras. Reduzido à miséria, viu-se forçado a aceitar as esmolas dos Jesuítas, a quem antes favorecera. Aí por 1661, foi condenado à morte e degolado.(10)
(9) TEIXEIRA, Padre Manuel – Iquan, o pirata maroto in Vultos Marcantes em Macau.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/05/31/leitura-vultos-marcantes-em-macau/
(10) http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP280/PP280266.HTM