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Jorge Álvares morre nos braços do seu grande amigo Duarte Coelho, na tarde do dia 8 de Julho de 1521: « … e foi enterrado ao pé de hum padrão de pedra com as Armas deste Reyno, que elle mesmo Jorge Àlvares alli puzera hum ano ante que Rafael Perestrello fosse aquellas partes no qual ano que ali esteve, ele tinha enterrado hum seu filho que lhe faleceo…» (1)
« … Estando os nossos no qual trabalho em perigo, em vinte e sete de Junho de quinhentos e vinte e um, chegou Duarte Coelho em um junco seu aperecebido, e com êle outro dos moradores de Malaca. O qual, tanto que soube dos nossos o estado da terra, e como o Itau, que era Capitão-mor do Mar, os cometera já por vezes, quisera-se logo tornar a sair; mas, vendo que os nossos não estavão apercebidos pera isso, po-los ajudar a salvar, ficou com êles. E principalmente por amor de Jorge Álvares, que era grande seu amigo, o qual estava tam enfêrmo, que da chegada dêle, Duarte Coelho, a onze dias, faleceu e foi enterrado ao pé de um padrão de pedra com as armas dêste reino, que êle mesmo Jorge Álvares ali pusera um ano ante que Rafael Perestelo fêsse àquelas partes; no qual ano que ali esteve, êle tinha enterrado um seu filho que lhe faleceu…» (2)
Numa postagem anterior sobre Jorge Álvares (3) sublinhei o seguinte:
Por falar em Jorge Álvares, consta-se que foi Sarmento Rodrigues, nessa viagem a Macau, em 1952, quem mandou erguer uma estátua a Jorge Álvares. Coincidência ou não… eram ambos de Freixo de Espada à Cinta.
Ora este Jorge Álvares embora venha mencionado em muitos trabalhos como natural de Freixo de Espada à Cinta, não há documento que comprove tal facto.
Artur Basílio de Sá, autor do livro “Jorge Álvares”, (2) retrata não o Jorge Álvares (cuja naturalidade não se conhece) escrivão, por mercê do capitão de Malaca e modesto armador de um junco, primeiro europeu a aportar a China por via marítima em 1513 mas outro Jorge Álvares, este sim, natural de Freixo de Espada à Cinta, abastado mercador e capitão de um navio, homem do mar, navegador por vocação, primeiro cronista do Japão, grande amigo do padre Mestre Francisco Xavier, a quem tanto procurou auxiliar nos seus trabalhos apostólicos, pondo ao serviço do santo o seu navio, o seu saber e a sua fé de zeloso e instruído cristão.
Assim mesmo na Introdução, o mesmo autor escreve:
“Com sobejos motivos e fundamentos se interessou pois, o Sr. Comandante Sarmento Rodrigues quando ainda Ministro do Ultramar, por uma justa consagração daquele seu conterrâneo na sua vila natal. E para que naquela terra transmontana se pudesse erguer um condigno monumento ao insigne navegador dos ares do Oriente e primeiro cronista do Japão, teve intervenção decisiva e generosa o Sr. Governador de Macau, contra-almirante Joaquim Marques Esparteiro, concedendo para esse efeito um subsídio, retirado da verba destinada ao levantamento em Macau da estátua do outro Jorge Álvares, o primeiro navegador ocidental que foi à China e cuja naturalidade ainda se não conhece.”
Cita o mesmo autor: “ … no período situado entre 1511 e 1550, o nome de Jorge Álvares aparece-nos a designar alguém que desempenha ofícios vários em datas diferentes:
– Em 1511, o escrivão da nau «S. João Rumessa» chamava-se Jorge Álvares
-Em 1514, o primeiro português qua vai à China como feitor da fazenda de el-rei embarcada no junco do bendara de Malaca, chamava-se Jorge Álvares.
-Em 1518, o homem de armas que sabia a língua malaia e traduziu três cartas dos reis das Moluscas tinha igualmente o nome de Jorge Álvares.
– Finalmente, em 1548, um dos grandes amigos do Padre Mestre Francisco chama-se também Jorge Álvares., que Fernão Mendes Pinto diz ser natural de Freixo de Espada à Cinta.”
A estátua que está em Freixo de Espada à Cinta (foto anterior) é deste navegante (e não o da China) embora a escultura dele seja de Euclides da Silva Vaz (1916), o mesmo escultor que fez a estátua do Jorge Álvares colocada em  Macau (foto seguinte).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_%C3%81lvares

A estátua foi colocada frente ao edifício das Repartições, na então zona de aterro da baía da Praia Grande, a 16 de Setembro de 1954 (data do descerramento)
(1) BARROS, João de – Da Ásia (edição de 1777), Década III, Liv VI, Cap. II in KEIL, Luís – Jorge Álvares O Primeiro Português que foi à China (1513). Instituto Cultural de Macau, 1990.
(2) SÁ, Artur Basílio de – Jorge Álvares, Quadros da sua biografia no Oriente. Agência Geral do Ultramar, 1956, 143 p.
(3) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/01/07/noticia-de-7-de-janeiro-de-1514-leitura-jorge-alvares-o-primeiro-portugues-que-foi-a-china-1513/
Anteriores referências a Jorge Álvares
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/

07-01-1514 – Tomé Pires escreveu de Malaca comunicando ao Rei de Portugal que um junco da Sua Majestade, comandado por Jorge Álvares, seguiu com outros para China,  afim de buscar mercadorias, sendo as despesas compartilhadas, em partes iguais, entre El-Rei e Bemdara Nina Chatu  (1) O Capitão de Malaca, Rui de Brito Patalim escreveu também a D. Manuel, em carta datada do dia anterior (06-01-1514) sobre o envio de um junco, carregado de pimenta, na companhia de outros juncos chineses  e cinco portugueses (dos quais dois no junco pertencente ao Rei de Portugal). (1) Uma outra carta também dirigida a D. Manuel de Jorge de Albuquerque, datada de 8-01-1515, menciona o nome de Jorge Álvares nessa viagem. Jorge Álvares terá regressado da China aportando em Malaca entre Abril e Maio desse ano.

LUÍS KEIL - Jorge Álvares CAPACAPA: fotografia de Eduardo Tomé; arranjo gráfico de Gisela Viegas

A propósito de Jorge Álvares, apresento este livro : “Jorge Álvares o primeiro português que foi à China (1513)”, (2) que é uma reedição de um estudo de Luis Keil  editada em Lisboa, em 1933. Editada em 1990 pelo Instituto Cultural de Macau numa edição trilingue (em português pp. 7-19,  tradução para chinês de Qi Xin, pp. 23-34 e tradução para inglês de Marie Imelda  Macleod, pp. 37-51).
Foi Luís Keil (3), neste trabalho de 1933, quem pela primeira vez, chamou a atenção e  veio recordar, de forma definitiva, a primazia de Jorge Álvares, um português, em missão oficial, que chegou pela primeira vez à China e aí deixou um padrão do rei D. Manuel na Ilha de Tamão.
Durante muito tempo, esta glória era atribuída a Rafael Perestrelo que chegou a Cantão apenas em 1515; “este esquecimento a que o nome de Jorge Álvares foi votado é tanto mais de estranhar quanto João de Barros lhe promete uma glória imorredoira por este feito: “E pêro que aquella região de idolatria coma seu corpo, pois por honra de sua pátria em os fins da terra poz aquelle padrão de seus descobrimentos, não comerá a memoria de sua sepultura, emquanto esta nossa escritura durar… (4)
LUÍS KEIL - Jorge Álvares 1.ª páginaO Prefácio de João de Deus Ramos refere:
” …Terá também,  espera-se, a virtualidade de desfazer alguns equívocos entre o Jorge Álvares de 1513 e outras seus homónimos contemporâneos nas mesmas paragens. Finalmente , passa agora a dispor-se de um estudo difícil de encontrar em alfarrabistas e livreiros, não só pela sua raridade, mas também por ser frequentemente confundido com o livro de Artur Basílio de Sá sobre um dos “outros” Jorge Álvares….(…)
J. M. Braga escrevia, em 1955, no prefácio ao seu trabalho sobre o mesmo tema, China Landfall, 1513:for a long time, the voyage of Jorge Álvares to China in 1513 was forgotten We are indebted to Luis Keil for a excellent little study in Portuguese, published in 1933, clarifying the circumstances and pointing the way to the existence of a great deal of source material, which had to be suitably interpreted … (…)” (5)
LUÍS KEIL - Jorge Álvares Fragmento da cartaFragmento da carta de Jorge de Albuquerque, escrita de Malaca a 8 de Janeiro de 1515, dirigida ao Rei D. Manuel. Nela se lê a referência a Jorge Álvares junto à parte deteriorada ( Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Corpo Cronológico. Parte III. Maço 5, Doc. n.º 87) (2)

LUÍS KEIL - Jorge Álvares CAPA e CONTRACAPACAPA e CONTRACAPA

(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. 1954.
(2) KEIL, Luís – Jorge Álvares, o primeiro português que foi à China (1513). Edição do Instituto Cultural de Macau, trilingue (português, chinês e inglês), 1990, 51 p. ISBN972-35-0090-6; 26 cm x 18,5 cm.
(3) Luís Cristiano Cinatti Keil , (1881-1947), quarto filho de Alfredo Cristiano Keil,  (autor de “A Portuguesa” hino nacional em 1891 e aprovada em 1911), seguiu também na senda das artes tendo sido Conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, Director do Museu dos Coches e Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas Artes. Morreu tragicamente com a mulher e a única filha num desastre de automóvel, em 1947.
(4) BARROS, João de – Da Asia,  Dec. 3, 6, 2. in TORRÃO, Manuel Nunes – A China na Obra de D. Jerónimo Osório
http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas43-44/27_Nunes_Torrao.pdf
(5) Também  Christina Miu Bing Cheng no seu livro  «Macau: a Cultural Janus», na página 18, sublinha a importância da obra de Luís Keil.
MACAU a Cultural Janus p. 18MACAU a Cultural Janus p. 18 IIMIU Bing Cheng, Christina – Macau: a cultural janus. Hong Kong University Press, 1999, 238 p.
Ver anteriores referências a Jorge Álvares em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jorge-alvares/