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Artigo de C. A. publicado no jornal «A Pátria» (Macau) (1) no dia 16 de Março de 1928 e republicado no «Boletim Geral das Colónias», em Julho desse ano, sobre a Estrada Macau – Seac Kei (2)
NOTA: Um «li» corresponde a 567 m. ou seja 2/3 da milha
(1) “01-12-1925 – A Pátria, jornal diário de Macau, segue desde esta data até 30-VI-1926, com 835 números.” ( SILVA, Beatriz Basto da –  Cronologia da História de Macau, Volume 4, 1997).
Deverá ter havido erro tipográfico: a data de encerramento, não pode ter sido em 1926, pois 835 números, sendo jornal diário, daria até Abril de 1928, o que confirma a data do presente artigo – 16 de Março de 1928.
(2) A Estrada Macau –Seac Kei foi inaugurada no dia 18 de Março de 1928. Ver este acontecimento em anterior referência:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/03/18/noticia-de-18-de-marco-de-1928-a-nova-estrada-macau-seak-kei/

“Fortemente impressionada com a notícia da trágica morte do Governador de Macau (1), a Rainha de Portugal, D. Maria II (1819; rainha de 1834 a 1853) deixou patente a sua sensibilidade ao acontecimento na própria correspondência particular que mantinha com a Rainha Vitória, de Inglaterra (1819; rainha de 1837 a 1901). Eis o comentário que emocionadamente escreveu na sua carta de 28 de Novembro de 1849, generalizando o opróbrio, desde o pecador ao justo:
«Que te dirai-je de l´horrible assassinât de notre pauvre gouverneur à macao en verité ces chinois cést un peuple de la plus mauvaise por vos autres Anglais vous les connaissez bien on ne peut jamais compter sur leur parole c´est une grande perte que la mort de ce pauvre Amaral car c´était un homme très courageux et avant tout Portugais …» (in Novos Documentos dos Arquivos de Windsor)  (pp. 76-77)” (2)

Rotunda Ferreira do Amaral -1951 FOTO Lei Iok TinRotunda com a Estátua do Governador Ferreira do Amaral
Fotografia de Lei Iok Tin de 1951

(1) Assassinato do Governador João Maria Ferreira do Amaral, próximo da Porta do Cerco, no dia 22 de Agosto de 1849. Ver referências anteriores em:https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joao-m-ferreira-do-amaral/

(2) MACHADO, Herlander – Macau de ontem e de hoje. Lisboa, 1981, 173 p.

Roteiro do Ultramar Tempo Á -MáO templo da Deusa A-má

 “Parece ter sido construído nos princípios da dinastia Ming; a actual estrutura data do reinado de WanLi (萬曆 -1573-1621). Em 1828, os negociantes de Fuquiem (Fujian ou Hokkien 福建) e Taicho ofereceram mais de dez mil taéis de prata para a restauração do pagode da Barra. Este é o primeiro e principal pórtico que leva ao átrio e dali ao tempo dedicado a Neang-Má.” (1)
À entrada, dois leões de pedra, de fera expressão, terríficos e misteriosos, em esgares de ironia e crueldade como costumam ser estes leões mitológicos dos chineses, guardam, quais sentinelas, as portas do pagode (Jaime de Inso, em 1929)

 Roteiro do Ultramar Porta do CercoPorta do Cerco

 António Feliciano Marques Pereira, (2) informava que a primitiva Porta teria sido construída em 1573: «Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573,à construção da muralha e barreira do istmo, a que os nossos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap» (關閘mandarim pinyin: guan zhá; cantonense jyutping: gwaan1 zaap6).
O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória de Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de António Sérgio de Sousa (1868-1872).

 Roteiro do Ultramar PenhaResidência episcopal da Penha em Macau

A residência episcopal e a Ermida de N. Sra. Da Penha de França, ficam no topo da colina da Penha. Mais abaixo, a Gruta de N. Sra. de Lourdes. A gruta foi construída em 1908, por iniciativa do D. João Paulino de Azevedo e Castro, bispo de Macau (1903-1918), que ali foi sepultado.
Segundo se lê numa lápide, na parede da direita da Igreja da Penha, esta Igreja foi «Construída em 1934-1935 em substituição da primitiva capela edificada em 1622 e reedificada  em 1837».” (1)

Fotogravuras do livro de
GONÇALVES, Manuel Henriques – Roteiro do Ultramar. Lisboa, 1958, 131 p.
(1) TEIXEIRA,  P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997, 667 p.
(2) PEREIRA,  A. Marques – As Alfândegas Chinesas de Macau. Macau, 1870, 166 p.

Hoje 25 de Agosto de 1849, regista-se a tomada da fortaleza de Passaleão/Baishaling (1)

TA SSI YANG KUO Passaleão I O COMBATE DE PASSALEÃO (2)

 PASSALEÂO

Vinte e cinco de Agosto,
Mesquita
E trinta e dois Bravos
e fitam
A Pátria imorredoura.

Macau periga.
Quem vive?
– grita o sangue do Mártir
(Ferreira do Amaral)

Mesquita vela e sonha
-na mão a espada
a seiva de Viriato

E num golpe audaz,
fulgurante,
dispersa
a turba-multa dos chins
desordenados,
espavoridos
ante o milagre
do Heroísmo Português.

TA SSI YANG KUO Passaleão IIO COMBATE DE PASSALEÃO (2)

Porta do Cerco é padrão
Da lusa Soberania
(ergueram-no
braços possantes
de portugueses de antanho
e cimentaram-no
o sangue de Mártir
e o rasgo do Idólatra

E Passaleão simboliza
brônzeas estrofes
dum novo canto
de “Os Lusíadas”.

Elói Ribeiro In Clarim – 1950 (3)
(pseudónimo literário de Patrício Guterres, jornalista)

(1) 白沙嶺  – mandarim pinyin: bái shà líng; cantonense jyutping: baakl6 saa1 leng5 – tradução literal Pico da Areia Branca.
O macaense, 2.º tenente de Artilharia, Vicente Nicolau de Mesquita, à frente de 32 homens, tomou aos chineses o forte de Passaleão, fronteira às Portas do Cerco, vingando desta forma o traiçoeiro assassinato de João Maria Ferreira do Amaral e livrando a cidade do ataque projectado por milhares de chineses que a bloqueavam do lado do istmo (GOMES, L. G. – Efemérides da História de Macau).
Pedro Paulo do Rosário, soldado cafre, barbeiro do seu batalhão e Vitorino do Rosário foram os primeiros soldados a escalar o Forte de Passaleão, tomado por Vicente Nicolau de Mesquita em 25-08-1849. Quando viram um soldado preto no muro, os chineses fugiram espavoridos crendo ser o demónio.
Mais referências  a este incidente, ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/vicente-nicolau-de-mesquita/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/08/15/panoramas-de-macau-de-189/  
(2) Os dois quadros foram retirados de “Ta-Ssi-Yang-Kuo, Vol. I”.
São fotogravuras de P. Marinho de “ Fac-simile muto reduzido de quadros em aguarela do Barão do Cercal”
(3) Retirado de REIS, João C. – Trovas Macaenses. Macau 1992, 485 p + |9!

Apontamentos de uma viagem de M. Pardal, relatado em «Mosaico», Vol. XVI, nº 74 a 76, 1956.

“… A bordo do ”Tjibadac” está tudo desperto, trabalhando-se afanosamente. Trata-se do transbordo para a “Tak Shing”, um dos muitos barcos que fazem as carreiras diárias para Macau.
Temos também de tratar da mudança, pois já não é nada cedo para o fazer.
Tudo em ordem e à hora marcada iniciamos a última etapa da nossa grande viagem da nossa grande viagem.
Decorreram cerca de quatro horas. À direita descortinamos o grupo das “Nove Ilhas”. Lá ao longe, à esquerda, temos a ilha de “Lap Sap Mei” , fronteiriça a Coloane, tendo a separá-las a Rada, local onde costumam ancorar os navios de longo curso, cujo destino é Macau.
O “Tak Shing” ara lestamente as águas, pondo-nos sob as vistas os pontos mais elevados da nossa cidade.
A colina da Guia mostrando-nos a verdura das suas árvores policromadas graciosamente como florido viçoso da época, sulcada por duas estradas que a fazem parecer uma enorme e alongada metade de óvano duas vezes seccionada. No cume do lado sul ergue-se majestosamente alvo de neve o seu farol sempre pronto, desde longos tempos, a prevenir a marinhagem. Do sopé emergem alguns edifícios de moderna arquitectura, como que tentando a chamada a futura construções que se alongarão até às muralhas do Porto Exterior. Este estende os seus molhes, alguns de pedra solta, como gigantescos braços abarcando as águas.
Um pequeno colo e segue-se, na direcção da Praia Grande, a Colina de S. Gabriel, (1) onde o moderníssimo Hospital Conde de S. Januário honra a nossa engenharia, os serviços de saúde e a boa administração portuguesa em terras ultramarinas.
O Miradouro de D. Maria, com uma espécie de latada beiroa, toma os ares típicos das terras portuguesas do coração do país. No sopé da sua pequena escarpa estende-se como uma enorme eira de desconformes dimensões o depósito de água doce, abastecedor da cidade.
Como que espreitando por detrás de D. Maria, de olhos atentos à Porta do Cerco, mal se descortina por entre o seu arvoredo a Fortaleza do Monte de Mong Há.
Mais para lá, banhada pelo rio Cantão, ergue-se a Ilha Verde recamada por frondosa ramagem em alegre verde, certamente sua madrinha, ligada à península desde ao último quartel do século passado por um istmo, hoje pejado de pequenas moradias destinadas às classes menos protegidas.
Agora é S. Paulo do Monte que nos surge com a sua secular muralha de cor cinzenta, a qual parece estar segurando dentro de si os edifícios recentemente reparados e que outrora constituíam abrigo aos guerreiros destemidos e capitães gloriosos sempre titânicos perante os inimigos da paz. Um pouco para oeste podemos ser as ruínas de S. paulo, igreja que as línguas de um inclemente incêndio reduziram à sua fachada principal, uma relíquia do nosso passado nesta paragens ….
…………………….continua.

(1) Creio que é engano, trata-se da Colina de S. Jerónimo.

“Neste dia se nos ofereceram à vista as ilhas de Macau na latitude boreal de 21 graus 10´e, se bem que por ali vagueavam muitas embarcações, não pudemos chegar à fala com alguma, porque, possuídas todas de mêdo do pirata Coxinga, que por ali fazia amiudadas sortidas, ao avistarem qualquer navio maior já se julgavam presa dele, e punham-se em fuga.
Em 16, passando em frente da cidade de Macau, o mais célebre empório de toda a China, observámos a sua posição, quanto do mar e de longe era possível.
Situada numa pequena ilha que se une a outra maior, ocupa esta cidade um monte que surge do mar e do mar está rodeado por todos os lados, excepto pelo norte em que se vê um istmo.

Resumo Hx Macau Eudore Colomban 1927 Muralhas e Porta do CercoAntiga muralha no Istmo e Porta do Cêrco

Daqui provém que se reputa inexpugnável dos inimigos, tanto pela natureza do lugar, como pelo do mar que a rodeia.
É êste de pequena profundidade e por isso inacessível a maiores navios, excepto por aquela parte por onde se vai ao pôrto, cuja entrada é defendida por uma fortalez seguríssima.
Em parte alguma da China há mais cópia de peças de artelharia de bronze, as quais são fundidas de metal chinês e japonês, espalhando-se depois por toda a Índia com grande lucro.
Da parte do continente, avistam-se dois castelos para repetir qualquer invasão por terra.
Nem arvoredos nem matos se vêm ali por toda a extensão que os olhos alcançam. Foi, em antigas eras, consagrado o lugar em que se acha agora a cidade ao ídolo Ama; e, como os chins dessem ao ancoradoiro o nome de Gau, chamou-se a cidade Amagau e daí, modernamente, Macau.
Edificada por portugueses, com permissão dos chineses, tornou-se bem depressa um empório muito florescente, porque nela desembarcam as mercadorias europeias, comprando-as os chineses com grande lucro.
Acresce a isto a faculdade, que também obtiveram, de ir duas vezes ao ano às feiras de Cantão; daí vem todos os anos, para Macau, grande quantidade de mercadorias chinesas.” (1)

(1) Relato de viagem de John NienhoffVoyages and Travels into Brazil and the East Indies (1640-71); with Descriptions of the Countries, the People, and Products. Churchill, Vol. II.

John Nieuhoff (holandês) entrou para a Companhia das Índias Ocidentais em 1640 como comissário de bordo encarregado da venda da carga e em 23 de Agosto de 1653 embarcou em Amesterdão para o Oriente integrado na Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Tradução deste trecho in
COLOMBAN, Eudore de. Resumo da História de Macau. Macau, Tipografia do Orfanato da I. C., 1927, 148p.

 

Travou-se vivo tiroteio entre uns 70 grevistas chineses abrigados por entre as sepulturas e montículos da zona neutra e os soldados portugueses da guarnição da Porta do Cerco, por estes terem salvo a tripulação de duas pequenas embarcações que, alvejadas pelos grevistas, tinham procurado refugiar-se, nas nossa águas e desembarcado na Areia Preta. (1)

Porta do Cerco 1926Porta do Cerco, c. 1927

(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.