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Versos na língu maquista, “Laia-laia, Rabusénga”, (1) como classificou o próprio autor, José dos Santos Ferreira (Adé), (2) publicado neste dia, 7 de Dezembro de 1963, no Jornal «Gazeta Macaense», a propósito de uma visita de um grupo de macaenses a Lisboa. (3) 

(1) Laia-laia, Rabusénga – De várias espécies; Ninharia (bagatela)

(2) Ver anteriores referências em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-dos-santos-ferreira/

(3) Retirado de FERREIRA, José dos Santos – Macau sã Assi, 1967, p. 80

ÚNDE TA VAI, QUIRIDA?

Macau di nosso coraçám,
Alma di nosso vida,
Únde vôs ta vai, quirida,
Assi metido na iscuridám?

Qui di candia pa lumiá vôs?
Quelê-môdo vôs pôde andá?
Cuidado, nom-mestê tropeçá!
Vôs cai, nôs cai juntado co vôs.

Macau di rosto tristónho,
Únde têm vôsso alegria?
Quim já suprá vôsso candia
Largá vôs na treva medonho?

Ventania fórti ta zurní,
Tempo ta fazê coraçám esfriado;
Na fugám, fôgo apagado,
Amôr tamêm pôde escapulí.

Nom-têm calôr, bom-têm luz
Mâz fé sã nom-pôde falta.
Dios Misericordios logo achá
Unga Cirineu pa vosso cruz!

Verão portuguesa:
ONDE VAIS, QUERIDA

Macau do nosso coração,
Alma da nossa vida,
Onde vais, querida,
Tão cercada de escuridão?

Onde está a vela para te alumiar?
Como podes caminhar assim?
Cuidado, não tropeces!
Caindo tu, cairemos todos contigo.

Macau de semblante tristonho,
Onde para a tua alegria?
Quem foi que te soprou a vela
E te deixou nessas medonhas trevas?

Fustigam ventos fortes
E o tempo vai arrefecendo o teu coração;
Com o fogo apagado na lareira,
Até o amor acabará por sumir.

Não há calor, não há luz,
Mas fé não poderá faltar
Deus Misericordioso descobrirá
Um Cirineu para a tua cruz!

FERREIRA, José dos Santos – Poema na Língu Maquista, 1992

Um poema da Professora Graciete Batalha, em “Língu Maquista” sobre o progressivo desaparecimento das lorchas nas águas de Macau, em finais da década de 80.

Ai mar di Macau sem Vela!

Onde foi teu velejá?
Qui saiã vela tam bela,
Cor di azul, rosa, amarela,
Deitando a sombra na mar! …

Hoje tancá nã qué vela,

Pressa, pressa, as lorchas nua …
Antigo passa tambela,
Em frente di eu-sa janela
As vela, em noite di lua ! …

Hoje nem lua nem estrela,

Nem sol vê elas passa …
Onde qui Macau é ela
Sem boniteza di vela
Sem borboleta na mar? …

             Gracieta Batalha (1)

Anteriores referências à Professora Graciete Batalha em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/graciete-batalha/
(1) Da Sampana ao Jactoplanador, Da Cadeirinha ao Automóvel. Correios e Telecomunicações de Macau, 1990, 114 p.

Vigário-geral, bispo, monsinhôr,
Uvidór, providôr, providôr-mor,
Conselhéro, juiz, governadôr,
General, capitám, alféris-mor,
Sã ancuza qui vôs, otrora, têm
Quelê tránto, na tempo di grandeza.
Gente co alma suzo cavá vêm,

Pá comecá rosário di tristeza.

Passá tufám, na céu tempo abrí,
Mar brando certo logo vêm na trás,
Unde ta bom, têm mósca vêm zuní,
Azinha mostrá quim sa más capaz.
Quelora vôs torná ergui cabéça,
Ta vai diànti co bom vento suprado,
Demónio corê, rená ma-peça,
Fazê vôs, Macau, terá cobiçado.

Nhu-nhúm di tudo casta di ofício
Chapá força na ora di perigo;
Co juda di Sám Juám, na sacrifício,
Já pinchá fora tudo inimigo
Pimpám qui lembrá vêm tomá Cidade.
Macau quirido, vôs más una vez
Já dá mostra qui sâ vosso vontade,
Pa sempre continuá chám portoguês.

José dos Santos Ferreira, 1983

ACTUALIZADO EM 06-05-2020: são três oitavas (XII, XV e XVI) do “POÉMA DI MACAU“, publicado em 1983, pelo Leal Senado com o título de “Poéma di Macau“. O poema é composto por XXII oitavas e encontram-se nas páginas 33, e 35 deste livro

Macau sã divera têm su chiste;
Têm ora, quele bom pandegá,
Têm ora, vêm co estória triste,
Fazê nôs cucús, sentá churá.

Gente bom co grándi coraçam,
Sã nosso Macau têm quelê tanto;
Nhum mau, capaz rasteja na chám
Ramendá cobra, tamêm têm quánto.

Cobra virá ficá camaliám
Sã têm, pa mal di nosso pecado;
Quelóra nôs andá, vizá chám,
Cobra na arvre ta pindurado.

Desenho de Leonel Barros

Má-língu co má-língu juntá,
Sã língu co língu ta dá nó;
Tagaláng qui ilôtro cortá,
Lô cai fino-fino, fica pó.

Têm gente bom, têm cachorro-china,
Atirá pedra, iscondê mám …
Quelóra nôs ta dobrá esquina,
Cachôro fuzí, rabo na chám.

Têm nhum campiám pa fazê intriga,
Más capaz qui nhónha aringuéra;
Botá mascra, vendê su cantiga,
Balí bêço, papiá babuzéra.
…………………………………………..…………continua.

José dos Santos Ferreira
Qui-Nova Chencho, 1973 (1)

(1) Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2016/12/13/lingu-maquista-dos-filo-filo-di-macau/

Natal qui´iou más lembrá,
Qui más guardá na coraçam,
Sã quelora quiança, tentá
Pesépio, rezá …
Rezá com devoção.
 
Jesus, masqui dormido,
Sinti ta´uvi iou-s´oraçam,
Ta abri Su úvido
Uví … p´alegrá más unga coraçam.
(Repetir)

José dos Santos Ferreira
Poéma Di Macau, 1983

NOTA: para ser cantado ouvindo «WHITE CHRISTMAS», aconselho a voz de Bing Crosby: https://www.youtube.com/watch?v=ZZO5r_5GmtQ

Faleceu em Hong Kong no dia 24 de Março de 1993, José Santos Ferreira (Adé). (1)
José Inocêncio dos Santos Ferreira, nasceu a 28-07-1919. Foi com a idade de 7 anos que começou a aprender as primeiras letras. Matriculou-se em 1931 no Liceu mas devido a falta de dinheiro para as propinas escolares frequentou até ao 5.º ano. O seu primeiro emprego foi na Repartição das Obras Públicas como amunuense recebendo apenas algumas dezenas de patacas. Cumpriu o serviço militar obrigatório de 1939 a 1940 mas devido à Guerra Sino-nipónica e à Guerra do Pacífico foi forçado a prestar o serviço militar mais alguns meses. Foi chefe de secretaria do Liceu. Trabalhou na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau apór reformado.
Quando trabalhou no Liceu colaborava com jornais de Macau como por exemplo: “Notícias de Macau”, o “Clarim”, “Gazeta Macaense”. Foi um grande desportista praticando várias modalidades em especial o hóquei no Campo de Tap-Seac. Além disso tomava parte nas representações no Teatro D. Pedro com diálogo em patuá. Foi Mesário da “Santa Casa da Misericórdia de Macau”, director do “Club de Macau”, presidente do “Rotaty Club de Macau”. Condecorado com a medalha de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique em 1979” (2)

JARDIM ABENÇOADO
Nôsso Macau, terá sánto
Sã unga jardim bendito
Co fula di más bonito,
Semeado na tudo cánto
 
Tudo fula são abençoado,
Pôs Dios j´ajudá semeá
Gente antigo regá
Co lágri adocicado.
 
Coraçám, triste, chorá,
Almá fica margurado
Si têm gente mal-prestado
Dessá fula cai, muchá.

Macau sã casa cristám
Qui Portugal já ergui;
Tudo gente vivo aqui
Têm fé na su coraçam.
 
Olá fé co amor juntado,
Sã cuza Dios más querê …
Vôs ne-bom disparecê,
Macau, jardim abençoado
José dos Santos Ferreira (3)

(1) Ver anteriores referências a este grande promotor das récitas em Patuá, além de praticante e dirigente desportivo em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-dos-santos-ferreira/
(2) BARROS, LeonelHomens Ilustres e Benfeitores de Macau, 2007, pp. 103-105.
(3) Poesia em dialecto macaense, primeiro poema do livro “Macau Jardim Abençoado” com poesia e prosa em “língu maquista”, publicado em 1988, pelo Instituto Cultural de Macau. Capa de Ung Vai Meng. O livro está dividido em duas partes. A 1.ª parte, os textos são no dialecto macaense e a 2.ª parte,  os textos são em português.
FERREIRA, José dos Santos – Macau Jardim Abençoado. Instituto Cultural de Macau, 1988, 181 p.

“MACAU. JARDIM ABENÇOADO é um livrinho simples e despretensioso, como o são, afinal, a terra de sonhos e o bom povo de quem fala. Tudo que há nele, página a página, de verso em verso, foi ditado pelo coração, escrito com o amor que Macau nos inspira em todos os momentos e actos da nossa vida.
         Macau cristã
         Minha única riqueza,
         Meu tudo na vida…
O maior bocado deste volume é apresentado na doce “língu maquista”, esse aliciante dialecto antigo criado pelos nossos maiores e que constitui, sem dúvida, uma das mais características tradições desta terra repassada de glórias e sentimentos cristãos, bem orgulhosa da Pátria que jurou amar para todo o sempre…” (“Aos leitores” na pág. 9) (3)

KUNG HEI FAT CHOI
FELIZ ANO NOVO CHINÊS
中國農新年快樂
HAPPY CHINESE NEW YEAR

macau-b-i-t-viii-11-12-jan-fev-1973-ano-novo-chines-iChegá ano-novo china,
Nôs ta fica alucinado;
Sai rua, dobrá esquina
Clu-clú pa tudo lado.

China bulí chaminica,
Gritá «Nhónha, ióga, ióga»!
Nôs encosta na botica.
China goelá «Ábli, ióga»!

Sês-pique, sete-cavéra,
Nádi sai si nôs temá;
Nhum já dá co dôs asnéra,
Virá costa gurunhá.

Versos de “Macau di tempo Antigo” de José dos Santos Ferreira in «Qui-Nova Chencho», 1972
macau-b-i-t-viii-11-12-jan-fev-1973-ano-novo-chines-iiFotos do Ano Novo Lunar de 1973 (Boi).

Poema/letra de José dos Santos Ferreira (1) para a melodia “Lisboa Antiga” (2)

Macau sã terá galánte
Di quanto-cento papiaçam,
Tánto nhu-nhum qui cholido,
Têm nho-nhónha tentação;
Macau sã terá galánte,
Têm ora inchido di consumiçam

CORO
Uví, nho-nhónha,,
Más bom sã nôs vai divertí,
Usá ´nga saia míni, míni,
Dessá  ilôtro … bispá;
Qui pôde, tud´ora vai malinguá,
Sentá na casa murúm qui murúm,
Pa rabujá nhu-nhúm.
 
Macau já fica qui jóvi,
Co laia-laia inventaçam,
Na rua nad´olá buraco,
Na casa têm televisám;
Macau já fica qui jóvi,
Pulá macaco
Qui quebrá su chám.

CORO:
Uvi, nho-nhónha (etc)

Macau, já fica janota,
Um-cento Bánco ta abrí,
Na meo di mar têm unga pónti,
Casarám ta ergui;
Macau já têm su pelota, Têm unga fónti
Pa nôs diverti.

CORO:
Uvi, nho-nhónha (etc)

Canção “Lisboa Antiga

Lisboa, velha cidade,
Cheia de encanto e beleza!
Sempre a sorrir tão formosa,
E no vestir sempre airosa.
O branco véu da saudade
Cobre o teu rosto linda princesa!

Olhai, senhores, esta Lisboa d’outras eras,
Dos cinco réis, das esperas e das toiradas reais!
Das festas, das seculares procissões,
Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!

Lisboa, velha cidade,
Cheia de encanto e beleza!
Sempre a sorrir tão formosa,
E no vestir sempre airosa.
O branco véu da saudade
Cobre o teu rosto linda princesa!
 
Olhai, senhores, esta Lisboa d’outras eras,
Dos cinco réis, das esperas e das toiradas reais!
Das festas, das seculares procissões,
Dos populares pregões matinais que já não voltam mais!

Versão de Hermínia Silva (1958)
https://www.youtube.com/watch?v=ClEt3wuRW6g
Versão de Amália Rodrigues de 1953 ?
https://www.youtube.com/watch?v=P-T2orgTBcE
Versão de Carlos Galhardo (1956)
https://www.youtube.com/watch?v=irFTDw0QRFc
Versão de Gloria Lasso de 1957
https://www.youtube.com/watch?v=iJtsWxi12As
Versão de Ray Conniff de 1961:
https://www.youtube.com/watch?v=iXpM85Mdxxs
(1) FERREIRA, José dos Santos – Qui-Nova Chencho. Impresso na Tipografia da Missão do Padroado, Macau, 1973, 210 p. p. 108.
(2) “LISBOA ANTIGA” – música de Raul Portela (1889-1942) e letra de José Galhardo e Amadeu do Vale. Estreado por Hermínia Silva em 1932, na revista “Pirilau” no Teatro Politema. A versão de Amália Rodrigues e a sua inclusão na banda sonora do filme “Lisbon” (3) contribuíram para o sucesso internacional. A versão instrumental de “Lisboa antiga” (“Lisbon Antigua“) foi número um nos E.U.A., na versão de Nelson Riddle em 23 de Fevereiro de 1956 e aí se manteve durante quatro semanas, tendo no total ficado 24 semanas no Top.
http://portugal-mundo.blogspot.pt/2009/02/sucesso-internacional-de-lisboa-antiga.html
(3) Ver anterior referência a este filme “Lisbon” em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/11/14/folheto-de-cinema-teatro-vitoria-ix-lisbon/