O Pe. Francisco de Sousa (1) descreve Macau em 1563
« Haveria nesse tempo na cidade de Macau novecentos Portugueses, além de um grande número de Cristãos da terra, que davam larga matéria ao exercício de nossos ministérios (2). Frequentavam-se  os Sacramentos de oito  em oito, ou quinze em quinze dias. Nos Domingos e dias santos   acudiam à doutrina perto de mil escravos, com os quaes se fez muito fruto. Casaram-se algumas órfãs e muitos Cristãos da terra, que de largo tempo viviam em pecado. Embarcaram-se para a Índia mais de quatrocentas e cinquenta escravas de preço: e na última nau que partiu para Malaca, se embarcaram ainda duzentas, que eram as mais perigosas e as mais difíceis de se lançarem fora (3). E este foi um dos maiores benefícios que se fez a Deus pela grande soltura que havia naquele vício. Porém muito melhor  fora casá-las no mesmo país do que mandar inficionar a Índia com esta peste, que se muda de clima, nem por isso melhora de procedimentos. Compram os Portugueses esta droga em várias Províncias do Oriente, como na China e Bengala, com o pretexto de as fazerem Cristãs e depois as trazem aos nossos portos, onde são de pouca utilidade à bolsa de seus senhores e não sei se de maior prejuízo àss almas. Apenas tem hoje os Portugueses na índia um pão para comer, e cada um sustente em sua casa um convento de mulheres com título de tangedoras e músicas e com outros ofícios excusados, que causam  riso e talvez escândalo aos  Holandeses muito mais ricos e com tudo mais parcos e modesto no serviço doméstico de suas famílias . Os Ofícios da Semana Santa se fizeram com muita devoção e majestade, e o que mais admirou os chinas foi a procissão da madrugada da Ressureição. Estavam as ruas custosamente armadas. parecia a igreja Matriz um paraíso. Levou o Santíssimo o P. Luís Fróis (4) à petição do Vigário (5) . Soava muita quantidade de chamarelas, flautas, violas  de arco, pífaros e tambores, a cujo som floreavam com muito ar e graça esgrimidores de montantes e outras várias danças e folias.
               Iam por ordem na procissão seiscentas tochas, além de inumeráveis luzes do povo, que a acompanhava o Santíssimo. Estavam as meninas pelas janelas com grinaldas nas cabeças e salvas de prata nas mãos cheias de rosas e redomas de água rosada, que lançavam por cima do pálio, e da gente, que passava. Os Chinas gentios, assim naturais d Ilha, como da terra firme de cantão, seguiram à pompa até às portas da igreja e pasmaram de ver tanta gente ouvir o Pregador com tanto silêncio: e quando entravam na igreja para ver o concerto dela e as Imagens se punham de joelhos, beijavam a terra e levantavam as mãos para o Céu » (6)

(1) Francisco de Sousa, padre, nasceu no Brasil, cidade da Baía, em 1649 e morreu em Goa em 1712. Religioso da Companhia de Jesus, que integrou aos catorze anos, em Lisboa, em 1665 partiu para Goa onde fez os seus estudos de Letras, Filosofia e Teologia. Por ordem do padre-geral da Ordem, Tirso Gonzalez, empreendeu a narração dos trabalhos dos jesuítas no Oriente, de que publicou dois volumes em 1710 com o título de Oriente conquistado a Jesus Cristo pelos Padres da Companhia de Jesus da Província de Goa. E desta obra a curta citação que se inclui e que refere a primeira embaixada ida de Macau a Chaoquim, em 1582.
http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP263/index.htm
(2) Ministérios dos jesuítas
(3) Destas escravas índias e malaqueiras proveio a primeira geração de macaenses.

(4) A 10-08-1964 o Leal Senado atribuiu o nome de Rua do Padre Luís  Fróis, S. J. à Calçada do Governador, que liga a Rua Central à Rua da Praia Grande, restituindo-lhe o nome que tinha outrora.
(5) O Vigário era o Padre João Soares, que exercia em Macau o ofício de provisor ou delegado do bispo de Malaca.
(6) P. Francisco de Sousa, Oriente Conquistado, Pt. I, conq. IV, parágrafo 38.
Citado pelo Padre Manuel Teixeira em “Macau através dos séculos“. Macau-Imprensa Nacional, 1977, 87 p

NOTA: Existem várias edições desta obra desde  a de 1710 (Valetim da Costa Deslandes, 2 vols., 30 x 20 cm, Vol 1 895 p. / Vol 2 646 p.) até ao mais recente:
SOUSA, Francisco de (Int Manuel Lopes de Almeida) – Oriente conquistado a Jesus Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da província de Goa.  Porto, Lello & Irmão, 1978,  26 cm, 1351 p.
Trabalho sobre Francisco de Sousa disponível na net
«Francisco de Sousa Y su Oriente Conquistado» de Eduardo Javier Aloonso Romo (Universidad de Salamanca) em:
http://www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga29/arqs/matraga29a05.pdf