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No dia 11 de Julho de 1940, foi descoberto por dois religiosos lazaristas irmão Chala Maia e José Van Den Brandt, no cemitério de Ching Lung Ch´iao de Pequim, o túmulo de João Correa (Correia), que, morreu por acidente, da explosão de uma peça dum dos 4 canhões que Macau enviou ao Império Ming em 1624 (1) respondendo ao pedido de auxílio do próprio imperador. A pedra sepulcral fora destruída pelos boxers, em 1900, e os ossos foram removidos pelos dois lazaristas para uma nova sepultura. (2)
Em 1621,Pelo menos 3 e no máximo 10 canhões e pessoal para os manusear foram enviados de Macau à China para combater os Manchus. Devem ter sido 7 portugueses (3) entre os quais João Correa, (4) que morreu na expedição e foi enterrado na China.  Foram chamados pelo Imperador Tianqi 天啓(1621-28) (5) para ensinar artilharia em Pequim, embora esta fonte proponha a data de 1624. (6)
Pouco depois chegou à corte de Pequim um português chamado Gonçalo (ou Gonçalves) Teixeira vindo com embaixada e presente da cidade de Macau, o qual, vendo a insolência dos tártaros e o temor dos chineses, e julgando prestar serviço o reino de Portugal a favor a si, por qualquer coisa que lhe pudesse fazer ao rei da China, ofereceu aos mandarins, em nome da cidade, alguns portugueses para auxiliar contra os tártaros. A oferta agradou e o Conselho de Guerra despachou, então, o padre da Companhia, padre João Rodrigues (7) para que desse despacho a este negócio (8)

MAPA DA TARTÁRIA de J. Hondius, 1606

O Padre Semedo, S. J. que data este último episódio em 1622, refere:  “Preparam-se em Macau, 400 homens, sendo 200 soldados, entre eles muitos portugueses de cá outros de lá. A maioria era gente do país, mas não obstante chineses, nasceram, em Macau, e foram criados, a seu modo, entre portugueses, sendo portanto, bons soldados e grandes atiradores de espingardas maioria portugueses mas também alguns chineses, educados em Macau.” (7)
Semedo afirma ter visto em Nan-Tchâng o grupo expedicionário quando se dirigia a Pequim. Levaram como interprete o Padre João Rodrigues, S. J., da Província do Japão, (8). Esta expedição de socorro ao mandarim não terá sido feita de uma vez, pois há relatos de pedido em 1630. (9)
(1 ) Luís Gonzaga Gomes (2) refere esta data, 1624; Beatriz Basto da Silva (6) indica 1621; Álvaro Semedo – 1630 (8) e outros: 1622 (3).
(2) GOMES; Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(3) BRETSCHNEIDER, E – Mediaeval Researches from Eastern Asiatic Sources: Fragments Towards the Knowledge of the Geography and History of Central and Westen Asia from the 13th to 17th Century, Volume 2, 1888 ( reimpressão em 2000) p. 328.
https://books.google.pt/books?id=UQT_AQAAQBAJ&pg=PA328&lpg=PA328&dq=china+review+Bretschneider+1621&source 
(4) Sete artilheiros comandados por Pedro Cordeiro e António Rodrigues do Campo. Da explosão além da morte de João Correia, morreram três a quatro chineses. O manuseio dessas potentes armas de fogo deram origem a momentos dramáticos. Os militares chineses não estavam preparados para as usar.(8)
(5) Xizong 熹宗  (1605-1627),  16.º imperador da dinastia Ming com o nome de imperador Tianqi 天啓 (1620-1627)
https://en.wikipedia.org/wiki/Tianqi_Emperor
(6) SILVA, Beatriz Basto – Cronologia da História de Macau, Volume i, 1992; e Volume 4, 1997.
(7) O interprete Padre João Rodrigues, S. J., da Província do Japão, já visitara a China em 1612 com o intuito de conhecer as seitas idólatras da China, sobre as quais apoiavam as do Japão.
(8) SEMEDO, Álvaro – Relação da Grande Monarquia da China (tradução do italiano por Luís G. Gomes), I Vol, 1956, pp.262-266.
(9) “16-08-1630 – Foram eleitos seis adjuntos que deveriam tratar com o Senado sobre o pedido feito pelo Imperador da China, solicitando o envio de gente de guerra e armas, para a luta contra os tártaros”. (6) (8)

Eudore de Colomban 1927 - Porto Interior e parte leste da Ilha da LapaAos 6 de Outubro de 1644, Passou o Tequessy huma chapa p.ª a terra da sepultura do P. João Rõis conforme o despacho q ja tinhão dado em Cantão o Chayem, e outros Mandarins grandes, e o de Ansão. Esta chapa era p.ª a terra q defronte da Ilha Verde para dentro de parede nova: porem depois se tomou por melhor lugar para os Mandarins o dar e o pe do Monte de Oitem junto a ribeyra dagua.
Aos 26 de Outubro sendo reitor deste Collº (de S. Paulo), o Padre Gaspar de Amaral se tomou posse a 1.ª vez levantando quatro entenas com letras que dizião esta terra deo o Chayem em nome do Rey da China p.ª sepultura aos Padres de S. Paulo.
Passados alguns dias se acharão tiradas as entenas. E aos 18 de Abril de 1645 se tomou posse em forma arvorando huma cruz no monte que fica ao Leste da Ribeyra, e se tratou de cortar pedra, em virtude da chapa do Tequessi. A cidade repugnou e os Pes. sobrestiverão athe vir o Pe. Francisco Sambiasi (1) q trouxe de Kankim ordê do Rey para poder dar algumas terras devolutas e incultas; e assim em nome do sobretido rey deu terra de Oitê  (Oitem) (2) p.ª sepultura do Pe. João Rois (3), q tinha feito grande serviço ao Rey da China, como também ao Pe. Manuel Pereyra (4) a Ilha que chamão dos Bugios, e a António de Mesquita (5) huma terra q está defronte da Cidade. Tambem Oitem se nos tinha dado em virtude de outro despacho do Tutão de Cantão o anno de 1644 em agracem.to de huma peça de artelharia q cõ licença do Capitão geral tinha levado da parte do P. Reitor desta Collº o mesmo P. Sambiasi ao Tutão para se defender dos levantados. Esta fazenda se largou em 1728…” (6)
Luís G. Gomes e Beatriz Basto da Silva (7) apontam duas datas para este mesmo acontecimento.
“Em 18 de Abril de 1596, foi formalmente tomada posse na Ilha da Lapa, em Oitem, dum terreno que o Imperador da China concedeu para nele se construírem as sepulturas dos padres de S. Paulo (daí também o nome de ilha dos Padres)” e
“Em 6 de Outubro de 1644, as autoridades chinesas concederam um pedaço de terreno em frente da Ilha Verde para nele ser sepultado o padre João Rodrigues, mais tarde,  em vez desse terreno deram outro em Oitem na Ilha da Lapa.”
António Feliciano Marques Pereira em «As Alfândegas Chinezas de Macau» aponta  também o ano de 1645,  para a perpétua confirmação da posse  dada pelo imperador Shunzhi (terceiro imperador da dinastia Qing e o primeiro imperador Qing a governar toda a China),  a título de renumeração dos serviços que prestara em Pequim o padre João Rodrigues. (6)

Ta-Ssi Yang-Kuo MAPA Macau e ilhas próximas 1889MAPA- MACAU E ILHAS PRÓXIMAS
Ta-Ssi-Yang Kuo, Vol I-II, 1889-1900

(1) Francisco Sambiasi (Francesco Sambiasi -Bi Fangji 畢方濟) nascido em Cosenza, Calabria, em 1582; chegou a Macau em 1610 e faleceu em Cantão em Janeiro de 1649.
Even as late 1645, one year after the death of the last Ming emperor, the Jesuit Father Francisco Sambiasi arrived at Macao from Nanjing with further requests for Portuguese military aid in exchnage for new Ming concessions. The Portuguese iniciatives to send military aid and auxiliaries to assist Ming forces were clearly an attempt to stalilise any further deterioration in Portuguese relations with the Ming. Wittingly or unwittingly, the Portuguese were embroiled in the internal politics in the dynastic transition between the Ming and the Qing.”
ZHANG Yongjin  – Curious and exotic encounters: Europeans as supplicants in the Chinese Imperium, 1513-1793 p. 64pp. in SUZUKi, Shogo;; QUIRK, Joel – International Orders in the Early Modern World: Before the Rise of the West. Routledge, 2014, 214 p.
Anterior referência a este jesuíta em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/12/12/noticia-de-12-de-dezembro-de-1643-envio-de-artilheiro-para-cantao/
(2) Oitem ou Oiteng fica na Ilha da Lapa, em frente das Ilhas do Bugio (Ma-lao-chau)
(3) João Rodrigues nascido em Sernancelhe, diocese de Lamego em 1561; missionou no Japão de 1580 a 1610, ano em que foi expulso devido ao incêndio e afundamento do navio português Madre de Deus em Nagasaki e voltou para Macau (onde tinha sido ordenado sacerdote);  em 1630 acompanhou a expedição militar portuguesa a Pequim; faleceu em Macau a 1 de Agosto de 1633. Escreveu o primeiro dicionário de japonês-português e a primeira gramática da língua japonesa. É conhecido no Japão por João Rodrigues Tçuzu (o Intérprete).
(4) Manuel Pereira nascido no Lugar da Cruz, Portugal, em 1637; chegou a Macau em 1667 e faleceu em Xangai a 18 de Maio de 1681.
(5) António de Mesquita Pimentel foi governador/capitão-geral de Macau (1685-1688). Mais informações em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/07/05/noticia-de-5-de-julho-de-1685-novo-governador-de-macau/
(6) TEIXEIRA, Padre Manuel –Taipa e Coloane, 1981. Também pode ser consultado em
http://www.library.gov.mo/macreturn/DATA/PP27/PP027073.HTM
(7) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954; SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 1., 1997.
FOTO do livro COLOMBAN, Eudore de – Resumo da História de Macau, 1927.