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«B. O. do Governo da Província de Macau e Timor». XLI-4 de 25 de Janeiro de 1895

Faleceu em Macau no dia 19 de Janeiro de 1895, o 1.º e único Barão de Assumpção/Assunção (título criado por D. Carlos I em 6-5-1890), João Corrêa Paes D´Assumpção. (1)

“Ordem d´Armada” de 30 de Junho de 1846
«Annaes maritimos e coloniaes», n.º 3, p. 26.
Lista dos “ Officiaes da Fazenda d´Armada, segundos aspirantes”
«Almanak estatistico de Lisboa»,  Volume 1, 1848, p. 39.

Oficial da Armada, esteve em Macau pela 1.ª vez como comissário da corveta «Infante D. Henrique», voltando novamente em 1854, quando fixou residência em Macau.

«The Directory & Chronicle for China, Japan, Corea, Indo-China, …,» 1868.

Durante largos anos foi contador/secretário  da Junta da Fazenda Pública de Macau, Timor e Solor. Foi também 1.º oficial do Corpo dos Oficiais e superintendente da fiscalização da importação e exportação do ópio em Macau,. Em 1891 foi arrolado como um dos 40 maiores contribuintes de Macau.

Cemitério de S. Miguel
http://www.macaneselibrary.org/PublicE-o/p37.htm 

Encontrei esta nota curiosa de felicitação ao comendador por se ter livrado da cegueira do olho direito após tratamento do tratamento duma conjuntivite!

«O Correio Macaense» VI-15 de 24 de Maio de 1889

(1) João Corrêa Paes D´Assumpção (Paço de Arcos 1825 – Macau 1895) foi cavaleiro (1865), comendador da Ordem Militar de Cristo (ordem honorífica portuguesa que herdou o nome da extinta Ordem de Cristo (1834), cavaleiro da ordem de N.ª Srª da Conceição de Vila Viçosa (1888) e cavaleiro da Real Ordem do Cambodja. Foi também cônsul do Brasil (1892)

«Bol. Gov de Macau» XII-9 de 26-02-1866

Dados biográficos recolhidos de FORJAZ, Jorge – Famílias Macaenses, Volume I, 1996,p. 293.

Pequena notícia publicada no Anuário de Macau de 1922, em português, francês e inglês,  retirada do «Bulletin Commercial d´Extrême-Orient»,  acerca do comércio do ópio. Informava que sete oitavas partes do ópio importado na China traziam etiquetas provando que o ponto de partida e da produção é Osaka e não Macau, como tinha sido injustamente atacado, nomeadamente a nível da «Association International contre l´Opium»
Recorda-se que Portugal esteve presente, em Dezembro de 1920, na constituição da chamada a «Comissão do Ópio» abreviatura da internacional «Comissão Consultora do Tráfico do Ópio e Outras Drogas perigosas». Dali resultaram duas conferências em 1924  onde não se chegaram a uma conclusão sobre a maneira de suprimir a produção ilegal do ópio. Só em 1927 foi concluída o “Regulamento do tráfego do ópio e seus derivados”). A situação económica de Macau estava muita boa no período de 1918 a 1921 devido sobretudo ao rendimento do exclusivo do ópio e a aplicação do regime sobre o regulamento de 1927 foi aplicado em Macau em Julho desse ano. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 4)

Memorial (Relatório) do cirurgião-mor Domingos José Gomes, (1) de 6 de Outubro de 1822, enviado ao Senado «Sobre as enfermidades que mais cometem a tropa de Sua Majestade»
Tabes ou convulsões dorsais – vulgo tísicas – , obstruções e cirroses, tanto do fígado, como do mesentério, vício sifilítico ou gálico, hidropisias, ascites, algumas disenterias e finalmente febres que,  relativamente às moléstias acima ditas, são poucas.
Do continuado alimento de peixe, ora salgado, ora fresco, mariscos, continuamente adubados de grande quantidade de açafrão, pimentos e muitas espécies aromáticas e calefacientes, que só por si depravam as túnicas do estômago e conseguintemente, alteram os sucos digestivos tão essenciais à digestão … O excessivo uso de um vinho que os chinas extraem do arroz e que o vulgo, em razão dos seus estragos, chama «fogo», tão acre e tão corrosivo que arruína e dá cabo em poucos meses do indivíduo mais valente que a ele se aplique. Principia por obstruir-lhe as entranhas do baixo ventre, reduzindo-o absolutamente e tornando-o até incapaz do serviço mais leve, quando não termina, como mutas vezes observei, por uma rápida e violenta hemoptise, que em breve conduz o paciente à morte …
A incontinência, que se pode considerar como um efeito ou corolário das premissas acima declaradas, é, também, outra não menos fatal à tropa, pelo continuado estímulo da comida tão condimentada e a bebida excitante, impelindo à satisfação das suas paixões carnais, contrai com a maior facilidade o vício gálico e às vezes duma natureza tal que, resistindo ao mais bem ideado tratamento, conduz muitos dos doentes à sepultura …” (2)
(1) Domingos José Gomes exerceu o “serviço de cirurgião-mor das tropas que guarnecem a cidade” conforme o requerimento que apresentou em 1803 para a concessão da respectiva carta-patente.
O Major Comandante da unidade – Manuel da Costa Ferreira declarava: «ter ele cumprido com toda a satisfação, por espaço de 6 meses … em que mostrou todo o zelo e actividade no Real Serviço, curando não só de cirurgia, mas também de medicina … por isso merecendo toda a confiança e contemplação de que se faz digno … »
“Em consequência do fracasso na revolução liberal de 1822, em que figurava no número dos pronunciados, logo a seguir ao chefe do movimento – o tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa – após essa data, nada mais aparece referente aquele assíduo funcionário, (Domingos José Gomes) que por lá trabalhou, activamente, pelo menos 19 anos.
Só o Ouvidor Miguel de Arriaga, em ofício de 8 de Março de 1823, para informar sobre alguns indivíduos, escrevia:
Domingos José Gomes, português, europeu, cirurgião que era do Partido da Cidade e que para obter foi necessário demitir o que então servia. Homem solteiro, a quem  se permitiu deixar o Partido para melhor fazer o seu comércio no tráfico do anfião, onde foi admitido como qualquer dos outros Moradores aqui estabelecidos.  Foi tão abonado na Real Presença pelo abaixo-assinado que, em 20 de Julho de 1814, mereceu ser condecorado como Hábito da Ordem de Cristo. O seu génio desconfiado, pouco quieto ou grato, não é a um só conhecido … (2)
Domingos José Gomes, refugiou-se em Cantão, em 23 de Novembro de 1823, após a queda do Governo Constitucional (a Constituição foi jurada no Leal Senado em 1822) juntamente com os liberais Fr. António de S. Gonçalo Amarante, o editor de “A Abelha da China” (órgão do partido constitucional) e João Nepomuceno Maher.
(2) SOARES, José Caetano – Macau e A Assistência, 1950, pp. 109.

14-09-1880 – Esta madrugada, pelas duas horas, uma lancha dos postos fiscais chineses fez fogo contra um sampá com carga de ópio, que ia tripulado por dez chineses e navegava pela costa norte da Ilha de D. João. Os chinas do sampá saltaram em terra abandonando a embarcação que foi tomada pela lancha.
Pelas 4 horas, tenho eu sabido que o ataque tivera logar tao próximo da ilha e no sítio denominado “Vai Cap Siac”, e que alguns soldados da lancha andariam na montanha em perseguição dos tripulantes do sampá, embarquei com dois soldados do destacamento e oito remadores com o fim de ir prender os soldados do mandarim.
Quando dobrava a ponta da ilha, vi fundiadas, a uma distância de 100 metros de terra, duas lanchas dos postos fiscais, as quais levantaram logo ferro e seguiram a toda a força em para Macau-Barra, e a outra a Bugio, levando esta a reboque o sampá roubado. Saltei em Vai Cap Siac a fim de procurar os soldados da alfândega chinesa, mas foi-me dito ali, por alguns tripulantes do sampá, a quem encontrei na montanha, que os soldados já tinha retirado não tendo conseguido lançarem mão de nenhum dos seus camaradas.
Consta-me que ficaram feridos dois dos tripulantes da embarcação do ópio”. (1)

MAPA da COLÓNIA DE MACAU, década de 40 (século XX)

O ofício foi enviado (2) pelo Alferes José Correia de Lemos que foi nomeado a 5 de Maio de 1879, Administrador do Concelho das Ilhas (substituto) e Ajudante do Comandante Militar e passou a efectivo a 25 de Agosto de 1879. Seria substituído em 14 de Janeiro de 1890 pelo Capitão José Maria Esteves.
Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jose-correia-de-lemos/
(1) TEIXEIRA, P. MANUEL – Taipa e Coloane, 1981.
(2) O Governador a quem se dirige era Joaquim Joze da Graça – 28 de Novembro de 1879 a 22 de Abril de 1883.
Anteriores referências em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/joaquim-jose-da-graca/

Extraído de «BGC» XIV – 180, 1938.

Apresento o livro: “O Jardim do Encanto Perdido – Aventura Maravilhosa de Wenceslau de Moraes no Japão”, que começou a ser escrito por Armando Martins Janeiro (1), em Tokushima , em 1 de Julho de 1954,  dia da inauguração do monumento a Wenceslau de Moraes, e acabado de escrever em Tóquio, em Novembro do mesmo.

A edição original foi de 300 exemplares, “em papel arroz japonês, ilustrada com estampas a cores gravadas, por meio de blocos de madeira, em papel especial japonês, na Adachi Hanga Kenkyujo, de Tóquio, e impressa na tipografia Yoshikawa-do, de Tokushima, e na tipografia da Livraria Simões Lopes, do Porto. Foram publicados vários capítulos no jornal «O Comércio do Porto», onde Wenceslau de Moraes deu a conhecer, também em folhetim, a mais importante parte da sua obra” (extraído última página do livro)
Da parte interior da contra-capa retiro o seguinte:
SOBRE ESTE LIVRO: O Jardim do Encanto Perdido
Até hoje houve apenas um ocidental que se passou para o modo de vida oriental e que nos deixou o relato da sua invulgar experiência – foi o português Wenceslau de Moraes. Moraes foi viver para o Oriente, para o Japão, com o simples propósito de encontrar a felicidade, depois de se convencer que o sistema europeu perdeu o sentido fundamental da vida, se afastou do espírito essencial da obra da criação. Desiludido dos ideais do Ocidente, abandonou a sua carreira de oficial de Marinha e de cônsul ´, a família, a sua terra, por outro ambiente social e outros ideais, que lhe pareceram mais sãos e mais conformes à natureza humana. Moraes foi a primeira vítima da atmosfera de frustração e descrença em si mesma que invadiu a Europa já antes da primeira guerra mundial.. (…)
A pedido dum japonês, o próprio Wenceslau de Moraes traça a um ano antes de morrer a sua biografia, e em relação a Macau refere (in pp. 43-44)
De Macau visita repetidas vezes a China e o Japão. Com o lugar de imediato acumula outros cargos: é inspector da importação e exportação do ópio por um ano; é professor de língua portuguesa no Seminário de São José. Aluga uma casa que mobila, cuidadosamente, «descendo às minuciosidades». Gosta de observar os vizinhos chineses na sua lida diária, o formigueiro humano que passa na rua, dos garotos, das mulheres, dos vendilhões, dos mendigos. Com a sua predilecção pelas ciências naturais, vai plantando o seu jardim, madrugador, «passando as manhâs num cómico afã de jardinagem». Tem um companheiro, um cão chinês, Kowloon.
Começa Já a escrever impressões da vida de Macau, do que vê nas curtas visitas à China, pequenas histórias extraídas do que, no espectáculo que o cerca, lhe encanta os olhos ou lhe comove o coração sensível. Tem um grande amigo em Macau, o poeta Camilo Pessanha, a quem dedica as «Paisagens da China e do Japão».
Nas suas viagens ao interior da China, que nunca levou muito longe, poor terra, ou no seu barco, vai conhecendo o povo e a sociedade, que o repelem pela promiscuidade e mau cheiro das imundícies…(…)
Em 1898 teve um enorme desgosto na sua carreira – foi preterido no preenchimento da vaga de Capitão do porto de Macau por um oficial de patente inferior à sua. Orgulhoso e sensitivo como era, nºão quis ficar, como imediato, debaixo da autoridade do coelga menos qualificado. Surgiu-lhe a ideia do Japão, que desde há muito o atría. Pede ao Governo que o nomeie Cônsul no Japão. O pedido é atendido.Em 1899 vem instalar-se em Kobe.

Wenceslau de Moraes ajoelhado sobre as esteiras de palha de arroz (tatami), ao lado do braseiro (hibachi), como um japonês. Em frente, a caixa de fumar (tabako-bon) , onde se põe o tabaco, o lume sempre aceso e o delgado cachimbo japonês (kiseru)

(1) Armando Martins Janeiro viveu três anos no Japão, (como Primeiro Secretário de Legação em Tóquio, de 1952 a 1955; viria posteriormente a exercer funções de Embaixador de Portugal em Tóquio, de 1964 a 1971), visitou lugares e conversou co pessoas que conviveram  com Moraes, na pequena cidade de Tokushima, e reuniu grande número de documentos e escritos inéditos, de fontes japonesa e portuguesa.
Ver anterior referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/armando-martins-janeiro/
JANEIRO, Armando Martins – O Jardim do Encanto Perdido – Aventura Maravilhosa de Wenceslau de Moraes no Japão, Manuel Barreira-Editor, Porto, 1956, 245 p. + XCIX anexos “101 Bilhetes Postais Ilustrados de Wenceslau de Moraes”
Traduzida para japonês uma versão resumida – Yoake no Shirabe (Em Busca da Madrugada) – a que se juntaram os estudos Lafcadio Hearn e Wenceslau de Moraes – Dois Intérpretes do Japão e Bases Ocidentais e Orientais para um Humanismo Universal; tradução de Minako Nonoyama, Katsura Shobo, 1969.

“…Paremos, agora, em frente dum nebuloso aspecto da China: o fumo do ópio!
O ópio é um polvo imenso, cujas raízes se estendem por todo o Mundo. A êle andam ligados interesses que representam milhões; o ópio é um dos grandes mistérios da China. Não tentemos devassa-lo, mesmo que seria inútil; basta que dêle observemos um aspecto e tenhamos uma idéia, tal como nós é transmitida através da tela impressionante e trágica – podemos dizer – que representa o interior dum fumatório de baixa classe. Na tela, do lado esquerdo, vê-se a entrada para um fumatório de classe superior.
Nunca fumei ópio; as primeiras tentativas são desagradáveis, causam um malestar parecido como o enjôo do mar.

Fausto Sampaio “Fumatório de Ópio”, Macau, 1937

O mal do ópio, que tão bem se revela nos fácies das vítimas representadas nesta tela, não pode ser debelado duma forma radical e imediata, – o assunto tem sido regulado por conferências e acordos internacionais – mas o governo da China tem-se mostrado incansável na repressão dêste terrível vício, e a Colónia de Macau , vítima escolhida para permanentes quão injustos ataques, sempre que se trate de campanhas contra êste estupefaciente – como se todo o ópio que se consome na Terra fosse produzido e exportado da minúscula Macau ! – a Colónia tem cumprido escrupulosamente o estipulado naqueles acordos internacionais.
O ópio fabricado em Macau, é muito apreciado no Oriente, e, tal como sucede com o vinho do Pôrto, sofre da fraude das imitações, havendo uma marca – a marca Leão, que se vende em pequenas caixas – que é a mais usada pela gente do mar, que tem tido muitas imitações, andando muito espalhada, e êste é um motivo a juntar a muitos outros, porque se atribuem a Macau culpas no negócio do ópio que não lhe cabem.
Excerto de uma conferência de Jaime do Inso denominada “Quadros de Macau” in Fausto Sampaio, Pintor do Ultramar Português. Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1942, 182 p.
Anteriores referências a Jaime do Inso, e ao pintor Fausto Sampaio, ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jaime-do-inso/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/fausto-sampaio/