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Extraído de «BGPMTS»  I-34 de 9 de Junho de 1855 p-135

O procurador era Lourenço Caetano Cortela Marques mais conhecido pelo nome de Lourenço Marques (1811-1902). (1) Exerceu o cargo de Procurador do Leal Senado de 1851 a 1856 e de 1859 a 1865; em 1865 foi eleito vice-presidente do Leal Senado e em 1871 Presidente do mesmo

(1) Anteriores referências a este Macaense em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/comendador-lourenco-marques/

Hoje, 17-04-2020, o «Jornal Tribuna de Macau» noticia(1) que “O Corpo de Polícia de Segurança Pública encontrou uma réplica de canhão numa obra de canalização, no Porto Interior. A obra já foi suspensa. Funcionários dos Serviços de Alfândega, Instituto para os Assuntos Municipais e Instituto Cultural já estiveram no local para avaliar a situação.”

De Macau, informam-me que o “achado” foi localizado na Zona do Patane. O canhão estará relacionado com o Forte do Patane (também conhecido como Palanchica) ? E/ou às docas de embarcações que existiram nessa zona? (2)

Pormenor de Mapa de Macau Vista da Lapa de «Ou-Mun Ke- Leok, 1979» p.97

O forte estaria situado perto da Calçada da Palanchica, (3) na pequena elevação do Patane, junto à capela dedicada a Sto. António? (Igreja de N.S. do Amparo?)  e tinha como “missão” proteger a cidade de uma invasão do Continente. Segundo Jorge Graça (4), o forte tinha “3 plataformas, cada qual provida de uma peça de artilharia. O acesso à esplanada superior era efectuado por meio de uma escada que a ligava com a de baixo. Estava ligado à fortaleza de S. Paulo (5) por uma secção da muralha Nordeste da cidade, na encosta ocidental da colina de S. Paulo e ao Porto Interior por outra secção desta muralha. Não é conhecida a data certa da sua construção, mas parece ser a mais antiga das fortificações do Macau primitivo. Estava provido com peças de artilharia retiradas dos barcos de comércio do Japão. Foi demolida juntamente com a muralha da cidade que ligava a fortaleza de S. Paulo ao Porto Interior em 1640 por exigência chinesa.

Segundo Padre Teixeira, o chamado Forte da Palanchica sobre o montículo de Patane não tem História, “ porque os únicos documentos que encontrou sobre Patane: ambos afirmam que se construiu um muro que ia desde S. Paulo a Patane e se tentou construir um forte neste lugar, mas gorou-se esta tentativa devido à oposição chinesa.”(6) Esta também foi a opinião do historiador Ljungstedt: (7) «Parece que em 1925 se tentou construir um forte num lugar chamado Patane a fim de ligá-lo por meio duma cortina com o Monte. Mas os chinas fizeram um tal resistência que se abandonou a obra, e a cortina mudou-se em muro do Jardim, que se estende até um braço do Porto Interior»

Era nessa zona designada por Patane ou Chão do Campo dos Patanes ou Campos de Patane que “corria um importante veio de água potável (Ribeira do Patane), suficiente não só para dessedentar a povoação mas ainda para o fornecimento da aguada aos juncos e mais barcos de cabotagem que já concorriam ao porto. Era por isso a zona que servia não só para abrigo e aguada, mas também servia de doca para reparação das naus da carreira do Japão, ou naus da prata, enquanto aguardavam a monção para prosseguir viagem. A Ribeira do Patane veio com o andar do tempo, após o inquinamento completo das suas águas pelas várzeas que o foram marginando, a converter-se num colector de esgoto que ainda não há muitos anos se via a descoberto e que era conhecido pelo canal de San Kiu” (6)

Planta de Macau, anónimo, Pedro Barreto de Resende no Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidade e Povoações do Estado da Índia Oriental de António Bocarro, c 1635

(1) https://jtm.com.mo/local/breves-1220/

(2) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/ribeira-de-patane/

(3) As obras efectuadas na zona do Patane e Tarrafeiro em 1868 acabaram com o labirinto de becos e travessinhas da Palanchica. https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/travessa-da-palanchica/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/palanchica/

(4) GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau, Concepção e História. ICM, 1985, p.99

(5) “D. Francisco Mascarenhas, governador de Macau (1623-1626) mandou construir uma muralha de 500 barças, que se estendia desde a Fortaleza de S. Paulo ao Patane. Os Chineses objectavam que, estando esta muralha voltada para a China, era contra eles que se dirigia e não contra os inimigos de fora, e, por isso, exigiram a sua demolição. Mascarenhas opôs-se, mas o Senado cedeu às exigências chinesas e revoltou-se contra o governador em Outubro de 1624 e demoliu essas 500 barças de muro em Março de 1625. D. Francisco Mascarenhas, para evitar efusão de sangue, engoliu em seco esta amarga pílula” (6)

(6) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997, pp. 36-37

(7) https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/andrew-ljungstedt/

Neste dia, 27 de Julho de 1862 (ver também anterior postagem de 27-07-2012) (1) perderam-se 40.000 vidas em Cantão, Hong Kong, e Macau, devido a um horrível tufão.
Retirei este extracto – descrição do temporal e os estragos – do «Boletim do Governo de Macau», VIII- n.º 35 de 2 de Agosto de 1862.

Extraído do Boletim da  Prov. Macau e Timor XIII – 40 de 7 de Outubro de 1867.

A espaldas ressoava
A ressaca
Do assédio:
Exausta
Na muralha
Errática
Do império

José Augusto Seabra (1)

POSTALSecção das Antigas Muralhas de Defesa
Foto de Kenneth Lei

Postal da colecção “Macau Património Mundial” da Associação dos Embaixadores do Património de Macau, editado por ”Create Macao Co. Limited”. Comprado em Abril de 2015 na Casa do Mandarim.
(1) SEABRA, José Augusto – Poemas do Nome de Deus. Instituto Cultural de Macau, 1990.

Artigo publicado no «Notícias de Macau» por Luís G. Gomes (1)
(1) Reproduzida depois no «Boletim Geral das Colónias», Ano XXIV, Maio de 1948, n.º 275 pp. 216-218.

Continuação da publicação das fotografias deste pequeno álbum (1)

“SOUVENIR DE MACAU” 

Souvenir de Macau 1910 Estrada do Hospital MilitarESTRADA DO HOSPITAL MILITAR

 “Military Hospital
From forts it is an easy transition to the Military Hospital of San Janario, which, erected in 1873, is built on a most commanding and healthy site fronting the sea. It is on the slope of the hill, just below the old fort of San Joao and just above the San Francisco Barracks, being one of the first objects that the visitor to Macao sees from the deck of the steamer. It is named after the Viscount S. Januario, a former Governor of the Colony, during whose term of office it was built, the former military hospital being in the old Convent of San Augustino. The site was that of an old gunpowder manufactory. The model for the construction of the building was the Hospital of San Raphael in Belgium.
It cost $38, 500, and covers 75 metres by 34. The building consists of a main body facing the sea with several wings running back from it. In the front are the Entrance Hall, the porter’s Lodge, the Quarters for the Chief Hospital Attendant and his Assistant, and the stairs to the Secretary’s Office in the upper story. In the Northeast part there are apartments for the Physician, the Chaplain, a room containing surgical instruments, the Dispensary, and the ChapeL while in the South-west portion of the building there are Quarters for the Officers, Bath-rooms, and the Linen Stores. The upper storey contains the Committee Room, Secretary’s Office, and the Director’s Office. The wings contain Surgical and other wards for Sergeants and Reserved Ward, Accountant’s Quarters, and a Hall for Surgical Operations, Cells, and Quarters for Military Servants.
The Mortuary, Room for Post Mortem Examinations and Room for the Collection of Soiled Linen are in a separate building some four or five metres distant from the main building and still further distant in the same direction is the Guard House. There is a garden to the South-west for the use of convalescents and there is also a tower for an Observatory. (2)

Souvenir de Macau 1910 Hospital MilitarO HOSPITAL MILITAR

 Tivemos ocasião de observar o inteligente aproveitamento das ruínas da muralha, para consolidar os vastos taludes que limitam a esplanada e as suas estradas que circundam o outeiro. Estes taludes também estão recobertos por uma vegetação própria para dar coesão às terras, e cortados por sulcos convenientemente dispostos para o escoamento das águas, de modo que a perfeição da obra não tem nada a temer da impetuosidade das chuvas. Do alto da esplanada descobre-se uma das vistas mais extensas e formosas de que é possível gozar em Macau” (3)
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/artes/
(2) BALL, J. Dyer – Macao: the Holy City,  the Gem of the Orient Earth, 1905
(3) Parte do artigo de Henrique Carvalho na Gazetta de Macau e Timor in TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Vol II, 1997.

“25-09-1828 – Os Chineses de Mong-há foram proibidos, por edital do mandarim da Casa Branca, de atirar pedras às casas vizinhas e ao Forte de Sto António e de cometer distúrbios para exigirem a abertura das Portas do Campo, antes do tempo determinado, as quais há mais de dois séculos, eram abertas às 5.00 horas da manhã e fechadas às 20.00 horas, conservando-se as chaves em poder do Governo.” (1) 
«tendo vós já cometido hum semelhante atentado; os cabeças das ruas, terão todo o cuidado de prender os infractores desta minha ordem, e remeter ao Mandarim. Cso-Tam, para os castigar: os cabeças das ruas, q. forem cúmplices neste crime, serão tbm rigorosamente castigados; e os soldados, q. estiverem de vigia às Portas, não poderão motivar desordem, q. deverão então ser castigados » (Arquivo da Procuratura)» (2)
(1) GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau.
(2) TEIXEIRA,, Pe. Manuel – Toponímia de Macau,  Volume I.
O objectivo das muralhas da cidade, que quase circundavam a primitiva cidade, tinham como função principal proporcionar forças defensivas com capacidade de resistir a um assalto directo da infantaria inimiga. Também protegiam a cidade durante a noite, oferecendo segurança contra os piratas e bandos de assaltantes que infestavam os arredores de Macau.
Estas muralhas estavam fornecidas de duas portas.
A do lado Nascente, perto da actual Igreja de Sto. António, chamava.se porta de Sto. António ou Sto. Antão, enquanto que a de Sudeste, perto da Igreja de S. Lázaro, era conhecida por porta do Campo. Estas portas estavam fechadas à noite, abrindo-se e fechando-se às mesmas horas. Na porta de Sto. António existia um posto alfandegário.”
GRAÇA, Jorge – Fortificações de Macau. Concepção e História.

“Neste dia se nos ofereceram à vista as ilhas de Macau na latitude boreal de 21 graus 10´e, se bem que por ali vagueavam muitas embarcações, não pudemos chegar à fala com alguma, porque, possuídas todas de mêdo do pirata Coxinga, que por ali fazia amiudadas sortidas, ao avistarem qualquer navio maior já se julgavam presa dele, e punham-se em fuga.
Em 16, passando em frente da cidade de Macau, o mais célebre empório de toda a China, observámos a sua posição, quanto do mar e de longe era possível.
Situada numa pequena ilha que se une a outra maior, ocupa esta cidade um monte que surge do mar e do mar está rodeado por todos os lados, excepto pelo norte em que se vê um istmo.

Resumo Hx Macau Eudore Colomban 1927 Muralhas e Porta do CercoAntiga muralha no Istmo e Porta do Cêrco

Daqui provém que se reputa inexpugnável dos inimigos, tanto pela natureza do lugar, como pelo do mar que a rodeia.
É êste de pequena profundidade e por isso inacessível a maiores navios, excepto por aquela parte por onde se vai ao pôrto, cuja entrada é defendida por uma fortalez seguríssima.
Em parte alguma da China há mais cópia de peças de artelharia de bronze, as quais são fundidas de metal chinês e japonês, espalhando-se depois por toda a Índia com grande lucro.
Da parte do continente, avistam-se dois castelos para repetir qualquer invasão por terra.
Nem arvoredos nem matos se vêm ali por toda a extensão que os olhos alcançam. Foi, em antigas eras, consagrado o lugar em que se acha agora a cidade ao ídolo Ama; e, como os chins dessem ao ancoradoiro o nome de Gau, chamou-se a cidade Amagau e daí, modernamente, Macau.
Edificada por portugueses, com permissão dos chineses, tornou-se bem depressa um empório muito florescente, porque nela desembarcam as mercadorias europeias, comprando-as os chineses com grande lucro.
Acresce a isto a faculdade, que também obtiveram, de ir duas vezes ao ano às feiras de Cantão; daí vem todos os anos, para Macau, grande quantidade de mercadorias chinesas.” (1)

(1) Relato de viagem de John NienhoffVoyages and Travels into Brazil and the East Indies (1640-71); with Descriptions of the Countries, the People, and Products. Churchill, Vol. II.

John Nieuhoff (holandês) entrou para a Companhia das Índias Ocidentais em 1640 como comissário de bordo encarregado da venda da carga e em 23 de Agosto de 1653 embarcou em Amesterdão para o Oriente integrado na Companhia Holandesa das Índias Orientais.

Tradução deste trecho in
COLOMBAN, Eudore de. Resumo da História de Macau. Macau, Tipografia do Orfanato da I. C., 1927, 148p.

 

Praia Grande 1840 O Panorama

“O pequeno territorio que occupâmos em Macáu tem uma legua escaça de comprimento, e meia legua ainda mais escaça na maior largura: uma muralha de pedra ensôssa, collocada n´uma língua de terra distante das portas da cidade, marca os limites do terreno chamado portuguez, que com todo o ciume e vigilancia são guardados pelos chins, o que não é dado a europeus ultrapassar, salvo em auxílio para apagar fogos, conduzindo agua e instrumentos adequados. Tanto da parte do norte como da do sul é murada a cidade; daquella tem sahida para o campo de S. Paulo do Monte; pela outra a limitam dois fortes os qaues a cavalleiro se vê a ermida de N. S.ª da Penha, que já foi fortificação. Outros tres fortes defendem a bahia e entrada do porto; n´uma alcantilada montanha, fóra das mencionadas portas, apparece o forte de N. S.ª da Guia dominando o mar e todo o espaço adjacente. Um extenso caes, chamado praia-grande, da parte de leste, em frente da bahia, offerece uma morada aprazível, pois alem da vantagem da posição é ventilado pelas aragens refrigerantes no verão, e resguardado das furias das nortadas no inverno.”

Parte do artigo extraído de “Macau – Commercio do Anfião”, s/ autor, in “O Panorama”, 1840.

Destaques a “bold” da minha autoria.