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A propósito da celebração, hoje, da Festa do «Bolo Lunar» “Ut Peang” (月饼) – 15.º dia da 8.ª lua do calendário lunar chinês, quando a lua está no seu apogeu, mais redonda, clara e brilhante, retiro do artigo “A Festa da Lua em Macau” o seguinte: (1)

Bolo Lunar – 2018

“Segundo uma lenda milenária, a Lua, YIN (陰), princípio feminino, submete-se ao princípio masculino, o Sol, YANG (陽) neste dia. Por isso, não há noite nesta data memorável da criação. A Lua, símbolo da passividade, da submissão e da feminilidade, é adorada pelas mulheres só elas batem cabeça diante do seu altar, onde ardem duas velas (todos os símbolos têm de ser representados aos pares, para assim significarem os dois elementos).

Embalagem do Bolo – 2018

Quando no seu esplendor, o astro da noite aparece por sobre as copas das árvores e dos cimos das montanhas não há canto da terra que esteja em sombra. O YANG alcançou, enfim, o YIN e juntou-se-lhe. Apagam-se todas as lanternas e lampiões, até aí acesos, e fazem-se fogueiras. As mulheres novamente vão bater cabeça em frente do altar, decorado com velas e bolos da Lua, recheados de galinha, presunto e sementes de loto. Estes bolos têm desenhados imagens de lebres e sapos – os legendários animais que habitam a Lua. Em todas as casas existe uma figura de lebre, a habitante da Lua que pisa num almofariz a pérola da imortalidade, e que, nesta noite, ´e queimada com cerimonial. A festa termina com partidas em que os pares devaneiam amorosamente.”
(1) Assinado por “M.R.C” (muito possivelmente de Maria Roque Casimiro), nas pp. 199-200 de “Mosaico” Vol. I-2 , 1950.

Extraído de BGC XXVI-305, 1950

Realizou o «Círculo Cultural de Macau», (1) no dia 16 de Setembro de 1950, no Teatro D. Pedro V, uma conferência-recital, integrada no seu plano de conferência para a 1.ª temporada.

Um aspecto da assistência

Dado que se tratava do primeiro espectáculo apresentado pelo Círculo, Pimentel Bastos, Vice-Presidente deste organismo disse algumas palavras de introdução sobre os artistas que actuaram nessa noite referindo-se em traços rápidos às actividades culturais do Círculo e aos principais acontecimentos da sua fundação.

Hernâni Anjos lendo a sua conferência

Hernâni Anjos iniciou, seguidamente, a leitura da sua conferência, versando o tema “Afinidades Transitórias: do Simbolismo Português – Camilo Pessanha – ao Romantismo Alemão, Henrique Heine (Estudo Retrospectivo)”

Álvaro Leitão declamando poesias de Camilo Pessanha

Álvaro Leitão declamou alguns sonetos de Camilo Pessanha.

Maria Gomes interpretando “lieder” de Schumann

Fechando o programa, a cantora D. Maria Margarida Gomes interpretou alguns “lieder” de Schumann com letra de H. Heine.
Informações retiradas de «MOSAICO» VOL I- n.º 2 Outubro de 1950.
Fotos de Chun Kwong

Extraído de «BGC» XXVI – 307-Janeiro de 1951, p. 175.
Um centenário que passou GUERRA JUNQUEIRO:  um génio que viveu a transição para a nova Poesia mas que não soube “pressenti-la”.
… Tendenciosamente romântico, essencialmente lírico e estruturalmente simples e bom, tudo pareceria indicar – ou nos parece agora – que Junqueiro seria um poeta de forte psiquismo e acentuada interiorização. Mas o ambiente cultural que veio encontrar não foi propício a esta orientação no seu desenvolvimento…
LEITÃO, Álvaro – Guerra Junqueiro in MOSAICO, Vol. I-2, Outubro de 1950, pp. 141-145.
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (15-09-1850/ 7-07-1923), bacharel em Direito,  escritor, poeta, jornalista, deputado, político, embaixador de Portugal na Suíça (1911-1914). Poeta representante da chamada “Escola Nova”
Mais informações, ver em:
http://www.arqnet.pt/dicionario/guerrajunqueiro.html

Parasitas
No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Mais três “tropos usados na gíria chinesa” da autoria de Luís Gonzaga Gomes, estes três relacionados com  o caracter “T´ÓNG” – – matar, abater,

T´ÓNG – TCHU-TÂNG –猪凳 (1)
(banco onde se matam os porcos)
Nas aldeias do interior da China não há matadouros para se fazer a matança de porcos e os porqueiros, para matarem os animais, fazem-nos subir para um banco. Nesta frase, o homem é representado pelo porco e a mulher pelo banco significando tal frase a mulher que leva à ruína os homens que por ela se perdem de amores.

T´ÓNG – PÁK- HÓK – (2)
(matar a branca gansa)
Este termo refere-se ao indivíduo que, encontrando-se embriagado se entrega a vomitar para todos os lados. Tal termo ou derivará do facto de quando se mata um ganso o animal se entrega a vomitar ou assim que se mete a faca no seu corpo as vísceras caem todas para fora com tudo quanto engolira.

T´ÓNG – T´IN – KÂI – (3)
(matar manducos) (4)
A palavra t´in 白 (várzea) soa da mesma forma que t´in 滇 (antigo nome da província de Uân- Nám) (5) . Este termo foi empregado, há dez anos, para referir às tropas de Uân-Nám, que eram assassinadas ou mortas em Cantão, durante a guerra civil.
Refere-se aos escritos de um indivíduo capazes de levar qualquer pessoa a ser julgada e condenada à morte.
(1) 劏 猪 凳– – mandarim pīnyīn: tāng zhū  dèng; cantonense jyutping: tong1 zyu1 dang3
(2) 劏 白 鵝 – mandarim pīnyīn: tāng bái é; cantonense jyutping: tong1 baak6 ngo4
(3) 劏 田 鷄 – mandarim pīnyīn: tāng tián jī   ;cantonense jyutping: tong1 tin4 gai1
(4) Manduco (termo macaense) – rã comestível e muito saborosa que vive nos arrozais.
É um prato delicado e caro da culinária chinesa, sendo a sua carne semelhante à de franga. Como á sabido, só se comem as coxas. Os chineses dão-lhe o nome de T´in Kái – 田 鷄 (galinha das várzeas), nome que também é muito usado pelos macaenses (BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977).
(5) 滇 – mandarim pīnyīn:  diān / tián; cantonense jyutping: din1 / tin4 – Província de Yunnan.
GOMES, Luís Gonzaga in «MOSAICO», V-27 e 28 de Novembro e Dezembro de 1952, pp. 147 -148

Mais três “Tropos usados na gíria chinesa” da autoria de Luís Gonzaga Gomes, estes três relacionados com o caracter “ferro – 鐵 “
T´IT-TCHÔI-KÂI – 鐵 咀 (1)
(galinhas de bico de ferro)
Este termo é empregado para se referir às mulheres desordeiras que, quando brigam se insultam venenosamente.
T´IT-TCHU-KÉOK  – 鐵 猪 脚 2)
(mão de porco de ferro)
A pata de porco é muito usada na comida chinesa servindo para cozer com vinagre e gengibre. Se for de ferro não se poderia comer. Portanto, este termo é empregado para se referir a um indivíduo duro de roer, isto é, a quem não se logra com facilidade.
T´IT-SÔU-PÁ -鐵 掃 把 (3)
(vassoura de ferro)
É termo que entra num rifão que diz:
seák-tei-t´óng, u-tchèok-t´it-sôu-pá, tei-t´ong-tché” (4)
(o chão de pedra, varrido por vassoura de ferro, não oferece resistência).
As vassouras chinesas são feitas ou de cascas de coco desfiadas ou com hastilhas de bambu. Se existisse, de arrames de ferro e se com elas se varressem um chão de pedra, como ambas são resistentes, não se saberia se o chão estragaria mais depressa ou a vassoura. Por isso, o termo é empregado para se referir a uma questão surgida entre dois indivíduos casmurros que teimam em não ceder.
(1) 鐵 咀 鷄 – mandarim pīnyīn: tiě jǔ jī; cantonense jyutping: tit3 zeoi2 gai1 (literal: ferro, bico, galinha)
(2) 鐵 猪 脚 – mandarim pīnyīn: tiě zhū jiǎo; cantonense jyutping: tit3 zyu1 goek3 (literal: ferro, porco, pé)
(3) 鐵 掃 把 – mandarim pīnyīn: tiě sǎo bǎ ; cantonense jyutping: tit3 sou2 baa2 (literal: ferro, vassoura)
(4) 石 地 堂 遇 着 鐵 掃 把 地 堂 者     –mandarim pīnyīn: shí dì táng yù zháo   tiě sǎo bǎ dì táng zhě,; cantonense jyutping: sek6 dei6 tong4 jyu6 zoek3 tit3 sou2 baa2 dei6 tong4 ze2
GOMES, Luís Gonzaga in «MOSAICO»,V-27 e 28 de Novembro e Dezembro de 1952, pp. 146-147.

Tông Kuá Tchông  – 冬瓜盅 (1)

É um prato de cozinha chinesa, entre nós conhecido por cabeça de bonzo. É uma corcubitácea (2) recheada com caldo, no qual se encontram misturados pedaços de carne, de pato fresco, de pato salgado, cogumelos, cevada, etc. Em chinês ao indivíduo que é traído pela sua mulher, se diz tái lôk môu (usa chapéu verde) (3).  Como a casca desta corcubitácia é verde este termo é também empregado para se referir a um marido que é traído pela sua mulher.
GOMES, Luís Gonzaga in «Mosaico», 1952.
(1) 冬瓜盅mandarim pīnyīn: dōng guā zhōng; cantonense jyutping: dung1  gwaa1 zung melão cucumber + inverno + tigela
A foto foi retirada de:
http://www.daydaycook.com/daydaycook/hk/website/recipe/details.do?id=25941
(2) Cucurbitaceae é uma família de plantas eudicotiledôneas fabídeas, de haste rastejante, rupícolas ou terrícolas, frequentemente com gavinhas de sustentação, que reúne cerca de mil espécies entre as quais várias domesticadas e de grande importância econômica tais como abóbora, melão, melancia, bucha, cabaça (cuia), abobrinha, pepino, etc. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Cucurbitaceae)
(3) 戴  绿 帽  mandarim pīnyīn: dài lǜ mào; cantonense jyutping: daai3 luk6 mou6

Título e artigo retirado duma rubrica que Luís Gonzaga Gomes manteve durante alguns números da revista «Mosaico» de 1952.
Kuó-Ká-Máu – 過家 – Gatas que atravessam as ruas
É termo que se emprega para se referir às mulheres que não param em casa, e, por isso, vivem quase que exclusivamente na rua, passando o dia a visitar a casa desta e daquela, em constante prática de bisbilhotice, conhecendo assim a vida particular de toda a gente.

Lêong-Fân –涼粉 – Farinha fresca
É uma geleia feita com farinha de coquinhos (castanhas aquáticas) e apresenta-se com cor negra e com o formato do alguidar que lhe serviu de forma. Esta geleia, vendida só no Verão, é servida em malgas, aos bocados ou ralada, com calda de açúcar e, apesar de por este facto ser muito doce, deixa, no entanto, um travo especial na boca.
Ora, na China (antiga) as criadas de servir costumavam andar vestidas de tch´áu preto e, por isso, se lhe referiam geralmente como membros da hák-i-tui (grupo de trajos negros). E, assim, a situação embaraçosa criada pelos patrões que mantiveram relações ilícitas com as suas servas é comparada à geleia lêong-fân, tão agradável ao paladar na ocasião em que é saboreada, mas cujo travo fina, isto é, as consequências, se não pode escapar.
mandarim pīnyīn: guō jiā māo; cantonense jyutping : gwo1 gaa1 maau1
涼粉mandarim pīnyīn: liáng fěn; cantonense jyutping : loeng4 fan2