Archives for posts with tag: Militares Africanos

Os Tumultos de Macau VIContinuação de HISTÓRIA DE PIRATAS (I, II e III) (1), sobre as façanhas dos soldados portugueses contra os piratas em Coloane no ano de 1910, assim relatadas por um repórter da revista (2)

“… Partiu-se, entrou-se em Hac-Sá, Lai-Chi-Van, Ká Hó, sob uma soalheira abrazadora: seguiu-se por caminhos horríveis, apanharam-se alguns dos reféns e por fim um rapazito indicou a toca onde os piratas se refugiavam. 

Os Tumultos de Macau VII1 – Uma patrulha  indígena

Era o último reducto. Ali se lhes deu caça. Foram todos agarrados. As suas victimas appareciam n´um estado miserável e em volt d´ellas, no regresso a Macau, ouviam-se os choros das famílias, no meio das imprecações dirigidas aos pirats que eram conduzidos entre bayonetas para a fortaleza. 

Os Tumultos de Macau VIII A2 – A casa d´onde os piratas fizeram muito fogo sobre as tropas portuguezas

 Não terão a morte como premio. As suas carnes esquartejadas não se mostrarão aos abutres no alto das postes pelos longos caminhos da China; as suas cabeças não serão decepadas pelos cutellos afiados dos carrascos.  

Os Tumultos de Macau IX3 – As forças de marinha em descanço

O  vice-rei de Cantão não verá esses súbditos do filho do Céu sob o seu poder porque o tribunal de Macau os julgará. Assim terminou o ultimo assalto dos portuguezes às ilhas dos piratas, a essa Coloane causa de litígios com a China e que defendida pelos portugueses é – como dizem os jornais de Cantão, n´um clamor colérico – a affirmação da nossa soberania, de resto sempre marcada pela bravura.”

Os Tumultos de Macau X4 – O regedor de Coloane (indicado na photographia, pelo sinal +)

A uma caçada semelhante aos pratas devemos ha seculos a posse de Macau que um Sun-Toc mesureiro e agradecido nos outhorgou por julgar que assim acabariam n´aquella antiga parte do imperio a ilhas dos piratas.”
(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/09/historia-de-piratas-i-ilhas-de-piratas/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/09/21/historia-de-piratas-ii-ilhas-de-piratas/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/10/07/historia-de-piratas-iii-ilhas-de-piratas/
(2) Illustração Portugueza n.º 238, 1910

“Felizmente não teve maiores consequências o incidente que se deu em Macau entre as tropas da nossa guarnição e a população  chineza que enxameia na cidade. As primieras notícias telegráficas, na sua concisão, deixavam antever acontecimentos graves. Originou esse incidente um das praças indígenas de Moçambique, ali em serviço ter na dua passagem, tropessado, sem querer, n´uma chineza que ia pela mão da mãe, levantando esta um berreiro injustificado.
               Soldados africanos guardando um caes que foi fechado
 
Os chinezes, tomando o partido da mulher, amotinaram-se e lançaram-se ao soldado, defendendo-se este valentemente e levando um d´eles preso para a esquadra, mas, ao retirar-se d´ali, a canalha saltou em cima d´ele, deixando-o em estado tão lastimoso que teve de recolher à enfermaria do hospital.
No dia seguinte declarou-se a greve geral e uma multidão enorme acumulou-se sussurrante e agitada  na avenida Marginal, havendo cabecilhas  que incitavam contra os portuguezes. Os manifestantes rodearam a esquadra, ocupando completamente as ruas próximas, formando barricadas e não deixando passar ninguém.
               No quartel – Uma força de soldados africanos, muito temidos pelos chinezes, em parada no quartel

 A força militar encontrava-se isolada e a gentalha ameaçava ruir sobre ela. O tenente sr. Rogério Ferreira (1) resolveu sair d´aquela situação. Um dos amotinados lançou-se-lhe ao pescoço para o estrangular. O oficial puxou da espada, e com ela ainda feriu alguns, mas, por fim, arrancaram-lha das mãos. Não havia paciência que resistisse por mais  tempo Da multidão partiram vários tiros de revolver e um soldado baqueou.” (2)
……………………………………………………………continua
 
NOTA: Embora a “reportagem” não dê a data dos acontecimentos, tratou-se das confrontações entre grupos representativos de associações de classe (operários) e os patrões, iniciadas em 1 de Maio de 1922, com uma manifestação das associações operárias de Macau. Estas confrontações  prolongaram-se por todo o mês de Maio e Junho desse ano.
Por isso o Ano de 1922  ficou conhecido por “Ano da Greve“.
Seguimos os acontecimentos relatados por Beatriz Basto da Silva (3):
“Os ânimos opondo patrão e o operário estão exaltados e, como é comum nesta circunstâncias, as manifestações multiplicam-se. Um incidente entre um soldado moçambicano e uma prostituta chinesa, a 28 de Maio, desencadeia um tiroteio grave, que conduz a troca de explicações entre o Governo de Macau e a autoridade de Cantão, levando ao castigo de militares envolvidos bem como à retirada de Macau do contingente de forças africanas. A 29 de Maio de 1922 é proclamado o estado de sítio em todo o território. A 30 de Maio são convocados todos os cidadãos portugueses válidos a apresentarem-se no Quartel do Corpo de Voluntários (em Santa Clara), a fim de serem mobilizados para o serviço do Governo
Só a firmeza da resposta do Governador, Comandante Corrêa da Silva – Paço d´Arcos às autoridades de Cantão evitou crise maior. A 5 de Junho a situação é considerada calma e normal”

As consequências: exoneração por abandono de serviço (greve) de alguns funcionários, por exemplo da Imprensa Nacional. Outros preferiram pedir a exoneração. Em 08 de Junho é determinado o encerramento de 68 associações de Macau. O estado de sítio prolongaria até finais do mês de Junho.

(1) Será o mesmo (?) que tendo sido promovido posteriormente a capitão, proferiu em 1934, a conferência “Os Portugueses na China e a Fundação de Macau” – ver anterior blogue
               https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/1934/
(2) Artigo não assinado da Ilustração Portuguesa n.º 860, 1922
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Século XX, Volume 4. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1997, 454 p. ISBN-972-8091-11-7.