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1- Refogado à chinesa, geralmente constituído por uma mistura de carnes e vegetais variados.

Esta expressão entra na designação de vários pratos da cozinha macaense, por exemplo «chau-chau pele» (o mesmo que tacho), «galinha chau-chau parida», «porco chau-chau mamá», «pigmentos chau-chau», «arroz chau-chau», «chau-min»  etc

2 – Mistura de coisas diferentes.

3 – Chau-chau lau-lau – Confusão, mixórdia, desordem.

«É tudo um chau-chau lau-lau» – está tudo fora dos eixos, em confusão, ninguém se intende

«Fazer um chau-chau» pode significar «fazer um estrugido de vários ingredientes»

ou «fazer uma misturada, uma confusão» (1)

Étimo – ch´áu –    (2) –  refogar, estrugir, frigir ((em pequena porção de gordura). Entre os macaenses a reduplicação chau-chau designa de facto variedade de comidas, mas em chinês o sentido fundamental é o estrugir, frigir.

Toda a informação de BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977

(1) «Ung´a chau-chau lau-lau ná-mas!» isto é uma mixórdia, nada mais! (FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista chapado, 2001

(2) mandarim pīnyīn: chǎo; cantonense jyutping: caau2

Antigamente, o balichão, 鹹蝦醬 (1) pasta de camarão salgado (ingrediente/condimento da cozinha cantonense) era abundantemente produzida nas águas costeiras de Macau, pois era muito utilizado quer pelos chineses na sua culinária quer pelos macaenses que incorporaram-no na sua cozinha e consideram-no «coisa de Macau»
O balechão é um tempero ou um acompanhamento para certos pratos. É feito de camarões pequenos, sal, e ingredientes picantes. Guarda-se como uma conserva e vai-se utilizando em pequenas porções que se juntam aos refogados para tempero ou se passam na frigideira para acompanhamento. O nome deve ser de proveniência malaia e aprendido pelos chineses através da culinária macaense . As donas de cada macaenses, que o prepavam para consumo da família diziam que «balechão china é muito ordinário»” (2)
NOTA 1 – BALICHÁM – condimento salgado preparado com camarões muito pequenos, secos; muito importante em muitos pratos macaenses (3). Neste livro regista ainda o termo. «Bicho-balichám» como pessoa irrequieta.
NOTA 2 – BALCHÃO (prato goês) é o termo registado por Sebastião R. Dalgado, (4), mas conforme referência que extrai do “Ta-Ssi-Yang-Kuo” de 1990, em Macau, o termo usual é BALICHÃO.


NOTA 3 – O nome está na toponímia de Macau nomeadamente a «Travessa do Balichão – 鹹蝦巷» situada no centro da povoação de Coloane, perto do Parque Eanes, entre a Avenida 5 de Outubro e a Rua dos Negociantes.
鹹蝦巷mandarim pīnyīn: xián xiā hàng; cantonense jyutping: haam4 haa1 hong6
NOTA 4 – Dum texto em patuá de 23-11-2013 do saudoso Carlos Coelho publicado em (5):
“Tõma caldo di Tong-Kuá cô rábo di pêxe, hám-sun-chõi chau-chau sun-keong, kiu-tou cô chá-siu, chau-nap-nap cô chõi-pou, fã-sang, margôso-minchi cô bálichãm máquista, pêxe.cucûz cô sutate, cebolinha china. Sabroso rufã cô arroz branco. Rufã qui nádi pódi pára. Cãva tudo rispirâ fundo. Qui rámede. Tudo cumizaina sã pêdi arroz. Senti tem qui vâi sium pádri confessã qui tâ comê di Gula. Qui ferrádo. Dessã vai-ia. Nuncasã tudo ano tem tanto gente volta nossô amado Terra Macau. Sã nunca?
NOTA 5Sabores da Lusofonia – Balichão
http://www.gastronomias.com/lusofonia/mac007.htm

NOTA 6 – Não esquecer,  recordar a letra da “Rua di Balicám” do Adé dos Santos Ferreira em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/23/musica-rua-di-balicham/

(1) 鹹蝦醬 – mandarim pīnyīn: xián xiā jiàng; cantonense jyutping: haam4 haa1 zoeng3
(2) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977, p. 304
(3) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, IIM, 2001
(4) DALGADO, Sebastião Rodolfo – Glossário Luso-Asiático, Volume I, 1919
https://ia800202.us.archive.org/31/items/glossriolusoas00dalguoft/glossriolusoas00dalguoft_bw.pdf
(5) http://jbfoco.com.br/2019/11/escritos-em-patua-di-macau-por-carlos-coelho/

Estando a preparar um texto para a postagem (1), encontrei este termo maquista “gavartá” num dos parágrafos da “Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla” (2)
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá un-há buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra que vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista , por isso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita injterá, eu achá graça; pôde crê? Padri que cusa pôde tem? coitado! Eu sinti sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di têra? Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, que cusa fazê di lugar pra esconde?” (3) (4)

“Gavartá” é um termo maquista que nunca ouvi; mas está referenciado em (5)

Gavartâ – esgaravatar, revolver
Gavartâ armário – revolver o armário.
“Gavartâ ôsso di bur-bur” – esmiuçar, pesquisar ou investigar em todos os pormenores.

Ouvia-se e falava-se muitas vezes, o termo “gafinhâ”, talvez com o mesmo sentido – esgravatar, procurar – (6) (7)

Gafinhâ – Procurar, esgaravatar, descobrir uma coisa difícil de achar
Úndi vôs já vai gafinhâ estung´a pintura?” – Onde foi que descobriu este quadro?
“Gafinhâ ôsso di bur-bur” – diz-se da pessoa que é muito bisbilhoteira, que faz muitas perguntas indiscretas. (bur-bur é uma variedade de peixe do mar, sem espinhas)

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2018/11/19/noticia-de-19-de-novembro-de-1864-visita-dos-voluntarios-artilheiros-de-hong-kong/
(2) «Carta di Siára Pancha a Nhim Miquéla» in «Ta Ssi Yang Kuo», Volume I, p. 324. (3)
(3) «Siára Pancha» relata as investigações que se fizeram em 1864 para achar a comunicação subterrânea que se dizia existir entre a fortaleza do Monte e a igreja dos jesuítas (S. Paulo).
(4) “Agora estão a escavar em São Paulo: acharam um buraco no Monte e outro no frontispício da igreja e as pessoas mais velhas dizem que é um caminho subterrâneo que ia da igreja para a fortaleza no tempo dos paulistas; por isso estão agora a escavar todo aquele mato, para descobrir o caminho. Toda a gente diz que há ali muito dinheiro que os jesuítas enterraram. Eu acho graça: consegues crer? O que é que os padres podem ter? Coitados. Acho que são histórias. Até mesmo o caminho, quem sabe? O que é que eles fariam com um caminho subterrâneo? Eles não eram hereges como os maçons, o que fariam do esconderijo”.
CARDOSO, Hugo C., HAGEMEIJER, Tjerk, ALEXANDRE, Nélia – Crioulos de Base Lexical Portuguesa in pp. 666-687.
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/30870/1/Cardoso_Hagemeijer_Alexandre2015-Antologias_crioulos.pdf
(5) FERNANDES, Miguel Senna ; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2001
(6) Esgravatar (ou esgaravatar) – remexer com as unhas (a terra) (FIGUEIREDO, Cândido – Dicionário da Língua Portuguesa, Volume I, 1939)
(7) A professora Graciete Batalha refere também “gafinhar” com o sentido: “ fazer comichão ou cócegas com as unhas: « …lembrá que são algum animal que tá gafinhá com pê na sua mão ?» (Glossário do Dialecto Macaense) 

Recentemente entre amigos, relembrando termos/expressões «maquista» surgiu esta

CIFRÂ DENTE

com utilização num sentido que desconhecida:  “vai à merda
Segundo outros autores consultados o termo é usado como

Cifrâ (ou Cifâ) – cerrar ou arreganhar(1) (2)
Cifrâ dente – vai-te embora, não me chateies (1)
Cerá-dente – cerrar os dentes, dando mostras de zangado (2)

Em “Maquista Chapado” (1) os autores apresentam a expressão:

Nê-bôm cerá dente – calma, não se irrite

José dos Santos Ferreira (2) (3) apresenta as duas formas: Cerá ou Cifrâ
Cifrá-dente  – mostrar os dentes, com expressão de cólera

Vôs nancassá cerá dente; iou nádi susto – não esteja com este ar zangado; não me assusta.
«Ti Vicente boca gránde,/
Cifrá dente, preguntá…»

A Dra. Graciete Batalha (4) refere o seguinte:
Cifar verbo ant.
Polir com cifa?
Usado apenas na expressão plebeia cifá dente! “vai-te embora, não me maces, não me chateias”
Penso que deste termo cifa, areia fina, se derivaria em Macau cifar dente, no sentido de “arear, polir os dentes”. Informadores idosos recordam-se de polir ou escovar antigamente os dentes com uma espécie de cinza de casca de arroz, visto que não existia pasta dentífrica. Em vez dessa cinza, poderia ser usada, em época mais antiga, areia fina ou qualquer semelhante a areia.”
(1) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2001.
(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau di Tempo Antigo, Vocabulário, 1985.
(3) FERREIRA, José dos Santos – Macau sã assi, Vocabulário, 1967.
(4) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.

Recentemente ouvi a expressão dum macaense: : “Boa Tacada
Utilizou-a no sentido – “Boa ideia”
Graciete Batalha (1) refere uma outra expressão no mesmo sentido:
“Tem tacada!” – é esperto, tem boas ideias, tem habilidade (linguagem corrente)
Alan Baxter /M. Senna Fernandes (2) apresentam outras expressões com este termo.

  • Golpe, truque.
  • Maneira. Buscâ ung´a tacada – procurar uma maneira.
  • Astúcia. Sã ung´a quiança inchido di tacada – é uma criança cheia de astúcia.
  • Imaginação. Vôs nôm têm tacada – você não tem imaginação.
  • Ung´a tacada já cavá tudo – acabei num instante.

(1) 1- Pancada de taco (no jogo do bilhar) 2 – Esperteza, manha, boa ideia, boa descoberta
Étimo – Port. Tacada
BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense, 1977.
(2) FERNANDES, Miguel Senna ; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado, 2002.

Termo actualmente ainda muito utilizado na linguagem corrente entre macaenses -CHUCHUMECAR – embora como verbo não é referido por nenhum dos três autores consultados (1) (2) (3).
Existe no entanto o substantivo CHUCHUMECA com o significado de intriguista, intrometido(a), (1) (2) (3) que se mete na vida alheia (1)
Também utilizado no sentido de coscuvilheira ou amiga de mexericos.

Mas má-língu falá,
Êle sã chuchuméca!
Buscá sarna cuçá,
Pa nôs gastá sapéca

Do Poéma – Macau Jóvi  in
Macau sã assim, de José dos Santos Ferreira, 1967

Má-língu co chuchumeca,
Tempo antigo tamêm têm;
Pa quim têm tanto sapeca
Tudo logo ámen-amen.

Do Poéma – Macau di Tempo Antigo in
Qui-Nova Chencho, de José dos Santos Ferreira, 1973

(1) FERREIRA, José dos Santos – Macau di Tempo Antigo. Macau,1985
(2) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado. Instituto Internacional de Macau, 2001, 234 p. ISBN 99937-45-00-6.
(3) BATALHA, Graciete Nogueira – Glossário do Dialecto Macaense. Coimbra, 1977.

Outra expressão maquista por mim muito utilizada principalmente em situações em que as pessoas não arrumam bem ou fazem-no apressadamente é o LAILAI-FAIFAI
“LAILAI – FAIFAI”  é o modo apressado ou atabalhoado de fazer as coisas. (1)
Exemplo: “Tudo lailai-faifai, sem jeito” – Fazer tudo apressado, sem ordem.
Muito parecido noutro contexto, (embora muito menos utilizado actualmente) é o termo “LA-LAU CHAU-CHAU” – salsada, mixórdia, lugar desarranjado. (2) ou “CHAU-CHAU LAU-LAU” – balbúrdia, confusão, desordem (3)

José Santos Ferreira (Adé) na primeira quadra do poéma “MACAU – 1983” (4), refere:

Masqui na meo de chachau-lalau,
Macau têm fé, nádi afundá,
Co ventania, co tempo mau,
Êle têm fórça, lô aguentá

Uma informadora da Dra. Graciete Batalha (3) referia:
«É tudo um chau-chau lau-lau» – está tudo fora dos eixos, em confusão, ninguém se entende.

Recorda-se que “chau-chau” (5) é o refogado à chinesa, geralmente constituído por uma mistura de carnes e vegetais variados e daí, para o macaense, «Fazer um chau-chau» pode significar “fazer um estrugido de vários ingredientes” ou “ fazer uma misturada, uma confusão” (3). Esta expressão entra na designação de vários pratos da cozinha macaense, por exemplo “chau-chau pele”. Daí também a expressão “arroz chau-chau” (no sentido, arroz frito cozinhado com uma grande variedade de ingredientes) prato da culinária chinesa mas também incluída na culinária macaense.
(1) FERNANDES, Miguel Senna; BAXTER, Alan Norman – Maquista Chapado. Instituto Internacional de Macau, 2001, 234 p. ISBN 99937-45-00-6.
(2) FERREIRA, José dos Santos – Macau di Tempo Antigo. Edição do autor, 1985, 183 p.
(3) BATALHA, Graciete – Glossário do Dialecto Macaense. Coimbra, 1977, 338 p.
(4) FERREIRA, José dos Santos – Poéma di Macau. Leal Senado de Macau, 1983, 285 p.
(5) Chau – (mandarin pinyin: chao; cantonense jyutping: caau2) – refogar, estrugir, frigir em pequena porção de gordura.