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Memorial (Relatório) do cirurgião-mor Domingos José Gomes, (1) de 6 de Outubro de 1822, enviado ao Senado «Sobre as enfermidades que mais cometem a tropa de Sua Majestade»
Tabes ou convulsões dorsais – vulgo tísicas – , obstruções e cirroses, tanto do fígado, como do mesentério, vício sifilítico ou gálico, hidropisias, ascites, algumas disenterias e finalmente febres que,  relativamente às moléstias acima ditas, são poucas.
Do continuado alimento de peixe, ora salgado, ora fresco, mariscos, continuamente adubados de grande quantidade de açafrão, pimentos e muitas espécies aromáticas e calefacientes, que só por si depravam as túnicas do estômago e conseguintemente, alteram os sucos digestivos tão essenciais à digestão … O excessivo uso de um vinho que os chinas extraem do arroz e que o vulgo, em razão dos seus estragos, chama «fogo», tão acre e tão corrosivo que arruína e dá cabo em poucos meses do indivíduo mais valente que a ele se aplique. Principia por obstruir-lhe as entranhas do baixo ventre, reduzindo-o absolutamente e tornando-o até incapaz do serviço mais leve, quando não termina, como mutas vezes observei, por uma rápida e violenta hemoptise, que em breve conduz o paciente à morte …
A incontinência, que se pode considerar como um efeito ou corolário das premissas acima declaradas, é, também, outra não menos fatal à tropa, pelo continuado estímulo da comida tão condimentada e a bebida excitante, impelindo à satisfação das suas paixões carnais, contrai com a maior facilidade o vício gálico e às vezes duma natureza tal que, resistindo ao mais bem ideado tratamento, conduz muitos dos doentes à sepultura …” (2)
(1) Domingos José Gomes exerceu o “serviço de cirurgião-mor das tropas que guarnecem a cidade” conforme o requerimento que apresentou em 1803 para a concessão da respectiva carta-patente.
O Major Comandante da unidade – Manuel da Costa Ferreira declarava: «ter ele cumprido com toda a satisfação, por espaço de 6 meses … em que mostrou todo o zelo e actividade no Real Serviço, curando não só de cirurgia, mas também de medicina … por isso merecendo toda a confiança e contemplação de que se faz digno … »
“Em consequência do fracasso na revolução liberal de 1822, em que figurava no número dos pronunciados, logo a seguir ao chefe do movimento – o tenente-coronel Paulino da Silva Barbosa – após essa data, nada mais aparece referente aquele assíduo funcionário, (Domingos José Gomes) que por lá trabalhou, activamente, pelo menos 19 anos.
Só o Ouvidor Miguel de Arriaga, em ofício de 8 de Março de 1823, para informar sobre alguns indivíduos, escrevia:
Domingos José Gomes, português, europeu, cirurgião que era do Partido da Cidade e que para obter foi necessário demitir o que então servia. Homem solteiro, a quem  se permitiu deixar o Partido para melhor fazer o seu comércio no tráfico do anfião, onde foi admitido como qualquer dos outros Moradores aqui estabelecidos.  Foi tão abonado na Real Presença pelo abaixo-assinado que, em 20 de Julho de 1814, mereceu ser condecorado como Hábito da Ordem de Cristo. O seu génio desconfiado, pouco quieto ou grato, não é a um só conhecido … (2)
Domingos José Gomes, refugiou-se em Cantão, em 23 de Novembro de 1823, após a queda do Governo Constitucional (a Constituição foi jurada no Leal Senado em 1822) juntamente com os liberais Fr. António de S. Gonçalo Amarante, o editor de “A Abelha da China” (órgão do partido constitucional) e João Nepomuceno Maher.
(2) SOARES, José Caetano – Macau e A Assistência, 1950, pp. 109.

Desde 1805 que o pirata Cam Pau Sai (1) que se tornou posteriormente conselheiro de Estado em Beijing (2) andava assolando as costas do mar da China (e atacando os navios que saíam de ou viajavam para Macau) (3) com uma armada de cerca setecentos navios , entre juncos, lorchas e ouras embarcações mais pequenas. O governador Lucas José de Alvarenga (4) resolveu acabar com esta situação que desfraldava os negócios da cidade e incumbiu o desembargador Miguel José de Arriaga Brum da Silveira (5) para organizar uma esquadra naval.O desembargador conseguiu assim juntar o brigue  «Princesa Carlota», (6) de 16 peças e 100 homens de guarnição, o brigue«Belisário», (7) de 18 peças e 120 homens de guarnição e a lorcha «Leão» (8)  (piloto: José Gonçalves Carocha) de 5 peças e 30 homens de guarnição sob o comando do capitão de artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo  Sousa. (6) O comandante de uma fragata inglesa que se encontrava no porto, a pedido do Governador, prometeu juntar-se à frota, mas não saiu do porto de Macau.
A 15 de Fevereiro de 1809 deu-se o primeiro encontro (1.ª batalha naval das várias que os portugueses tiveram com este pirata na Boca de Tigre culminado com o último em 21 de Janeiro de 1810) (2). A frota naval portuguesa encontraram nas proximidades cerca de duzentos navios do pirata. Os portugueses dispararam continuamente os seus canhões e as suas espingardas sobre os juncos que tentavam aproximar-se, não conseguindo os piratas abordar os navios portugueses. Rezam as crónicas que o combate durou desde manhã até ao pôr-do-sol , acabando os piratas por bater em retirada com muitos portos e feridos. A lorcha Leão por ser a menor embarcação foi a mais fustigada pelos piratas por isso Gonçalves Carocha distinguiu-se pela sua coragem neste combate.
Ao saber desta vitória, a corte imperial propôs uma acção conjunta para acabar com os piratas. Foi por isso assinado em 23 de Novembro de 1809 uma convenção (por mim já referida na postagem de 21-05-2015) (2)
(1) O mesmo pirata é referenciado com outros nomes como Kam Pao Sai, Cang-Pau-Sai, Chang-Pau Sai, Cam-Pao-Tsai, Cam-Po-Sai, Apo-Sai, Apochai, Cam-Pau- Sai, Cam-Apó-Chá ou Quan Apon Chay.
(2) Ver anterior referência a este pirata e outras batalhas em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/01/21/noticia-de-21-de-janeiro-de-1810-o-celebre-pirata-cam-pau-sai/
(3) O Governador Lucas José de Alvarenga num relatório de 3 de Março de 1809, enviado para Portugal, informava que a população chinesa era cerca de 30 000 e os portugueses: 1641 masculinos e 2579 femininos. Entre os portugueses contavam-se os macaenses e os escravos cristãos. Informava ainda que havia 300 lojas chinesas, 20 “casas estrangeiras”, 15 igrejas ou capelas, e 257 militares.
(4) Ver anteriores referências a este governador Lucas José Alvarenga (1768- 1831) em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/lucas-jose-alvarenga/
(5) Ver anteriores referência em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/miguel-de-arriaga-brum-da-silveira/
(6) Brigue «Princesa Carlota» – Navio português de linha, construído em Macau na China pelo senado em 1805, pronto para o serviço no mesmo ano como Brigue de 120t com um decke de artilharia com 12 peças de artilharia e com 90 a 125 homens a bordo, com o nome de ‘Princesa Carlota’, empregue no serviço na Costa da China, em 1809 e 1810 combateu piratas chineses, incluído em forças navais de Macau; fora de serviço em 1810 (?). O Capitão de Artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa, foi comandante da Brigue “Princesa Carlota” de 15-02-1809 a 15-09-1809. Em 1807, o armamento era de 10 peças de artilharia e 10 peças de 12 libras.
http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.pt/2011/09/navios-da-real-da-marinha-de-guerra.html
(7)
Brigue «Belizário»  –  Navio português de linha, construído em Macau na China pelo senado em 1801, lançado ao mar em 1801 e pronto para o serviço no mesmo ano, em 1809 aparelhou e armou de novo em Macau com um decke de artilharia com 20 a 24 peças de artilharia e com 90 a 130 homens a bordo, com o nome de ‘Belizário’, entrou nos combates contra piratas chineses em Macau em 1809 e 1810; fora de serviço em 1810 (?). Armamento em
1809: 20 peças de artilharia, 20 peças de 12 libras.
brigue-belisario-1809-1810http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.pt/2011/09/navios-da-real-da-marinha-de-guerra.html (7)

(8) Lorcha  «Leão» – navio português, construído em Macau, armado com 5 peças de artilharia e com 20t e foi lançado ao mar em 1807, montava 1 rodízio e 4 pedreiros, fez várias comissões de fiscalização na costa desde 1807, nesse ano combateu com outros navios, piratas chineses, fora de serviço em (?). Armamento em 1807 – 5 peças de artilharia, 1 rodízio e 4 pedreneiras.
http://marinhadeguerraport
uguesa.blogspot.pt/2011/01/navios-da-real-marinha-de-guerra_20.html
Informações retiradas de:
ANDRADE, José Ignacio de – Memórias dos feitos macaenses contra os piratas da China.
https://books.google.pt/books?id=oUsNAAAAYAAJ&pg=PA12&lpg=PA12&dq=Mem%C3%B3rias+dos+feitos+macaenses&source=
ESPARTEIRO, António Marques – Catálogo dos Navios Brigantinos (1640-1910) in
http://3decks.pbworks.com/f/Catalogo+dos+navios+brigantinos+(1640-1910)+-+Esparteiro.pdf
GOMES, Luís Gonzaga  – A destruição da esquadra de Kam Pau Sai in Páginas da História de Macau,  2010
MONTEIRO, Saturnino – Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol VIII, 1997.

No dia 12 de Setembro de 1822, publicou-se o primeiro periódico local (primeiro jornal português em solo chinês ) «A Abelha da China», fundado pelo chefe do partido constitucional, Tenente-Coronel Paulino da Silva Barbosa, editado pelo Vigário de S. Domingos, Fr. António de S. Gonçalo de Amarante e impresso na tipografia do governo, para atacar o partido conservador, chefiado pelo Ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira. (1)

a-abela-da-china-n-o-112set1822

https://zh.wikipedia.org/wiki/%E8%9C%9C%E8%9C%82%E8%8F%AF%E5%A0%B1#/media/File:Abelha_da_China_no1.jpg

Teve curta duração, terminou em 27 de Dezembro de 1823  (o ultimo, n.º 67, saiu a 20 de Dezembro de 1823. (2)
O jornal tinha sido sujeito a uma queima de um dos seus números, em cenário público, à porta da Ouvidoria no dia 28 de Agosto de 1823 , pelos absolutistas. (3)
Uma publicação estrangeira “The Asiatic Journal and Monthly Register for British and Foreign Dependencies” dessa época (4)  dava notícia do jornal “A Abelha da China” e das”guerras” entre absolutistas e liberais em Macau.
“We have now before us a private letter, and various numbers of the periodical paper aboved alluded to, “A Abelha da China”, which communicate very late intelligence respecting the political state of this small community. It appears that a frigate, despatched from Goa, anchored off a Macao on the 16th of June 1823, with the avowed intention of restoring the former government…
the-asiatic-journal-1824-jan-june-a-abelha-da-china«A Abelha da China» surge logo que é revogada a lei que proibia a imprensa periódica ultramarina. É também o 1.º com a finalidade de informar e orientar a opinião pública sobre a nova ordem Constitucional. Não é exactamente o «Boletim Oficial» mas é porta voz do que, no Senado e na Cidade, se quadra com os seus objectivos liberais, sendo impresso na Tipografia do Governo. Por trás de si manobra Fr. António S. Gonçalo de Amarante, liberal e redactor principal do semanário. Macau, com a sua marca conservadora, foi o terreno propício para o desafio e a luta liberal que a «A Abelha da China» defendia. Aplicava as suas «ferroadas» no partido conservador, chefiado pelo Ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira.” (3)
NOTA: o primeiro “jornal” publicado em território português no Oriente foi na Índia, em 1821. A «Gazeta de Goa», impresso num parque tipográfico que veio de Bombaim, tinha como responsável de redacção o físico-mor Dr. António José de Lima Leitão. (3)
Nesse mesmo ano de 1822 após o aparecimento de “A Abelha da China” , é publicado em Macau, o periódico ” Evangelist” em língua inglesa, propriedade e órgão das missões protestantes.
(1)  GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
12-09-1822 – A Abelha da China (1822 – 1823 ) «querendo fazer huma breve exposição do progresso da revolução (1820) em Macao adoptou o plano de publicar os procedimentos do Senado desde o tempo em que ali chegarão as primeiras notícias da nova ordem da coisas de Portugal, para mostrar a marcha daquele corpo, e o estado do espírito publico desde aquella epocha“.(3)
(2) Segundo outra fonte o último número foi publicado a 26-12-1823 ttps://zh.wikipedia.org/wiki/蜜蜂華報
(3) SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume 3, 1995.
(4) The Asiatic Journal and Monthly Register for British and Foreign Dependencies : Volume 17-January to June, 1824 (Feb p. 212)
(5) “12-09-1822 – Pouco depois do aparecimento de A Abelha da China, aparece em Macau o Evangelist, em língua inglesa, propriedade e órgão das missões protestantes (a que a posição católica, muita atacada, dez pôr fim) e o Hong Kong Government Gazette, representante dos interesses britânicos, que passou de Macau para Hong Kong depois de, em 29 de Agosto de 1842, os ingleses terem tomado oficialmente posse da sua colónia. É o primeiro jornal inglês de Hong Kong. (3)

Recentemente foi editado mais um livro sobre Macau. Este da autoria de  António Alves Caetano, (1) uma investigação realizada baseada em  documentos oficiais existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, “Macau na Era Napoleónica: início dos tempos gloriosos do ouvidor Arriaga” (2 ) que se centra na vida de Macau nos primeiros anos do século XIX, período em que Napoleão Bonaparte ameaçou a Europa e o mundo, e em que o autor expõe nos vários capítulos:  “Macau e Portugal no Mundo”; “Macau: do início da Era Global a Oitocentos”; “A Grâ-Bretanha à conquista de Malaca”; “Macau e a Pirataria no Mar ; “Macau e a Corte no Brasil” e “Pela prosperidade de Macau”.

Ant. Alves-Caetano - Macau na era napoleónica CAPA No último capítulo, uma visão pessoal do autor sobre a acção de Miguel de Arriaga no período citado “A figura titular do Ouvidor”.
O próprio autor afirma (p. 302) “Nos estudos de História procuro basear-se em documentação oficial existente em arquivos, socorrendo-me  da bibliografia sobre a matéria em apreço como elemento complementar. O propósito tem sido o de encontrar nova luz sobre episódios, supostamente relevantes, mas que por qualquer circunstâncias não captara o interesse de historiadores…(..)
… No caso vertente, deparo-me com muita obra escrita em biografias ou ensaios biográficos de Miguel de Arriaga Brum da Silveira que, ignorando a documentação existente sobre o período da vida de Macau, emite juízos de valor desfocados de quanto é legítimo concluir da leitura  cuidada dos documentos portos à disposição dos estudiosos dessa história.”
Ant. Alves-Caetano - Macau na era napoleónica CONTRA-CAPANa contra-capa:
Correu-se  o risco de expulsão da população portuguesa de Macau, por determinação do Imperador da China, se fosse confirmado que a administração do território tinha sido conivente com as forças armadas inglesas na invasão que fizeram em 1808.
A natureza violenta da revolução de 1820, assumiu em Macau, com ataques ferozes ao Ouvidor Miguel de Arriaga, servidor exemplar dos interesses portugueses no Oriente, que determinaram a sua prisão em masmorra infecta que  lhe destruiu a saúde e contribuiu para que falecesse com , apenas 48 anos.”
(1) Resumo da biografia do autor  retirado dos dados biográficos contidos na capa interior do livro: António Alves-Caetano, natural de Lisboa. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (Universidade Técnica de Lisboa), em 1955. Foi presidente da Companhia de Seguros de Macau, e consultor da Autoridade Monetária e Cambial de Macau. Tem escrito desde 1955, em diversas áreas da Ciência Económica, Fiscalidade e Seguros, consagrando-se desde 1995 à pesquisa de História Económica e Social do século XIX, com livros publicados, artigos em revista e participação em Congressos. Uma biografia mais pormenorizada está disponível em:
https://sites.google.com/site/antonioalvescaetano/biografia
Do mesmo autor, recomendo a leitura da comunicação “Macau: dos primórdios da era global à era napoleónica” – apresentada ao XXXIII Encontro Anual da Associação Portuguesa de História Económica e Social, Bom Jesus de Braga, Novembro de 2013 e disponível em:
http://www3.eeg.uminho.pt/aphes33/Comunica%E7%F5es/Alves-Caetano.pdf
(2) ALVES-CAETANO, António – Macau na era napoleónica. Início dos tempos gloriosos do ouvidor Arriaga. Labirinto de Letras , Editores (colecção: Uma Outra História), 2016, 348 p. ISBN: 978-989-99119-9-4.

21-10-1808  – Principiaram os distúrbios entre os chineses e os soldados da força inglesa que, desde 21 de Setembro ( sob o pretexto de defender Macau contra qualquer força francês tendo o Governador Bernardo Faria tentado por todos os modos, dissuadir os ingleses de ficarem pois perturbavam com cavalgadas a paz dos vivos e até dos mortos) tinham desembarcado nesta cidade. O Procurador Manuel Pereira oficiou aos mandarins de Hèong-Sán e Casa Branca, pedindo providências para a repressão dos chineses. Os mandarins responderam que não eram precisas leis para castigar crimes que não deviam existir no império, que embarcassem os ingleses e tudo ficaria remediado.” (1)
13-10-1808 – O Mandarim da Casa Branca oficiou ao Vice-Rei de Cantão, dando-lhe informações sobre as tropas ingleses que, sob o comando do almirante Drury, tinham ocupado Macau, armando 300 tendas de campanha, desde S. Paulo até Patane, a pretexto de defender esta cidade contra os franceses. (1)
23-10-1808 – O Vice -Rei Chiun Kuan, em seu nome e das mais autoridades superiores de Cantão, participou ao Imperador o desembarque  das tropas inglesas em Macau, dando também conta das providências que tomara, sem resultado, para constranger o almirante Drury a pôr termo a essa ocupação.  (1)
Por pressão chinesa, o Almirante e o seu corpo expedicionário inglês  veio a sair de Macau em 19 de Dezembro desse ano, graças também ao tacto político do Ouvidor Miguel Arriaga Brum da Silveira que conseguiu reembarcar os ingleses.
Em 30 de Outubro de 1808 o Governador Lemos e Faria  (2) enviou ao Almirante Drury  uma carta com o seguinte teor:
Entre as dificuldades que vos fiz antever, citei a inevitável complicação com os chineses. Tenho conhecimento do sistema do seu governo por longa experiência, adquirida na prática; sei os vínculos que os unem a esta cidade e por isso previ o mau êxito da vossa êmpresa. Falei-vos com franqueza e fui considerado como desafecto aos vossos projectos. Em 20 do mês passado declarastes, ainda que pouco favoravelmente ao exercício do meu emprêgo, ser qualquer oposição do Govêrno chinês desembaraçada pelo Almirante com o Vice-Rei; agora vejo depender dêste Govêrno a ultimação do negócio.
O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da vossa expedição. Se tem havido desconfiança nos mandarins, não é motivada por êste Govêrno, pois tem patenteado com franqueza a sua correspondência.
Já vos disse e agora repito: dos macaenses, nem um só deixa de respeitar a cada de Bragança, costumada a encher esta cidade de benefícios, em honra do seu Govêrno e glória dos seus moradores. Porém, como lhe não seja vedado amar a tranquilidade do seu País, não deve estranhar-se de cada um chorar a sua desgraça; sem blasfemarem da causa, aborrecem os efeitos. O pais de família, lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das amas de leite que se retiraram. Os infelizes, que têm na labutação diária os seus recursos, lastimam-se pela escassês e carestia dos géneros alimentares. Os mais abastados lastimam-se por verem chegar a época de fazerem as suas negociações e terem ainda as mercadorias empatadas, por, falta de giro, há 50 dias. Até os navios estão ainda por fabricar, à míngua de artífices, que também fugiram. Os empregados públicos, vendo fugir o comércio, lastimam-se sabendo que dêle tira o Estado rendimento para lhe pagar. Os mesmos habitantes chineses dados ao comércio têm emigrado e levado até o mais inferior dos trastes. E assim era de esperar de homens pacíficos, ao verem aparatos de guerra, ameaçados, além disso, pelos mandarins,  que julgam a constituição do Império abalada pela vossa imprudência. à vista disto não admira que haja descontentes que deplorem a sua desgraça e aspirem ao sossêgo deste fiel estabelecimento, que há 252 anos tem sempre respeitado as ordens do seu Monarca. Julguem por êste quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a quem adora.”

                            A. de Lemos, Governador de Macau (3)

NOTA: sobre o mesmo assunto, ver anterior postagem “Notícia de 1 de Janeiro de 1809 – Edital do Vice-Rei de Cantão” em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/bernardo-a-de-lemos-e-faria/
e trabalho de Frederic Wakeman Jr “Drury´s Occupation of macau and China´s Response to Early Modern Imperialism” em
http://www.eastasianhistory.org/sites/default/files/article-content/28/EAH28_02.pdf
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau, 1954.
(2) Bernardo Aleixo de Lemos e Faria (1754 – 1826) natural da Freguesia de Deus, (Índia), Cavaleiro da Ordem de Aviz, Fidalgo Cavaleiro de Sua Alteza Real, Capitão de mar e guerra da Armada Real foi pela 2.ª vez governador e Capitão geral de Macau, de 8 de Agosto de 1806 a 1808 (foi destituído do 1.º mandato em 1788 – acusado de comércio ilegal de ópio). O novo governador, Lucas José Alvarenga (1768- 1831) (4) tomou posse a 1 de Janeiro de 1809 ( a posse esteve marcada para 26 de Dezembro de 1808, após a saída dos ingleses, mas teve de ser adiada por doença). Lucas Alvarenga governou somente até 19 de Julho de 1810, ordem vinda de Lisboa obrigou Bernardo Lemos e Faria a retornar a Macau e voltar a ser governador pela 3.ª vez  até 19 de Julho de 1814 data em que deveria ser substituído pelo mesmo Lucas Alvarenga mas este não tomou posse. Manteve-se Lemos e Faria até 1–07-1817, data de posse do governador José Osório de Castro Cabral de Albuquerque.
(3) COLOMBAN, Eudore de – Resumo da História de Macau – 1927.
(4) Sobre este governador, recomendo as leituras de Luís Sá Cunha e Anita de Almeida,  disponíveis em:
http://www.revistamacau.com/2013/08/14/um-poeta-no-inferno/
http://people.ufpr.br/~vii_jornada/ALMEIDA_Anita.pdf

GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa IUm artigo do Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, (1) publicada na Gazeta das Colónias em 1926, em 5 páginas , “História e Lei Económica de Macau (1516-1833)”
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa IIIlhota montanhosa onde a rocha granítica, aflorando, represa a aluvião do estuário imenso de três grandes rios confluentes, liga-se na direcção N. S. por uma restinga de areia com outra ilha maior que se estende, como continente, para as bandas da grande cidade de Kuantung (Cantão lhe chamamos nós).
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa IVEntre a pequena península assim constituída e uma ilha fronteira da mesma natureza – como são tantas outras daquele imenso estuário, dos maiores, dos mais ricos e dos mais povoados do mundo – fica uma estreita passagem onde se juntam comas do mar as aguas dos rios, sempre barrentas e carregados de aluvião, como todos os grande pais dos Tsins (dos Xins, diziam os nossos governadores, e assim foi que nós, portugueses, fizemos o nome de China que todos adoptaram e a própria China só usou pela primeira vez oficialmente, em 1912, quando da proclamação da sua Republica). …(…)
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa III(1809)
Agora são tambem os ingleses que com uma forte esquadra veem a Macau para a ocuparem (a titulo de nos defenderem contra o nosso inimigo comum da época – os franceses. Desembarcaram e querem apossar-se da cidade; mas o patriotismo de Miguel de Arriaga triunfa do lôgro com outro lôgro, fazendo ver ao almirante que os chins, amigos de Portugal, só a este cederam o direiTo de ocupar e não a outros. E de novo embarcaram… (…)
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa V1833-1848
Dominavam no Oriente nessa ocasião, as grandes companhias soberanas: a inglesa das Índias Orientais, a francesa e a holandesa, etc. Com a China, porém, não há outra porta de comércio: – é Macau. Mais tarde conseguem elas também feitoria em Cantão; mas continuam fazendo de Macau o seu interposto de segurança… (…)
Foi nessa altura que na China apareceu, introduzida pelos holandeses, o maior de todos os negocios da China, o maior de todos os seus flagelos politicos – o ópio para fumar… (…)
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa VI1910
Nos nossos dias:
Um sopro de reacção agita o organismo nacional. A nação tenta chamar os valores da sua grel à direcção das suas actividades.
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa VIIVejamos o seu reflexo em Macau: desde 1876 que em Macau já não partem, navios armadores locais para a Índia, África e Lisboa. As relações directas essenciais à vida como a de todas as partes do organismo com o coração e o cerebro, pelo sangue e pelos nervos, interrompe-se de vez. Como viver assim? Macau queda-se por isso na vida duma cidade chinesa, mais policiada apenas. Não ha comercio; não ha industria propria. Pesca … jogo … pouco mais, apesar da complacencia sempre grande da gente que ali fluiu do populoso pais em que a cidade esta… (...)
GAZETA DAS COLÓNIAS 34-36 30OUT1926 Artigo de Tamagnini Barbosa VIIIO problema de Macau não é local, mas nacional, e que não é ocupação politica, mas economica, mostra-o sempre a sua vida e a sua historia desde a origem. É essencialmente uma cooperação de forças sociais de países distantes cujos interêsses economicos, de produção e trabalho e até políticos, se harmonizam e completam. Trabalhemos pois a e este sentido: o futuro falará por si.”
(1) Anteriores referências a este governador:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/artur-tamagnini-barbosa/

Livro do Padre Manuel Teixeira, publicado pela Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, impresso na Imprensa Nacional, Macau, em 1982, com 171 páginas. (21 cm x 15, 5 cm). A capa é de António Andrade. (“retratos” de Luís de Camões, Camilo Pessanha, Miguel de Arriaga Brum da Silveira  e Bocage).

Vultos Marcantes em Macau CAPAPequenas biografias (média de 2 páginas por cada vulto) de 73 personalidades que marcaram a sua presença na história de Macau. Na introdução, “Duas Palavras”, o autor refere:
“Há certos vultos, a que poderíamos chamar «barões assinalados», que marcaram a sua presença na história de Macau, pelos seus feitos militares, pela sua diplomacia, pela sua cultura, pela sua benemerência, pelo seu zelo apostólico, numa palavra, por obras fora do vulgar, pelas quais se foram da morte libertando.
Dentre muitos, escolheremos apenas alguns que deixaram assinalada a sua presença nesta Cidade do Nome de Deus”.

Dos 73 biografados, causa-nos estranheza estar um (uma) que de certeza não encaixava nos objectivos traçados pelo autor pois é pouco conhecida a sua curta história, e não “ deixou profunda pegada nesta terra, que lhe serviu de berço ou que o abrigou em seu seio”. Trata-se Afanásia do Niloff.

The Annual Register” de 1772, de Londres, informava:
«Em fins de Setembro de 1771, chegou a Macau um navio de aparência desusada, com 65 pessoas a bordo, a maior parte militares, comandados por um coronel com o título de barão de Benyowsky (1). Havia a bordo 5 pessoas vestidas de mulher.
Uma dessas pessoas, vestidas de mulher, faleceu há poucos dias.
A senhora foi desembarcada com o seguinte pedido muito extraordinário ao Governador (2):
Que o cadáver fosse enterrado, onde ninguém jazera até então e num lugar honroso; que se desse licença ao barão para assistir ao funeral a fim de prestar honras especiais à defunta.
Este singular pedido despertou a nunca extinta curiosidade, peculiar ao clero de Roma: dois signatários da Ordem Franciscana, aproveitando-se da noite, espreitaram para dentro do caixão e descobriram o corpo de um homem.
Este logro desgostou muitíssimo os portugueses, que deram ordem para que se desse ao morto um enterro ordinário.
São várias as versões que correm acerca do suposto defunto: alguns dizem ter o barão declarado que era um príncipe do Império; outros dizem que era bispo.
Este caso tem levantado muitas conjecturas, que não são muito favoráveis às restantes pessoas de saias».

O periódico de Londres fazia este comentário: «Muitas partes deste relato extraordinário foram desde então confirmadas por notícias de Petersburgo. O pretenso barão e general dos Confederados era um verdadeiro aventureiro e astuto em grau considerável da sua vocação: foi condenado a trabalhos forçados em Kamchatka por crimes cometidos, ou em Petersburgo ou em Moscovo.»
Maurício Augusto Benyowsky, general de cavalaria, natural da Hungria, tomou parte na guerra contra os russos na Polónia, foi preso em 1769 e enviado com os seus soldados para Kamchatka. Aqui abriu uma escola e o Governador Niloff confiou-lhe a educação das suas filhas, das quais Afanásia, a mais velha, apaixonou-se por ele, se bem que ele fosse casado. O Conde Benyowsky decidiu escapar-se com os seus soldados, mas o plano foi descoberto e Niloff empregou a tropa para os dominar; porém, foi morto na refrega; o conde apoderou-se da corveta S. Pedro e S. Paulo e fez-se à vela com os seus a 12 de Maio de 1771; Afanásia seguiu-o, vestida de homem. Com o nome de Aquiles.
As tempestades arrastaram o navio para as costas de Califórnia, donde seguiram para o Japão, Formosa e Macau, aonde aportaram a 22 de Setembro. De 95 indivíduos que haviam partido, só 65b chegaram a Macau; e vinham tão esfomeados que tendo as senhoras locais preparado uma abundante refeição, eles comeram com tal furor que 13 morreram de indigestão, entre os quais Afanásia.
O conde vendeu aqui a corveta e as peles que trazia e partiu para França, oferecendo-se ao Governo para fundar uma colónia em Madagáscar. Assim fez, proclamando-se Rei de Madagascar. Atacado pelos franceses, foi morto em combate.

Afanásia foi sepultada em S. Paulo. Um sueco, que 60 anos depois, viu a sua sepultura, escreveu: «Não se pode ver sem emoção, na igreja de S. Paulo, a sepultura que aí se encontra da jovem russa, que nela descansa, depois de ter seguido p audaz aventureiro conde Benyowsky na sua fuga das prisões de Petropowlowki. Morreu de dor, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificara pátria e família era casado»
O sueco engana-se: ela sabia que o conde era casado quando fugiu com ele; não morreu de dor, mas de indigestão.”

(1) O conde ou barão Maurício Augusto Benyowsky, nascido em 1741, em Verborwa, e faleceu a 7 de maio de 1786, em Madagascar. Era filho do conde Samuel Benyowsky (General de cavalaria) e de Rosa Révay. Esteve em Macau de 22-09-1771 a 14-01-1772.
(2) De 1770-1771, o Governador era possivelmente D. Rodrigo de Castro (As fontes não coincidem sobre as nomeações entre 1700 3 1773 segundo Beatriz Basto da Silva, Cronologia da História de Macau, Volume 2)