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VENDILHÕES DE MACAU 1 - Curandeiro Tit Tá(TIT TÁ) CURANDEIRO

(1)

QUACK

Postal da colecção “Vendilhões de Macau 1”. Ver:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/10/04/postais-fotos-antigas-de-vendilhoes-de-macau-i/

(1)      – mandarim pinyin: dié dá yi sheng; cantonense jyutping:  dit3 daa1 ji1 sang1 – Este termo atribui-se aos mestres de medicina tradicional chinesa – massagista;  tradução  literal:  “médico” das quedas e pancadas.

Recordo (não sei se ainda existe), o célebre consultório do “massagista de quedas e pancadas” na  Rua dos Ervanários.

Nasceu em Macau, o doutor Vicente de Paulo Salawitchy Pitter, Cavaleiro da Legião d´Honra de Cristo e da Conceição. Deixou o seu nome ligado a um preparado medicinal, por ele descoberto e confeccionado, chamado Sin-câp do Dr. Pitter, remédio composto de plantas medicinais, muito usado em Macau, noutros tempos, para perturbações gástricas, constipações, etc.”  (1)

O chá do Dr. Pitter ou chá sin-cap era o chá mais popular e mais famoso entre a população portuguesa de Macau até meados do século XX. para os “problemas do estômago”. A receita, por ser um segredo de família foi guardado durante muito tempo. (2) (3). Na verdade  era um preparado de oito espécies (plantas), todas elas utilizadas na Medicina Tradicional Chinesa, e com acção comprovada no tubo digestivo.
(1) GOMES, Luís G. Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 265 p.
(2)  “…o chá sin-cap era uma especialidade de muito apreço no meio de Macau. A designação macaense, não seria, pois, mais do que uma corruptela de scented caper, uma vez que o termo sin-cap não é considerado, pelos sinólogos, um vocábulo chinês, nem sequer conhecido fora do comércio que mais está em contacto com pessoas de hábitos macaenses. Um dos propagandistas desse chá sin-cap, se é que não foi o seu autor era um cirurgião, o Dr. Vicente Pitter, de origem estrangeira, mas nascido e velho residente em Macau, onde pelo casamento esteve ligado a família portuguesa”
SOARES, José Caetano – Macau e a Assistência. Edição da Agência Geral das Colónias, 1950
(3) “A família do Dr. Pitter sabia preparar um sin-cap especial em pó. Quando elle vivia, iamos jantar em casa d´elle no dia do seu aniversário ou de qualquer pessoa da família, e obrigava-me a tomar uma cháavena de sin-cap, logo depois de um lauto jantar…”
Carta do macaense Francisco Pereira Marques ao seu primo João Feliciano Marques Pereira (1863 -1909)
NOTA: Informações recolhidas do artigo de AMARO, Ana Maria – O famoso Chá do Dr. Pitter e o já esquecido Chá Patrício. Revista de Cultura, n.º 5, Ano II, 2.º Volume

Artigo publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Série 83.ª -N.os 1-3 e 4-6, 1965, pp. 35-42, da autoria de António Scarpa, Professor da Universidade dos Estudos de Milão.
No preâmbulo deste artigo, o autor que realizou uma viagem de estudo etnoiátrico (1) no Extremo Oriente, sobre a Medicina Tradicional Chinesa (em 1965), agradece às Autoridades da província portuguesa de Macau pela ajuda e informações, aos Padres Salesianos do Colégio Yuet Wah pela amável hospitalidade e à Secção de Drogas Exóticas dos Serviços Simes de Milão que o apoiou nesta viagem com um subsídio. Agradecimentos também ao Rev. Padre António Carlos Kirchner porque “com o seu profundo conhecimento do idioma chinês, da história e dos costumes locais, lhe serviu de valioso e sapiente guia”

A farmácia externa da Tong Sin Tong em 1965

Sumário do artigo em inglês: ” In the town of Macao, the traditional Chinese Medicine is very much in practice as well the European medicine. Very numerous are the drugstores that sell only the traditional drugs among which the more important are the very expensive gin-seng, the stag´s horn, the horn of rhinoceros, the bones of tiger and those of turtle, etc. Very frequently sold are  also the drugs obtained according to the formulas of the old Chinese pharmacopoeia. The Chinese pharmacists do not attend any study; all their apprenticeship is performed in the pharmacies, where they begin as chaiyuk (2) and finish as kwai min (director).
The Chinese traditional physicians, on the contrary, come from a physician family or attend a true school of 5 year’s duration, called Chung i Hók Uén. (3)  The teaching is based on the theories of the old medicine of the Han dynasty. At the end of the school they obtain a degree which allows them to practice. There are 4 classes of physicians, i. e.: the « herborists» (4), those which perform the needle´s prick (5), the orthopedists-masseurs (6) and the performing chih-gong, namely exercises, generally respiratory, for the treatment of the disease and for giving longevity.(7)
Very important is also the popular medicine, based on magic religious therapy.
In Macao do not longer exist any true hospital of  Chinese traditional medicine, but only ambulatory departments among which the more important, because of their organization, are those of the Tong Sin Tong association. On the whole can see that in the  Macao  district about the 40% of the Chinese people follows still the father´s medicine.”
Pelo exotismo, transcrevo:
“Entre as medicações extravagantes além da bílis de serpente – bebida com vinho chinês, que é muito forte – utilizada na cura dos reumatismo, das cigarras na debelação das febres, das patas de porco contra as dores dos membros, dos cavalinhos marinhos contra o cancro, das râs contra a hidropsia, da placenta humana, seca – como se pode encontrar nas farmácias – como reconstituinte, e de ossos de tigre, de tartaruga, etc. para uma infinidade de outras enfermidades. nas doenças nervosas, é aconselhável agarrar uma macaca, encerrá-la num aparelho especial provido de um orifício pelo qual deve sair sómente a parte do crânio do animal – extirpam-no e comem-no com a símia ainda viva “

NOTA: EM Macau, nesse ano, 1965, existam 34 Drogarias (farmácias chinesas), assim classificadas no Anuário de Macau (1966) para distinguir das farmácias do tipo ocidental (nesse ano estavam registadas somente duas: a “Popular” e a “Universal“). Já em 1984 (8), existiam 142 farmácias chinesas registadas nos Serviços de Saúde. Uma distinção é feita entre as farmácias que vendem apenas medicamentos produzidos por plantas e outras que alargam o seu stock aos insectos, diversos animais e substâncias químicas e minerais.

As farmácias encontravamm-se distribuídas principalmente pelas Rua dos Mercadores, Rua 5 de Outubro, zona de «Sun Kiu» (Rua da Barca) e área do mercado Vermelho.

mandarin pinyin: zhong yào ; cantonense jyutping zung3 joek1 – medicamento chinês,  para distinguir de 西 mandarin pinyin: xi yào ; cantonense jyutping sai1 joek1 – medicamento ocidental.

 (1) etno – relativo à raça
      iátrico – relativo à Medicina ou ao médico
(2) Chap Yueok – “apanhar medicação”. O aprendiz começa a sua aprendizagem com a limpeza da loja, ajuda na cozinha na preparação das refeições dos patrões e empregados, depois numa segunda etapa, aprende onde colocar os remédios e a cortá-los e só no fim, depois de conhecer os nomes e tipos de medicamentos, suas características e diferentes funções, a origem de cada um deles e saber tratar os produtos base (4 a 5 anos de treino) é que ocupam o lugar de “Chap Yeok” (8)
(3) O autor está a referir-se às Faculdades de Medicina Tradicional Chinesa: 醫學  (mandarin pinyin: zhong yi xué; cantonense jyutping zung3 ji1hok6). Os licenciados são 中醫(mandarin pinyin: zhong yi ; cantonense jyutping zung3 ji1), médico treinado em Medicina Tradicional Chinesa para distinguir do 西醫(mandarin pinyin: xi yi; cantonense jyutping sai1 ji1), Médico treinado em medicina Ocidental.
(4) Em Macau, algumas farmácias chinesas já têm um médico de medicina tradicional chinesa que dá consultas. Mas a maioria (não existe a figura do farmacêutico) continua a ser o empregado com a aptidão adquirida,  a aviar as receitas.
(5) Em Macau, conhecido como acupuncturista.
(6) Em Macau, conhecido como  massagista.
(7) 氣功 (mandarin pinyin: qì gong ; cantonense jyutping hei3 gung1), mais conhecido no ocidente como CHI KUNG.
(8) LIO, Peter – Farmácias Chinesas in NAM VAN, n.º 2, 1984. pp.16-20. Edição do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau