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Extraído de «BGC», ANO XIII, Julho de 1937 p. 173-174

O bispo era D. José da Costa Nunes

NOTA: Ver anteriores referências a estas personalidades e o Instituto Canossiano https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/d-jose-da-costa-nunes/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/artur-tamagnini-barbosa/ https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-acciaioli-tamagnini/

Lótus! Flores da noite, flor´s sagradas
De folhas verdes, longas, espalmadas,
Flor´s brancas e rosadas, flor´s de lago,
Que a lua beija e despe n´um afago.

À tona de água, pelas noites cálidas,
Lembrais-me virgens, sonhadoras, pálidas.
Noivas à espera do seu bem-amado . . .
Envoltas no veu branco de noivado.

Cobrindo os lagos quietos, azulados,
O´ flor´s de lótus de botões rosados,
Lembrais-me . . . seios castos, virginais,
Pombas brancas fugidas dos pombais.

Corpos leves de nymphas, a fluctuar
Sobre a alfombra das fôlhas verde-mar;
Princezinhas do Oriente, transformadas
Em pétalas de lótus, desmaiadas.

Foto pessoal do Jardim da Dra. Laurinda Marques Esparteiro, Taipa – 2015.

Flor´s de nácar de folhas côr de jade,
Inimigas do sol, da claridade,
Companheiras das águas que ao luar
Vos quedais todas brancas a scismar . . .

Dizei-me, ó princezinhas de algum dia,
Porque extranho pudôr ou phantasia,
Só quando a noite desce mysteriosa,
Abris as pet´las brancas-côr de rosa?

Flor´s que adornaes os templos, os altares,
Irmãs gémeas dos lindos nenúfares.
Graciosas princezinhas, encantadas
Em flor´s de lótus doces, perfumadas,

Se houvesse um deus, um feiticeiro, um santo,
Que para sempre vos quebrasse o encanto,
Os lagos silenciosos e parados
Morreriam de dor, inanimados!

Foto pessoal do Jardim da Dra. Laurinda Marques Esparteiro, Taipa – 2015.

Os cysnes exultavam de vaidade,
Mas choraria a lua de saudade
E os poetas não cantavam, nunca mais,
A poesia das noites orientais!

Maria Anna Acciaioli Tamagnini (1)

(1) TAMAGNINI, Maria Anna Acciaioli – Lin-Tchi-Fá, Flor de Lotus, Poesias de Extremo Oriente, 1925
Ver anteriores referências a esta poetisa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-acciaioli-tamagnini/page/2/

Publicado no jornal “A Voz de Macau” de 5 de Julho de 1937.
Anteriores referências  a esta poetisa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-acciaioli-tamagnini/

Artigo de Maria Ana Acciaioli Tamagnini  “Uma festa chinesa em Macau” publicado no jornal de Macau «A Pátria» (n.º 808 – Março de 1928) e republicado no Boletim Geral das Colónias, em 1928

Poesia de Maria Anna Acciaioli Tamagnini “CASAS DE ÓPIO”, publicada na página literária da revista «Portugal Colonial» (1) com uma dedicatória:

“EM SENTIDA HOMENAGEM À SAUDOSA POETISA D. MARIA ANNA ACCIAIOLI TAMAGNINI, «PORTUGAL COLONIAL» HONRA HOJE A SUA PÁGINA LITERÁRIA COM UM DOS MAIS BELOS TRECHOS POÉTICOIS DO LIVRO «LIN-TCHI-FÁ» (POESIAS DO EXTREMO ORIENTE) DA AUTORIA DAQUELA MALOGRADA ESCRITORA”

porto-colonial-n-o-41-1934-poesia-casas-de-opio

(1) Página literária da revista «Portugal Colonial», n.º 41, p. 11, 1934.
Sobre esta poetisa e o livro publicado em 1925, ver anteriores referências em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-tamagnini/

Diário de Lisboa 1925 PRIMAVERA de Maria Anna Acciaioli

Poesia “Primavera” de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, de Março de 1925, publicada no “Diário de Lisboa” n.º 1225, 6 de Abril de 1925.
Maria Anna  de Magalhães Colaço Acciaioli (1900-1933) considerada como a primeira mulher portuguesa a compor poesia de temática oriental, contraiu matrimónio  em 1916 com Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1881-1940)  que foi governador de Macau por três vezes.
Anteriores referências da poetisa em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-tamagnini/

M. Anna Accioli Tamagnini Portugal Colonial, n. 41-1934VIDAS QUE SE FINDAM

MORREU Maria Anna Acciaioli Tamagnini…
E com ela uma grande sensibilidade de artista.
Maria Anna Acciaioli Tamagnini passou a vida breve, que tão apaixonadamente amou, a cantar e a sonhar. Era o seu canto uma espécie de suave murmúrio como o que se desprende do shamiceu, dedilhado à hora melancólica do entardecer quando a fantasia rufla asas para longe, inquieta de beleza e de emoção.
Maria Anna Acciaioli teve em vida dois grandes amores: a sua arte e o seu Lar.
Como artista amou profundamente o Oriente e o Oriente dominou-a logo com seus misteriosos filtros, absorvendo avaramente aquele espírito gentil, deslumbrado e entontecido pela magia embriagadora do ambiente tão incompreensível para o mundo ocidental.
Alma gémea de outras a quem o Oriente também para sempre perturbou – Venceslau de Morais e Camilo Pessanha – , ao extinguir-se o último gorjeio de ave canora, de-certo livrou-se nos ares e fuflou asas para essas distantes paragens onde, segundo o fabulário oriental vivem os espíritos bons recreando-se em amável convívio à beira de laos de águas adormecidos, cheios de lotus e nenúfaves …

M. Anna Accioli Tamagnini II Portugal Colonial, n. 41-1934Outra grande paixão da sua vida a paixão Mulher – foi o seu lar, dissemos. Espôsa e mãe amantíssima, o seu desaparecimento deixou apagar o alegre brazido daquela lareira de ternura onde havia sempre conforto e calor.
Maria Anna Acciaioli Tamagnini conhecia profundamente a vida chinesa pois permaneceu longo tempo em Macau, junto de seu marido, o antigo governador daquela nossa Colónia, sr. Tamagnini Barbosa.
A sua sensibilidade extraordinariamente vibrátil, a sua lúcida inteligência, a sua cultura e os dons de coração que fartamente possuía, fizeram desta ilustre Senhora a companheira dum Governador de Colónia.
Não é vasta a obra literária que deixa, mas nem por isso é menos valiosa. Muitos dos seus escritos, dispersaram-se prodigamente por jornais e revistas.
Neles se revelavam sempre os primores da sua musa exótica de raro encanto e poder de expressão.
Colaborador ilustre desta Revista, para a qual escreveu horas antes de falecer, as últimas páginas da «crónica» que hoje publicamos, intitulada De Macau a Cantão, a sua morte, quando tanto havia a esperar dos seus talentos de escritora e poetisa, enche de pezar quantos tiveram a fortuna de a conhecer.
Portugal Colonial apresenta ao antigo Governador de Macau e nosso ilustre amigo, sr. Artur Tamagnini Barbosa a expressão do seu mais profundo pezar. ”

Da revista “Portugal Colonial“, 1934.
Sobre Maria Anna Acciaioli Magalhães Colaço (23.07.1898 – 05.07.1934; casamento com Artur Tamagnini Barbosa em 31.08.1881) ver referências anteriores em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-tamagnini/ 

Na sequência do post ontem colocado, sobre a inauguração do Asilo de Mendicidade Maria Ana Accioili Tamagnini Barbosa, (1) foi nesse dia, em Dezembro de 1940, também inaugurado um busto do Governador Tamaginni Barbosa (2), (marido da Maria Ana), que falecera nesse mesmo ano, em Julho. O busto ficou colocado à frente da entrada do Asilo.

Inauguração busto Tamagnini Barbosa IInauguração do busto do Governador Tamagnini Barbosa.

Busto Tamagnini Barbosa

 

 

O busto foi moldado pelo escultor Osseo Acconci, fundido em bronze, com pedestal de mármore, e pelo preço total de MOP 2.750,00, subscritas pelo público. (3)

Quando a asilo foi encerrado, o busto foi armazenado da Câmara até ser “resgatado” pelo responsável dos jardins da cidade, Alfredo Augusto de Almeida, (4) que o colocou no Jardim da Flora onde esteve muitos anos.
Por solicitação do filho, Mariano Tamagnini Barbosa, o busto foi transferido da Flora para o átrio da «Secção Pré-primária da Escola Primária Luso-chinesa de Tamagnini Barbosa (5), (extinta em 2011), na Rua Marginal do Canal das Hortas em Setembro de 1997” (3)

Escola L-C Tamagnini Barbosahttp://appl.dsej.gov.mo/

(1)
(2) O Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa (1881-1940) veio para Macau no transporte África, ainda bebé (1882), tinha quatro meses, trazido pelo pai, conselheiro Artur Tamagnini Barbosa. Fez os estudos em Macau no seminário e no liceu até aos 19 anos de idade regressando a Portugal com o pai. Em Coimbra licenciou-se em Administração colonial. Viúvo aos 35 anos de idade, casou em segundas núpcias com uma sua aluna, Maria Anna Acciaioli, com 16 anos. Maria Anna acompanhou o marido para Macau nas duas primeiras vezes (faleceu em Lisboa, em 1933). Chefe de Repartição do Ministério das Colónias quando foi nomeado pela primeira vez para o cargo de Governador de Macau (12-X-1918 a 17-VII-1919). Governou Macau por três vezes. Faleceu em Macau, durante o seu terceiro mandato, a 19 de Julho de 1940,  no Palacete de Santa Sancha (adquirido pelo Governo de Tamagnini Barbosa em 1937. (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume II)
Mais referências a este Governador em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/artur-tamagnini-barbosa/
(3) Araújo, Amadeu Gomes de – Diálogos em Bronze, memórias de Macau. Livros do Oriente, 2001, 168 p.
(4) Alfredo Augusto de Almeida (1898-1071), embora descendente da mais ilustre aristocracia macaense do século XIX, foi um funcionário público municipal, um estudioso da botânica e arqueologia (fundou o primeiro museu arqueológico da Fortaleza do Monte) dedicando a sua vida aos jardins a cidade especialmente o da Flora onde classificou cientificamente as plantas e os animais então existentes. Tem um busto, moldado em gesso por Osseo Acconci, no Jardim da Flora. (3)
(5) Sobre o Bairro Tamagnini Barbosa ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/bairro-de-tamagnini-barbosatoi-san/

O Asilo de Mendicidade (公共慈善救濟會), D. Maria Ana Tamagnini Barbosa (1) (2) foi construído nos anos 1939-40 (3) pelo Governo de Macau nos terrenos de Mong Há, primeiramente para acolher os órfãos e refugiados da Guerra Sino-Japonesa e depois, da Guerra do Pacífico. (4) 

Asilo Mendicidade 1940 -construçãoA construção do Asilo da Mendicidade D. Maria Ana Tamagnini Barbosa

Asilo Mendicidade 1940 - frenteFinal da construção em 1940 (frente do Asilo)

 Asilo Mendicidade 1940 - traseirasFinal da construção em 1940 (traseiras do Asilo)

 A inauguração foi em finais de 1940, integrado nas comemorações do Duplo Centenário da Independência e da Restauração.

Asilo Mendicidade 1940 - inauguraçãoDia da inauguração do Asilo de Mendicidade

Logo após a guerra, o asilo foi encerrado e o edifício foi demolido em 2008.

NOTA: o primeiro Asilo de Mendicidade em Portugal foi de Lisboa, criado em 1836 por iniciativa de Mouzinho da Silveira, no reinado de D. Maria II. Depois foram construídos nas Ilhas Adjacentes e nas colónias/províncias portuguesas. O Bispo de Macau, D. José Paulino de Azevedo e Castro (governo do bispado de 1903 a 1918), foi presidente da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade de Angra do Heroísmo (1894-1902).
(1) 公共慈善救濟會mandarin pinyin: gong gòng ci shàn jiu ji huì; cantonense jyutping: gung1 gung6 ci4 sin6 gau3 zai2 wui2.
(2) Sobre esta personalidade, Maria Ana Tamagnini Barbosa, ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-tamagnini/
(3) Publiquei em 19-05-2012, cópia de um recibo de cotisação para o Asilo de Mendicidade D. Maria Ana Tamagnini Barbosa datado de 1937, pelo que se pressupõe que a angariação do dinheiro para contribuição da construção vinha, pelo menos, já desta data.
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/05/19/cotisacao-para-o-asilo-de-mendicidade/
(4) A segunda guerra sino-japonesa iniciou-se em 1937 e decorreu até 1945 (II Guerra Mundial/ Guerra do Pacífico).

Rompia a manhã.
O sol despontava
E já o tam-tam
Ao longe soava:

Tam, tam-tam, tam-tam-tam
O gongo tangia
E tam-tam, tam-tam
O écho repetia

 Ao som d´esse monótono apello
Despertei, n´uma enorme anciedade.
Que doença, que desgraça, que flagello
Assolaria os bairros da cidade.

Para que, àquella matutina hora
Houvesse já sahído a multidão
E assim fosse, seguindo ruas fóra,
Atrás do tocador em procissão?

Epidemia? Ou espíritos dispersos
Occultos na neblina, a propalar.
Seus males? Há espíritos perversos
Que ao som do gongo fogem para o mar.

Mas não; porque havia
Sol resplandecente,
E o gongo tangia
Continuadamente

Tam, tam-tam, tam-tam,
O bronze vibrava
E tantã, tantã,
Ao longe echoava.

Assômo á varanda
Curiosamente.
Já nas ruas anda
Muita, muita gente.

 E assim, a procissão vai augmentando,
Distingo-o ao longe. A volta que ella dá!
Tenho agora a impressão que estão tocando
Parados, junto ao templo de «Mong Ha».

É certo que este ano os arrozaes
Mal reverdecem, fracos, estiolados,
E ficaram nos grandes temporais
Os juncos e os tankás despedaçados.

Talvez que, na sua crença de budhistas,
Elles tentem os deuses despertar
D´aquelle sono eterno, de egoístas
Que não acordam para não chorar.

Não deve ser esta,
Porém, a razão.
Vem em ar de festa
Toda a multidão

Á frente, em corrida
Surgem chinezitos
De calça comprida
E olhos exquisitos

Trazendo ballões
P´rá noite accender
Estalam «panchões»
Nos ares a arder

E, continuamente
Por entre a algazarra,
Vibrante, estridente,
Música bizarra

Pelos tocadores !
Um ruído infernal
De pratos, tambores
E o gongo oriental.

Sonóro a tanger:
Tam, tam-tam, tam-tam
……………………………………

…………………………………

Mas, que andará o gongo a annunciar?
Tristezas? Não por certo, que as não sente
Com música e «panchões» a estralejar,
Toda essa bicha, exótica, de gente!

Ah! Eclipse de lua, pelos sábios
Previstos para o fim d´esta semana
Sinto voltar o meu sorriso aos lábios
Compreendo agora: É a serpente humana,

Coberta de pano avermelhado,
Que se coleia e alonga pela rua.
A simular esse dragão irado,
Que tenta á força devorar a lua;

Enquanto esta, pequenina bola,
Entregue a um china ágil, saltitante,
Nas suas mãos esguias, brilha, rola,
Sem que a consiga esse dragão gigante.

E, ai de nós, se esse monstro do inferno
A conseguisse um dia devorar …
O eclipse seria eterno, eterno,
Nunca mais uma noite de luar!

              Maria Anna Acciaioli Tamagnini

NOTA: Na China, o gongo anuncia o visitante, afugenta os espíritos maus e as epidemias. Acorda os deuses nos Templos e afasia os supostos perigos dos eclipses da lua, que a lenda representa como um dragão tentando devorá-la.

TAMAGNINI, Maria Anna Acciaioli – LIN TCHI FÁ – Flor de Lótus. Lisboa, 1925, 99 p.
Referências anteriores a esta poetisa, em
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/maria-anna-tamagnini/