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Do diário de Harriet Low:  (1)

“1 de Maio de 1831: Passei uma tarde muito agradável em casa de Mrs Perrera (2)

Estava ali dois jovens, Carlos de nome, que haviam justamente chegado de Paris, genuínos franceses na aparência, nas maneiras e em tudo. Eles deram-nos algumas mostras da galopada, que é uma nova dança. Era horrível, penso eu, – e ser-me-ia muito penoso ser obrigada a dança-la. Após o almoço, tivemos todos que nos sentar e coser de novo as nossas luvas para a tarde; pois deves saber que aqui nunca podemos calçar um par sem coser cada ponto, o que é aborrecido”. (3)

(1) Ver anteriores trechos do diário em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/harriet-low/

(2) Segundo o Padre Teixeira, trata-se de Manuel Félix Pereira, filho do Conselheiro Manuel Pereira, proprietário, na altura, da Gruta de Camões. Do primeiro casamento o conselheiro teve 5 filhos com Ana Pereira Viana, três filhas e dois filhos O mais velho, António Vicente Pereira foi viver para Calcutá em 1817, ficando em Macau o segundo, Manuel Félix Pereira, comerciante e tesoureiro do Leal Senado e Fazenda Pública em 1836. Possuía com o seu pai e seu irmão António Vicente 16 acções da «Casa de Seguros de Macau». Casou em 1824 com Bárbara Luísa Pereira Correia Chaves.

(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – Macau no Séc. XIX visto por uma jovem americana, p. 22

Extraído de «TSYK»- III Ano, n.º 18 de 1 de Fevereiro de 1866, p. 77

O busto (e a sua inauguração que foi anteriormente publicada neste blogue)(1), já em 1862, mereceu um “apontamento” no «Boletim do Governo de Macau» (VIII-17 de 19-03-1862, p. 66):

Retrato de Camões – Desenho de F. Gerard e L. Visconti – Gravura de F. Lignon (1817) POSTAL  (14, 5 cm x 10,3 cm) – Colecção “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas “, 1987

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/28/noticia-de-28-de-janeiro-de-1866-busto-de-camoes/

28-01-1866 – “Para solenizar a colocação do busto de Camões, encomendado por Lourenço Marques, proprietário da gruta do mesmo nome, a Bordalo Pinheiro, busto este cuja chegada a Macau foi noticiada, no Boletim do Governo n.º 17 de 29 de Março de 1862, realizou-se «uma escolhida reunião de damas e cavalheiros, nacionais e estrangeiros, n´aquelle ameno e delicioso recinto». Compareceu também, S. Exa. O Governador e mais autoridades, bem como os estudantes do seminário, tocando a interessante banda marcial dos alunos, composta de mais de 20 músicos. Alguns estudantes recitaram, a propósito, várias poesias escolhidas e adequadas, em português, latim, francês e italiano. O Sr. Sá Camello, alferes do batalhão de linha recitou poesia do Sr. António Serpa Pimentel intitulada «Camões na gruta de Macau» ”(GOMES, Luís Gonzaga – Efemérides da História de Macau, 1954, pp. 26-27

1866 – O primeiro busto de Camões, na Gruta do Jardim de Manuel Pereira (1757-1826) foi substituído nesta data, por iniciativa do genro do rico negociante, Lourenço Caetano Cortela Marques, casado com Maria Ana Josefa Pereira. (SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau, Volume II, 2015, p.177) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/01/28/noticia-de-28-de-janeiro-de-1866-busto-de-camoes/

Continuação da leitura do livro “CHRONICA PLANETARIA (Viagem à Volta do Mundo) ” de José Augusto Correa, publicado em 1904 (1), referido em anteriores postagens (2)

“Uma das primeiras curiosidades de Macau que, naturalmente, o forasteiro procura vêr, é a afamada Gruta de Camões. A collina que a encerra é um pedaço do Bussaco transplantado ao extremo-oriente, assim como a avenida da Praia Grande é, em miniatura, a Promenade des Anglais, em Nice. Visitei a Gruta em um Domingo (22 de Junho). Ao aproximar-me do portão que, ao canto de uma pequena praça, dá entrada ao famoso recinto, ouvi canticos religiosos. Á direita de onde eles partiam vi uma fachada de egreja com uma porta aberta e entrei. Era um templo protestante, e na ocasião um padre inglez discursava. Retrocedendo tranpuz o portão e achei-me em face de um bello prédio azul que serve de repartição de obras públicas. (3) Na frente há um jardim. Contornando este, transpondo outro portão e descendo uma escada, penetra-se na pequena eden que inspirou o grande vate.

Segue-se no bosque um arruado amenisado por massiços de cannas e copado arvoredo, até que um caminho á esquerda, subindo o suave outeiro, nos leva ao local onde uma grande pedra, pousada sobre outras duas, cobre o busto, em bronze, do sublime épico, assente em um pedestal de granito. Sobre as quatro faces de base, estão gravadas outras tantas estancias dos Lusíadas e ao lado esquerdo, quatro grande pedras graníticas, encostadas as rochedo conteem sonetos dedicados ao cantor immortal. Este logar é impropriamente chamado gruta, visto que lhe falta a concavidade interior.

BUSTO DE CAMÕES NA GRUTA . 1957

É de crer que Camões se inspirasse alguns passos mais acima, no vértice da collina que domina o esplendoroso panorama do porto, da cidade, das ilhas circunvizinhas e de liquida imensidade. N´este alto está uma guarita de pedra e cal, onde de abrigou La Perouse, (4) ao acertar os instrumentos nauticos com que navegou para a imortalidade.”

(1) CORREA, José Augusto – Cronica Planetaria (Viagem à volta do mundo), 2.ª edição. Editora: Empreza da História de Portugal, Lisboa, 2.ª edição, 1904, 514 p. Illustrada com 240 photogravuras; 15,5 cm x 21 cm.

(2)https://nenotavaiconta.wordpress.com/2020/07/04/leitura-chronica-planetaria-de-jose-augusto-correa-i/

(3) Esta casa (Casa Garden) construída em 1770, era originalmente a residência de um rico comerciante português, conselheiro Manuel Pereira. Posteriormente, foi alugado para a Companhia das Índias Orientais.

Em 1885, o seu genro Lourenço Marques, que herdou a propriedade, vendeu-a ao Governo. Em 1887, instalou-se aí a Direcção das Obras Ppblicas, e depois em 1931, a Imprensa Nacional de Macau. Tornou-se parte integrante do Património Mundial da UNESCO Centro Histórico de Macau em 2005. Hoje em dia, é a sede da Fundação Oriente.

(4) Em 3 de Janeiro de 1787, fundearam, no ancoradouro da Taipa, os vasos de guerra franceses «Astrolabe» e «Boussole», e os seus oficiais, sob a direcção do Conde Jean François de Lapérouse. (1714-1788), que por ordem de Luís XVI fazia uma viagem de exploração científica à volta do mundo  Estiveram instalados no recinto da Gruta de Camões, onde efectuaram várias observações astronómicas. (SILVA, Beatriz Basto de – Cronologia da História de Macau, Volume 2, 1997)

Ver anteriores referências à Gruta de Camões, em: https://nenotavaiconta.wordpress.com/2012/07/15/macau-e-a-gruta-de-camoes-iv/

Gruta de Camões, Macau
George Chinnery
Aguarela em papel sem data
c. 1833-38

Em homenagem a Luís de Camões e à sua hipotética estadia em Macau, o comerciante Lourenço Caetano Marques que herdou do sogro, o rico comerciante Manuel Pereira, os terrenos onde estão o jardim e a gruta, mandou esculpir em Paris um busto em bronze do poeta, que lhe custou a pequena fortuna de 600 francos, que foi colocada no interior da gruta que ele terá frequentado e que, a partir de então, passou a ser conhecida por “Gruta de Camões”.
Mas porque razão o Jardim onde fica a gruta é conhecido em chinês por Pak Kap Chao, 白鴿巢 (1) ou seja, “Jardim do Ninho das Pombas Brancas”?
Tal como a mal conhecida vida de Camões, também neste caso os registos são vagos sobre a origem do topónimo chinês, a versão popular é que está associado ao rico comerciante que gostava muito de pombas e mantinha um numeroso pombal no seu quintal. No entanto tal versão é de autenticidade duvidosa, poiso termo já aparece em muitos documentos e literatura da época, tantos chineses como portugueses, e muito antes de Lourenço Caetano Marques se ter mudado pata tal mansão em 1838.
Uma outra versão defende que o termo “Ninho das Pombas Brancas” deriva de um jardim botânico e zoológico na mansão de um homem rico, ao qual as pessoas se referiam como “Ninho dos Cem Pássaros”, pronunciado em chinês “Pak Liu Chao” (2) e que nos documentos teriam confundido os dois termos (“Pak Kap Chao”» e “Pak Liu Chao” (3)
(1)白鴿巢mandarim pīnyīn: bái gē cháo; cantonense jyutping: baak6 gaap3 caau4
(2) 白鳥巢– mandarim pīnyīn: bái niǎo cháo; cantonense jyutping: baak6 niu5 caau4
(3) As Ruas Antigas de Macau, versão em português. IACM, 2016, p. 86
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/jardim-de-camoes/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/gruta-de-camoes/

A 22 de Julho de 1828, o procurador do Senado, Joaquim José Ferreira da Veiga publicou um edital, proibindo a abertura de uma casa de despejo para o negócio, no chalé de Matapau, (1) pertencente a António Pereira, (2) por ser chamariz de vadios com prejuízo para todos os vizinhos.
A 5 de Novembro de 1834, arderam todas essas barracas, segundo consta do ofício do procurador de Macau, António Pereira, do dia seguinte, aos mandarins do distrito: «Verificou-se no incêndio de ontem à noite, tudo o que eu e meus antecessores disseram ao Snr. Mandarim, de que as barracas da Praia Pequena e outras deram ocasião ao incêndio, pelo qual perigavam a existência do estabelecimento, as vidas e os bens; e com efeito os haos (lojas) chinas de muitas e valiosas fazendas, os matapaus e todas as propriedades chinas da beira-mar incendiaram-se; a e a minha própria casa principiou a incendiar-se, sendo de tudo a causa as barracas do mar».
Pedia que não se construíssem ali mais.
A 17 de Mesmo mês, o procurador insistia com o mandarim Tsó-tang que os matapaus, que estavam dentro da cidade, se mudassem para Patane.
A 19 de Janeiro de 1835, novamente  o procurador João de Deus Castro chamava a atenção do mandarim para o perigo de incêndio dessas barracas; e a 8 de Janeiro de 1936, o Procurador Francisco José de Paiva insistia no mesmo assunto, dizendo que os chinas estavam construindo barracas junto à propriedade de António Pereira no Matapau. (3)
(1) Matapau é uma planta da família das gutíferas – tangerinas como indica o nome chinês da Rua do Matapau (1)- Kat Chai Kai ( 桔仔街 ), isto é, Rua da Tangerina. Aos vendedores de tangerinas dava-se o nome de Matapáus, os quais estabeleceram nesse local as suas lojas ou barracas.
A Rua do Matapau fica situada entre a Avenida de Almeida Ribeiro e a Rua da Barca da Lenha, começando um pouco antes da Travessa de Hó Ló Quai, junto do tardoz do prédio n.º 63 da Avenida Almeida Ribeiro  e terminando entre o prédio n.º 106-B da Rua dos Mercadores e o prédio n.º 2 da Travessa do Aterro Novo.
(2) António Vicente Pereira, filho do Conselheiro Manuel Pereira e de Ana Pereira Viana (3) ou Rosa Pires Viana (4) era casado com Aurélia Susana Viana Mendes, filha de Mateus Mendes e de Maria Mendes (3) ou Mónica Viana (4), de quem teve onze filhos. O Conselheiro Manuel Pereira (1757 – 1826) chegou a Macau entre 1772 e 1780, grande negociante da praça de Macau, fundador, tesoureiro e vice-presidente da «Casa de Seguros de Macau», provedor da Santa Casa da Misericórdia (1798-1806) juiz ordinário da Câmara de Macau (1798) , procurador do conselho 81801, 1804 e 1808) e vereador durante muitos anos. Fidalgo cavaleiro da Casa Real, conselheiro de Sua Magestade entre outros títulos da nobreza, comprou a propriedade onde se encontrava a Gruta de Camões e comprou e colocou aí o primeiro busto do poeta.(4)
(3) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I, 1997.
(4) FORJAZ Jorge, Famílias Macaenses, Volume II, 1996.
NOTA: Embora os caracteres chineses da Rua do Matapau sejam: 桔仔街mandarim pīnyīn: xié zǐ jié; cantonense jyutping: gat1 zai2  gaai1, os caracteres de “tangerina” são 橘子mandarim pīnyīn: jú zǐ,; cantonense jyutping:qwat1 zi2

Entrada do Jardim de Camões – Maio 2017

Com uma área de 2,45 hectares (1) é um dos jardins mais antigos de Macau (a par do jardim interior do Leal Senado e do jardim de S. Francisco), situado numa pequena elevação que se estende para norte da Praça de Luís de Camões (2) onde está a entrada. Entra-se por um amplo portão de ferro, visualizando logo à entrada quatro belos exemplares de árvores do pagode (Ficus microcarpa L. f.), com as suas longas e delgadas raízes adejando ao vento. Ao fundo uma escadaria, enquadrada por belos exemplares de palmeiras elegantes ou palmeiras Alexandras, juntamente com palmeiras leque e palmeiras bambus, que conduz à parte superior do jardim, onde se encontra o busto do poeta. (1)

Jardim de Camões – 1950

O local ocupado pelo jardim situava-se nos limites da cidade, sendo ainda a visível na sua parte norte, o que devem ter sido umas antigas muralhas. Era propriedade de um dos homens mais ricos de Macau, o conselheiro Manuel Pereira, tendo-a adquirido em 1815.
A Companhia das Índias Orientais arrendaram a propriedade e forma os ingleses que ao gosto romântico da época que criaram sobre o cerrado arvoredo, estreitas alamedas seguindo a orografia do terreno, para o que mandaram inclusivamente vir jardineiros de Inglaterra. (1)

Jardim de Camões -1960

Segundo Carlos Estorninho (3), os ingleses conseguiram reunir no jardim numerosos e valiosos exemplares da flora da China, Malaca, Java, Manila e Índia que mereceram, nos finais do século XVIII e princípios do século XIX, a atenção dos botânicos ingleses David Stornach,(4) William Kerr (5) e Thomas Beale,(6) tendo este último enviado para o Jardim Botânico de Kew, em Inglaterra, mais de 2500 plantas exóticas. Com a a extinção da Companhia das Índias Orientais, a propriedade voltou a ser administrada pelos familiares do conselheiro Manuel Pereira (falecido em 1826), nomeadamente o seu genro comendador Lourenço Marques (7). A propriedade foi depois vendida ao Governo de Macau em 1885.
(1) ESTÁCIO, António Júlio Emerenciano; SARAIVA, António Manuel de Paula – Jardins e Parques de Macau, IPOR, 1993, 63 p.
(2) A Praça está situada entre a Igreja de Santo António e o Jardim de Camões e tem ligação com a Travessa da Palanchica, a Calçada do Botelho, o Largo de Santo António e a Rua Coelho de Amaral. (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM, 1997).
(3) ESTORNINHO, Carlos – Boletim do Instituo Luís de Camões, Vol. XIV, n.º 1 a 4, Macau, 1980 in (1)
(4) David Stornach, botânico que integrou a 1.ª embaixada britânica à China conhecida como “A Embaixada Macartney” em 1793. A expedição chegou a Macau a 19 de Junho de 1793 e partiu a 21 de Junho para Pequim (Beijing) sem passar por Cantão (Guangzhou).
(5) William Kerr foi jardineiro escocês do Jardim de Kew (Escócia) que foi enviado para a China em 1803 por Sir Joseph Banks (botânico que fez parte da 1.ª viagem do capitão James Cook a bordo do “HMS Endeavour”) tendo estado em Cantão até 1812, a recolher e catalogar plantas dos jardins chineses até então desconhecidas na Europa (a ordem  de Sir Banks  era recolher especialmente as plantas do chá).  Conhecido como o primeiro profissional colecionador de plantas na China , enviou cerca de 238 exemplares de plantas à Europa de Cantão. Em 1812 foi enviado a Colombo (antiga capital do Ceilão; hoje Sri Lanka) como superintendente do jardim botânico colonial (“The Royal Botanic Gardens” aberto em 1810 sob a supervisão de Sir Joseph Banks). Faleceu em 1814 talvez relacionado com a dependência ao ópio.
htps://en.wikipedia.org/wiki/William_Kerr_(gardener)
https://www.helpmefind.com/gardening/l.php?l=18.11352
(6) Sobre Thomas Beale (1775-1841), ver anterior referência neste blogue em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2015/12/11/noticia-de-11-de-dezembro-de-1841-o-malogrado-thomas-beale/
(7) – Segundo o livro (1) por 35 mil patacas; o Padre Teixeira refere 30 000 patacas, apesar de a Missão Francesa ter oferecido 35 000. (TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Volume I. ICM , 1997).


Extraído da «Revista Colonial», Anno IX- 2, 1921.

Continuação da publicação das fotografias deste pequeno álbum (1)

“SOUVENIR DE MACAU”

Souvenir de Macau 1910 jardim Chinez

 “UM JARDIM CHINEZ”

Jaime do Inso escreve sobre este “Jardim Chinez” – o jardim de Lou Lim Ioc (também conhecido por Jardim de Lou Kao):
“Estes jardins, ali para os lados do Campo do Tap Seac, encerram uma vivenda cheia de verdadeiras fantasias orientais, formada por um palacete, pavilhões, lagos com pontes caprichosas, grutas artificiais, cascatas, flores, muitas flores, sendo de admirar como so chineses, com a aparência que nos manifestam tanto as apreciam.
Encontram-se ali recantos de verdura, fechados, discretos, com mesas e bancos, em redor, caramanchões exóticos, cheios de dragões decorativos, quiosques com vidros de cores casinhas misteriosas dispersas pelos cantos, que bem revelam quando Lu Lim Ieoc era um pagão adorador da vida…
E os trabalhos de embelezamento do famoso jardim nunca se acabavam, havia sempre mais uma gruta, uma cascata, uma árvore a dispor, etc, para não fugir à superstição de que, acabada a casa, o dono morrerá.” (2)
E na verdade, com a morte de Lou Lim Ioc, em 1927, o jardim entrou em decadência e os herdeiros (filhos) após a Segunda Guerra Mundial, em 1951,por questões financeiras venderam a extensa área (parte do jardim foi para construções urbanas, outras partes ocupadas pelas escolas Pui Cheng e Leng Nam) restando pouco, residência, pavilhões, lago que foram adquiridos pelo Governo em 1974. Após restauro abriu como jardim público.

Souvenir de Macau 1910 Um aspecto da Gruta de CamõesOUTRO ASPECTO DA GRUTA DE CAMÕES

Escreve Luís G. Gomes no Boletim do Instituto Camões, Vol. VII, n.º3, Outono de 1973:
Situado no Jardim da Gruta de Camões, está instalado em vetusto palacete, um dos raros exemplos de construção arquitectural dos meados do século XVIII, que sobreviveu ao camartelo inexorável do incessante progresso.
Foi dono, tanto deste edifício como do amplo parque que o rodeia, o abastado negociante Manuel Pereira, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real do Conselho de Sua Majestade, Conselheiro da Fazenda, Comendador das Ordens de Cristo e da Senhora da Conceição de Vila Viçosa, um dos fundadores da Casa de Seguros de Macau e seu Vice-Presidente e Tesoureiro. Tendo-se radicado nesta cidade, aqui constituiu família, casando três vezes e aqui faleceu em 10 de Março de 1826, tendo sido sepultado na igreja do extinto Convento, hoje Quartel de S. Francisco” (2)
(1)  https://nenotavaiconta.wordpress.com/category/artes/
(2) TEIXEIRA, P. Manuel – Toponímia de Macau, Vol I, 1997

Continuação da leitura da 3.ª parte do artigo “Macau Cidade de Prazeres” (1), sem indicação de autor, publicado na “Ilustração Portugueza”, de 1908, nas pp. 807-808.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres TÍTULO

Não é a embriaguez brutal do occidente, é ainda a forma hypocrita de gosar núma nuvem de fumo o que sem ella ninguém pode obter. As maiores loucuras, mulheres correndo nuas como n´um paraizo novo por entre árvores de sombras bellas e roseiraes sem espinhos, de agradável perfume, os sue lábios abertos para beijos, os seus braços sôfregos de se enlearem; é o amor em toda a sua subtileza divina e em todo o seu final bárbaro.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres Palácio do Governo“Palacio do Governo”

 Sonhos de glórias em que o homem é Deus n´um céu para elle feito, em que a sua côrte são as maiores belezas da terra, em que basta um gesto para derruir um mundo. Foi isto o que Kouong Tsen revelou aos seus discípulos ao fumar a seiva da papoula vermelha do delírio, foi isto o que se tornou logo vulgar, para ser d´ahi a pouco um dos mais ricos commercios d´essa China mysteriosa. Logo cahiu da grandeza d´uma religião nas casas de venda, e em Macau, como de resto onde há chinezes, embora lhes prohibam por editos tremendos esse goso, sempre hão-de existir os logares de luxo e de asco onde se fuma o opio e onde se sonham delicias.

Ilustração Portugueza1908 Macau Cidade de Prazeres Palácio da Gruta de Camões“Palacio da Gruta de Camões” (2)

 Em todos paira o mesmo perfume adocicado e o mesmo fumo cinzento que mata, que abaçana a pelle e come a carne, tornando o homem transparente e roubando-lhe o pensamento, marcando bem que Deus enlouquece aquelle que deseja perder.

Nas casas ricas como nas espeluncas é sempre o mesmo, acrescentando-se a estas o horror natural do scenario, em que homens e mulheres se misturam em esteira infectas, os olhos cerrados, n´um cheiro nauseante, acordando por fim n´um torpor, os olhos espantados, os membros lassos, com o ar de pessoas que voltassem d´um mundo distante, que estivesse, mergulhadas n´um sonho de seculos e acordassem espantadas deante do que viam.”

(1) https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/01/leitura-macau-cidade-de-prazeres-i-anno-novo-china-1908/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/02/leitura-macau-cidade-de-prazeres-ii-o-jogo-do-fantan-1908/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2014/02/16/leitura-macau-cidade-de-prazeres-iii-
(2) O Palacete de Manuel Pereira (mais conhecida por «Casa Garden») que depois foi Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões, depois Museu Luís de Camões e adquirido em 1988 pela Fundação Oriente, para sua sede. Ver mais informações em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/06/18/mapa-turistico-de-macau/
https://nenotavaiconta.wordpress.com/2013/09/25/noticia-de-25-de-setembro-de-1960-museu-luis-de-camoes/

Integrado nas Comemorações Henriquinas de Macau, abre ao público o Museu Luís de Camões instalado no Palacete que pertenceu a Manuel Pereira, no Jardim de Camões. (1)

Palacet Manuel Pereira IO palacete de Manuel Pereira, rodeado pelo parque e vendo-se ao fundo, no alto dum montículo, a Gruta de Camões. (Do Archivo Pitoresco, Vol VII, 1864, pg. 57) (2)

 “Quando o Comandante Pedro Correia de Barros veio chefiar esta província, incumbiu este Governador o então Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. Pedro de Guimarães Lobato, do planeamento das obras de adaptação do edifício, da selecção das peças que nele deveriam figurar. Para este efeito, confiou o sr. Dr. Lobato ao falecido antiquário T´ou Kim Tchâu, devidamente remunerado pelo Leal Senado, o arrolamento, classificação e selecção das peças que julgasse dignas de ser expostas ao público.

Palacet Manuel Pereira IIO palacete de Manuel Pereira, quando serviu de depósito de Material de Guerra (Da revista Ta-Ssi-Yang-Kuo, 2. Vol, pg 387) (2)

 Pelo Diploma Legislativo n.º 1 429 de 4 de Outubro de 1958, publicado no mesmo Boletim Oficial n.º 40 da mesma data, foi o Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões entregue ao Leal Senado, da Câmara de Macau, ficando a propriedade do imóvel registada em nome da mesma entidade e, para auxiliar a manutenção do pessoal do museu, o Estado passou a conceder um subsídio anual de $ 15.000,00 ao Leal Senado da Câmara de Macau, que nomeou uma comissão para estudar as beneficiações que carecesse o edifício do museu e 32 quadros de relativo valor histórico e artístico foram enviados para o Museu de Arte Antiga de Lisboa para serem restaurados.

 Museu Luís de Camões

Em 10 de Agosto de 1960, a Comissão Administrativa Municipal da presidência do Dr. Pedro José Lobo, reconhecendo ser de toda a vantagem abrir o museu ao público, o mais depressa possível, e a achando inexequíveis o plano e as sugestões apresentadas, mandou efectuar, urgentemente, várias obras de reparação e adaptação no edifício, determinando que a sua abertura fosse efectuada, em 25 de Setembro de 1960, como parte integrante das Comemorações Henriquinas, sendo, sob proposta do Vice-presidente Capitão de Engenharia José Arede Bastos, convidado para desempenhar as funções de Conservador do Museu, o então Professor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, sr. Luís Gonzaga Gomes.

 Após novo trabalho de selecção, classificação, distribuição e arrumação, efectuado pelo actual Conservador, o Museu Luís de Camões, como ficou definitivamente a chamar-se, foi, finalmente, aberto ao público, na referida data,, e, desde então, todos os dias, com a exclusão das quartas feiras, ao princípio, das 10.00 às 16.00 horas e actualmente, das 11.00 às 17.00 horas, está franqueado aos visitantes, sendo o custo do bilhete de entrada $ 0,50, em qualquer dia de semana, excepto, às sextas feiras em que a entrada é gratuita, conforme ficou determinado pela Portaria n.º 577 de 1 de Outubro de 1960. (2)

(1)     25 de Agosto de 1960 – Completadas as novas instalações do Museu Luís de Camões, em Macau. A primeira sugestão de se fundar esse Museu partiu do Governador de Macau, em 1927. O resto do tempo foi utilizado a recolher peças e, talvez pelo espaço de que iam necessitando, o espólio mudou 5 vezes de lugar, até esta data em que foi inaugurado, na Casa do Jardim de camões. A abertura ao público, no entanto, ainda iria esperar mais um mês
SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 5. Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1998, 320 p (ISBN 972-8091-64-8)
(2)   GOMES, Luís G. – Museu Luís de Camões. Macau, Imprensa Nacional, 1973, 57 p.
Ver anteriores referências ao Museu em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/museu-luis-de-camoes/