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Livro do Padre Manuel Teixeira, publicado pela Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, impresso na Imprensa Nacional, Macau, em 1982, com 171 páginas. (21 cm x 15, 5 cm). A capa é de António Andrade. (“retratos” de Luís de Camões, Camilo Pessanha, Miguel de Arriaga Brum da Silveira  e Bocage).

Vultos Marcantes em Macau CAPAPequenas biografias (média de 2 páginas por cada vulto) de 73 personalidades que marcaram a sua presença na história de Macau. Na introdução, “Duas Palavras”, o autor refere:
“Há certos vultos, a que poderíamos chamar «barões assinalados», que marcaram a sua presença na história de Macau, pelos seus feitos militares, pela sua diplomacia, pela sua cultura, pela sua benemerência, pelo seu zelo apostólico, numa palavra, por obras fora do vulgar, pelas quais se foram da morte libertando.
Dentre muitos, escolheremos apenas alguns que deixaram assinalada a sua presença nesta Cidade do Nome de Deus”.

Dos 73 biografados, causa-nos estranheza estar um (uma) que de certeza não encaixava nos objectivos traçados pelo autor pois é pouco conhecida a sua curta história, e não “ deixou profunda pegada nesta terra, que lhe serviu de berço ou que o abrigou em seu seio”. Trata-se Afanásia do Niloff.

The Annual Register” de 1772, de Londres, informava:
«Em fins de Setembro de 1771, chegou a Macau um navio de aparência desusada, com 65 pessoas a bordo, a maior parte militares, comandados por um coronel com o título de barão de Benyowsky (1). Havia a bordo 5 pessoas vestidas de mulher.
Uma dessas pessoas, vestidas de mulher, faleceu há poucos dias.
A senhora foi desembarcada com o seguinte pedido muito extraordinário ao Governador (2):
Que o cadáver fosse enterrado, onde ninguém jazera até então e num lugar honroso; que se desse licença ao barão para assistir ao funeral a fim de prestar honras especiais à defunta.
Este singular pedido despertou a nunca extinta curiosidade, peculiar ao clero de Roma: dois signatários da Ordem Franciscana, aproveitando-se da noite, espreitaram para dentro do caixão e descobriram o corpo de um homem.
Este logro desgostou muitíssimo os portugueses, que deram ordem para que se desse ao morto um enterro ordinário.
São várias as versões que correm acerca do suposto defunto: alguns dizem ter o barão declarado que era um príncipe do Império; outros dizem que era bispo.
Este caso tem levantado muitas conjecturas, que não são muito favoráveis às restantes pessoas de saias».

O periódico de Londres fazia este comentário: «Muitas partes deste relato extraordinário foram desde então confirmadas por notícias de Petersburgo. O pretenso barão e general dos Confederados era um verdadeiro aventureiro e astuto em grau considerável da sua vocação: foi condenado a trabalhos forçados em Kamchatka por crimes cometidos, ou em Petersburgo ou em Moscovo.»
Maurício Augusto Benyowsky, general de cavalaria, natural da Hungria, tomou parte na guerra contra os russos na Polónia, foi preso em 1769 e enviado com os seus soldados para Kamchatka. Aqui abriu uma escola e o Governador Niloff confiou-lhe a educação das suas filhas, das quais Afanásia, a mais velha, apaixonou-se por ele, se bem que ele fosse casado. O Conde Benyowsky decidiu escapar-se com os seus soldados, mas o plano foi descoberto e Niloff empregou a tropa para os dominar; porém, foi morto na refrega; o conde apoderou-se da corveta S. Pedro e S. Paulo e fez-se à vela com os seus a 12 de Maio de 1771; Afanásia seguiu-o, vestida de homem. Com o nome de Aquiles.
As tempestades arrastaram o navio para as costas de Califórnia, donde seguiram para o Japão, Formosa e Macau, aonde aportaram a 22 de Setembro. De 95 indivíduos que haviam partido, só 65b chegaram a Macau; e vinham tão esfomeados que tendo as senhoras locais preparado uma abundante refeição, eles comeram com tal furor que 13 morreram de indigestão, entre os quais Afanásia.
O conde vendeu aqui a corveta e as peles que trazia e partiu para França, oferecendo-se ao Governo para fundar uma colónia em Madagáscar. Assim fez, proclamando-se Rei de Madagascar. Atacado pelos franceses, foi morto em combate.

Afanásia foi sepultada em S. Paulo. Um sueco, que 60 anos depois, viu a sua sepultura, escreveu: «Não se pode ver sem emoção, na igreja de S. Paulo, a sepultura que aí se encontra da jovem russa, que nela descansa, depois de ter seguido p audaz aventureiro conde Benyowsky na sua fuga das prisões de Petropowlowki. Morreu de dor, quando soube que o homem, a cujo amor sacrificara pátria e família era casado»
O sueco engana-se: ela sabia que o conde era casado quando fugiu com ele; não morreu de dor, mas de indigestão.”

(1) O conde ou barão Maurício Augusto Benyowsky, nascido em 1741, em Verborwa, e faleceu a 7 de maio de 1786, em Madagascar. Era filho do conde Samuel Benyowsky (General de cavalaria) e de Rosa Révay. Esteve em Macau de 22-09-1771 a 14-01-1772.
(2) De 1770-1771, o Governador era possivelmente D. Rodrigo de Castro (As fontes não coincidem sobre as nomeações entre 1700 3 1773 segundo Beatriz Basto da Silva, Cronologia da História de Macau, Volume 2)

Poesia de Bocage dedicada D. Maria de Guadalupe Topede Ulhoa Garfim,(1) que viveu em Macau em fins do século XVIII. Era de tão rara beleza e de tão ilustre linhagem que Bocage que chegou a Macau em 1789, lhe dedicou uma longa poesia de que reproduzimos os seguintes versos (2)

«Aqui meus hinos a verdade entoa,
Aqui sobre mil flores
Aos atractivos da preclara Ulhoa
Forjo eternos louvores
………………………………………………………………..
Óptimo fruto de alterosa planta,
Vénus só na beleza,
Semi-deusa gentil, que enches de tanta
Vanglória a Natureza,

Menos brilhantes do que as graças tuas
Dançam entre os Amores
Lá nos cíprios jardins as graças nuas,
Calcando as tenras flores.

Não era, ó Ninfa, como tu formosa
A bela desgraçada
Que o lácteo seio penetrou saudosa
Com a troiana espada.

Se de Frígia te visse o pastor loiro,
Que às divinas porfias
Pôs termo, ou teu seria o pomo de oiro,
Ou seu prémio serias.

De teus esclarecidos ascendentes
A veneranda história
Impressa vive, em Lâminas pendentes
Das aras memória.

O fresco Tejo, o fresco Mançanares
Lá noutra idade os viram
Obrar altas proezas singulares,
E por eles suspiram.

Que direi da tua alma! Inda é mais bela
Que teu belo semblante;
Angélicas virtudes formam dela
O retrato brilhante.

Mas teus celestes dons serão manchados
Com meu tosco elogio;
Com versos, que talvez sejam lançados
No sonolento rio!
……………………………………………………………….
Novo Atlante, o sidério firmamento
Quero manter nos ombros,
Se da tua alma debuxar intento
As graças e os assombros!.

(1) D. Maria de Guadalupe Topete de Ulhoa Garfim, provavelmente de ascendência castelhana, quer pelos apelidos, quer pelas referências ao pequeno rio Mançanares, que banha Madrid, unido ao “aprazível Tejo”, em cuja “ruiva margem” o poeta tem o seu “tugúrio pobre”.
VIANA, António M. Couto – Bocage no Extremo Oriente in RC – Revista de Cultura, n.º  37,  1998
(2) Retirado de TEIXEIRA, Padre Manuel – Vultos Marcantes em Macau, D.S.E.C., 1982.

A propósito da passagem de mais um ano da morte do poeta, amanhã dia 21 de Dezembro (1), transcrevo doutro poeta (2) estes versos.

BOCAGE

Naquele ano fatal da Grande Perdição
Que deflagrou, no mundo, un nouvel âge,
Chegou aqui surgido de Cantão,
Pra onde o arrebatara o furor de um tufão,
Poeta Bocage.

Achou a terra decadente e estranha
E a gente ora mendiga ora devassa.
E enquanto, num soneto, a satiriza, entoa
Meigas estrofes à “magnânima Saldanha”
(Marília, ao celebrar-lhe a formusura e a graça)
E um hino de lisonjas à “preclara Hulhoa”

Quase um ano inteiro (quase uma vida inteira!)
Por Macau bocejou e vagueou à toa.
Mas, por mercê de Lázaro Ferreira,
Um dia, enfim, pôde enrolar a esteira
E voltar a Lisboa.
A cidade, porém, não lhe esqueceu o vulto
(Esqueceu o soneto que é justo, sem ser mau):
Hoje, uma rua, rende-lhe culto.
– É quanto o poeta tem em Macau.

António Manuel Couto Viana (2)

(1)   Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 – 1805). Ver em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/manuel-barbosa-do-bocage/
(2)   Retirado do blogue:
http://www.jornaldepoesia.jor.br/couto05.html
 
Referências anteriores do poeta António M. Couto Viana em:
https://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/antonio-couto-viana/

“Morreu em Lisboa, o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage que durante a sua curta residência nesta colónia, foi hospedado pelo negociante Joaquim Pereira de Almeida, que o apresentou à sociedade macaense, tendo também sido protegido do Ouvidor e Governador, Lázaro da Silva Ferreira” (1)

Bocage IManuel Maria Barbosa l´Hedois du Bocage (Setúbal 15-09-1765 – Lisboa 21-12-1805), esteve em Macau de Outubro de 1789 a Março de 1790. Por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 15 de Setembro de 1783. Nessa data, foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, surge nomeado guarda-marinha por D. Maria I. Em 14 de Abril de 1786,  embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”, comandada por José Rodrigues Magalhães,  mas arribou ao Rio de Janeiro, por causa de ma tempestade, em finais de Junho. Em Abril de 1786, tornava a partir na mesma nau,  fez escala na Ilha de Moçambique (início de Setembro) e chega finalmente a Goa a 29 de Outubro desse ano. Em Pangim, frequentou de novo os estudos regulares de oficial de marinha. Em 25 de Fevereiro de 1789 foi promovido a tenente de infantaria da 5.ª companhia da guarnição da praça de Damão, onde chegou a 6 de Abril do mesmo ano, mas logo dois dias depois desertou e foge para Macau, aportando primeiro em Cantão devido a uma tempestade. Em Macau, Lázaro da Silva Ferreira, governador de Macau,não o pronunciou por haver desertado de Damão, e o negociante Joaquim Pereira de Almeida, recebeu-o dando-lhe agasalho e o apresentou na sociedade macaense. Mas absolvida a culpa, o poeta não descansava com saudades da pátria, dos amigos e dos amores. Tratou logo de partir, e em Agosto de 1790 entrava a barra do Tejo. Chegava então a Lisboa o eco da revolução francesa de 1789 (2)
(1) GOMES, Luís G. – Efemérides da História de Macau. Notícias de Macau, 1954, 267 p.
(2) Dados recolhidos de:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Maria_Barbosa_du_Bocage
e http://www.arqt.pt/dicionario/bocagemanuel.html

Oferecido em Macau à Excelentíssima Senhora D. Maria de Saldanha Noronha e Meneses e suas filhas (2)

Musa chorosa, que por terra estranha
Tão longe de teu pátrio ninho amado,
Andas errante, suspirando ao lado
Da Saudade fiel, que te acompanha:

Do chão, onde a lançaste, a lira apanha,
E seja em brando som por ti cantado
Um peito de virtudes adornado,
A piedosa, a magnânima Saldanha

Louva os dons daquela alma excelsa e pura,
Que as tuas gastará mágoas penosas,
Como a aurora desfaz a noite escura

Depois às linhas filhas melindrosas,
rivais da mãe de Amor na formosura
Tece capelas e festões de rosas.

(1) Manuel Maria Barbosa do Bocage (1765- 1805)
Embarcou em 1786 para India. Esteve em Goa 28 meses e devido à sua participação na «Conspiração dos Pinto», foi transferido para Damão. Chegou a Damão em 7 de abril de 1789.  No dia seguinte desertou, indo para Surrate e depois com destino a Macau. Porém  devido a um tufão, o navio foi parar a  Cantão. Daí veio para Macau.  O desembargador Lázaro da Silva Ferreira (governador interino) repatriou-o para Lisboa onde chegou em Agosto de 1790.

“Presumimos que Bocage estivesse em Macau desde Setembro ou Outubro de 1789 a Março de 1790, em que partiu para Lisboa. A razão é a seguinte. Ele compôs em Cantão uma elegia à morte do príncipe D. José. Ora este faleceu a 11 de Setembro de 1788, mas a notícia só chegou a Macau a 15 de Setembro de 1789 e a Cantão pela mesma altura. Bocage, chocado com a notícia, lamenta-se:
 
Triste povo! E mais mísero eu, que habito
No remoto Cantão, donde, Ulisseia,
Não pode a ti voar meu débil grito!

Deve ter partido pouco depois para Macau. Ora como ele chegou a Lisboa em Agosto de 1790 e as viagens demoravam 5 meses, deve ter partido daqui em Março desse ano, graças ao seu benfeitor Lázaro da Silva Ferreira.” (3) (pp 83-84)
(2) Soneto que Bocage fez no final de 1789, em homenagem a Maria de Saldanha Noronha e Meneses (e às suas filhas), dama da sociedade macaense que deve ter apoiado a sua estadia em Macau e contribuído bastante para que Bocage voltasse a Lisboa.
Maria Joaquina Saldanha Noronha Menezes casou em 08-12-1774 com Bernardo Aleixo de Lemos Faria, governador de Macau de 1783 a 1788.  Teve duas filhas Ana Isabel de Lemos Saldanha e Mariana Xavier de Lemos Saldanha
(3) TEIXEIRA, Padre Manuel – Vultos Marcantes em Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, Macau, 1982, 171 pp.